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SBPC

Em busca de novos públicos

Associação de cientistas visa jovens, profissionais liberais e empresas para ampliar seu alcance social

Acervo SBPC

Nos próximos anos, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) pretende ser mais propositiva – e não apenas lidar com problemas urgentes da ciência e da educação – e diversificar seu público para além dos pesquisadores de universidades e centros de pesquisa, atraindo mais jovens, professores, estudantes e profissionais liberais. Outra meta é buscar novas fontes de receita e ter mais autonomia financeira para levar adiante suas ações em defesa da ciência e da educação, realizar as reuniões anuais e regionais, manter a revista Ciência e Cultura e o Jornal da Ciência e ampliar a atuação nas redes sociais. Hoje, verbas públicas são a principal fonte de recursos da instituição.

Alguns sinais de mudança já são visíveis. Neste ano, em vez de apenas convidar os candidatos a presidente da República para debater seus planos sobre ciência e tecnologia, educação e outros temas, a SBPC, em conjunto com outras instituições acadêmicas, elaborou propostas de políticas públicas para essas áreas – como a construção de um Plano Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação – e as entregou para os presidenciáveis, com o propósito de colaborar em seus programas de governo.

Ao mesmo tempo, blogueiros e profissionais de mídias sociais se tornaram mais assíduos na sede da instituição, no Centro de São Paulo. Com a ajuda dos jovens, a SBPC pretende ampliar os canais de comunicação com o público e aumentar a participação nas redes sociais, hoje restrita a 180 mil seguidores no Twitter e a 30 mil no Facebook. “Nossa comunicação está ainda centrada em pesquisadores e professores do ensino superior”, diz o físico Ildeu de Castro Moreira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da associação. “Temos de conquistar outros públicos, em especial os jovens, com conteúdo acessível e de qualidade.”

A criação de novas fontes de receita ainda está em estudos. Segundo Moreira, o orçamento era instável até 2008, quando a SBPC e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) passaram a ter uma dotação básica no Orçamento da União, em função de suas atividades como entidades de interesse público e da participação em conselhos e comissões governamentais. Mas, como reflexo dos cortes recentes na área de ciência e tecnologia, o orçamento do governo federal para a SBPC caiu de R$ 3,3 milhões em 2017 para R$ 1,9 milhão em 2018.

A SBPC já teve 20 mil associados na década de 1970 e hoje tem por volta de 6 mil. As anuidades variam de R$ 65, para estudantes de pós-graduação e professores de ensino básico, a R$ 130, para professores ou pesquisadores de universidades e instituições de pesquisa e outros profissionais. As reuniões anuais são pagas por centros de pesquisa, órgãos de governo e empresas que participam da ExpoT&C, exposição complementar às palestras. A mais recente, em julho deste ano em Maceió, custou R$ 4 milhões.

Uma das possibilidades cogitadas para diminuir a instabilidade financeira é atrair empresas para apoiarem a agremiação. A SBPC aproximou-se de empresas ao longo das discussões iniciadas em 2010 para a elaboração do Marco Legal da Ciência e Tecnologia, aprovado em 2016 e regulamentado em 2018 (ver Pesquisa FAPESP no 265). “Houve muita convergência sobre as estratégias para diminuir a burocracia e apoiar a inovação no país, mas há também divergências”, diz Moreira. “A CNI [Confederação Nacional da Indústria] era a favor da Emenda Constitucional no 95, que congela os gastos públicos, inclusive para ciência e tecnologia, e nós contra”, exemplifica.

Em 2017, a AAAS, dos Estados Unidos, recebeu doações de cerca de 1.200 pessoas, empresas ou instituições do governo

A ABC está sujeita à mesma oscilação financeira: o orçamento federal para a instituição caiu de R$ 4,2 milhões em 2017 para R$ 2,4 milhões em 2018, sem a garantia de que todo o dinheiro será liberado. “O orçamento aprovado para 2018 coloca a ABC em posição muito vulnerável”, comenta Fernando Verissimo, chefe de gabinete da instituição.

A Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), dos Estados Unidos, tem fontes de receita diversificadas. Fundada em 1848, a AAAS reúne cerca de 200 mil sócios; em 2017, recebeu US$ 9,4 milhões de anuidades, US$ 55,8 milhões de publicidade de suas seis revistas, entre elas a Science, US$ 22 milhões de financiamentos e programas públicos e US$ 11 milhões de investimentos, além de doações de cerca de 1.200 pessoas, empresas ou instituições do governo, cujas contribuições variam de US$ 500 a mais de US$ 100 mil, de acordo com o relatório financeiro publicado em seu site.

Além de publicações e encontros científicos, a AAAS mantém desde 1973 um programa de bolsas para pesquisadores em instituições governamentais, de modo a participarem da formulação e implantação de políticas públicas. O Science & Technology Policy Fellowships já apoiou 250 pesquisadores, dos quais 47% foram contratados pelas instituições ao final do contrato, além de ter permitido aos legisladores “acrescentar valor aos seus trabalhos”, de acordo com um editorial da Science de abril de 2018.

Quarta e última reportagem sobre os 70 anos da SBPC.

Artigo científico
MAXON, M. E. e ALBERTS, B. Science for state legislatures. Science. v. 360, n. 6384, p. 9. 6 abr. 2018.