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Um heterodoxo no pensamento político brasileiro

A trajetória de Oliveiros Ferreira foi marcada pela análise do papel institucional das Forças Armadas

CHRISTINA QUEIROZ | ED. 261 | NOVEMBRO 2017

 

O sociólogo e jornalista em foto de 2005

O sociólogo e jornalista Oliveiros da Silva Ferreira ficou conhecido por seu pensamento heterodoxo, característica que se refletiu em seus estudos de teoria política e nas análises sobre o papel das Forças Armadas no Brasil. Simpático ao governo militar, o intelectual foi, ao mesmo tempo, solidário com colegas processados pelo regime. Nas reflexões que fez a respeito da vertente de pensamento desenvolvida pelo sociólogo, o cientista político Gildo Marçal Brandão (1949-2010) chamou-o de “o revolucionário da ordem”, procurando dar conta dos paradoxos que permearam o percurso de Oliveiros, “um homem de direita que citava Lênin e juntava na mesma frase Mao Tsé-Tung e o general Golbery”, conforme escreveu em Linhagens do pensamento político brasileiro (Hucitec, 2007).

O sociólogo Marco Aurélio Nogueira, docente de teoria política na Universidade Estadual Paulista (Unesp), recorda que Oliveiros era considerado um conservador pela esquerda, mas visto como comunista pelo regime militar.

Professor na Universidade de São Paulo (USP), o sociólogo morreu aos 88 anos de causas naturais no dia 21 de outubro, deixando a esposa, Vânia Leal Cintra, e o filho, Afonso Ferreira, fruto de seu casamento com Walnice Nogueira Galvão.

Nascido em 1929 em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, o jornalista graduou-se em ciências sociais pela USP em 1950. Convidado pelo sociólogo Lourival Gomes Machado a ser seu assistente na cadeira de Política, hoje Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), assumiu a função em 1953. Em 1966, Oliveiros defendeu a tese de doutorado “Nossa América, Indoamérica. A Ordem e a Revolução no pensamento de Haya de la Torre”, sobre o político e teórico peruano. Fez a livre-docência com um trabalho sobre o filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937). Aposentou-se da USP em 1983, mas manteve a atividade docente, e foi, ainda, professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O intelectual teve também uma longa carreira como jornalista. Foi diretor do Estadão, onde trabalhou por 48 anos, aposentando-se em 1999. Escrevia análises sobre temas internacionais. Durante boa parte do regime militar (1964-1985), ele fez a interlocução entre os donos do jornal, a família Mesquita, e os censores, que ficavam de plantão nas instalações do Grupo Estado.

“O jornalismo exercido por Oliveiros no Estadão era impregnado de política, desde a pauta até o tratamento dos temas”, avalia o cientista político Carlos Enrique Ruiz Ferreira, professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e organizador de Professor Oliveiros S. Ferreira – Brasil, teoria política e relações internacionais com sua obra (Edusp, 2016), que traz um balanço de sua produção intelectual (ver Pesquisa FAPESP nº 241). Ele avalia que os livros de Oliveiros ajudam a compreender como os militares estiveram imbricados na vida social e institucional brasileira.


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