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Zika teria chegado ao Nordeste um ano e meio antes de ser detectado

Vírus circulou por meses em diversos países da América e só foi identificado como potencialmente perigoso no final de 2015

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 19:13 25 de maio de 2017

 

Distribuição de zika nas Américas

O vírus zika chegou ao Nordeste brasileiro no início de 2014, um ano e meio antes de ser reconhecido como inimigo público no final de 2015. É o que está relatado em dois artigos de grupos distintos publicados esta semana na revista Nature. Oculto, o vírus rapidamente se espalhou pelo país, tirando proveito dos abundantes mosquitos Aedes aegypti e de uma população humana cujo sistema imunológico ainda não tinha travado conhecimento com ele, além de camuflar-se em meio aos sintomas parecidos causados por dengue e chikungunya.

Em Porto Rico, Honduras, na Colômbia e na área que inclui o Caribe e os Estados Unidos, também se passaram meses entre a entrada do vírus e a detecção dos primeiros casos, de acordo com um dos artigos da Nature, coordenado pelas geneticistas Bronwyn MacInnis e Pardis Sabeti, ambas do Instituto Broad, nos Estados Unidos. O trabalho envolveu o sequenciamento de 110 genomas do vírus zika coletados em 10 países diferentes. As análises genéticas foram feitas no instituto, com equipamento e ferramentas robustas. Já o grupo liderado pelo evolucionista Oliver Pybus, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, responsável pelo segundo artigo, fez um monitoramento em tempo real usando um aparelho portátil para sequenciar 54 genomas.

As conclusões semelhantes obtidas por caminhos distintos nos dois artigos reforçam as interpretações, validam novas técnicas de sequenciamento e deixam claro que, para entender e combater a doença, pesquisadores do mundo inteiro precisam unir esforços. Embora o trabalho tenha sido feito em paralelo pelos dois grupos internacionais – ambos com integrantes brasileiros –, Bronwyn não pensa em termos de competição. “Eram enfoques diferentes e complementares, e ao longo do trabalho nos mantivemos em contato, comparando os resultados”, conta.

Uma dificuldade que desafiou ambos os grupos foi a baixa carga viral (ou viremia) que se revelou típico da zika. “Quando o paciente procura ajuda, a infecção já está diminuindo”, explica a norte-americana. Em sua experiência anterior, durante o surto de ebola na África em 2015, ela encontrou entre mil e 10 mil vezes mais cópias virais nas amostras recolhidas dos doentes. Apesar da diferença, esse treinamento com o ebola foi o primeiro passo para que ela e seus colaboradores pudessem mergulhar no estudo da epidemia de zika, sem sequer ter tempo de tomar fôlego. “Aquela foi a primeira vez em que se fez monitoramento genético em tempo real de uma epidemia”, conta. Isso foi possível pelo avanço das técnicas de sequenciamento. Até então, era necessário recolher as amostras dos pacientes e cultivar em laboratório para se obter uma quantidade suficiente de vírus. O problema é que nem tudo o que está na amostra prolifera em cultura e nesse processo se perde muita diversidade. A novidade foi conseguir fazer as análises genéticas diretamente do sangue recolhido dos doentes, usando técnicas para “pescar” o material genético (RNA, no caso do zika) da amostra.

Diante da emergência da epidemia no Brasil e em vários outros países da América do Sul e do Caribe, Bronwyn buscou parceiros aqui para somar conhecimentos. Com Fernando Bozza, Thiago Souza e Patricia Bozza, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, ela estabeleceu o que qualifica como uma rica colaboração. “Eles trouxeram o entendimento de como a doença estava progredindo e como interagia com a circulação dos vírus causadores da dengue e da chikungunya”, conta.

O grupo carioca já tinha construído um conhecimento epidemiológico da dengue, trabalhando com hospitais do Rio e fazendo uma vigilância sistemática da doença. “A zika nos deu muito trabalho no início por causa da viremia baixa”, lembra Fernando Bozza. Depois de conseguir um teste rápido para diagnóstico, seu grupo passou a recolher amostras e buscar as técnicas para melhorar o sucesso de extração do RNA, o que também envolve refinar o rigor com que se coleta e armazena o material.

A demora na identificação da zika depois da entrada do vírus no Brasil ressalta, para Bozza, a importância do monitoramento genético de doenças relevantes. “Quando identificamos o problema, já havia uma epidemia.” Conhecer a evolução do vírus e ter as técnicas para vigilância poderá agora permitir aos pesquisadores desenvolver estratégias para detectar doenças com maior rapidez.

A circulação discreta do zika lhe permitiu chegar aos Estados Unidos a partir do Caribe, conforme mostra um terceiro artigo publicado no mesmo dia na Nature. Naquele país, porém, apenas a Flórida tem as condições adequadas para a permanência do Aedes aegypti o ano todo, permitindo a disseminação do vírus, e por isso a doença ficou restrita a esse estado, sobretudo na região de Miami. “Foram muitas introduções do vírus, não um evento isolado”, assegura Bronwyn, coautora do trabalho. “Perceber como isso aconteceu é importante para coordenarmos esforços para o controle do vetor e protegermos as rotas de entrada.”

Ela sabe que, mesmo que o momento seja de trégua antes do início do verão na Flórida, outras epidemias virão – de zika ou outros vírus. Com o aprendizado que permite a vigilância genética e as redes de colaboração estabelecidas, diminuem os riscos de os pesquisadores serem pegos de surpresa.

Artigos científicos
METSKY, H. C. et al. Zika virus evolution and spread in the Americas. Nature. 24 mai. 2017.
GRUBAUGH, N. D. et al. Genomic epidemiology reveals multiple introductions of Zika virus into the United States. Nature. 24 mai. 2017.
FARIA, N. R. et al. Establishment and cryptic transmission of Zika virus in Brazil and the Americas. Nature. 24 mai. 2017.


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