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Do verbo às máquinas

Formado em letras, cientista cognitivo André Souza transitou pela psicologia, estatística e hoje trabalha com novas tecnologias nos EUA

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 258 | AGOSTO 2017

 

No Google, Souza trabalha no desenvolvimento de produtos que mimetizam a cognição humana

Quando adolescente, o cientista cognitivo André Souza, hoje com 36 anos, tinha apenas um objetivo: morar nos Estados Unidos. À época, disseram-lhe que precisaria primeiro ter um diploma universitário e aprender inglês. Sem condições de arcar com os custos de um curso de idioma ou de uma universidade privada, tentou a sorte no vestibular de letras na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A ideia era, gratuitamente, graduar-se em um curso superior e aprender inglês.

A estratégia deu certo. A oportunidade de ir aos Estados Unidos surgiu na graduação, a partir de um intercâmbio de alguns meses na Universidade do Texas. À época, Souza estava interessado por linguística cognitiva, segundo a qual o contexto orienta ou influencia a construção semântica das palavras. Ao pesquisar sobre o tema, descobriu que Richard Meier, do Departamento de Linguística da Universidade do Texas, havia se formado na Universidade da Califórnia em San Diego, referência mundial em linguística cognitiva. “Entrei em contato para saber se tinha algum projeto com o qual poderia colaborar”, ele conta.

Meier, por sua vez, indicou-lhe outra pesquisadora, Catharine Echols, do Departamento de Psicologia da mesma universidade, que estudava psicologia da linguagem e orientava uma doutoranda brasileira chamada Débora Souza. “Catharine aceitou que eu trabalhasse como voluntário em seu laboratório”, relembra Souza. “No fim do intercâmbio, sugeriu que eu voltasse ao Brasil e ajudasse sua orientanda na coleta de dados. Desse modo, criaria uma oportunidade para retornar aos Estados Unidos.”

Equipamento usado pelo pesquisador para monitorar os movimentos oculares de usuários de novas tecnologias

Foi o que fez. Graduou-se em 2004, mas não voltou imediatamente ao Texas. Entrou no mestrado no Departamento de Psicologia da UFMG e estudou como crianças na primeira infância aprendem a falar, flexionando os verbos. O trabalho ampliou seu horizonte de pesquisa para o doutorado. Souza elaborou então um projeto para comparar o mesmo processo em crianças brasileiras e norte-americanas, que foi aceito pela Universidade do Texas.

Ele embarcou em 2007 para fazer o doutorado. Durante o curso, envolveu-se em vários projetos, deu aula, orientou alunos e publicou artigos. Também mudou de orientador e tema de pesquisa. “Estudei como certos sotaques influenciam as decisões que tomamos no dia a dia”, explica. Em seguida, fez dois pós-doutorados, no Canadá e no Texas, onde começou a trabalhar com eye tracking, técnica usada para avaliar o comportamento de indivíduos a partir do monitoramento de seus movimentos oculares.

Em 2014, foi para a Universidade do Alabama, também nos Estados Unidos, trabalhar como professor de estatística avançada. Criou uma linha de pesquisa para estudar como alteramos nossas habilidades cognitivas à medida que interagimos com novas tecnologias. Para viabilizar suas pesquisas, submeteu, com sucesso, um pedido de financiamento a um fundo do Google para pesquisas tecnológicas em universidades.

Ainda no Alabama, Souza foi convidado para apresentar os resultados de sua pesquisa na sede do Google, na Califórnia. Ficou encantado com a dinâmica de trabalho da empresa e resolveu tentar algo novo. Mandou currículos para Google, Twitter, Facebook, entre outras empresas de tecnologia. “Em fins de 2016, o Google me convidou para participar de um processo seletivo para pesquisador”, conta. Foram várias entrevistas até que, semanas depois, recebeu a notícia de que tinha sido aprovado. Hoje ele coordena uma equipe que pesquisa o uso de inteligência artificial na concepção de produtos que mimetizem a cognição humana.


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