HUMANIDADES

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Horror à brasileira

Atual onda de filmes do gênero foi precedida por uma tradição pouco conhecida e estudada

MÁRCIO FERRARI | ED. 256 | JUNHO 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Laura Cánepa
Nos últimos anos, o filme de horror ganhou espaço no cinema brasileiro, um fenômeno que tem sua parcela mais visível em títulos que entram em circuito comercial com a promessa de qualidade técnica e atores conhecidos por seus trabalhos na televisão. É o caso dos longas Isolados, Quando eu era vivo, O rastro, entre outros. Mesmo que os resultados de bilheteria não sejam excepcionais, há um filão inegável, reconhecido por críticos e pesquisadores. Segundo estimativa do pesquisador e professor independente Carlos Primati, um novo filme de horror brasileiro é lançado comercialmente a cada mês ou mês e meio. Pela semelhança que alguns desses filmes guardam com a produção estrangeira do gênero, sobretudo a norte-americana contemporânea, o surto pode parecer uma novidade no cinema nacional. O Brasil, no entanto, tem uma tradição pouco lembrada no campo do terror, na qual se destaca a obra do cineasta e ator José Mojica Marins, 81 anos, e os dois primeiros filmes em que interpretou o personagem Zé do Caixão, realizados na década de 1960.

A centralidade de Mojica no cinema de horror brasileiro é unânime entre pesquisadores e cineastas que vêm se dedicando ao gênero, mesmo os que não se identificam com o estilo do diretor, de acordo com Laura Cánepa, professora e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Anhembi-Morumbi, em São Paulo, que em 2008 defendeu a tese de doutorado em Multimeios na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) “Medo de quê: Uma história do horror nos filmes brasileiros”. A pesquisadora segue se dedicando aos estudos sobre esse gênero, publicando artigos e capítulos de livros que abarcam até a produção atual. No doutorado, seu objetivo foi caracterizar o gênero, localizá-lo na história do cinema brasileiro e mapear uma produção dispersa que ainda não havia sido estudada sob esse ângulo. Vale destacar que, a partir do começo dos anos 2000, intensificaram-se as pesquisas sobre o cinema brasileiro de gênero, como se observa em trabalhos sobre ficção científica, cinema juvenil, filmes de cangaço, filmes policiais, entre outros.

O trabalho foi, segundo a pesquisadora, descritivo e se baseou em uma busca por filmes esquecidos, desaparecidos ou antes dados como perdidos, mas recuperados em compartilhamentos na internet e em locadoras que ainda trabalhavam com fitas VHS, além de arquivos de colecionadores e entrevistas com diretores. Em levantamento feito em dicionários de cinema, guias de filmes e outros documentos, Cánepa constatou que havia um terreno vasto de obras aparentadas ao gênero, que se autoclassificavam como comédias, dramas e filmes eróticos. Apenas dois diretores anunciavam seus filmes como sendo de horror ou terror, Mojica e Ivan Cardoso – este último dedicado a um veio paródico que apelidou de “terrir”. O primeiro filme brasileiro definido publicitariamente como de terror foi À meia-noite levarei sua alma (1964), que marcou a estreia do personagem Zé do Caixão.

Quando eu era vivo, de 2014…

A pesquisa de Cánepa levou à observação, por exemplo, de brincadeiras com elementos de horror até em um filme de 1936, O jovem tataravô, dirigido por Luis de Barros (1893-1981). Traçado o panorama, a pesquisadora concluiu que “se é possível falar em uma época ‘de ouro’ do cinema de horror nacional, ela se concentra entre 1963 e 1983”. Esse período inclui os filmes mais importantes de Mojica e “uma extensa e variada cinematografia dividida entre propostas marcadamente autorais e outras derivadas do filme erótico explorado à exaustão por produtores paulistas e cariocas”, o que abarca a abordagem do gênero também em alguns filmes de cineastas como Walter Hugo Khouri (1929-2003) e Carlos Hugo Christensen (1914-1999). Sobretudo no ciclo da pornochanchada oriunda da Boca do Lixo (região no Centro de São Paulo onde se concentravam produtoras e distribuidoras nos anos 1970), houve diretores cujas obras, à semelhança de produções europeias, misturavam o apelo erótico a elementos sobrenaturais, como John Doo (1942-2012), Jean Garret (1946-1996) e Luiz Castillini (1944-2015).

Cánepa agrupou a produção em vertentes cronologicamente transversais. “Havia a opção de abordar o gênero como uma categoria da indústria, derivada das formas tradicionais organizadas por Hollywood para o cinema popular, ou como uma tendência temática que se manifesta de maneira esparsa, que foi a minha escolha”, conta. Seguindo esse princípio, as principais vertentes são as seguintes: o horror de autor, do qual Mojica é o grande representante; o horror clássico, que remete ao romance gótico do século XVIII e se caracteriza mais pela criação de atmosferas terríficas do que pela exposição detalhada e explícita dos fatos horroríficos, representada por diretores como Khouri e Christensen; o horror de exploração, caracterizado pelo sensacionalismo, filão no qual se destacam os títulos do ciclo da pornochanchada; o horror paródico, em que se inserem os filmes de Ivan Cardoso, Amácio Mazzaropi (1912-1981) – como O Jeca contra o capeta (1976) –, além de longas como Bacalhau (1975), dirigido por Adriano Stuart (1944-2012), sátira de Tubarão (1975), de Steven Spielberg. Finalmente, há um grupo que reúne “casos relacionados a subgêneros como os filmes espíritas, os de lobisomem e os infantis que dialogaram com o universo do horror”. Na catalogação de Carlos Primati, essa perspectiva híbrida engloba cerca de 500 filmes desde a terceira década do século XX.

O capítulo sobre Mojica do estudo de Cánepa pôde contar com algum diálogo com pesquisas anteriores. Embora fosse um cineasta elogiado por colegas ilustres como Rogério Sganzerla (1946-2004) e Glauber Rocha (1939-1981), além de críticos como Jairo Ferreira (1945-2003), havia, na época em que a pesquisadora elaborou seu doutorado, a tese de doutorado defendida pelo jornalista Alexandre Agabiti Fernandez na Universidade Paris III, na França, além da biografia escrita pelos também jornalistas Ivan Finotti e André Barcinski, Maldito: A vida e a obra de José Mojica Marins, o Zé do Caixão (editora 34, 1998), e o trabalho de especialistas como Primati, um dos organizadores da caixa de DVDs Coleção Zé do Caixão: 50 anos do cinema de José Mojica Marins (2002), da qual constam entrevistas com especialistas e cineastas.

…e Rafael Cardoso e Leandra Leal em O rastro, de 2017

O personagem Zé do Caixão foi protagonista de dois filmes, À meia-noite levarei sua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), ambos grandes sucessos de público. Em outras produções, aparecia como mestre de cerimônias ou em cenas de pseudodocumentários. Por causa de pressões da censura no regime militar, que reprovava a violência de seus filmes, Mojica só retomou o personagem em Encarnação do demônio (2008).

Trata-se de um fenômeno único que caracteriza um horror brasileiro, de acordo com Cánepa. Inspirada em observações do escritor de livros de horror Rubens Lucchetti, que colaborou com Mojica e Cardoso como roteirista, a pesquisadora considera que o cineasta conseguiu “resolver uma equação” que instalou o cinema de horror no Brasil. Para ela, o horror clássico tem alguma dificuldade de penetração no país porque aqui o sobrenatural seria visto, em grande parte, como benéfico. “Dada a tradição espírita, os fantasmas costumeiramente surgem na trama como salvadores”, afirma.

Mojica criou um personagem que nada tem de sobre-humano. Ao contrário, são as forças incompreensíveis que vingam sua crueldade, baseada, antes de tudo, no racionalismo – nos filmes, intervenções sobrenaturais acabam por exterminar o vilão. Zé do Caixão é dono de uma funerária cuja missão é dar continuidade a sua estirpe gerando um filho “perfeito”. Isso o leva a uma racionalidade extrema e cruel: a morte, com requintes de dor, seria o destino natural dos que têm medo e das mulheres que resistem a perpetuar sua superioridade. “Eu sou invencível e só creio na força do sangue e da hereditariedade”, declara o personagem. Contudo, diz Cánepa, “Zé do Caixão, descrente e pecador, será eliminado pela própria culpa e pelas forças sobrenaturais em que dizia não acreditar”.

Marat Descartes e Helena Albergaria em Trabalhar cansa, de 2011

Orixá Exu
Embora os filmes do personagem tenham uma solução em que o bem triunfa, Alexandre Agabiti Fernandez destaca um atrativo que pode ter seduzido o público. “O personagem desafia o poder estabelecido, a religião e as convenções sociais em torno da morte”, afirma. “O tabu relacionado a esses temas exerce enorme poder de atração.” Como outros pesquisadores de cinema, Fernandez aponta as semelhanças, na própria caracterização do personagem, com o orixá Exu, sobreposto na tradição sincrética ao demônio do imaginário cristão.

As religiões afro-brasileiras, segundo Primati, caracterizam muitos dos títulos do horror nacional, e há alguns que se valem de elementos da literatura de cordel. Para o pesquisador, elementos como esses se misturam às tradições do gênero, criando híbridos que desafiam classificações. Os filmes de Mojica, de acordo com o pesquisador Rodrigo Carreiro, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), devem parte de sua estranheza ao fato de que são influenciados mais por manifestações populares como circo e as histórias em quadrinhos do que por uma cultura cinematográfica, que o cineasta teria absorvido apenas intuitivamente.

Quanto à atual onda de horror, os pesquisadores concordam em afirmar que não há continuidade da tradição aberta por Mojica, ainda que os cineastas reconheçam sua importância. Pode haver algo do cineasta pioneiro na produção qualificada por Cánepa como “cinema de guerrilha”, filmes feitos em esquema amador que circulam entre os fãs do gênero, mas não naqueles que hoje procuram público numeroso, nem nos que tangenciam o terror, como Trabalhar cansa (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011). Isso não impede, no entanto, que nesses filmes, como nos de Mojica, haja uma atmosfera de que “a qualquer momento algo terrível pode acontecer”.

Artigos científicos
CÁNEPA, L. Configurações do horror cinematográfico brasileiro nos anos 2000: Continuidades e inovações. Miradas sobre o cinema ibero-latino-americano. p. 121-43. 2016.
CÁNEPA, L. L. e PIEDADE, L. R. O horror como performance da morte: José Mojica Marins e a tradição do Grand Guignol. Galaxia. n. 28. 2014.
CARREIRO, R. O problema do estilo na obra de José Mojica MarinsGalaxia. n. 26, p. 98-109. 2013.


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