CARREIRAS

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O colecionador de ossos

Médico ortopedista Herculano Alvarenga tornou-se um especialista em paleontologia e hoje dirige o Museu de História Natural de Taubaté

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 256 | JUNHO 2017

 

Acervo de Alvarenga abarca todos os períodos geológicos, apresentando a evolução da vida na Terra

As aves sempre fascinaram Herculano Alvarenga. Ainda jovem, colecionava exemplares que ele próprio se dava ao trabalho de empalhar. Seu interesse pela zoologia, no entanto, não se estendeu à universidade. Alvarenga formou-se médico pela Faculdade de Medicina de Taubaté, em 1973, especializando-se em ortopedia. Dois anos depois, ingressou como professor na mesma instituição. Em 1977 a faculdade entrou em greve. Com tempo livre, pôde retomar o antigo passatempo. Por coincidência, no mesmo ano, trabalhadores depararam-se com uma ossada vultosa em uma mina de argila no Vale do Paraíba, região do estado de São Paulo conhecida por abrigar grande variedade de fósseis de animais pré-históricos.

Tratava-se de um esqueleto quase completo do que parecia ser um animal gigante. Alvarenga foi chamado para examinar a ossada. “No início, pensei que fosse o fóssil de um mamífero”, relembra. “Levei a ossada para casa para analisá-la melhor.” O conhecimento que havia adquirido em livros e artigos sobre zoologia não era suficiente para que pudesse descrever o animal sozinho. No Rio de Janeiro, procurou o geólogo Diógenes de Almeida Campos, do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), que se ofereceu para ajudá-lo. Alvarenga passou a se corresponder com o geólogo, trocando informações que o ajudassem a descrever o animal.

O trabalho resultou em um artigo científico, publicado em 1982 na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências, descrevendo a nova espécie: uma ave carnívora, do grupo das aves do terror, assim apelidadas pelos paleontólogos por matar suas presas a pontapés, prendendo-as com o bico e as batendo contra o solo. Com 2 metros de altura, uma cabeça do tamanho da de um cavalo e cerca de 200 quilos, o animal teria vivido na região há 23 milhões de anos.

Fóssil da ave do terror exposto no Museu de História Natural de Taubaté

A descrição da nova espécie, batizada de Paraphysornis brasiliensis, repercutiu internacionalmente. Outros museus passaram a solicitar réplicas do animal para integrar seus acervos. Em troca, enviavam a Alvarenga cópias de peças de suas coleções. “O Museu de História Natural de Londres enviou-me uma réplica do fóssil do Archaeopteryx, uma das aves mais primitivas de que se tem registro; o de Los Angeles, um crânio de Tyrannosaurus rex”, conta. Na base da troca, Alvarenga adquiriu réplicas de diversos animais extintos, que eram estocadas em sua casa. Com o tempo, o médico ortopedista transformou-se em um especialista em paleontologia de aves, escrevendo e colaborando com cientistas e instituições do Brasil e do exterior.

Desde então, ele já identificou e descreveu mais de 15 novas espécies de aves fósseis. Em 1995, aos 48 anos, ingressou no doutorado em zoologia no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), sem deixar o cargo de professor na Faculdade de Medicina de Taubaté e de atender seus pacientes em seu consultório de ortopedia. “Estudei fósseis de aves do terror de museus de toda América e da Europa para caracterizar a família Phorusrhacidae e reorganizar o estado caótico que até então envolvia a nomenclatura e a classificação dessas aves”, explica.

Em 1998 Herculano foi exortado pelo então prefeito de Taubaté a criar um museu para expor sua coleção. O projeto avançou e, em 2000, a prefeitura doou o terreno e financiou a construção do edifício. O Museu de História Natural de Taubaté foi inaugurado quatro anos depois. Conta hoje com cerca de 14 mil peças. O material abarca todos os períodos geológicos. A instituição hoje sofre com constantes atrasos no repasse de verbas da prefeitura, que havia se comprometido a contribuir com R$ 100 mil por ano. Com despesas que chegaram a R$ 250 mil em 2016, o espaço corre o risco de fechar.


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