NOTAS

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Vírus da dengue reprograma células sanguíneas

ED. 256 | JUNHO 2017

 

Patógeno da doença altera o funcionamento das plaquetas (em roxo)

Causador da doença hemorrágica mais comum do mundo, com 90 milhões de novos infectados por ano, o vírus da dengue altera o funcionamento das plaquetas, as células responsáveis pela coagulação do sangue. Esse efeito, identificado agora por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio de Janeiro, soma-se a outras alterações atribuídas anteriormente à ação do vírus. Há tempos se sabe que esse vírus causa uma diminuição importante na concentração sanguínea de plaquetas, aumentando o risco de hemorragias. Sem a quantidade adequada dessas células – na verdade, elas são fragmentos de células da medula óssea –, o organismo deixa de ter a capacidade de estancar a perda de sangue por fraturas que surgem nos vasos sanguíneos. Mas não se conhecia como o vírus afetava a atividade das plaquetas. Para tentar descobrir a influência do vírus sobre elas, o grupo da Fiocruz liderado por Jonas Perales e Patrícia Bozza decidiu comparar o perfil proteico (proteoma) das plaquetas de indivíduos com dengue com o das plaquetas de pessoas sadias. Das quase 3.400 proteínas mapeadas, 252 eram diferencialmente expressas (produzidas em maior ou menor quantidade) nas plaquetas de quem tinha dengue. A análise do proteoma indicou que, após o contato com vírus, as plaquetas se tornaram ativas e começaram a sequestrar do sangue proteínas que contribuem ainda mais para sua ativação. Elas também passaram a estocar e a liberar moléculas inflamatórias na corrente sanguínea. “Essas citocinas e quimiocinas inflamatórias parecem colaborar para o agravamento do quadro clínico”, conta a pesquisadora Monique Trugilho, primeira autora do artigo (PLOS Pathogens, de maio). O grupo verificou ainda que o contato com o vírus induz nas plaquetas uma potencial nova função, antes considerada exclusiva de células de defesa: as plaquetas se tornariam capazes de degradar proteínas virais, direcionar seus fragmentos para a superfície e os apresentar para outras células, disparando uma resposta de defesa. “Novos experimentos são necessários para confirmar se isso ocorre, mas a análise do proteoma indica que as plaquetas possuem as proteínas necessárias para exercer tal função”, conta Monique.


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