RESENHAS

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A medicina paulista na Primeira República

Tropeços da medicina bandeirante: Medicina paulista entre 1892 e 1920 | André Mota | Edusp, 2005 | 248 páginas | R$ 35,20

ANDRÉ FELIPE CÂNDIDO DA SILVA | ED. 261 | NOVEMBRO 2017

 

Os tropeços do título da obra de André Mota– historiador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coordenador do Museu Histórico da mesma instituição – dão o tom da narrativa que o leitor acompanha nas páginas subsequentes. Segundo o autor, a história da constituição do aparato médico-sanitário em São Paulo, entre o final do século XIX e o começo do XX, não é mera sequência de “conquistas e realizações”, como sugerem o discurso oficial da época e a memorialística constituída em torno de suas personalidades e instituições. O projeto de sanear e, ao mesmo tempo, de “civilizar” o estado bandeirante esbarrou em uma série de conflitos, impasses e resistências. Tamanhas controvérsias entre médicos e demais atores ou entre as próprias instâncias oficiais envolvidas com a saúde pública tornam complicado afirmar um projeto coeso e afinado de medicalização, como aposta certas vertentes da historiografia.

O livro Tropeços da medicina bandeirante resulta da tese de doutorado de André Mota, apresentada ao Departamento de História da USP. Compõe safra muito prolífica de estudos que revisitaram a história da medicina e da saúde pública em São Paulo e desvelaram a complexa trama histórica sombreada pelo vulto de efígies da estatura de Emílio Ribas, Vital Brazil e Arnaldo Vieira de Carvalho entre 1892 e 1920. O enfrentamento dessa poderosa memória em torno da medicina paulista fica patente na obra de Mota, que mostra como o escrutínio histórico realizado por minuciosa investigação de fontes documentais joga luz sobre os percalços da modernização defendida pelas oligarquias paulistas na Primeira República (1889-1930), modernização na qual a medicina ocupou posição fundamental. Segundo o autor, o discurso médico ajudou a sedimentar a representação de São Paulo como exemplo bem-sucedido de organização social, progresso econômico e constituição racial, em um momento em que o patrimônio hereditário da população brasileira tinha grande relevo no debate sobre a identidade nacional.

Nos quatro capítulos em que se divide a obra, o historiador aborda o papel da medicina como ferramenta de diagnóstico e, ao mesmo tempo, como solução dos principais problemas que afetavam o caminho do país rumo ao progresso e civilização. No caso específico de São Paulo, ele explora a participação dos dispositivos de saúde no crescimento e modernização da “metrópole do café”, pela tentativa de regulamentar os costumes e usos do espaço, enfrentando, no entanto, a resistência de segmentos afetados por tais intervenções.

Mota dá particular destaque às tensões entre o Serviço Sanitário do estado e as agências municipais. As contradições ficam evidentes nos distintos projetos de controle da tuberculose, os quais opuseram Emílio Ribas, diretor do Serviço Sanitário, e Clemente Ferreira, idealizador da Liga Paulista contra a Tuberculose. Os conflitos também são o mote da análise do processo de criação da Faculdade de Medicina de São Paulo. André Mota sublinha o protagonismo de Arnaldo Vieira de Carvalho na concretização do projeto de uma escola médica pública, para o qual se valeu de seu capital simbólico e político fundamental para equacionar as diferenças entre segmentos da medicina paulista e convencer as instâncias oficiais.

Apesar de carecer de um diálogo mais explícito com a historiografia que trata dos temas analisados no livro, Tropeços da medicina bandeirante representa contribuição importante aos interessados em conhecer os percalços da constituição da medicina na transição do século XIX para o XX, momento crucial de afirmação da excelência de São Paulo na saúde pública. Essa excelência apoiou-se, por um lado, na formação de um sólido aparato de controle de doenças, pesquisa e ensino e, por outro, na reafirmação do discurso que procurou alçar o estado à condição de “locomotiva” a arrastar 20 vagões vazios, frase que não por acaso saiu da pena de Arthur Neiva, um dos que participaram da organização da saúde pública paulista entre 1916 e 1920 e do movimento em favor do saneamento dos sertões brasileiros. A poderosa representação extrapolou o domínio da saúde, revestiu-se de evidentes implicações políticas e, de tão forte, ecoa ainda hoje na esfera pública.

André Felipe Cândido da Silva é historiador da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e editor científico da revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos.


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