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Doação de obras de arte e objetos será revertida para pesquisas em células-tronco

Coleção, doada em testamento à FAPESP por May Rubião, inclui pinturas de Antonio Bandeira, Alfredo Volpi, Aldo Bonadei, Cícero Dias e Lucy Citti Ferreira

JOSÉ TADEU ARANTES | Edição Online 13:15 24 de outubro de 2017

 

A Grande Cidade Azulada“, Antonio Bandeira

Agência FAPESP

As grandes doações de acervos privados para universidades ou institutos de pesquisa são frequentes nos Estados Unidos. No Brasil, a tradição ainda é pequena. Um exemplo notável é a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, criada no campus da Universidade de São Paulo, para abrigar a formidável coleção de livros reunida ao longo de mais de oitenta anos pelo empresário e bibliófilo José Mindlin (1914-2010) e sua esposa Guita.

A FAPESP recebeu a doação de uma coleção que, coincidentemente, foi feita, em testamento, por uma pessoa próxima a Mindlin: May Rubião, que trabalhou durante décadas com o empresário, como diretora de Relações Públicas da empresa Metal Leve.

O acervo doado, que inclui pinturas de artistas renomados, esculturas, gravuras, prataria, mobiliário e joias, será leiloado nesta terça-feira (24/10), em São Paulo. O valor resultante deverá reforçar o investimento feito pela FAPESP em pesquisas em genética com células-tronco, visando a prevenção e a cura de doenças degenerativas, conforme a decisão expressa em vida pela doadora.

Destaques na coleção são pinturas de Antonio Bandeira, Alfredo Volpi, Aldo Bonadei, Cícero Dias, Omar Rayo, Danilo di Prete, Emeric Marcier e Lucy Citti Ferreira.

Formada em Letras e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, May Rubião foi uma mulher culta e avançada, que, na opinião de quem a conheceu, estava sempre à frente de seu tempo. Integrou um círculo de intelectuais notáveis, que incluía nomes como os de Antonio Candido de Mello e Souza, Décio de Almeida Prado e Paulo Emílio Sales Gomes, entre outros. Nos anos 1950, estagiou em Washington, Londres e Paris, especializando-se em Relações Públicas e Institucionais.

Casada com João Álvares Rubião Neto, descendente de família tradicional da elite cafeicultora paulista, May e o marido reuniram uma coleção criteriosa e de bom gosto, na qual cada pintura tem uma história para contar, pois foi adquirida no estúdio do próprio artista, em geral amigo do casal.

Uma história curiosa ocorreu quando May ainda era jovem e residia em Paris. Convidada para uma recepção que ocorreria no mesmo dia, ela se deu conta de que não tinha um traje apropriado para a ocasião. E contou o fato ao pintor Antonio Bandeira (1922-1967), seu amigo, jovem como ela, e também residente em Paris. Bandeira lhe disse que não se preocupasse, que comprasse uma saia comum, e a trouxesse para ele pintar. Isso foi feito. E May compareceu à recepção vestindo uma pintura de Bandeira.

O Bandeira doado agora, um óleo sobre tela datado de 1953 e intitulado A Grande Cidade Azulada, foi adquirido anos mais tarde e constitui o carro-chefe da coleção. Além das pinturas, ressaltam-se na coleção uma escultura de pequeno porte de Bruno Giorgi, gravuras de Oswaldo Goeldi e Marcelo Grassmann, e móveis e objetos provenientes da fazenda Resgate, de Bananal (SP), pertencente aos antepassados de João Álvares Rubião Neto. Quando decidiu doar sua coleção, May consultou parentes e amigos sobre qual instituição deveria recebê-la. Ela queria que fosse uma instituição idônea, comprometida com a pesquisa em células-tronco. O amigo Celso Lafer, ex-presidente da FAPESP, aconselhou-a a doar à Fundação. Assim foi feito, estabelecendo-se um grande exemplo para outras iniciativas do gênero.

As deliberações relativas ao leilão das peças foram feitas em tratativas entre o Departamento Jurídico da FAPESP e o arquiteto José Moraes, filho do grande cientista Abrahão de Moraes, e sobrinho e testamenteiro de May Rubião.

O leilão, a cargo do escritório de arte Dagmar Saboya, deverá ocorrer na Rua Colômbia, 157, Jardim América, São Paulo, em 24 de outubro, às 20h15.


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