Cultura

O apuro de um compositor popular

Edu Lobo usa rigor melódico na criação de suas composições

Imagem: léo ramos chaves O músico em sua casa, no Rio: gosto também pela música clássicaImagem: léo ramos chaves

Eram 3 horas da madrugada quando o compositor Paulo César Pinheiro acordou com um telefonema em sua casa, no Rio de Janeiro. Ao atender, ouviu a voz aflita do parceiro Edu Lobo, que pedia um retoque na letra “Dos navegantes”. Edu gravava a canção em estúdio nos Estados Unidos e, meticuloso, queria mudar uma palavra. “Além de ser um dos maiores melodistas que conheço, ele faz letras melhor do que muito letrista famoso. Não precisava ter me acordado”, conta. “Não me lembro disso. Mas é bem a minha cara mesmo”, rebate Edu, vencedor do prêmio FCW de Cultura 2016, no valor de R$ 300 mil, concedido pela Fundação Conrado Wessel.

Uma das faixas do álbum Corrupião, de 1993, “Dos navegantes” foi regravada e deu nome ao novo CD de Edu, lançado em maio de 2017. Em suas turnês ele tem cantado mais do que tocado violão em razão de uma lesão na mão esquerda causada por duas quedas. Quando não está na estrada, Edu gosta de passar o tempo em casa, no bairro de São Conrado, no Rio, ouvindo música clássica enquanto acompanha os compassos na partitura. Ele fala apaixonadamente de pelos menos seis compositores: Igor Stravinsky (1882-1971), Gustav Mahler (1860-1911), Claude Debussy (1862-1918), Maurice Ravel (1875-1937), Sergei Prokofiev (1891-1953) e Heitor Villa-Lobos (1887-1959), que considera inovadores. Discursando sobre Mahler, cita a infância do austríaco em terras tchecas, ao som de canções folclóricas e marchas vindas de um acampamento militar perto de sua casa, que depois seriam recicladas em sinfonias. A admiração esconde um paralelo com a história do próprio Edu.

Eduardo Góes Lobo, de 74 anos, é carioca filho dos pernambucanos Maria do Carmo e Fernando Lobo. Durante as férias escolares passava os verões no Recife, na casa dos tios, na qual observava os vendedores ambulantes cantando seus pregões para vender produtos nas ruas. “Cada um tinha um refrão mais lindo que o outro. Ainda me lembro de um que era: ‘Chora, menino, pra comprar pitomba’”, cantarola o músico que, como Mahler, usa em suas criações temas populares. “Quando iniciei minha vida artística, eu queria fazer a música que ouvia do Tom Jobim, do Carlos Lyra, do Baden Powell. Queria ser daquela turma da Bossa Nova, mas sabia que o que fazia não chegava perto”, conta. “Então, decidi arriscar algo diferente e comecei a criar melodias com a quinta diminuta nordestina”, diz ele, referindo-se a um elemento da escala musical usado em improvisação de vários estilos, como na música que se faz no Nordeste do Brasil, na Índia e no jazz.

Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo Menino no colo da mãe, Maria do Carmo LoboImagem: Arquivo Pessoal edu lobo

Foi cantarolando como os ambulantes recifenses que ele compôs “Borandá” (1963) e “No cordão da saideira” (1967), entre outras. Depois, mudou o método, passando ao piano. “Fazer a melodia usando os dedos no piano é completamente diferente do que com o violão acompanhando a voz”, explica. “Eu jamais teria conseguido fazer “Beatriz” [1982] cantando. Aqueles intervalos entre as notas é o dedo que encontra no piano. ”

Não é coincidência que a faixa mencionada esteja no álbum O grande circo místico, uma parceria com Chico Buarque. Foi durante a criação dessa obra, originalmente um balé do Teatro Guaíra, de Curitiba, encenado em 1983, que o piano ganhou importância. Antes, entre 1969 e 1971, Edu morou em Los Angeles, Estados Unidos. Lá estudou durante alguns meses com o compositor de trilhas para cinema Lalo Schifrin, cujas aulas, admite, não foram bem aproveitadas: “Eu não estava preparado para aquele curso”. A residência de dois anos nos Estados Unidos rendeu, no entanto, outros frutos. Além de aulas de orquestração com Albert Harris (1916-2005), participou do disco From the hot afternoon (1969), do saxofonista Paul Desmond, em Nova York.

“Edu Lobo foi um dos primeiros compositores brasileiros da geração dos anos 1960, portanto ligado à vertente pós-Bossa Nova, que começou a produzir música utilizando e estilizando elementos da cultura popular brasileira, vide ‘Ponteio’ ou ‘Cirandeiro’ [ambas de 1967, com Capinam], dentre outras”, comenta o violeiro Ivan Vilela, professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O musicólogo Ricardo Cravo Albin, autor do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, completa a análise de Vilela: “Edu trouxe para os festivais de música popular um resgate precioso da música de Pernambuco. ‘Arrastão’ [1964, com Vinicius de Moraes] é a exacerbação pernambucana da matriz baiana de Dorival Caymmi”, afirma. “A obra dele só tem paralelo com a de Tom Jobim.”

Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo Premiação de “Ponteio”, em 1967: Marília Medalha, Chico Buarque, Edu Lobo (com violão) e Roberto Carlos (da esq. para a dir.)Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo

Balés
Edu gosta de trabalhar com encomendas. Diz que precisa correr atrás das melodias, já que elas não chegam sozinhas. Um período especialmente produtivo foi quando compôs para o balé do Guaíra, nos anos 1980. “Eu acordava com os personagens na cabeça e sabia o tipo de música que cada um deveria ter. Ficava procurando a melodia até achar. Era uma delícia. Hoje acordo e não tenho música para fazer. Fazer para quê?”

O primeiro balé foi Jogos de dança, em 1981. A companhia curitibana gostou e pediu outro. O compositor sugeriu incluir canções no seguinte e ele convidou Chico Buarque para escrever as letras. Nasceu, assim, o que hoje é considerada uma obra-prima da música popular por críticos e estudiosos, O grande circo místico, encenado em 1983.

Nas composições para os balés, o trabalho do músico é considerado primoroso. “Em O grande circo místico, O corsário do rei [1985] e Dança da meia lua [1988] observamos um apuro melódico que é típico de quem estudou muito”, afirma Vilela. “As notas que se sucedem na melodia são milimetradas, ou seja, cada uma delas é escolhida após ser cuidadosamente pensada. Esse apuro deixa a melodia cheia de preciosismos, com notas inusitadas que a fazem mais bonita e diferenciada.”

Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo Com Vinicius de Moraes (centro) e o governador Adhemar de Barros na premiação de “Arrastão”, em 1965Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo

Edu tem como aliada a tecnologia. Um bom exemplo disso ocorreu em 2010, na composição de um frevo orquestral para uma turnê internacional da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). “Recebi a encomenda e comecei a trabalhar num frevo-ventania. É um tipo de frevo que vai a mil por hora, com andamento mais rápido. Como não tenho técnica de piano, eu usava o programa de computador Finale para escolher nota por nota devagarzinho e depois fazia a simulação com o tempo acelerado”, conta. Quando a Osesp estreou o frevo, Arthur Nestrovski, diretor artístico da orquestra, avisou ao público que o compositor estava presente. “Achei que iriam me rejeitar, porque eu não pertencia àquele meio. Em vez disso, aplaudiram bastante. Foi uma emoção”, conta Edu.

Estreia
As cortinas do picadeiro musical se abriram para Edu em 1961, e o mestre de cerimônias foi Vinicius de Moraes (1913-1980). O poeta encontrou o jovem de 19 anos, então estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, numa festa em Petrópolis (RJ). “Conheci o Vinicius e toquei para ele. Uma hora, ele me perguntou: ‘Você não teria um sambinha sem letra?’. Foi uma sorte”, relata Edu. “Eu tinha um samba legalzinho, o ‘Só me fez bem’. Ele então me perguntou, ‘Eu poderia fazer a letra agora?’. Quando acabou, guardei o papel dentro da meia, com medo de perder”, recorda-se.

Apenas dois anos antes, o pai de Edu vinha se aproximado dele. Antes disso, ninguém na família sequer falava de sua existência. Fernando Lobo (1915-1996) havia se separado de Maria do Carmo antes de Edu completar 1 ano de idade e ido morar nos Estados Unidos. A possível influência musical de Fernando, jornalista, radialista e compositor – autor de sucessos como “Chuvas de verão” (1949) –, é considerada nula por Edu. “Minha vida musical começou com Vinicius e, antes disso, com as visitas quase diárias à casa do pianista Luizinho Eça”, afirma Edu, pai de Mariana, Bernardo e Isabel. Os três são fruto do casamento com a cantora Wanda Sá, de quem é separado.

Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo Com Nara Leão, em 1965Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo

Edu gravou o primeiro compacto duplo em 1960 com quatro composições suas, todas ligadas à Bossa Nova. A proximidade com o Centro Popular de Cultura e a amizade com os cantores e compositores Sérgio Ricardo, João do Vale (1934-1996), Carlos Lyra e com o cineasta Ruy Guerra o levaram a canções com temáticas mais sociais. Em 1963 fez a trilha do musical Arena conta Zumbi, em parceria com Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) e Augusto Boal (1931-2009). Em 1965, ganhou o festival da TV Excelsior com “Arrastão”, interpretada por Elis Regina. Na época ele já havia abandonado o curso de direito no terceiro ano. Em 1967, venceu o festival da TV Record, com “Ponteio” (1967, com Capinam).

Hoje Edu sente falta de Jobim (1927-1994), outro de seus grandes parceiros. “A primeira vez que vi o Tom foi no bar Esplanada, no Rio, quando ele apareceu cheio de partituras, que eram da ‘Sinfonia da alvorada’. Aquilo me impressionou: eu nunca tinha visto um compositor popular escrever sinfonia”, lembra ele, que gravou o álbum Edu & Tom, Tom & Edu, em 1981. A ideia era fazer um disco de 12 faixas, cada uma com um artista diferente. O produtor foi o Aloysio de Oliveira (1914-1995) e decidiram começar com Jobim. “A gravação foi rápida. Quando acabou, Tom falou para o Aloysio, ‘Mas é só isso? Eu queria fazer mais’”. O Aloysio percebeu o que tinha em mãos. “Ele ligou para um executivo da gravadora e avisou que o disco que haviam pedido não ia mais acontecer, mas eles receberiam outro muito superior. Esse disco foi das melhores coisas da minha vida”, lembra.

A comparação com Jobim é um lugar comum entre os admiradores e amigos de Edu. Para o letrista e parceiro Aldir Blanc, ele é o melhor compositor do país. “É vergonhoso que não tenha o reconhecimento que merece, por ter a mesma importância de Villa-Lobos, Camargo Guarnieri [1907-1993], Radamés Gnattali [1906-1988] e Tom Jobim”, critica.

Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo Com as filhas Isabel (à esq.), Mariana e o filho Bernardo no início dos anos 1990Imagem: Arquivo Pessoal edu lobo

O saxofonista Mauro Senise, que participa do CD Dos navegantes, destaca a “assinatura musical” de Edu, isto é, a característica que determinadas músicas têm de revelar sua autoria. “Eu, como intérprete, observo com admiração as divisões [métricas da música] que ele faz, a forma como antecipa uma nota do acorde”, diz Senise. Para Ivan Vilela, Edu demonstra rigor ao compor. “Vale observar o detalhamento de ‘Choro bandido’ [1985] ou ‘Beatriz’. Além de um grande compositor, possui um apuro técnico na elaboração de suas canções que poucos alcançaram”, conclui o músico e pesquisador de música.