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Morre o jornalista e sociólogo Oliveiros Ferreira aos 88 anos

Trajetória intelectual ficou marcada por análises sobre o papel das Forças Armadas no processo político institucional brasileiro

CHRISTINA QUEIROZ | Edição Online 17:23 24 de outubro de 2017

 

Professor na Universidade de São Paulo (USP), o sociólogo Oliveiros da Silva Ferreira morreu no último sábado (21/10) aos 88 anos. Conhecido como um intelectual heterodoxo, Oliveiros fez parte da chamada terceira geração da USP, tendo convivido com os professores que vieram na missão francesa para lecionar na universidade a partir dos anos 1930. Paralelamente à vida acadêmica, ele fez carreira no jornalismo e trabalhou por 48 anos no jornal O Estado de S. Paulo.

Nascido em 1929 em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, Oliveiros graduou-se em ciências sociais pela USP em 1950. Convidado pelo sociólogo Lourival Gomes Machado a ser seu assistente na cadeira de Política, hoje Departamento de Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), assumiu a função em 1953. Em 1966, Oliveiros defendeu a tese de doutorado “Nossa América, Indoamérica. A Ordem e a Revolução no pensamento de Haya de la Torre”. Depois de cinco anos, fez a livre-docência com um trabalho sobre o filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937).

Aposentou-se da USP em 1983, mas seguiu ministrando cursos de pós-graduação na FFLCH, além de atuar como consultor e conferencista da Escola Superior de Guerra e da Escola de Guerra Naval. Oliveiros foi, ainda, professor na área de ciência política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O intelectual teve também uma longa carreira como jornalista. Foi secretário de redação, redator-chefe, editorialista e diretor de O Estado de S. Paulo, de onde se aposentou em 1999. No jornal, escreveu análises frequentes sobre temas internacionais, como a Guerra Fria, a União Soviética e as ditaduras na América Latina, região na qual era especializado. Durante boa parte do período do regime militar (1964-1985), ele fez a interlocução entre os donos do jornal, a família Mesquita (Julio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, respectivamente diretores do Estadão e do Jornal da Tarde) e os censores, que ficavam de plantão nas instalações do Grupo Estado.

“O jornalismo exercido por Oliveiros no Estadão era impregnado de política, desde a pauta até o tratamento dos temas”, avalia o cientista político Carlos Enrique Ruiz Ferreira, professor na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e organizador de Professor Oliveiros S. Ferreira – Brasil, teoria política e relações internacionais com sua obra (Edusp, 2016), livro que traz um balanço crítico de sua produção intelectual (ver Pesquisa FAPESP nº 241). No mesmo caminho, o sociólogo Marco Aurélio Nogueira, docente de teoria política na Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, diz que a formação acadêmica e a erudição de Oliveiros permitiram que ele oferecesse contribuições analíticas aos leitores do jornal.

Em texto publicado na Folha de S. Paulo, Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular aposentada de ciência política na USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), lembrou que Oliveiros se posicionava à direita do espectro político e foi simpático ao golpe de 1964. Entretanto, nunca deixou de ser solidário com colegas detidos ou processados pelo regime militar. Nogueira recorda que Oliveiros era considerado um conservador pelo pessoal de esquerda, porém o regime militar o via com desconfiança, como um comunista, algo que jamais foi. O professor da Unesp foi orientando de doutorado de Oliveiros no final dos anos 1970 e contou um episódio a esse respeito em seu blog no Estadão. Em 1976, Nogueira teve de comparecer a um tribunal militar para responder a um processo e levou algumas testemunhas, entre elas, Oliveiros. “Foi emocionante, para mim, vê-lo, do alto de sua importância como professor e jornalista, argumentar para os cinco juízes militares que ele sempre me conhecera como marxista, não como comunista, lembrando que na universidade o marxismo era admitido com tranquilidade e não era visto como perigoso”, escreveu.

Para Ferreira, a trajetória acadêmica de Oliveiros foi marcada por estudos sobre a teoria política, o pensamento político latino-americano e o papel das forças armadas. “Em ordem de importância, a primeira grande contribuição do professor foi para a teoria e filosofia política, expressa na obra Os 45 cavaleiros húngaros – uma leitura dos cadernos de Gramsci [Hucitec, 1986)], fruto de sua livre-docência”, avalia. De acordo com ele, a segunda grande contribuição para as ciências sociais concretizou-se com Nossa América: Indoamerica (Pioneira e Edusp, 1971) publicada a partir de seu doutorado. “O livro traz um ensaio original sobre as bases histórico-sociais da América Latina e coloca em cena a leitura indoamericana sobre a teoria e o projeto socialista. Haya de la Torre [1895-1979] sintetizará, com suas idiossincrasias, o esforço intelectual peruano de repensar o projeto socialista a partir das bases sociais e antropológicas indoamericanas”, explica Ferreira.

Por fim, o professor da UEPB avalia que Oliveiros contribuiu para o estudo da história do Brasil a partir de investigações sobre o papel das forças armadas no processo político institucional e na sociedade brasileira. Nesse caminho, os livros Elos partidos. Uma nova visão do poder militar no Brasil (Harbra, 2007) e Vida e morte do partido fardado (Saraiva, 2000) são os mais significativos. Nos trabalhos, Oliveiros defende que o exército teve papel central na construção do Estado brasileiro. “Os livros ajudam a compreender como os militares estiveram diretamente imbricados na vida social e institucional brasileira”, considera.

“Uma das características mais fortes da trajetória intelectual de Oliveiros era sua compreensão de que a política só pode ser entendida se pensada em um contexto sociológico”, afirma Marco Aurélio Nogueira. Segundo ele, Oliveiros defendia que a desigualdade e desunião da sociedade brasileira se deviam à dificuldade dos grupos sociais em criar uma marca forte de coordenação política. Por causa disso, o poder militar emergiu como uma alternativa a essa coesão. “Para ele, os militares desempenharam papel importante como sujeitos da história brasileira, promovendo uma unificação que permitiu processar conflitos e proteger os cidadãos”, conclui.

Oliveiros, que morreu de causas naturais em sua casa em Campinas, interior de São Paulo, deixa a esposa Vânia Leal Cintra e o filho Afonso Ferreira, fruto de seu primeiro casamento com Walnice Nogueira Galvão.


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