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Arqueobotânica

Os primeiros agricultores na Amazônia

Vestígios arqueológicos revelam o cultivo de plantas a partir de 9 mil anos atrás

Cachoeira de Teotônio em 2011, antes da construção da barragem: barreira intransponível para barcos

Eduardo Góes Neves / USP

Próximo a Porto Velho, Rondônia, a floresta amazônica dá lugar a uma região de povoados e lavouras. Mais do que evocar desmatamento recente, neste caso o exercício interessante é imaginar como pode ter sido o cenário há alguns séculos, quando colonizadores europeus percorriam a região e deixaram relatos de águas violentas e uma riqueza de peixes que alimentavam povos indígenas da região. Muito antes disso, por volta de 9 mil anos atrás, ali já era um ponto de encontro de povos e de plantio de alimento, conforme revela artigo publicado este mês na revista PLOS ONE. “Nossos achados no sítio arqueológico de Teotônio estão entre os indícios mais antigos de plantio de feijão, abóbora e mandioca no Brasil”, afirma a arqueóloga britânica Jennifer Watling, que fez o trabalho durante estágio de pós-doutorado no grupo de Eduardo Góes Neves no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

Modificado a partir de WATLING et. al, PLOS ONE

Ali o rio Madeira se alarga em uma represa, larga extensão de água amarronzada, que alimenta a usina hidrelétrica de Santo Antônio (ver mapa). Até 2013 a paisagem era bastante diferente, com as águas revoltas da cachoeira do Teotônio que certamente já era um marco importante nos tempos pré-colombianos. “Temos uma série de indícios de que os habitantes alteraram a paisagem manejando árvores e cultivando plantas domesticadas”, conta Jennifer. Significa que queimavam a floresta para abrir espaços habitáveis onde plantavam as primeiras culturas de plantas domesticadas. Estudos anteriores já davam pistas dessa prática por meio de dados genéticos (ver Pesquisa FAPESP nº 253), mas a arqueologia agora confirma. Em dois pontos de escavação, os arqueólogos catalogaram fragmentos vegetais carbonizados e vestígios de plantas conhecidos como fitólito, além de grãos de amido aderidos a ferramentas líticas (de pedra), indicando cultivo e consumo.

Entrevista: Jennifer Watling
     

A mandioca (Manihot esculenta), hoje parte corriqueira da dieta em todo o país, parece ter sido cultivada e eventualmente domesticada na região entre 8 mil e 10 mil anos atrás, antes de se espalhar pela Amazônia e outras regiões, mas o grupo não encontrou amostras nessa camada mais profunda da escavação. O que descobriram foi que nesses tempos mais antigos também era cultivado outro tubérculo ainda hoje comum na região, provavelmente o ariá (Calathea allouia). “Ainda não consegui confirmar a identificação, porque falta comparar com algumas espécies de Calathea que existem naquela área”, diz Jennifer. A planta produz algo parecido com batatinhas, mas não é possível definir como eram consumidas. “Provavelmente punham na fogueira.”

Fernando Almeida / UFS Equipe de arqueólogos durante escavaçãoFernando Almeida / UFS

Vestígios desse período também revelam a colheita de piquiá (Caryocar), goiaba (Psidium) e castanhas-do-pará (Bertholletia excelsa), cujas cascas aparentemente eram em seguida jogadas na fogueira. “A goiabeira é uma árvore que cresce em áreas onde a floresta foi perturbada, então sua presença ali indica um ambiente em processo de domesticação”, explica a arqueóloga. A coleta de frutos dos arredores pode significar também que essas árvores já eram cuidadas e manejadas, atingindo densidades maiores do que seria natural.

O plantio da mandioca se tornou mais comum e deixou testemunhos detectados no estudo, por volta de 7 mil anos atrás. Coincide com a confecção da chamada terra preta antropogênica, um solo enriquecido produzido pelos índios, cuja presença mais antiga foi detectada nessa região do alto rio Madeira. Fragmentos com idade entre 5.500 e 6.500 anos atrás são o primeiro registro do cultivo conjunto de feijão (Phaseolus) e abóbora (Cucurbita). É especialmente curioso porque essas plantas não são dali, tendo sido domesticadas nas partes baixas da cordilheira dos Andes e na América Central. É provável que seu cultivo em Teotônio tenha exigido uma adaptação agrícola para as condições distintas daquelas em que se originaram. Jennifer conta que também encontrou muitos vestígios de palmeiras – mas das folhas, não dos frutos. “Ainda temos que estudar melhor, mas poderia ser material usado para fazer os tetos das casas”, sugere.

Fernando Almeida / UFS Terra preta feita por populações que faziam cerâmica aparece em corte resultante de abertura de estrada em 2016Fernando Almeida / UFS

A presença de plantas vindas de longe são mais um testemunho da importância cultural da cachoeira de Teotônio, à qual chegavam viajantes de vários lugares. O alto Madeira é crucial para o estudo dos povos indígenas amazônicos por ser um entroncamento entre a Amazônia, o Pantanal e os Andes, de acordo com artigo publicado em 2017 na Revista Brasileira de História pelo arqueólogo Fernando Almeida, da Universidade Federal de Sergipe e coautor do estudo da PLOS ONE, e seu então estudante de mestrado Thiago Kater. De acordo com eles, as cachoeiras tinham um valor simbólico que atraía pessoas vindas de longe. Ali encontravam recursos alimentares importantes nos peixes que abundavam nas águas rápidas. Teotônio também era uma barreira intransponível para quem viajava de barco, sendo necessário seguir por terra até o fim das corredeiras. A isso tudo se devem milênios de ocupação humana, que agora começa a ser revelada pela arqueologia (ver Pesquisa FAPESP nº 267).

Fernando Almeida / UFS Eduardo Góes Neves, coordenador do projeto, durante escavação em 2016Fernando Almeida / UFS

“Os habitantes do sítio tiveram milhares de anos para fazer experimentos com diferentes plantas, muitas das quais trazidas de longe por viajantes que pararam no entroncamento da Cachoeira do Teotônio”, diz Almeida. “As plantas identificadas por Jennifer Watling e Myrtle Shock são apenas uma pequena amostra das experiências realizadas nesse laboratório.”

Projeto
Interações pré-colombianas homem-ambiente na bacia de Alto Madeira, sudoeste da Amazônia (nº 14/21207-5); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Góes Neves (USP); Bolsista Jennifer Watling; Investimento R$ 283.011,12.

Artigos científicos
WATLING, J. et al. Direct archaeological evidence for Southwestern Amazonia as an early plant domestication and food production centre. PLOS ONE. on-line. 25 jul. 2018.
ALMEIDA, F. O. de e KATER, T. As cachoeiras como bolsões de histórias dos grupos de indígenas das terras baixas sul-americanas. Revista Brasileira de História. v. 37, n. 75, p. 39-67. 2017.