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Obituário

Um editor à frente de seu tempo

Jacó Guinsburg foi responsável por revelar ao Brasil autores que se tornariam clássicos

Léo Ramos ChavesReferência no mercado editorial brasileiro, o crítico de teatro e escritor Jacó Guinsburg morreu no dia 21 de outubro, aos 97 anos, vítima de insuficiência renal, em São Paulo. Guinsburg nasceu na cidade de Rîscani, na Moldávia – que na época fazia parte da Bessarábia (Europa Oriental) –, e tinha apenas 3 anos quando, em 1924, sua família se mudou para o Brasil. Foram morar no Bom Retiro, bairro paulistano conhecido por abrigar imigrantes judeus.

“Temos uma grande dívida com Jacó. Quando inaugurou a Perspectiva, ele estabeleceu um novo conceito do que deveria ser uma editora de ciências humanas”, avalia o filósofo Jézio Gutierre, diretor-presidente da Fundação Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Seu pioneirismo está relacionado não apenas ao notável layout gráfico, mas especialmente à estruturação de um catálogo incrível, com os mais influentes autores em atividade.”

Em uma época em que as novidades culturais chegavam via Correio, e apenas para um restrito grupo de intelectuais, Guinsburg lançou a coleção Debates, com obras traduzidas de ensaístas que começavam a despertar a atenção de círculos europeus, na área das ciências humanas, como Umberto Eco (1931-2016), Roman Jakobson (1896-1982), Max Bense (1910-1990), Fernand Braudel (1902-1985), dentre outros. O ensaio Obra aberta, de Umberto Eco, por exemplo, foi publicado no Brasil, pela Perspectiva, seis anos depois de seu lançamento, em 1962.

A maior e mais importante coleção da editora, com 362 títulos lançados, é a Estudos. “O modelo da Perspectiva era tão moderno na época, desde o projeto gráfico até as notas analíticas, que a editora teve fôlego para atravessar mais de cinco décadas de grandes mudanças sociais e culturais”, analisa Gutierre. Outras coleções de destaque são a Stylus, dedicada a analisar em profundidade correntes estéticas, e a Signos, voltada à poesia, dirigida primeiro por Haroldo de Campos (1929-2003) e, após sua morte, por seu irmão Augusto de Campos, além da Textos, de clássicos, com a obra completa de Spinoza (1632-1677) e grande parte da obra de Diderot (1713-1784).

“Estamos falando de livros que se tornaram fundamentais na estante de qualquer intelectual, universitário ou pesquisador”, completa Jean-Claude Bernardet, crítico de cinema e professor emérito da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Os dois aprofundaram a colaboração no fim dos anos 1960, quando Bernardet propôs a Guinsburg a tradução de um livro de semiologia cinematográfica.

Cultura judaica
“Meu marido tinha muito orgulho da coleção Judaica, que englobou, no plano ficcional e do pensamento, a produção dos quatro milênios de existência do povo judeu”, diz Gita, a viúva de Guinsburg. Nessa área, a Perspectiva iniciou no Brasil a publicação de estudos acadêmicos sobre a Cabala, editando a obra de Gershom Sholem (1897-1982). Gita está à frente da Perspectiva desde que a saúde do marido começou a se complicar, há pouco mais de um ano. Fisicamente mais frágil, ele passou a ficar mais tempo em casa, mas sem interromper sua produção.

Autodidata, desde jovem Guinsburg era considerado um intelectual. Nos anos 1940, escrevia sobre “letras judaicas” para o então Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo. Em 1954, foi convidado por Jean-Paul Monteil (1907-1973) para trabalhar na recém-criada editora Difel. Foi graças à Difel que conseguiu realizar um estágio de dois anos na França (1961-1963). Nesse período, aproveitou para frequentar conferências e cursos, como os de Roland Barthes (1915-1980) e do filósofo Lucien Goldmann (1913-1970). Foi a vontade de revelar o pensamento filosófico, político e social da literatura de seu povo, aliás, que o levou a montar a editora Perspectiva, em outubro de 1965, com um grupo de amigos. A editora tem hoje mais de 1.150 títulos publicados.

“Ele nunca parou de criar, de pensar em novos projetos”, conta o amigo Plínio Martins, que trabalhou com Guinsburg por 18 anos na Editora Perspectiva, tornando-se depois diretor-presidente da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e atualmente professor do curso de editoração da ECA-USP, responsável pelo setor de publicações da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e editor da Ateliê Editorial.

Há dois anos, Guinsburg mostrou a Martins alguns poemas que estava escrevendo. “Quando eu li, disse que gostaria de publicá-los. Depois de hesitar um pouco, ele acabou aceitando, com entusiasmo, o convite. Era um verdadeiro jogo de palavras, com ótimos e divertidos poemas”, conta.

Martins refere-se à coletânea Jogo de palavras, lançada este ano e que revela o humor e a ironia de Guinsburg, aspectos de sua personalidade conhecidos apenas pelos amigos mais próximos. No livro, o autor compara a própria poesia à ninharia e, sem compromisso literário, festeja o time do Corinthians, por exemplo. Crítico contumaz, faz um paralelo entre o reino de Pasárgada, da poesia de Manuel Bandeira, ao “reino” de Brasília: “Vou-me embora pra Brasília,/lá sou amigo da lei,/terei o dinheiro que eu quero/no banco que escolherei…”.

No ano passado, Martins e alunos de Guinsburg fizeram um sarau para a leitura das provas do livro. “Com tudo fechado para a edição, ele queria incluir mais alguns novos poemas que havia escrito nas últimas semanas”, conta Martins. “E essa não foi a primeira vez que isso aconteceu”, diverte-se, ao relembrar o fato. “Tive de colocar um limite, caso contrário não finalizaríamos o livro nunca.”

Mente iluminista
Apaixonado pelo teatro russo, Guinsburg deu aulas na Escola de Arte Dramática (EAD) e no Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP. Aposentou-se em 1991. Uma década depois, recebeu o título de professor emérito. “Um dos livros que ele mais gostava era A cena em aula, que publicou pela Edusp”, conta Gita. O livro surgiu quando um de seus alunos na disciplina de estética teatral gravou, em 1985, algumas aulas. A transcrição da exposição do conteúdo, os debates e as intervenções, somados a artigos de especialistas sobre Guinsburg, resultaram na obra.

Para Gita, a coragem foi sua principal característica. “Ele sempre teve coragem de editar tudo o que pudesse levar à construção de uma mente iluminista”, resume, lembrando um de seus versos “iluminados”: “O animal em mim/diz que chegou ao fim/…é o bloco do serafim chamando a alma para o festim/da vida eterna do querubim”.