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Resenhas

Os caminhos de leitura da poesia

Percursos da poesia brasileira – Do século XVIII ao XXI | Antonio Carlos Secchin | Editora Autêntica | 368 páginas | R$ 59,80

O conjunto de ensaios que dá forma à obra Percursos da poesia brasileira – Do século XVIII ao XXI resulta da intensa relação que seu autor mantém com esse gênero literário. Excetuando-se os inéditos “Gonçalves Dias: Poesia e etnia”, duas partes de “Álvares de Azevedo: Morfeu & a musa”, “Cenas do baile”, “As ruas” e “Ferreira Gullar: Essa voz somos nós”, trata-se de reunião de ensaios escritos entre 1996 e 2014 e publicados em outros livros do poeta, crítico e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Antonio Carlos Secchin. Todos pretendem ser retomados mediante outro princípio de leitura, sob outra imagem daquilo que o autor denomina “a poesia brasileira”. Tomou-se como princípio organizativo a releitura de sua própria obra a partir de distanciamento crítico em relação a si mesmo. Age por semelhança ao princípio com o qual João Cabral de Melo Neto, em 1982, operara a leitura crítica de sua poesia na antologia por ele mesmo organizada: Poesia crítica: Antologia. Como Cabral – que assumiu o ofício do antologista como atividade crítica –, o livro de Secchin não se pretende doador de um sistema formalizado de teoria literária cujos fundamentos estejam calcados na historiografia tradicional, contudo investe em contabilizar os “efeitos” que esses mesmos textos, relidos em outro momento, obtiveram nesse “amadurar” inexorável que o tempo impõe às coisas. A partir da visão de conjunto dos ensaios reunidos, observa-se que a imagem da poesia brasileira ali conformada é algo em processo, vale dizer, não está restrita a uma imagem congelada nem mesmo evoluída no tempo, porque são incluídos no rol de obras analisadas alguns livros e autores que não configuram no cânone histórico-literário, destacando-se nele as obras contemporâneas.

O próprio autor declara que os textos foram escritos com a motivação de obter uma justificativa para se ler determinado poeta em contextos históricos específicos. Mesmo estando orientada por um princípio de leitura no qual o primado das questões estéticas foi dominante, a construção dos argumentos teve que lidar com aquilo que não era propriamente estético no modo de analisar. A releitura histórica – mesmo que sem intenção revisionista – já se insere em outra área do saber que não a da estética moderna. Se tomamos o qualificativo “estético” na faculdade de julgar as obras, constatamos que é resultado de uma equação entre os problemas suscitados pelas grandes questões humanas e, portanto, subjetivas, e os meios expressivos – diga-se, no caso da poesia, a capacidade de reconhecimento das possibilidades materiais que a língua oferece ao sujeito para a construção do belo. O sentimento informa a harmonia e o equilíbrio entre essas funções cognitivas: subjetivas e formais.

Julgar a obra é reconhecer nela essas questões. Nesse sentido, julgar é uma prática que tem a ver com o ato de identificar-se, pressupondo-se que esses valores sejam universais. Quando esses ensaios, escritos sob a égide do estético entendido desse modo, são recolocados em outra cena, o valor que prima é o do histórico, que é impessoal e está regido por outros valores formais. A antologia dos ensaios que seleciona e renomeia sua obra cria nova obra ensaística, uma vez que está inserida em temporalidade outra. A ideia de pensar historicamente sua própria produção ensaística é confirmada pelos termos “percursos” e “do século XVIII ao XXI”. No sumário, constata-se a referência às datas originais de publicação. Em “Poesia e desordem” (1996) declara-se a necessidade de a poesia situar-se no presente, não deixando de ser o que ela é, e, com “Memórias de um leitor de poesia” (2010), aposta na leitura aberta a infinitas combinações. O percurso de leitura se inicia com a poesia de Tomás Antônio Gonzaga – diga-se, marco da substância de literatura brasileira, conforme a definição estabelecida pela obra de Antonio Candido –, finalizando com “Paulo Henriques Britto, desleitor de João Cabral” (2014), tomado como uma tentativa de incluir sua poesia nessa mesma ideia de literatura brasileira, uma vez que retoma criticamente a poesia de Cabral – última obra a consolidar o cânone nacional –, portanto, encontrando-se a obra de Henriques Britto, desde logo, incluída nessa tradição.

Susana Scramim é professora titular de teoria literária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autora de Alteridades na poesia: Riscos, aberturas, sobrevivências (Editora Iluminuras).