RESENHAS

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Um exercício de justiça

Dicionário de história da África – Séculos VII a XVI | Nei Lopes e José Rivair Macedo | Autêntica | 319 páginas | R$ 59,80

OMAR RIBEIRO THOMAZ | ED. 259 | SETEMBRO 2017

 

“… Não vejo necessidade de qualquer povo provar, a outro povo, que construiu catedrais ou pirâmides para ter direito à paz e à segurança. Assim sendo, não é necessário que o povo negro invente um grandioso e fictício passado para justificar sua existência e sua dignidade humana de hoje. O que os negros precisam fazer é recuperar o que lhes pertence – sua história – e narrá-la eles mesmos.”
Chinua Achebe

A afirmação do nigeriano Chinua Achebe, presente no texto “Dizendo nosso verdadeiro nome”, está no livro A educação de uma criança sob o protetorado britânico – Ensaios (Companhia das Letras, 2012). Achebe é um dos grandes escritores do século XX, e aponta para a empreitada que se impõe aos africanos e à diáspora, a de assegurar sua dignidade presente recuperando sua história.

No contexto brasileiro, a sentença do autor africano ganha ares de urgência. Por essa razão, devemos celebrar a publicação do Dicionário de história da África – Séculos VII a XVI, de autoria do compositor, intérprete e estudioso das culturas africanas na África e na diáspora Nei Lopes e do historiador José Rivair Macedo, coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) . O volume dá continuidade ao Dicionário da antiguidade africana, de Lopes, e cobre o período que vai da expansão árabe-islâmica no norte do continente à virada dos séculos XV e XVI entre transformações de grandes poderes na África mediterrânea e o início do tráfico atlântico para o Novo Mundo. O dicionário enfrenta assim um escopo cronológico outro, aquele que não introduz a África e os africanos na história como consequência de grandes marcos europeus, tais como a conquista da América, ou a expansão imperial europeia no continente africano entre finais do século XIX e início do século XX. E mais: a África entra aqui toda inteira, superando o branqueamento a que foi submetida a África Mediterrânica em oposição ao que se popularizou como “África Negra” – expressão que não resiste a uma análise historiográfica rigorosa, como fica claro no verbete correspondente.

Nos verbetes referentes a cada uma das regiões históricas e etnográficas africanas no período que vai do século VII ao século XVI, fica claro que se trata de um continente cujas populações se entremesclam como consequência de processos migratórios e de intercâmbio material e simbólico. Incorporar um verbete para cada uma das unidades contemporâneas africanas não só evidencia o caráter histórico recente das fronteiras políticas atuais como conecta a história desses territórios a momentos anteriores à emergência do mundo moderno.

Os verbetes discorrem, assim, por territórios, regiões, personagens, períodos, povos, etnias, estados, eventos e não só: enfrentam conceitos como os de “autoridade” ou “Estado”, ou termos como “fontes históricas” ou “fronteira”, procurando enfatizar seu sentido tendo como referência a história da África. Termos cruciais para a compreensão da história africana, como “presídio” ou “griô”, complexificam o universo de verbetes que faz do dicionário um instrumento importante para o historiador, o professor ou o estudante de história. Uma ampla e útil bibliografia para todos os interessados na história do continente africano conclui o volume que se ressente, talvez, da ausência de mapas que, esperamos, venham a compor uma próxima edição.

Não há propriamente uma tradição de dicionários e enciclopédias históricas no campo editorial brasileiro, na contramão de outros contextos como o britânico ou o português, onde constituem um gênero que traduz verdadeiros debates historiográficos – pensemos apenas na Africana: The encyclopedia of the african and african american experience, editada por Anthony Appyah e Henry Louis Gates (2003). A publicação do Dicionário de história da África – séculos VII a XVI revela um momento decisivo de um extraordinário esforço daqueles que se dedicam aos processos próprios desse continente entre nós e corresponde ao que se espera da melhor historiografia: erudição, bela escrita e um exemplo de justiça.

Omar Ribeiro Thomaz é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e pesquisador da história social da África.


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