EDITORIAL

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Macacos e modelos

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 263 | JANEIRO 2018

 

As quatro mortes por febre amarela na Região Metropolitana de São Paulo desde dezembro mostram que o atual surto ainda não arrefeceu. Dados  divulgados pela Organização Mundial da Saúde indicam que 779 pessoas foram diagnosticadas com a doença e 262 morreram no Brasil de dezembro de 2016 a agosto de 2017. A vacinação preventiva, que tem sido intensificada, evita um maior número de mortes, mas para isso depende em parte de informações transmitidas pelas mortes de outra população: os primatas silvestres, também suscetíveis à doença, que indicam a chegada do vírus.

Há quase 20 anos, foi proposta pelo Ministério da Saúde a estratégia de acompanhamento das mortes de primatas para identificação das novas áreas de transmissão. Com isso, é possível adotar medidas de prevenção como a vacinação da população humana – não existe versão para os animais – ou o fechamento de parques com matas. Organismos internacionais recomendam vacinar todos os moradores em um raio de 30 quilômetros do ponto em que são identificados animais mortos.

A reportagem de capa desta edição faz um estudo de caso da estratégia adotada em São Paulo, integrando serviços públicos, como a Superintendência de Controle de Endemias, o Instituto Adolfo Lutz, órgãos estaduais, e o Centro de Manejo e Controle de Animais Silvestres, da prefeitura da capital paulista.

Um modelo epidemiológico desenvolvido pela Sucen descreve a velocidade de deslocamento e os prováveis caminhos do vírus pelo país. Esses mapas permitiram a adoção de uma estratégia preventiva de vacinação, concentrada apenas nos moradores das áreas de risco, antes mesmo da identificação de macacos mortos.

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Ampliar o acesso de parte da população ao ensino superior público é o objetivo de uma série de ações, chamadas afirmativas, tomadas por instituições estaduais e federais desde os anos 2000. Reportagem à página 30 aborda, a partir de estudos feitos sobre seus resultados, algumas dessas iniciativas, mostrando a complexidade do desafio de promover a inclusão de uma parcela mais diversificada dos estudantes egressos do ensino médio sem perder de vista a qualidade. O que fica claro é que o vestibular igual para todos não é mais a porta exclusiva de entrada das universidades. Sistemas de bonificação de notas, de reserva de vagas, uso de avaliações governamentais como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) compõem agora um cardápio de alternativas para o ingresso nessas instituições.

A edição deste mês traz plantas carnívoras originárias do que hoje é o Brasil, micromariposas que passam a maior parte de sua vida como larvas ou pupas no interior das folhas que são sua fonte de alimento, o uso de resíduos de cana-de-açúcar, como bagaço e palha, para a produção de papel, entre outros temas. Reportagem à página 80 mostra que São Paulo se tornou a nova Ciudad del Este, meca dos sacoleiros até o início dos anos 2000. A capital paulista tomou do Paraguai o papel de principal distribuidor no Brasil de produtos populares importados da China. Uma parte, no valor de US$ 30 bilhões por ano, entra legalmente; outra, não. Esse fluxo econômico é também migratório: em 2012, já eram 250 mil chineses vivendo no Brasil, dos quais 180 mil em São Paulo. Na fronteira paraguaia viviam 20 mil chineses no começo dos anos 2000, número esse que caiu para 4 mil. De São Paulo, essas mercadorias abastecem mercados populares por todo o país.


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