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boas práticas

Denúncias anônimas e desculpas frágeis

Imagem: walter regoA revista Oncogene, editada pelo grupo Springer Nature, publicou em outubro um editorial condenando dois comportamentos recorrentes que tumultuam a investigação de fraudes ou falsificações em artigos científicos. Um deles é o costume de denunciar suspeitas de má conduta de forma anônima, em geral por meio de cartas ou e-mails assinados com pseudônimos. “Há razões legítimas para a proteção do anonimato de denunciantes e os detalhes não são revelados às partes envolvidas durante as investigações. Mas é importante que o denunciante se identifique para o editor quando a acusação é feita”, escreveram Justin Stebbing, editor-chefe da revista e pesquisador do Imperial College de Londres, e David Avram Sanders, da Universidade Purdue, nos Estados Unidos. “Isso não significa que denúncias anônimas devam ser ignoradas. Elas devem ser avaliadas em seus méritos. Mas a cultura do anonimato é inconsistente com os valores do empreendimento científico e clínico e precisa ser desencorajada.”

A dupla de editores também criticou de forma áspera e irônica as respostas evasivas que muitos autores dão aos pedidos de esclarecimento motivados por alguma suspeita ou incongruência encontrados em artigos publicados. Stebing e Sanders compilaram uma lista das desculpas mais frequentes. A mais comum é negar a existência do problema mesmo quando as evidências de que uma imagem tenha sido duplicada sejam esmagadoras. Essa estratégia tem nuanças: também há autores que, sem desqualificar totalmente a denúncia, tentam convencer os editores de que imagens obviamente duplicadas não são idênticas e que há pequenas diferenças entre elas, como em um jogo dos sete erros.

Outra resposta frequente, que os autores batizaram de “meu cachorro comeu os dados”, envolve dizer que não há mais como tirar a dúvida porque os dados originais se perderam. Essa desculpa, diz o editorial, pode eventualmente ser válida. “Mas algumas vezes a manipulação é tão evidente que a falta dos dados originais não é circunstância atenuante.” Também é frequente tentar se livrar da culpa atribuindo o problema à inexperiência de pesquisadores juniores ou à falta de familiaridade com padrões de qualidade de colaboradores de outros países, ou então argumentar que a duplicação de dados não compromete os resultados do artigo. Nenhuma delas, contudo, reduz o impacto do erro ou exime o autor de suas responsabilidades.

Por fim, também há quem se faça de vítima e atribua a denúncia à perseguição anônima. “Talvez seja verdade, mas é irrelevante”, avalia o editorial. Afinal, não é porque o pesquisador virou alvo de um desafeto que a fraude ou a falsificação que cometeu se tornará aceitável.