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Carta da editora | 276

Conhecimento para todos

A revista Philosophical Transactions of the Royal Society, da academia britânica de ciências, é o mais antigo veículo de divulgação de pesquisas científicas em atividade. Fundada em 1665, com exemplares vendidos a 1 xelim, tinha o objetivo de apresentar sistematicamente um panorama das novidades em filosofia natural. Nascida de uma iniciativa pessoal do primeiro secretário da associação, fundada cinco anos antes, a Transactions tornou-se uma publicação oficial da Royal Society no século XVIII. Outras sociedades do conhecimento seguiram o mesmo caminho e, no século XIX, revistas científicas comerciais começaram a proliferar.

A divulgação dos resultados de pesquisas é essencial para o processo de produção de conhecimento, pois permite que dados e ideias sejam discutidos e usados para o avanço das diferentes áreas. Hoje, milhares de periódicos científicos divulgam anualmente milhões de artigos apresentando resultados de estudos. As revistas variam nas disciplinas contempladas, nos procedimentos de seleção dos textos, nas restrições impostas à leitura dos artigos que publicam e na forma de circulação.

O mercado editorial científico é hoje um negócio lucrativo: pesquisa publicada em 2015 no periódico de acesso aberto PLOS ONE mostrou que cinco editoras comerciais foram responsáveis por 50% dos artigos publicados em 2013. Uma delas, a holandesa Elsevier, que tem um portfólio de 2.500 revistas, declarou lucro de £ 900 milhões apenas do braço do conglomerado dedicado a ciência e tecnologia em 2017.

Importante limitação do modelo predominante é a cobrança pela leitura dos artigos, restrição essa que vai na contramão da lógica de difusão rápida e ampla do conhecimento, base do seu avanço. Outra questão é que as pesquisas, ao menos no caso das ciências básicas, são maciçamente financiadas com recursos públicos. A comunidade acadêmica vem desenvolvendo alternativas, como as revistas de acesso aberto, que poupam os leitores do pagamento de assinaturas, ou as híbridas, em que os artigos ficam disponíveis para assinantes, embora o autor possa pagar uma taxa extra para que seu trabalho seja divulgado sem restrições.

A movimentação pela mudança no sistema atual de comunicação científica ganhou um reforço de peso, a União Europeia (UE). A reportagem de capa apresenta o Plan S, iniciativa do bloco para garantir que pesquisas pagas com dinheiro público estejam amplamente disponíveis. Além da força de seu próprio orçamento para a ciência, de € 100 bilhões para o período de 2021 a 2027, a UE recebeu apoio de instituições filantrópicas como o Wellcome Trust e a Fundação Gates. Previsto para entrar em vigor em 2020, o Plan S ainda precisa enfrentar as críticas de parte da comunidade científica, que defende a liberdade de publicação, e a oposição das editoras comerciais, além de definir mecanismos de transição. Resta saber se o Plan S conseguirá promover a mudança radical que está propondo.

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O governo anunciou, em 8 de janeiro, a saída do país do Pacto Global sobre Migração, ratificado em dezembro de 2018 pela Assembleia Geral da ONU. O tema é controverso e sujeito a percepções errôneas da realidade. Dados do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério do Trabalho mostram que o Brasil é, na verdade, um país de emigrantes – há 1,2 milhão de estrangeiros no país e 3 milhões de brasileiros vivendo no exterior. Para contestar estereótipos, equipe multidisciplinar da University College London e da revista The Lancet revisou evidências científicas sobre migração e saúde, com resultados instigantes, relatados em reportagem à página 74.

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