CARREIRAS

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Afinação concluída

Gabriel Victora deixou a carreira de pianista para se dedicar à imunologia e hoje lidera equipe na Universidade Rockefeller

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 259 | SETEMBRO 2017

 

Gabriel Victora estava prestes a terminar o ensino médio quando seu pai, Cesar Victora, destacado epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, foi trabalhar no Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em Nova York, Estados Unidos. Gabriel tinha 16 anos e decidiu acompanhar o pai. Como havia estudado piano em Pelotas e Porto Alegre, tentou a sorte nos conservatórios de música de Nova York. Foi aceito em vários, mas resolveu entrar no conceituado Mannes College of Music.

Iniciou a graduação em música em 1994, concluindo-a em 1998, mesmo ano em que ingressou no mestrado, também no Mannes. Tornou-se pianista profissional. “Fiz alguns recitais no Carnegie Hall, em Nova York, e no Teatro Municipal de São Paulo, além de apresentações com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre”, lembra. Com o tempo, no entanto, a rotina de concertista começou a desestimulá-lo. Resolveu procurar outra atividade.

Começou a trabalhar como tradutor de artigos de epidemiologia para o grupo do pai na UFPel e, mais tarde, também para outros grupos de pesquisa do Brasil. Com o tempo, ganhou experiência, tornando-se um dos tradutores oficiais da edição bilíngue da Revista de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP). Como o interesse pela área de imunologia crescia, seu pai sugeriu uma conversa com o imunologista Jorge Kalil, pesquisador da Faculdade de Medicina (FM) da USP e colega dos tempos de graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desse contato veio o convite para fazer um estágio no Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da FM-USP.

O estágio o levou a um novo mestrado, em imunologia, no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, iniciado em 2004. Próximo de concluir o mestrado, Gabriel participou de um congresso da Sociedade Brasileira de Imunologia, onde conheceu Anjana Rao, do Instituto de La Jolla para Alergia e Imunologia, em San Diego, Califórnia. “Conversamos sobre eu fazer o doutorado nos Estados Unidos”, conta. “Inscrevi-me em vários programas, mas só a Universidade de Nova York (NYU) teve coragem de oferecer uma vaga a um músico, sem formação em biologia ou medicina”, brinca.

Em 2006, Gabriel iniciou o doutorado no laboratório de Mike Dustin, da NYU. “Estudei como os linfócitos B amadureciam e geravam anticorpos mais efetivos à medida que a infecção progridia.” Um dos resultados da tese foi um artigo publicado na revista Cell. A partir daí Gabriel passou a receber ofertas para criar seu próprio laboratório. Uma delas veio do Instituto Whitehead, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Ele aceitou, e trabalhou por quatro anos como chefe de um grupo de pesquisa por lá. Em 2016 recebeu outras duas propostas: do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e da Universidade Rockefeller. “Escolhi voltar para a Rockefeller, onde eu sempre quis estar”, afirma. Aos 40 anos, ele hoje lidera uma equipe de 11 pesquisadores no Laboratório de Dinâmica de Linfócitos.


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