OBITUÁRIO 

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O passado vivo

Ecléa Bosi trabalhou para mostrar que a memória é usada também para reconstruir e repensar o presente

HAROLDO CERAVOLO SEREZA | ED. 258 | AGOSTO 2017

 

A pesquisadora e seus livros: prosa científica marcada por referências literárias e mitológicas

Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), Ecléa Bosi, morta em julho aos 80 anos, deu um novo relevo para sua disciplina no panorama intelectual brasileiro ao desenvolver pesquisas sobre a coletividade e a memória. Nessa trajetória, Memória e sociedade – Lembrança de velhos (1973) se tornaria referência obrigatória ao articular a entrevista de idosos com a obra de sociólogos como Maurice Halbwachs (1877-1945) e filósofos como Henri Bergson (1859-1941).

“Em diálogo com Halbwachs, Ecléa traz o passado tal como foi vivido e sentido pelos grupos, descoberto e também filtrado pela memória coletiva”, explica José Moura Gonçalves Filho, colega da psicóloga no IP. “Com Bergson, ela mostrou a memória como reaparição do passado profundo e não domado, quase livre dos filtros e só ouvido por pessoas”, diz. “A memória, que é originalmente um trabalho coletivo, quando se desenvolve como um trabalho pessoal mais ou menos desamarrado das ideologias, pode levar o passado a falar mais do que pôde falar aos grupos.”

No artigo “Memória e sociedade: Ciência poética e referência de humanismo”, Paulo de Salles, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do IP, registra alguns dos nomes que levaram a obra de Ecléa para além das fronteiras da psicologia. “Octavio Ianni [1926-2004], da sociologia, encontrou no livro ‘uma linda lição de vida’. Paulo Sérgio Pinheiro, cientista político, apontou que ‘a história social de São Paulo saltou léguas com este mergulho magistral’.” O livro repercutiu fora do Brasil, continua Salles: Pierre Bourdieu (1930-2002) “propunha capítulos de Memória e sociedade para leitura e debate com seus alunos de pós-graduação, nos seminários que organizava”, e o psicólogo Karl Scheibe, da Universidade Wesleyan, Connecticutt, nos Estados Unidos, em Self studies (1995), “saúda em Memória e sociedade o encontro milagroso entre idosos solitários, à espera da doença ou da hora extrema, e uma pesquisadora, que irá se tornar para eles amiga verdadeira”.

Explicando seu método de pesquisa em Memória e sociedade, Ecléa escreveu que seu objetivo era “registrar a voz e, através dela, a vida e o pensamento dos seres que já trabalharam por seus contemporâneos e por nós”. A memória, assim, não se confunde com a “história”, embora dela participe. E não é, ainda, um simples “reviver”: a memória é também um recurso ativo para reconstruir e repensar o presente a partir de imagens do passado. Essa forma de refletir sobre a relação especial do indivíduo com o passado foi sintetizada no título do livro O tempo vivo da memória – Ensaios de psicologia social (2003).

Ecléa buscou entender como se constrói a memória social e sua complexa relação com a memória individual. Como se inter-relacionam? O que é lembrando e o que é esquecido? Que significado as lembranças têm para os dias que correm? O que significa a velhice na sociedade capitalista? A perguntas do gênero, Ecléa respondia com histórias recontadas pelos informantes, a partir de uma análise profundamente ética e de uma prosa científica marcada, também, por referências literárias e mitológicas.

Recordações
Um exemplo: comparando a narrativa de duas irmãs, Brites e Lavínia, entrevistadas para Memória e sociedade, Ecléa mostrou como há uma diferença significativa na forma como elas se recordam do fim da Primeira Guerra Mundial: Brites se lembrava da irmã, seis anos mais velha, chegando em casa e acordando o pai para contar o evento e o fato de que um baile no Trianon foi interrompido para que se tocasse o Hino Nacional: “era o dia 11 de novembro”. Lavínia, por sua vez, não se recordava do fato – para ela, “foi uma coisa sem repercussão”, ainda que, provavelmente, a família, francófila, tenha comemorado. Longe de se preocupar em achar uma verdade, o que interessava a Ecléa era entender como as diferentes observações sobre o mesmo fato se complementam e se contrapõem. “Para localizar uma lembrança não basta um fio de Ariadne [Ariadne, na mitologia grega, dá um fio de lã ao herói Teseu, para que ele possa sair do labirinto após enfrentar o Minotauro]; é preciso desenrolar fios de meadas diversas, pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos”, escreveu ela.

“Ecléa trouxe para a compreensão das relações entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa uma ideia muito profunda, a de comunidade de destino”, explica José Moura. “Isso supõe que o pesquisador, para compreender o sujeito da pesquisa, participe em alguma medida do azar e da sorte, do fardo e da fortuna dos sujeitos da pesquisa.” No caso do livro Memória e sociedade, a comunidade de destino é o envelhecimento; a partir desse ponto comum é que o pesquisador deve falar aos sujeitos da pesquisa e ouvi-los.

Outra obra marcante de Ecléa foi a que resultou no livro Cultura de massa e cultura popular: Leituras de operárias (1972). Ecléa realizou entrevistas com trabalhadoras fabris e encontrou mulheres expressando um forte desejo de ter acesso à instrução para si ou para os filhos, mulheres que despendiam parte significativa dos salários em pesadas prestações para comprar livros. Livros que eram, muitas vezes, refugos das editoras, mas que iam parar num lugar de honra nas casas. Um exemplar chegava a custar mais de oito dias de trabalho.

Odair Furtado, professor do Programa de Pós-graduação em psicologia social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que essa obra de Ecléa – orientada por Dante Moreira Leite (1927-1976), pioneiro dessa área no Brasil – provocou um enorme impacto entre os alunos no início dos anos 1970. “A psicologia sempre teve um recorte mais elitizado, dentro de consultórios particulares ou na universidade. Na época, os órgãos públicos quase não contratavam psicólogos”, lembra.

Os recortes sociais dados por Ecléa e pela também psicóloga Arakcy Martins Rodrigues, autora de Operário, operária (1978), rompiam, em plena ditadura, com essa lógica. O compromisso social e político de Ecléa Bosi com seus entrevistados permitiu que ela pudesse projetar e concretizar mudanças para além das pesquisas e orientações tradicionais. Nesse sentido, sua atuação de maior alcance foi a concepção e a coordenação até o fim de 2016 do programa Universidade Aberta à Terceira Idade. Criado em 1994, o programa permitiu que mais de 100 mil idosos participassem de disciplinas de graduação, seminários, palestras e trocas de informações e experiências com os alunos da USP.


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