| © Eduardo Cesar |
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| Depois do deslumbramento, trabalho minucioso em casa |
Expedição paulistana - O Beagle deu a volta ao mundo em sua trajetória de descoberta. Quem sai da avenida Paulista, mais de 170 anos depois, e desce a rampa que leva ao subsolo do Masp, caminha cinco minutos mas também se sente viajar a outro mundo. O barulho das buzinas dos carros e o burburinho da rua aos poucos desaparecem substituídos por sons de insetos, cantos de passarinhos, iguanas vivas, esqueletos e orquídeas de diversas formas e cores, que mergulham o visitante num ambiente tropical.
Ao percorrer a exposição no subsolo do Masp, o visitante percebe o mesmo que Darwin observou: espécies distintas têm semelhanças intrigantes, e as diferenças entre elas são igualmente inspiradoras. A carapaça dos imensos jabutis de Galápagos muda ligeiramente de uma ilha para outra. O mesmo acontece com o bico dos tentilhões, aves que Darwin coletou sem dar a devida atenção a registrar a localidade precisa onde cada espécime foi coletado. Ao dar-se conta de que a forma do bico das aves variava conforme a ilha de origem, Darwin e seus auxiliares tiveram que reconstituir a informação que depois veio a se tornar um dos exemplos mais marcantes da relação entre as espécies e o ambiente que ocupam. Essas semelhanças e diferenças entre as espécies, que se tornam naturalmente óbvias ao longo da exposição, puseram Darwin no caminho de explicar o que ele chamou de mutabilidade das espécies.
Além da ciência, a mostra – com reproduções de fotografias, cartas, diários e manuscritos – traz de volta à vida o homem Charles Darwin. Ele aparece no menino que aos 10 anos de idade contava as flores das peônias do jardim a pedido do pai – eram 160 em 1819, 384 em 1820, 363 em 1821. Também era Darwin o rapaz que se deslumbrou com a exuberância natural dos trópicos e mais tarde listou em seu caderno os prós e os contras da vida conjugal, antes de optar por pedir sua prima Emma Wedgwood em casamento, a quem escreveu: “Eu acredito que você me humanizará e logo me ensinará que há uma maior alegria do que construir teorias e acumular fatos no silêncio e na solidão”.
O casamento talvez tenha humanizado Darwin, que gozava das rotinas estabelecidas, do lar bem mantido, das sessões de gamão e de leitura de cartas com a companheira. O casal teve dez filhos, que o pai cientista observava e cujo desenvolvimento registrava como se fossem experimentos. Mas nem só de ciência se alimentava o coração do cientista pai: a morte da filha Annie aos 10 anos, de tuberculose, causou uma dor profunda que abalou definitivamente a fé de Darwin em Deus.
Trabalho solitário - Mas a suposta humanização, se de fato apresentou alegrias maiores a Darwin, não parece ter tirado nada do seu prazer em “construir teorias e acumular fatos”. A teoria da evolução exigiu mais de 20 anos de trabalho, isolado no escritório cuja réplica está na mostra paulistana. Ao observar o gabinete com seus móveis e objetos é fácil imaginar que Darwin acaba de abandonar a observação de besouros ou caramujos e sai para um passeio de reflexão no caminho de areia que percorria um bosque em sua propriedade – também reproduzido no Masp na forma de fotografias em movimento, de modo que o visitante tem a impressão de também passear por ele. Em contraste com a ciência altamente tecnológica do século XXI, a teoria da evolução por seleção natural tomou forma à custa de muito refletir e observar animais e plantas com pouco mais do que a ajuda de uma lupa.