EDITORIAL

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Mensagens do céu e da Terra

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 261 | NOVEMBRO 2017

 

A astronomia sempre exerceu fascínio sobre os homens. A conquista do espaço, entendida como a ampliação do nosso conhecimento sobre o Universo que habitamos, mobiliza cientistas há séculos e já foi objeto de momentos épicos, como o julgamento de Galileu ou a chegada do homem à Lua.

A excitação dos pesquisadores que anunciaram em outubro que haviam conseguido observar ondas gravitacionais e, simultaneamente, ondas eletromagnéticas de uma colisão entre duas estrelas de nêutrons deixava transparecer a importância do momento. A narrativa de como essa observação foi possível, com uma corrida com dezenas de telescópios varrendo o céu até encontrar os sinais do evento cataclísmico que originou as ondas, tem um quê de épico. Mostra o sucesso da pesquisa colaborativa – que nem por isso deixa de ser competitiva – e o início de uma nova era da astronomia, chamada de “multimensageira” por usar diferentes “mensageiros cósmicos” (ondas de vários tipos) para obter informações complementares sobre objetos e fenômenos celestes.

Esta edição de Pesquisa FAPESP dedicou-se a explorar esse feito. Além do relato sobre os acontecimentos de 17 de agosto, que contou com lances de sorte – enquanto um observatório de ondas gravitacionais havia acabado de voltar a operar, o outro interromperia suas atividades para uma pausa programada oito dias depois –, reportagem na página 18 explica o que foi efetivamente observado e o que isso significa em termos de avanço de conhecimento. Em resumo, pode significar a identificação da origem da radiação dos raios gama de curta duração, detectada desde os anos 1960, e conhecer como é o interior das estrelas de nêutrons, objetos celestes extremamente densos – e misteriosos.

Dois dos principais desdobramentos dessa colisão são discutidos na página 23: a produção de elementos químicos pesados e o uso desse tipo de fenômeno para medir distâncias cósmicas e o cálculo da taxa de expansão do Universo. Para fechar, trazemos uma entrevista com Marcelle Soares-Santos, líder de um dos grupos de pesquisa que exploraram o céu em busca de sinais de emissão luminosa resultantes do choque das estrelas de nêutrons.

Marcelle não é a única brasileira que se destaca nessa iniciativa. A astrofísica Claudia Mendes de Oliveira é a idealizadora do T80 Sul, um pequeno telescópio com um amplo campo de visão que permite cobrir vastas áreas do céu em pouco tempo. Instalado no Chile e construído com recursos da FAPESP, o T80 Sul foi um dos cerca de 70 instrumentos terrestres e espaciais que observaram a emissão de radiação eletromagnética desse evento.

A busca por uma maior participação das mulheres nas ciências exatas e engenharias é objetivo de iniciativas relatadas na página 46. Mas esse envolvimento não precisa se resumir à bancada: reportagem na página 38 conta a história de May Rubião, que resolveu legar parte de sua herança para a pesquisa em células-tronco. Formada em letras e ciências sociais nos primeiros anos da USP, amiga de pintores e pesquisadores, foi uma precursora na área das relações públicas. Antes de morrer, procurou uma instituição sólida para levar adiante seu projeto, tendo escolhido a FAPESP por intermédio de seu ex-presidente Celso Lafer. Cabe à Fundação agora fazer jus ao notável legado, aplicando os recursos em pesquisas na fronteira do conhecimento, como queria May, e quiçá incentivando outras doações a instituições de ensino e pesquisa, ação bastante comum na Europa e nos Estados Unidos.


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