NOTÍCIAS

Print Friendly

Uso de cocaína na adolescência pode ser mais danoso ao cérebro do que na vida adulta

Consumo antes dos 18 anos comprometeria funções neurológicas importantes e de modo mais agressivo, alerta estudo

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 20:05 15 de agosto de 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Bruna Mayara
O consumo de cocaína pode comprometer funções neurológicas de um modo muito mais agressivo entre os que começaram a consumir a droga ainda na adolescência do que entre aqueles que passaram a usá-la mais tarde, já na fase adulta. A conclusão, apresentada em um artigo publicado na revista Addictive Behaviors, é de um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Sob coordenação do neuropsicólogo Paulo Jannuzzi Cunha, pesquisador do Laboratório de Neuroimagem do Departamento de Psiquiatria da faculdade, eles avaliaram 103 dependentes da substância, todos da cidade de São Paulo.

Os participantes tinham entre 25 e 45 anos de idade e eram todos dependentes graves da droga. Eles foram divididos em dois grupos: um formado por 52 indivíduos que começaram a usar cocaína antes dos 18 anos e outro com 51 pessoas que iniciaram o consumo após essa idade. Havia também um grupo de controle composto por 63 pessoas saudáveis, que nunca usaram drogas.

Os pesquisadores os submeteram a exames toxicológicos e entrevistas. Todos estavam abstinentes havia pelo menos sete dias. Em seguida, lhes foram solicitadas tarefas neuropsicológicas padronizadas (testes cognitivos) que demandam concentração e esforço para serem realizadas. Eles também analisaram o padrão de consumo da substância entre os participantes e possíveis associações entre o uso precoce de cocaína e o de outras substâncias, como tabaco, álcool e maconha.

De modo geral, os pesquisadores verificaram que os participantes dos dois grupos consumiram cocaína, em média, por 10 anos. Os que começaram a usar a substância antes dos 18 anos, o fizeram por volta dos 15 anos de idade. Os outros começaram a partir dos 21 anos. A psicóloga Bruna Mayara Lopes, primeira autora do artigo, explica que todos os dependentes apresentaram déficits cognitivos quando comparados ao grupo de controle. No entanto, os que começaram a usar a substância antes dos 18 anos apresentaram maior comprometimento das funções neurológicas ligadas à memória e à atenção sustentada, isto é, a capacidade de se manter focado durante uma atividade contínua e repetitiva.

Já entre os indivíduos que começaram a usar a droga mais tarde, a função cognitiva mais afetada foi a associada à atenção alternada, ou seja, a capacidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Os pesquisadores também constataram que os indivíduos que começaram a usar cocaína antes dos 18 anos apresentaram maior propensão a consumir álcool e maconha.

O comprometimento mais acentuado das funções neurológicas entre os que começaram a usar cocaína na adolescência poderia ser explicado pelo fato de essas funções cognitivas ainda estarem em desenvolvimento nesse período da vida. “Até os 18 anos, o cérebro passa por vários processos de maturação neurobiológica e de refinamento das estruturas neurais, sobretudo nas regiões do córtex pré-frontal”, explica a neuropsicóloga Priscila Dib Gonçalves, uma das autoras do estudo. “Essas áreas são importantes para o estabelecimento de habilidades cognitivas associadas à memória e à atenção.”

Um levantamento publicado na Addictive Behaviors em 2014 envolvendo 4.607 indivíduos com 14 anos ou mais de todos os estados indicou que o Brasil está entre os maiores consumidores de cocaína no mundo, tanto na sua forma aspirada como na mistura de crack – a cocaína solidificada em cristais –, composta de pasta de cocaína, bicarbonato de sódio e água (ver Pesquisa FAPESP on-line). O estudo verificou que quase metade dos usuários (45%) experimentou a substância pela primeira vez antes dos 18 anos e a maioria dos que experimentaram cocaína antes dessa idade era homem.

Ambos os trabalhos destacam a necessidade de se investir na prevenção de certos comportamentos de risco ainda na pré-adolescência e no desenvolvimento de estratégias de tratamento de dependentes químicos no país. O próximo passo agora é avaliar melhor quais áreas do cérebro são as mais afetadas em usuários precoces. “Serão analisados mais detalhadamente dados de exames como ressonância magnética estrutural e funcional para identificação das áreas vulneráveis aos efeitos da cocaína”, conclui Cunha.

Projetos
Alterações neuropsicológicas em dependentes de cocaína (nº 00/12081-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Sergio Nicastri (FMUSP); Investimento R$ 31.438,70.

Artigos científicos
LOPES, B. M. et al. Distinct cognitive performance and patterns of drug use among early and late onset cocaine users. Addictive Behaviors. v. 73, p. 41-7. out. 2017.
ABDALLA, R. R. et al. Prevalence of Cocaine Use in Brazil: Data from the II Brazilian National Alcohol and Drugs Survey (BNADS). Addictive Behaviors. v. 39, p. 297-301. jan. 2014.


Matérias relacionadas

SAÚDE PÚBLICA
Pesquisa estima que 3,2 milhões de pessoas tenham consumido cocaína em 2011
SAÚDE MENTAL
Oferta de vale-compras ajuda dependentes de crack a evitar o consumo da droga
CIÊNCIAS ATMOSFÉRICAS 
Poluição diminuiu na Região Metropolitana de São Paulo