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Brasileiros são reconhecidos em duas categorias do Ig Nobel

Prêmio bem-humorado destaca insetos com sexos invertidos e morcegos que se alimentam de sangue humano

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 23:25 17 de setembro de 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Rodrigo Ferreira e Enrico Bernard
Dois grupos de pesquisa do país foram premiados pelo bem-humorado Ig Nobel, sátira do maior prêmio da ciência, que destaca estudos que fazem rir e depois pensar. Na categoria Biologia, especialistas em cavernas radicados no Japão, na Suíça e no Brasil foram reconhecidos pelo estudo de insetos cujas fêmeas têm pênis e os machos, algo semelhante a vaginas.

O biólogo Rodrigo Lopes Ferreira, da Universidade Federal de Lavras, é o brasileiro da colaboração e um apaixonado por toda a fauna das cavernas. São animais em grande parte estranhos, com características inusitadas como falta de pigmentação, cegueira e miniaturização. Se a comissão da instituição Pesquisa Improvável, que concede o Ig Nobel, visse o pesquisador rastejando por cavernas – dentro e fora da água – em busca de animais por vezes não maiores do que um grão de arroz, talvez lhe concedesse outros prêmios em edições futuras (ver Pesquisa FAPESP nº 224). Ele, que recebeu a notícia enquanto estava no Japão, sentiu o prêmio comemorado quase como se fosse um Nobel. “O mais bacana foi que os dois pesquisadores brasileiros que ganharam o Ig Nobel trabalham em caverna”, comemora. “Isso valoriza ainda mais nossas cavernas, a importância que elas têm e a necessidade de serem preservadas.”

Quando ereto, o pênis da fêmea de Neotrogla curvata é evertido e tem estruturas (em roxo, verde e vermelho) que ancoram o par durante a cópula; abaixo do pênis está o ovipositor

O outro habitante de cavernas, o morcego Diphylla ecaudata, esteve presente na categoria Nutrição, estudado por um grupo da Universidade Federal de Pernambuco. Em artigo publicado no final de 2016, eles relataram o consumo de sangue humano por esses morcegos supostamente especializado no de aves. O aspecto pitoresco que valeu a premiação fica por conta de terem analisado fezes para extrair e sequenciar DNA. Mas as implicações da descoberta são bem sérias, por denotarem um importante desequilíbrio ecológico na Caatinga. “Na região onde estudamos os morcegos, não existem mais as aves silvestres que seriam seu alimento preferencial”, conta o biólogo Enrico Bernard, um dos autores do trabalho.

Na ausência da dieta habitual, seu grupo procurou nas fezes dos morcegos por material genético de outros animais, como cabras, bodes e cachorros. Encontraram uma predominância de sangue de galinha, mas também humano. Outros estudos já haviam mostrado que esses animais não digerem bem o sangue de mamíferos, que contém proteínas diferentes daquele de aves. Mais um sinal de que a escassez de alimento atinge em cheio esses morcegos-vampiros da Caatinga.

Em meio à seriedade, Bernard comemora a premiação satírica: “O Ig Nobel é uma baita ferramenta de comunicação científica”. Para ele, a ciência tem que ser divertida nas horas certas para atingir mais pessoas.

Veja aqui a relação completa de vencedores (em inglês)

Artigos científicos
YOSHIZAWA, K. et al. Female penis, male vagina, and their correlated evolution in a cave insect. Current Biology. v. 24, n. 9, p. 1006-10. 5 mai. 2014.
ITO, F. et al. What is for dinner? First report of human blood in the diet of the hairy-legged vampire bat Diphylla ecaudata. Acta Chiropterologica. v. 18, n. 2, p. 509-15. dez. 2016.


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