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As vidas de um artigo fantasma

O paper “A arte de escrever um artigo científico”, do Journal of Science Communications, já recebeu quase 400 citações em artigos indexados na base de dados Web of Science. As citações são reais, mas o artigo é fictício e a revista que o teria publicado jamais existiu. As menções ao paper fantasma revelam a forma viciada com que foram produzidas as referências bibliográficas dos manuscritos.

A origem da confusão é um guia para autores da editora Elsevier, que criou a referência fictícia como modelo de formato e estilo a ser seguido em seus periódicos. “Obviamente, os autores deveriam substituir o texto do modelo por uma referência de verdade”, contou Anne-Wil Harzing, professora da Universidade Middlesex, em Londres, em seu blog. O que ocorreu, segundo diz, é que isso não foi compreendido por autores inexperientes ou com pouco domínio do inglês. Ela reconhece que alguns podem ter esquecido de apagar o modelo depois de concluir a lista de referências.

Segundo Harzing, o artigo fantasma foi descoberto por Pieter Kroonenberg, professor da Universidade de Leiden, na Holanda. Ele reconheceu o nome de um colega, o psicólogo J. Van der Geer, como um dos autores. Ficou intrigado, pois jamais soube do interesse do amigo pelo universo da escrita científica. Logo percebeu que havia algo errado: além de não encontrar o artigo, constatou que o segundo autor do paper, um certo J. Hanraads, só havia publicado esse manuscrito em toda a sua carreira, algo estranho para alguém que se arvora a ensinar a arte de escrever um artigo científico.