NOTÍCIAS

Print Friendly

Filósofo Oswaldo Porchat morre aos 84 anos

Mestre de várias gerações de professores e pesquisadores brasileiros, criticava as teorias especulativas que distanciam a reflexão filosófica das verdades básicas da vida cotidiana

CHRISTINA QUEIROZ | Edição Online 23:44 18 de outubro de 2017

 

Durante a entrega do título de professor emérito na Unicamp, em 2011

Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o filósofo Oswaldo Porchat de Assis Pereira da Silva morreu no domingo (15/10), aos 84 anos.

Porchat era bacharel em letras clássicas pela USP (1956) e em filosofia pela Universidade de Rennes, na França (1959), onde foi aluno de Victor Goldschmidt (1914-1981), de quem se considerava discípulo. Em 1967, defendeu no Departamento de Filosofia da USP a tese “A doutrina aristotélica da ciência” — trabalho que, em 2001, após minuciosa revisão, foi publicado sob o título Ciência e dialética em Aristóteles (editora Unesp), tornando-se referência para filósofos e estudantes de filosofia. “A tese ficou na gaveta por muito tempo porque Porchat a considerava um livro não acabado. Uma vez, Jules Vuillemin (1920-2001) me disse que poucos tinham tanta familiaridade com os textos aristotélicos como ele”, conta José Arthur Giannotti, também professor emérito da FFLCH.

No livro, Porchat analisa a obra Segundos Analíticos, de Aristóteles, procurando mostrar sua coerência interna, em contraponto aos comentadores que nela encontram muitas ambiguidades e hesitações. Além disso, defende que, para Aristóteles, ciência e dialética são complementares, em oposição àqueles que veem como contraditórias sua teoria e sua prática da ciência.

Para Marco Zingano, professor no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, o doutorado de Porchat deve ser considerado um precursor da vertente de comentários das obras de Aristóteles que culminou com o livro Aristotle’s first principles, publicado em 1988 pelo britânico Terence Irwin, professor emérito de filosofia antiga na Universidade de Oxford, na Inglaterra. “Nos anos 1960, Porchat intuía teses que foram canonizadas apenas no final dos anos 1980”, reforça Zingano. Ainda segundo ele, Porchat tinha a habilidade de conciliar correntes intelectuais em um campo da história da filosofia dominado por controvérsias.

Entre 1969 e 1970, Porchat fez um pós-doutorado em lógica na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Em 1983, estagiou na London School of Economics and Political Sciences, em Londres, Inglaterra. Ensinou filosofia na USP de 1961 a 1975, quando se transferiu para a Unicamp. Lá, fundou o Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e o Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), que se tornaram núcleos de referência em pesquisa e pós-graduação no Brasil. “Ao fundar o CLE, Porchat criou um lugar institucional onde puderam interagir grupos filosóficos do Brasil e do exterior que até então não se comunicavam senão eventualmente”, pondera Bento Prado de Almeida Ferraz Neto, professor no Departamento de Filosofia e Metodologia das Ciências da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Prado Neto recorda, ainda, a “amizade filosófica” entre Porchat e seu pai, o filósofo Bento Prado de Almeida Ferraz Júnior, professor na UFSCar e professor emérito da USP. “Eles tinham pensamentos filosóficos totalmente diferentes, mas se tratavam como interlocutores privilegiados. Porchat demonstrava um interesse real em entender aqueles que pensavam de maneira distinta a sua”, comenta.

Em 1985, Porchat se aposentou na Unicamp e foi convidado a retomar suas atividades como docente no Departamento de Filosofia da FFLCH, onde permaneceu até 1998.

Porchat definia-se como um filósofo neopirrônico, um herdeiro contemporâneo do pensamento de Pirro de Élis (365-275 a.C.). Roberto Bolzani Filho, professor no Departamento de Filosofia da USP, avalia que a principal contribuição intelectual de Porchat foi sua crítica às filosofias especulativas que distanciam a reflexão filosófica das verdades básicas da vida cotidiana e dos homens comuns. “Porchat sempre fez o elogio da vida comum, pautada pelas verdades simples dos homens, desprovidas de pretensões metafísicas. Por isso, com o tempo, acabou encontrando no ceticismo – e nas críticas que essa filosofia faz aos dogmatismos, por meio de argumentos racionais – a melhor posição a adotar, tornando-se então um cético neopirrônico”, explica.

“Com Porchat aprendi muito”, diz Bolzani. “Com sua filosofia, aulas e debates, ele me ensinou a importância de levar em conta os argumentos de meus interlocutores, sobretudo quando estão em discordância com minhas próprias posições. O respeito pela argumentação alheia, quando consistente e racional, foi uma de suas numerosas qualidades filosóficas e um de seus principais ensinamentos”, observa.

Bolzani destaca, ainda, a generosidade de Porchat que, segundo ele, jamais menosprezava a fala de um jovem aluno ou aluna. “Muito ao contrário, ele tinha especial apreço por saber o que eles pensavam sobre as questões filosóficas que apresentava em sala de aula.” Seu talento pedagógico vinha de longe. Giannotti lembra que, logo após se formar em letras clássicas, Porchat lecionou latim em um ginásio do ABC paulista. “Entrava e saía da aula falando latim. Todos os alunos odiavam latim, menos os seus.”

“É impossível sobrestimar a importância de Porchat para a filosofia brasileira”, diz Luiz Henrique Lopes dos Santos, professor senior do Departamento de Filosofia da USP e autor da primeira tese de doutorado orientada por ele. “Como filósofo, foi um pensador original, estabelecendo entre filosofia e história da filosofia uma via de mão dupla; como mestre, deixou sua marca em várias gerações de professores e pesquisadores; como gestor, foi, em seus anos de Unicamp, o protagonista do processo de organização institucional da comunidade filosófica brasileira.”

Nascido a 11 de janeiro de 1933, em Santos, Porchat sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em julho deste ano. A partir de então, sua saúde ficou debilitada. Morreu em consequência de complicações causadas por uma pneumonia. Deixa a mulher, uma filha e duas netas. “Assim viveu, surpreendendo e cavando suas trincheiras, um dos maiores intelectuais de sua geração”, conclui Giannotti.


Matérias relacionadas

CLAUDIA BAUZER MEDEIROS
Professora da Unicamp fala sobre a origem das humanidades digitais
PESQUISA BRASIL
Humanidades digitais, Paulicéia 2.0, blecautes e Kepler-186
CAPA
Análise de grandes volumes de dados amplia campo de ação das humanidades