EDITORIAL

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Conexões e classificações

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 255 | MAIO 2017

 

A aproximação de pesquisadores das áreas de ciências humanas e sociais com cientistas da computação resultou em um novo campo interdisciplinar, denominado humanidades digitais. Trata-se de uma via de mão dupla: para os cientistas sociais, a existência de grandes bancos de dados econômicos e sociais, ou a digitalização de acervos artísticos e históricos, ampliou as frentes de pesquisa; já os cientistas da computação se veem diante do desafio de criar ferramentas para atender as demandas das humanidades. Outra vertente desse campo é o estudo do papel da tecnologia digital na sociedade.

A reportagem de capa desta edição mostra como pesquisadores têm incorporado à sua atividade ferramentas e conceitos de outras áreas. Um exemplo do uso do chamado Big Data na pesquisa em humanidades trata da organização dos registros dos navios negreiros na época da escravidão, que permitiu um retrato mais amplo desse comércio de pessoas. Os esforços para organizar bancos de dados e criar novas ferramentas são tão impressionantes quanto os resultados das investigações: o consórcio Text Encoding Initiative mantém e desenvolve há 30 anos um padrão para a codificação de textos em formato digital, isto é, que permite que documentos sejam lidos por máquinas, impactando em áreas como a linguística.

Foi por meio da análise de um banco de dados com quase 34 mil entradas que um grupo de paleontologistas da Universidade de Cambridge e do Museu de História Natural de Londres, Reino Unido, apresentou uma polêmica proposta de reclassificação das linhagens conhecidas de dinossauros. Foram analisados 457 caracteres anatômicos de 74 espécies de dinossauros e de répteis que precederam os dinos. Reportagem à página 40 apresenta a nova classificação sugerida, que altera as relações e o grau de parentesco entre as principais linhagens daqueles animais pré-históricos. Resta acompanhar o debate para saber se a proposta vencerá o ceticismo da comunidade, passando pelo escrutínio científico dos pares.

***

O neurocientista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou-se internacionalmente por mostrar que o cérebro humano tem muito menos neurônios do que se pensava anteriormente – 86 bilhões, e não 100 bilhões. O pesquisador se dedica há 40 anos a investigar a formação e a reorganização das conexões entre as áreas do cérebro. Autor de livros de divulgação científica para crianças e um dos idealizadores da revista Ciência Hoje, Lent se interessou recentemente pelo que chama de ciência para a educação. A ideia é propor medidas para melhorar o ensino que tenham sido comprovadas cientificamente, como os resultados de estudos sobre fatores fisiológicos que impactam no aprendizado, a exemplo do sono.

Em outra entrevista publicada nesta edição, a endocrinologista Berenice Bilharinho de Mendonça, da Universidade de São Paulo, fala da complexidade envolvida na definição do sexo de quem nasce com distúrbios de desenvolvimento sexual. Desajustes hormonais durante a formação do feto resultam em homens com cromossomos sexuais XX, ou mulheres XY, além de diferentes tipos de malformações dos genitais e dos órgãos sexuais internos. Por isso, nem o exame do cariótipo (conjunto de cromossomos) nem a análise da aparência externa conseguem determinar com certeza o sexo dessas pessoas: a definição passa por testes como o de sensibilidade a andrógenos e pode levar a intervenções como cirurgia plástica dos genitais. Na área desde 1975, a endocrinologista participou da descrição das primeiras mutações nos genes envolvidos e também estuda a evolução a longo prazo desses pacientes.


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