RESENHAS

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Tempos agrestes, escritas viventes

RODRIGO JORGE RIBEIRO NEVES | ED. 257 | JULHO 2017

 

Um dos principais desafios do intelectual público é lidar com o espinhoso e indeterminado lugar que ele ocupa na sociedade moderna. Graciliano Ramos de Oliveira (1892-1953), um dos maiores escritores brasileiros, tinha consciência das tensões desse lugar e nunca fugiu de sua necessária e incômoda revisão, como descreve em Memórias do cárcere (1953): “Pertencíamos a essa camada fronteiriça, incongruente e vacilante, a inclinar-se para um lado, para outro, sem raízes. Isso determinava opiniões inconsistentes e movediças, fervores súbitos, entusiasmos exagerados, e logo afrouxamentos, dúvidas, bocejos”. Embora o trecho esteja relacionado ao ambiente da cadeia, onde Graciliano esteve preso de março de 1936 a janeiro de 1937, ele também pode ser ampliado para as dimensões estética e política de sua atuação intelectual, especialmente após a saída da prisão, e pela sua atividade jornalística para o mesmo regime que o tinha encarcerado. Em um juízo rápido e simplista, é pouco compreensível que um escritor, poucos anos depois, trabalhasse para a propaganda do seu algoz.

Poucos, se não raros, estudiosos da obra do Velho Graça souberam explorar com consistência crítica, rigor analítico e sensibilidade os impasses dessas dimensões como Thiago Mio Salla, pesquisador e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em seu recém-lançado Graciliano Ramos e a Cultura Política: Mediação editorial e construção de sentido, publicado pela Edusp. O livro analisa as crônicas do escritor publicadas no periódico estadonovista Cultura Política: Revista Mensal de Estudos Brasileiros, entre março de 1941 e maio de 1943, em seção intitulada “Quadros e Costumes do Nordeste”, reunidas postumamente em Viventes das Alagoas (1962). Salla inova ao agregar outros mecanismos de produção de significados na tessitura da cronística de Graciliano, considerando, em sua análise, não apenas os aspectos compositivos do texto, mas também os componentes paratextuais que participam das estratégias do escritor para se manter sobre o “fio da navalha”, expressão de Salla para designar a aporia intelectual de Graciliano e título de sua tese de doutorado em ciências da comunicação, defendida em 2010, que deu origem ao livro.

Um dos principais veículos do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo, a revista Cultura Política tinha caráter doutrinador e laudatório acerca das medidas socioeconômicas adotadas pelo regime e da valorização dos aspectos socioculturais da nação. Graciliano Ramos põe em cena os miúdos, doutores e lampiões do Nordeste, mas não os viventes de seu tempo, matéria-prima da crônica moderna. Ao se voltar para um passado distante e lançar mão de recursos ficcionais, como do conto e do retrato literário, o escritor alagoano subverte os pressupostos editoriais da publicação em que seus textos eram veiculados e força o leitor ao distanciamento crítico e, portanto, ao confronto de duas realidades: a do texto e a do próprio leitor, a quem cabia, assim, avaliar as mudanças propagadas pelo Estado. Além disso, Salla destaca a reconfiguração das cadeias de significação e da recepção crítica do texto de Graciliano ao ser deslocado entre publicações de orientações ideológicas bem distintas, como a reedição de alguns desses quadros na Revista do Povo: Cultura e Orientação Popular, periódico comunista.

A pesquisa documental e bibliográfica feita por Salla é de tal monta que resultou em duas publicações fundamentais na fortuna crítica de Graciliano Ramos. A primeira é Garranchos (2012), reunião de textos diversos até então inéditos do autor de Vidas secas; a outra, objeto desta resenha, que ultrapassa a categoria de referência sobre determinado autor, na medida em que expõe, investiga, discute e problematiza os limites e condições de um gênero de farta ocorrência na literatura brasileira, mas sem se deter em seus aspectos meramente construtivos. O livro de Thiago Mio Salla é, portanto, uma obra de fôlego. Qualquer interessado no estudo da crônica ou das difíceis imbricações que trespassam o papel do artista diante do Estado, ou ainda, em sentido lato, entre estética e política, tem, em Graciliano Ramos e a Cultura Política, um proveitoso e substancial diálogo.

Rodrigo Jorge Ribeiro Neves é doutor em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com tese sobre Graciliano Ramos, e foi pesquisador visitante da Universidade de Princeton. Atualmente, é pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).


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