| © Frederick Williams |
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| Oscilação da atividade cerebral em ratos antes (esq.) e após estimulação da medula espinhal |
Quando as drogas capazes de estimular a produção do neurotransmissor dopamina deixam de fazer efeito, os pacientes com mal de Parkinson contam hoje com um último recurso terapêutico para reduzir seus tremores persistentes e disfunções motoras: submeter-se a uma cara e delicada cirurgia para implantar um neuroestimulador no cérebro. Os médicos fazem um orifício no crânio e instalam eletrodos na região cerebral associada ao controle dos movimentos. Dos eletrodos saem fios conectados ao neuroestimulador propriamente dito, aparelho que funciona como “bateria” do sistema e é normalmente implantado na região da clavícula, no peito ou até no abdome. Todo esse pequeno aparato fica escondido sob a pele do paciente. Estima-se que cerca de 55 mil pessoas com Parkinson ou outros problemas motores em todo o mundo já recorreram à cirurgia para introduzir essa espécie de marca--passo cerebral, conhecida no jargão médico como deep brain stimulation (DBS, na sigla em inglês).
A estimulação profunda do cérebro é um avanço da medicina, mas seu emprego pode se tornar ainda mais seletivo no futuro próximo se a pesquisa neurológica mostrar que é possível obter resultados semelhantes sem a necessidade de abrir o crânio e introduzir eletrodos no cérebro das pessoas. No mês passado, um trabalho coordenado por um neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis, da Universidade Duke (EUA) e fundador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), deu um importante passo nessa direção e obteve grande repercussão internacional. Por meio de pequenos eletrodos instalados num ponto da medula espinhal de ratos e camundongos que apresentavam distúrbios de movimento similares aos enfrentados pelas pessoas com Parkinson, os cientistas estimularam eletricamente a coluna dorsal da medula espinhal dos animais e, dessa forma, restituíram-lhes a capacidade normal de locomoção. “Os roedores responderam à estimulação elétrica de forma quase instantânea”, diz Nicolelis. “O procedimento cirúrgico dura apenas 20 minutos e é seguro. É só abrir a pele e colocar os eletrodos na superfície da medula espinhal.”
Trata-se da primeira candidata a terapia contra Parkinson que atua não sobre o cérebro, onde a doença se origina devido à morte ou mau funcionamento dos neurônios que produzem o neurotransmissor dopamina, imprescindível ao pleno controle dos movimentos, mas sobre outro ponto do sistema nervoso. Os promissores resultados do estudo com roedores foram relatados num artigo que ganhou a capa da edição de 20 de março da Science, uma das revistas científicas de maior prestígio internacional. Nicolelis acredita que a nova abordagem poderá ser uma boa alternativa à estimulação profunda do cérebro. “A DBS é uma cirurgia com um certo risco e que só pode beneficiar uma parcela dos pacientes, os casos mais graves”, comenta o neurocientista. “Nosso procedimento é mais simples e poderia ser útil para pessoas em qualquer estágio da doença.”