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Cola ativada por calor pode auxiliar no tratamento de lesões nos olhos

Hidrogel restabeleceu pressão ocular em testes com animais, minimizando o risco de infecções, hemorragias, deslocamento da retina e cegueira

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 15:17 8 de dezembro de 2017

 

Em baixas temperaturas, o hidrogel se mantém em estado líquido. Ao entrar em contato com a temperatura da superfície do olho, solidifica-se, comportando-se como uma cola

Um hidrogel desenvolvido por um grupo internacional de pesquisadores, entre eles o oftalmologista retinólogo brasileiro Paulo Falabella, doutorando no Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), poderá se transformar em um recurso para o tratamento inicial de lesões em que o globo ocular é cortado ou perfurado.

Em geral, nas primeiras horas após esses tipos de acidentes, a pressão intraocular, normalmente em torno de 15 milímetros de mercúrio (mmHg) — unidade de medida usada pelos tonômetros oculares —, despenca para próximo de 0 mmHg. Nessas condições, até que o indivíduo seja submetido a uma cirurgia para suturar a área afetada, os olhos ficam sujeitos a infecções, hemorragias e deslocamento da retina e da coroide. Também a diminuição da pressão ocular pode aumentar o risco de cegueira. Dados coletados nos Estados Unidos indicam que pelo menos 2,5 milhões de acidentes oculares ocorrem todos os anos no país. As lesões envolvendo cortes e perfurações são uma das mais comuns: 10% do total.

O estudo foi coordenado por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos. Eles desenvolveram um polímero não-biodegradável sensível à variação térmica. Em baixas temperaturas, ele se mantém em estado líquido. Mas ao entrar em contato com a temperatura da superfície do olho, cerca de 30 graus Celsius (°C), solidifica-se, comportando-se como uma cola.

A estratégia foi apresentada na quarta-feira (06/12) em um artigo publicado na revista Science Translational Medicine. “O objetivo é fechar a ferida e restabelecer a pressão ocular nas primeiras horas após o acidente”, explica Falabella, que em breve concluirá seu doutorado em dispositivos oculares implantáveis em um programa envolvendo a Unifesp e o Departamento de Oftalmologia da USC. “Em um segundo momento, quando o paciente é submetido à cirurgia, o médico espalha uma substância gelada sobre a cola, que volta a ser líquida, podendo ser removida. Desse modo ele pode suturar a área lesada de forma definitiva”, completa o pesquisador, que desenvolveu e coordenou parte dos experimentos.

A estratégia apresentou bons resultados em testes envolvendo modelos animais com lesões oculares induzidas. Além de não apresentar toxicidade, o hidrogel conseguiu reestabelecer em até 90% a pressão ocular de coelhos. Segundo o oftalmologista brasileiro, o polímero deverá ser testado em seres humanos em até dois anos. A pesquisa foi financiada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que pretende usar a estratégia em soldados em áreas de conflito destruídas ou isoladas, onde o atendimento médico adequado pode demorar mais de um dia.

Artigo científico
BAYAT, N. et al. A reversible thermoresponsive sealant for temporary closure of ocular trauma. Science Translational Medicine. n. 9, v. 3879, p. 1-14. dec. 2017.


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