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Na vanguarda da historiografia

Professora emérita da FFLCH-USP, Emília Viotti deixa legado fundamental para entender processos de abolição da escravidão na América Latina

CHRISTINA QUEIROZ | Edição Online 13:29 9 de novembro de 2017

 

A historiadora em 1998, em sua casa em São Paulo

Referência na historiografia brasileira e latino-americana e nos estudos sobre a escravidão e a diáspora africana, a historiadora Emília Viotti da Costa morreu no dia 2 de novembro, aos 89 anos, devido a uma falência múltipla dos órgãos. Ela era professora emérita na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e atuou durante 26 anos como docente de história da América Latina na Universidade Yale, nos Estados Unidos.

Emília defendeu sua tese de livre-docência sobre a escravidão na FFLCH-USP em 1964, intitulada “Escravidão nas áreas cafeeiras, aspectos econômicos, sociais, políticos e ideológicos da transição do trabalho servil para o trabalho livre”, que permitiu renovar as pesquisas sobre a Abolição e a transição para o trabalho livre. Em 1966, o estudo foi publicado pela Difusão Europeia do Livro (Difel) como o livro Da Senzala à Colônia.

Em reconhecimento ao valor desse trabalho, a historiadora foi convidada para ministrar a aula inaugural da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (hoje FFLCH) da USP em 1968, ano de estabelecimento do Ato Institucional número 5 (AI-5). Na ocasião, ela criticou o projeto universitário do regime militar.

A professora titular do Departamento de História da USP Maria Helena Rolim Capelato lembra que, logo após o AI-5, Emília foi demitida da USP por causa das críticas feitas ao acordo firmado pelo governo brasileiro com uma organização norte-americana para a realização de reformas no sistema educacional do país. “Emília alertou sobre a orientação exclusivamente tecnológica do acordo e sua intenção de atrelar a universidade ao setor empresarial”, conta Maria Helena. De acordo com ela, essa aula se transformou em um texto publicado pela revista do grêmio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, circulando pelo país nas semanas seguintes.

Emília exilou-se nos Estados Unidos em 1969 e, em 1973, passou a atuar como professora de história da América Latina na Universidade Yale, cargo que ocupou até 1999. “Sua carreira acadêmica nos Estados Unidos permitiu formar pesquisadores norte-americanos que se tornaram importantes brasilianistas, entre eles John French e Barbara Weinstein, pesquisadora que, hoje, chamamos de embaixadora dos historiadores brasileiros nos Estados Unidos”, relata Maria Helena, lembrando que Emília também orientou pesquisadores mexicanos, peruanos, chilenos, guatemaltecos e nicaraguenses.

Barbara Weinstein, professora no Departamento de História da Universidade de Nova York (NYU), conta que ingressou no doutorado em Yale em 1973 para estudar a Argentina. Porém, acabou optando por pesquisar o Brasil por conta das aulas ministradas por Emília. “Ela me mostrou que o país oferecia um campo rico para investigar questões da história do trabalho e que era impossível entender a classe operária sem estudar a trajetória dos empresários”, recorda Barbara. Ela lembra, ainda, que após chegar aos Estados Unidos, Emília teve de se adaptar a um novo mundo acadêmico onde não contava com o mesmo prestígio que possuía no Brasil. “Eu demorei para entender os desafios que ela estava enfrentando. No meu olhar, ela era tão brilhante e carismática que era impossível pensar nela como uma pessoa vulnerável. Quando Emília ingressou em Yale, o Departamento de História era um clube de homens e não havia mulheres entre os professores titulares”, conta. Segundo ela, Emília fazia questão de ser tratada informalmente pelos alunos. “Seu poder emanava de sua força e inteligência e, por isso, ela dispensava títulos e formalidades”, afirma.

Emília também foi diretora do Programa de Estudos da Mulher e do Conselho de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Yale, instituição de quem recebeu o título de professora emérita em 1999. No mesmo ano, a FFLCH-USP também lhe concedeu o mesmo reconhecimento.

Barbara explica que o livro Da Senzala à Colônia fez parte de uma leva de estudos que procuraram reduzir a ênfase em questões morais, políticas e ideológicas, ressaltando os fatores sociais e econômicos do processo de Abolição. “Emília analisou esse momento relacionando ideias, identidades sociais e tendências econômicas, evitando o determinismo característico de outros estudos na mesma linha e enfatizando a capacidade das pessoas para influir em processos históricos”, relata. De acordo com ela, Emília foi uma das primeiras em reconhecer o papel dos escravos no processo de emancipação, especialmente por meio das fugas em massa das fazendas de café a partir de 1885.

Maria Helena, da USP, explica que outra grande contribuição historiográfica de Emília é o livro Coroas de glória, lágrimas de sangue. A rebelião dos escravos de Memerara em 1883, publicado primeiramente em inglês em 1994 e editado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1998. “Com essa obra, Emília se tornou referência em história do Brasil, mas também na história de outros países da América Latina”, enfatiza Maria Helena.

O filósofo Jézio Hernani Bomfim Gutierre, diretor-presidente da Fundação Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que uma das preocupações centrais da historiadora foi entender questões contemporâneas do Brasil olhando para aspectos do passado. “Emília se incomodava com historiadores que se debruçavam sobre a história antiga sem pensar nas consequências à vida contemporânea”, afirma.

Gutierre também analisa desde essa perspectiva o livro O Supremo Tribunal Federal e a constituição da cidadania (Editora Unesp, 2001), que investiga o STF desde sua criação em 1890. “Quando Emília escreveu o trabalho, a centralidade do Supremo na formação do Brasil não era tão óbvia como atualmente. Ela não chegou a pesquisar os desdobramentos recentes do órgão, mas já percebia sua centralidade para a compreensão do Brasil contemporâneo”, avalia.

Barbara, da NYU, considera o livro mais recente fundamental para entender as raízes históricas da situação atual do país. “Um aspecto da obra da Emília que continua dialogando com as novas tendências historiográficas é sua visão aberta dos processos históricos. Ela mostra como existiam, em certas conjunturas decisivas, outras possibilidades que poderiam ter levado a sociedade brasileira a uma direção menos desigual e de maior compromisso com a democracia”, analisa.

Em resenha publicada na revista Pesquisa FAPESP em junho de 2016, Angela Alonso, professora do Departamento de Sociologia da USP e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), rememorou a trajetória da historiadora, destacando seu pioneirismo e engajamento, bem como sua postura contestatória. Nesse texto, Angela escreve: “Carreira de mulher dona do seu nariz, quando isso era desusado. E construída em par com o papel de mãe, conciliação problemática até hoje e quase impraticável no mundo masculino de outrora”.

Gutierre, da Unesp, foi amigo próximo de Emília durante mais de uma década e destaca dois traços definidores da sua personalidade: o otimismo e a honestidade intelectual. “Sua última participação em um evento acadêmico foi no seminário organizado pela Unesp em sua homenagem em 2016. Na ocasião, ela procurou passar uma mensagem de otimismo aos estudantes, mesmo diante das adversidades que o país enfrenta.”


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