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Resenhas

Patrimônio e barroco na América Latina

Patrimônio colonial latino-americano: Urbanismo, arquitetura, arte sacra | Percival Tirapeli | Edições Sesc | São Paulo | 320 páginas | R$ 115,00

O Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) deve reconhecer o privilégio de ter em seu corpo docente um dos maiores intelectuais do barroco no Brasil. Percival Tirapeli inaugurou, em 1987, o chamado movimento Barroco Memória Viva, o qual comporta atividades de extensão e de pesquisas potencializadoras do pensamento e das práticas relativas à arte e ao urbanismo barrocos no país. Sua obra Arte sacra colonial – Barroco memória viva é uma referência nacional desse movimento idealizado, consagrado e mantido por Tirapeli. O trabalho versou, em consideração às expressões do barroco paulista, baiano, mineiro e carioca, sobre aspectos da arquitetura e do urbanismo, da ornamentação, da literatura e da música, com a colaboração de autores como Murillo Marx, Wolfgang Pfeiffer, João Adolfo Hansen, dentre outros.

Decorridas mais de três décadas da primeira publicação do Barroco memória viva – um vasto período de intensa atividade acadêmica e intelectual do autor –, Tirapeli nos brinda agora com outro oportuno e indispensável estudo, ampliando, grandemente, os escopos geográfico e tipológico do barroco em sua análise. Em Patrimônio colonial latino-americano: Urbanismo, arquitetura, arte sacra, Tirapeli reconhece o barroco como “estilo exuberante de formas quando se trata de patrimônio colonial da América Latina”. Nesse extenso, denso e bonito livro, o autor totaliza, dilata e singulariza esse estilo, sobretudo por dois objetos, considerando suas muitas variantes continentais: a igreja e o espaço urbano. Surpreende sua capacidade de estabelecer conexões interpretativas sobre as regras da arte barroca advindas dos modos de vida europeu e aqueles que se reproduzem no continente latino-americano.

O livro contempla dezenas de sítios latino-americanos e caribenhos declarados patrimônio da humanidade, os quais Tirapeli percorreu em busca de fontes documentais, imagéticas e bibliográficas. Sua capacidade investigativa de universalização e de síntese das informações possibilitou-lhe trafegar pelo continente realizando uma conectividade de espaço-tempo. Por exemplo, foi capaz de totalizar expressões artísticas urbanas singulares e distintas, que vão dos ornamentos ultrabarrocos equatorianos (churriguerescos), o “melhor da escola quitenha”, à ornamentação de Santa Maria de Tonantzintla, considerada obra máxima do barroco exuberante na Nova Espanha (México), do urbanismo de plano em quadrícula (espanhol) ao urbanismo vernacular (português), modelos e teorias nas quais o catolicismo ganhou espaço considerável, para a projeção das utopias imaginativas e feitoras do Novo Mundo.

O empenho e o êxito de Percival Tirapeli está em traçar o panorama de um patrimônio colonial barroco na América Latina no qual a pintura, a escultura e o urbanismo são estudados e retratados metodologicamente, vinculados à economia e à política espaciais coloniais. Como afirma o próprio autor, “as análises das artes coloniais suplantam as divisões geográficas, como na península Ibérica, fazendo profundas distinções entre Espanha e Portugal. Nas Américas, no entanto, deve-se adotar o conceito das fronteiras coloniais, e não o dos países criados pós-independência. Sem se considerar essa divisão colonial, há o risco de se perpetuar os interesses escusos da política e da economia”. Tirapeli, pela arte e aos moldes do escritor peruano Mario Vargas Llosa (na exposição Revelaciones), consegue situar o barroco (patrimônio colonial) como um dos elementos estimulantes da reflexão e do debate sobre a unidade da e na América Latina.

O livro recém-lançado torna-se leitura obrigatória para todo tipo de pesquisa que inquira as artes visuais coloniais das Américas espanhola e portuguesa. Percival Tirapeli faz entender por sua obra, pela experiência vivida e pelo espaço percebido no continente, que a riqueza da expressão barroca se revela no conteúdo da miscigenação das crenças localizadas, da sede da conquista europeia e das estratégias artísticas visuais coloniais, as quais nunca deixaram de aproximar o divino e os mortais.

Everaldo Batista da Costa é professor do Departamento de Geografia do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília (IH-UnB) e líder do grupo de pesquisa Cidades e Patrimonialização na América Latina e Caribe (Gecipa-UnB).