Memória

Senhora do caos

Há 100 anos, gripe espanhola assolava o mundo, matando 30 milhões de pessoas, 35 mil somente no Brasil

Imagem: Acervo do Memorial do Colégio Marista Arquidiocesano Em fins de 1918, o Colégio Arquidiocesano…Imagem: Acervo do Memorial do Colégio Marista Arquidiocesano

Um sopro virulento vindo da África e da Europa se abateu sobre o Rio de Janeiro em agosto de 1918. De diagnóstico incerto e sintomas variados, o estranho mal tomou de súbito os cariocas, espalhando-se rapidamente para outras regiões do Brasil. Logo se converteu em uma calamidade de proporções inimagináveis. Estima-se que a gripe espanhola, como ficou conhecida, tenha matado 35 mil pessoas no Brasil, entre elas o presidente eleito Rodrigues Alves (1848-1919). No mundo, a moléstia dizimou aproximadamente 30 milhões de pessoas — quase quatro vezes mais que os mortos durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), estimados em 8 milhões.

Um século após a maior pandemia de gripe já conhecida, não se sabe ao certo como tudo começou. Alguns historiadores argumentam que o vírus surgiu na América do Norte e foi levado para a Europa com as tropas que lutaram na guerra. Outros sustentam que o agente infeccioso apareceu na China, em 1917, seguiu para os Estados Unidos e, de lá, foi para a África e Europa, espalhando-se pelo resto no mundo. No Brasil, as primeiras notícias sobre o estranho mal que atingia o mundo começaram a aparecer nos jornais em agosto de 1918, sem, no entanto, despertar a atenção das autoridades públicas.

Vários países censuraram as notícias sobre a epidemia, já que a gripe tinha afetado seus exércitos. Isso fez com que a moléstia fosse conhecida em um primeiro momento como “febre das trincheiras”. Devido à sua posição de neutralidade durante a guerra, a Espanha foi o único país cuja imprensa não fez segredo sobre os estragos causados pela chamada “fiebre de los tres días”, a qual passou a ser conhecida mundialmente como gripe espanhola.

Imagem: acervo do centro pró-memória do club athletico paulistano…e o Club Athletico Paulistano, ambos em São Paulo, foram convertidos em hospitais provisóriosImagem: acervo do centro pró-memória do club athletico paulistano

Os primeiros relatos sobre a doença foram ignorados no Brasil ou tratados com descaso ou em tom pilhérico, conforme verificou a historiadora Adriana da Costa Goulart, em artigo publicado em abril de 2005 na revista História, Ciência, Saúde — Manguinhos sobre os impactos políticos e sociais da epidemia de gripe espanhola no Rio, então capital federal.

A situação começou a mudar com os rumores de contaminação dos tripulantes de dois grupos brasileiros auxiliares dos aliados na Primeira Guerra Mundial: a Esquadra de Patrulha, comandada pelo almirante Pedro Max de Frontin (1867-1939), e a Missão Médica, chefiada por Nabuco de Gouveia (1872-1940), infectados na Europa e na África, respectivamente. A repercussão das notícias sobre a gripe ganhou ainda mais destaque no país quando os tripulantes de outra missão médica a caminho do Senegal, a bordo do navio La Plata, adoeceram um a um do misterioso mal.

Os relatos sugerem que médicos, soldados e oficiais do La Plata se contaminaram em Freetown, em Serra Leoa, em 29 de agosto de 1918. Em 9 de setembro os primeiros corpos foram jogados ao mar. Pouco depois chegaram ao Rio de Janeiro telegramas contando as desgraças da missão. À época, no entanto, é provável que o vírus já circulasse entre os brasileiros, que ainda não haviam percebido a dimensão que a epidemia viria a ter no país.

Imagem: acervo da revista da semana na hemeroteca digital brasileira Presos recrutados para trabalhar como coveiros e no transporte de cadáveresImagem: acervo da revista da semana na hemeroteca digital brasileira

Alguns autores sustentam que o agente causador da espanhola, como também era chamada, aportara dias antes no Brasil a partir do paquete inglês Demerara, que deixou passageiros contaminados nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Seja como for, a gripe rapidamente se espalhou. Apresentava-se com sintomas que iam de barulho nos ouvidos, dores de cabeça e febre a calafrios, vômitos com sangue acompanhados de perturbações nos nervos cardíacos, infecções no intestino, nos pulmões e nas meninges. Acometia sobretudo os indivíduos entre 20 e 40 anos, levando as vítimas, em poucos dias, a sufocações, diarreias, dores lancinantes e, no extremo, ao coma e à morte.

Os médicos não sabiam como lidar com a doença. “Receitavam sobretudo o quinino para tentar conter a epidemia”, diz o historiador Claudio Bertolli Filho, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Os institutos Oswaldo Cruz e Butantan também anunciaram o desenvolvimento de uma vacina contra a moléstia, que nunca ficou pronta”, diz o pesquisador, autor do livro A gripe espanhola em São Paulo, 1918: Epidemia e sociedade (Paz e Terra, 2003). Diante da ineficiência das drogas indicadas nos receituários, práticas caseiras antigas ganharam força. Vários médicos aproveitaram para fazer dinheiro. Isso desencadeou o aparecimento de remédios nunca vistos, ou que durante a epidemia ganharam atribuições curativas para a influenza. Já as autoridades públicas limitavam-se a orientar a população a evitar lugares de aglomeração.

Logo as principais cidades do país se viram perto de um colapso. Como na Paris de 1889, quando uma epidemia de gripe atirou ao leito dois terços da população, no Rio, a doença derrubou três quintos dos cariocas. “Em uma cidade com quase 1 milhão de habitantes, 600 mil pessoas ficaram enfermas, das quais 15 mil morreram”, ressalta o historiador Ricardo Augusto dos Santos, da Casa Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz (COC-Fiocruz). “As pessoas morriam em casa, na rua e no trabalho”, conta o pesquisador, autor de um artigo publicado em março de 2006 na revista História, Ciência, Saúde — Manguinhos sobre as manifestações simbólicas coletivas acerca da espanhola no Rio.

Imagem: acervos do correio da manhã e da revista da semana na hemeroteca digital brasileira Manchete do jornal Correio da Manhã no auge do surto de gripe espanhola, em outubro de 1918Imagem: acervos do correio da manhã e da revista da semana na hemeroteca digital brasileira

Os relatos da época são terríveis: famílias desamparadas, muitos com fome, crianças esfomeadas sugando o seio da mãe morta, ataques às padarias, armazéns e bodegas por aglomerados de esfaimados, que roubavam enquanto tossiam. “Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível já não era o número de causalidades, mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse aos cemitérios, quem abrisse covas e enterrasse os mortos”, escreveu o médico e memorialista mineiro Pedro Nava (1903-1984) em seu livro Chão de ferro (1976). “Era muito defunto para os poucos coveiros do trivial — assim mesmo desfalcados pela doença. Foram contratados amadores a preços vantajosos. Depois vieram os detentos.” O escritor se referia aos presos recrutados para trabalhar como coveiros e no transporte de cadáveres.

A doença chegou a São Paulo em meados de outubro, com uma equipe de futebol vinda do Rio. “Assim como fez nos outros estados do Brasil, o Serviço Sanitário paulista apressou-se em afirmar que estava apto a socorrer os adoentados e a precaver a sociedade da infecção pela moléstia”, diz Bertolli Filho. “No entanto, como no Rio, a gripe logo expôs a inoperância da política de saúde de São Paulo e a ignorância do saber médico sobre a terapêutica e a forma de transmissão.”

Imagem: acervos do correio da manhã e da revista da semana na hemeroteca digital brasileira Caixões empilhados em cemitério do Rio à espera da abertura de novas covasImagem: acervos do correio da manhã e da revista da semana na hemeroteca digital brasileira

Pouco mais de 12 mil pessoas morreram no estado de São Paulo durante os dois meses em que a epidemia permaneceu ativa no Brasil. Segundo os relatos da época, carroças passavam pelas ruas do centro da cidade recolhendo cadáveres nas casas e ruas, onde os corpos permaneciam à espera de sepultamento. As igrejas interromperam seus rituais, enquanto nos cemitérios se abriam valas comuns para enterrar, sem caixões, os corpos amortalhados em lençóis. À época, clubes de lazer, colégios e igrejas se transformaram em hospitais provisórios para atender os enfermos, como é o caso do Club Athletico Paulistano, que ficou fechado por conta da epidemia entre novembro e dezembro de 1918. Em seu salão de festas foi montado um hospital temporário.

A situação instaurada pela espanhola foi encarada como fruto de negligência, descaso e incompetência administrativa do governo, que não sabia lidar com as ameaças que intimidavam o país, argumenta Adriana Goulart. “A morosidade em estabelecer medidas profiláticas e as limitações estruturais que afetavam as instâncias de saúde durante o combate à epidemia de gripe despertaram a ira popular sobre diversos personagens do governo, sobretudo o presidente Wenceslau Braz (1868-1966) e o então diretor da Saúde Pública, Carlos Seidl (1867-1929)”, escreveu.

Seidl foi classificado pelos jornais da época como um “cretino, relapso e sedicioso”, que apenas contava o tempo para sua aposentadoria, e cuja “inveterada inércia e dogmatismo de velho burocrata possibilitaram que a epidemia fosse recebida festivamente pela Saúde Pública”, deixando a população entregue à própria sorte. A proporção alcançada por essas críticas fez com que a moléstia passasse a ser conhecida no Rio como “mal de Seidl”.

Imagem: wikicommons Alojamento em campo de treinamento do Exército dos Estados Unidos no estado do Kansas tomado por vítimas da influenzaImagem: wikicommons

Ele foi demitido em outubro de 1918 e substituído pelo médico Theóphilo de Almeida Torres (1863-1928), que nomeou o médico Carlos Chagas (1879-1934) para encabeçar os serviços de combate à influenza espanhola. Diante do fracasso em descobrir o agente causador da gripe, Chagas fez o possível na emergência: dotou a cidade de maior número de leitos para os desamparados, estabeleceu regimes de quarentenas e isolamento para os navios que aportavam no país e notificações compulsórias de casos da doença.

Assim como veio, a gripe espanhola foi embora. Seu ciclo epidêmico se esgotou nos primeiros meses de 1919. Se por um lado a moléstia provocou milhões de mortes e insatisfação com as elites governantes, por outro desencadeou uma revalorização do conhecimento sanitário. O vírus da influenza só foi isolado em 1933. Em 1944 pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolveram a primeira vacina contra gripe.