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O espectro da eugenia na universidade

ED. 264 | FEVEREIRO 2018

 

A University College London (UCL), no Reino Unido, anunciou que irá investigar um pesquisador acusado de promover clandestinamente, no campus da instituição, conferências sobre inteligência e eugenia nos últimos três anos. Os eventos foram organizados por James Thompson, professor do Departamento de Psicologia e Ciências da Linguagem da UCL, que adotava medidas extremas para manter secretas as conferências. Segundo o jornal The Guardian, Thompson informava os convidados sobre o local do evento apenas no último minuto. Os encontros, com no máximo 25 participantes, eram realizados, em sigilo, em uma espécie de sala de espera.

Em 2017, participou do encontro o jornalista Toby Young, designado no início do ano para chefiar o Office of Students, órgão do governo britânico responsável pela regulação do ensino superior. Young foi afastado do cargo após o caso ser revelado pelo jornal London Student no dia 10 de janeiro. Segundo a publicação, Richard Lynn, professor da Universidade de Ulster, Irlanda do Norte, deu palestras nas conferências realizadas em 2015 e 2016, onde teria defendido ideais da supremacia branca.

Em nota divulgada em seu site, a UCL informou que os eventos foram pagos com recursos externos sem que funcionários da instituição fossem notificados:“As conferências não chegaram a ser aprovadas pela UCL. Somos uma instituição comprometida com a liberdade de expressão e com o combate ao racismo e ao sexismo”. A UCL proibiu professores que participaram dos eventos de organizar qualquer tipo de encontro científico até o fim da investigação.

“Os postulados da eugenia ferem a ética na pesquisa ao propor que há raças ou indivíduos superiores a outros, com base em princípios da hereditariedade”, explica a psicanalista Tamara Prior, que concluiu em 2016 um mestrado sobre o tema na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Segundo ela, a eugenia ganhou espaço nos meios científico e intelectual no final do século XIX, após o antropólogo e matemático inglês Francis Galton (1822-1911) cunhar o termo em 1883, em uma obra que propunha métodos de seleção artificial. Perdeu adeptos durante as primeiras décadas do século XX – mas não deixou de exercer influência em muitos ambientes, como o acadêmico e o médico, afirma Francisco Assis de Queiroz, pesquisador do Centro de História da Ciência da USP.

Ele recorda alguns casos notórios. “Na década de 1990, o sociólogo Charles Murray e o psicólogo Richard Herrnstein, dos Estados Unidos, defenderam a ideia de uma suposta inferioridade dos negros em artigos que discutiam inteligência e a estrutura de classes”, explica Queiroz. “Mesmo com documentos como a Declaração de Helsinque e a Convenção de Nuremberg, que tratam de ética em pesquisa em seres humanos e condenam estudos com viés eugenista, alguns pesquisadores continuam promovendo ideias para justificar, de forma determinista e racista, traços como a inteligência.”


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