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	<title>Revista Pesquisa Fapesp &#187; História</title>
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	<description>Revista Pesquisa Fapesp</description>
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		<title>A imprensa sensacionalista e a ciência</title>
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		<pubDate>Tue, 14 May 2013 15:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Jornal vespertino de Assis Chateaubriand divulgava tecnologia como parte do projeto de extinguir “atraso” brasileiro]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_117524" class="wp-caption alignright" style="width: 234px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/078-081_DivulgCIentifica_207-1.jpg" rel="lightbox[117523]" title="A imprensa sensacionalista e a ciência"><img class="size-medium wp-image-117524" alt="Anúncio da chegada  de uma bomba de rádio para hospital paulistano e a discussão dos cientistas brasileiros sobre a bomba H " src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/078-081_DivulgCIentifica_207-1-224x300.jpg" width="224" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Anúncio da chegada de uma bomba de rádio para hospital paulistano e a discussão dos cientistas brasileiros sobre a bomba H</p></div>
<p>Na década de 1950, os discos voadores, que ainda não se chamavam UFO, sobrevoavam a praça da Sé; a chegada da bomba de rádio, “com dez grs. do metal, pela primeira vez na América do Sul”, era saudada com uma manchete maior do que a greve dos funcionários contra o regime de oito horas; e os paulistas eram alertados de que “à altura de 63 mil pés o sangue ferve”, perspectiva terrível que atrasava a “batalha pela conquista de um novo mundo”. Num país em que ainda não havia revistas especializadas em divulgação científica e o rádio era o principal meio de comunicação de massas, a ciência corria solta pelas páginas do <i>Diário da Noite</i>, vespertino paulistano que pertencia a Assis Chateaubriand e era um dos mais importantes do poderoso império dos Associados.</p>
<p>“Como muitos na época, Chateaubriand tinha uma agenda de união nacional pela modernização do país. Para ele, isso passava diretamente pelo fim da ‘ignorância’ das massas populares, seja atacando o espiritismo e as religiões de origem africana, a que chamava de ‘macumba’, seja pela ciência que acabaria com o ‘atraso’ nacional”, explica a historiadora Mariza Romero, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “O <i>Diário da Noite</i> passou a divulgar informações científicas para leitores leigos e nada familiarizados com a tecnologia. O interessante é que o jornal não tinha uma página fixa ou um suplemento para isso, mas colocava a ciência no meio de seções de polícia, política, esportes e, muitas vezes, como manchete”, diz Mariza.</p>
<p>A pesquisadora, que já havia estudado a atuação do vespertino sensacionalista em questões religiosas, sociais e policiais em <i>Inúteis e perigosos</i> (Educ/FAPESP), agora analisa a sua pauta científica em <i>Divulgação científica e imprensa popular</i>. “Entre 1950 e 1960, o <i>Diário da Noite</i> conseguiu uma divulgação científica mais ampliada em termos de educação para as massas do que muitos dos cadernos e páginas especializadas que estavam aparecendo pela imprensa brasileira, mais formais, e que só chegavam a um público muito restrito.”</p>
<p>Financiado por empresários, industriais e fazendeiros paulistas, o vespertino de Chateaubriand, com feição sensacionalista desde sua fundação, em 1925, nos anos 50 contava com equipamentos de ponta, profissionais experientes, articulistas internacionais, reportagens de impacto e notícias de primeira mão, destacando-se as páginas policiais e os escândalos. Com uma tiragem de 70 mil exemplares e duas edições, tornou-se um dos jornais de maior circulação em São Paulo.</p>
<p>“O <i>Diário da Noite</i> criou um vínculo forte com as classes populares, que, com a redemocratização e o aumento do consumo, passaram a ser vistas, por um lado, como protagonistas da prática política e, por outro, como as camadas que precisavam ser tuteladas”, fala Mariza.</p>
<p>Assim, nota a pesquisadora, ao mesmo tempo que se dizia alinhado às reivindicações populares, “defensor do povo”, o vespertino se ligava aos setores da burguesia que se preocupavam com a emergência dessas massas. “Por causa do seu suposto vínculo com a população, o <i>Diário da Noite</i> não se voltava abertamente contra a luta das massas. Mas mostrava o tempo todo quem não tinha lugar no futuro que estava chegando e quem eram aqueles que apesar de sempre convidados a ‘entrar’ na modernidade estavam fora dela”, conta a historiadora.</p>
<p>A orientação desenvolvimentista dos governos após o Estado Novo apresentava para a sociedade a ciência como instrumento fundamental para conduzir o país ao progresso econômico e à tão almejada modernidade. Além disso, no Brasil dos anos 1950, as novidades tecnológicas como eletrodomésticos, automóveis, medicamentos e máquinas agrícolas chegavam ao incipiente mercado consumidor nacional. Era a ciência a serviço do homem, como diziam as propagandas: “Mil e novecentos técnicos altamente especializados criaram especialmente para você a ‘super máquina’ Vigorelli, aerodinâmica”, diz um anúncio de máquina de costura do <i>Diário da Noite</i>. Em outro, uma lata de tinta era saudada como “sensacional descoberta da química” e o leitor era convidado a “cientificar-se das excepcionais características” do novo produto.</p>
<div id="attachment_117525" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/078-081_DivulgCIentifica_207-2.jpg" rel="lightbox[117523]" title="A imprensa sensacionalista e a ciência"><img class="size-full wp-image-117525" alt="O Diário da Noite discute como o homem poderia chegar à Lua e coloca a ciência até mesmo nos anúncios" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/078-081_DivulgCIentifica_207-2.jpg" width="290" height="107" /></a><p class="wp-caption-text">O Diário da Noite discute como o homem poderia chegar à Lua e coloca a ciência até mesmo nos anúncios</p></div>
<p>“As ideias desenvolvimentistas empolgavam o Brasil na era JK e sobre este fundo ideológico mais amplo estava a ideia de que o desenvolvimento tecnológico possibilitaria abrir o único caminho para a real independência econômica do país”, observa Luisa Massarani, da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, em <i>Um gesto ameno para acordar o país: a ciência no </i>Jornal do Commercio<i> (1958 – 1962)</i>, editado pela Fiocruz. Na primeira edição do suplemento, o seu coordenador, Walter Oswaldo Cruz, observou: “O Brasil não se desenvolverá sem técnicos, e técnicos são o produto humano da ciência”.</p>
<p>“A divulgação científica brasileira tem peculiaridades. Nunca houve grandes investimentos estatais em ciência e tecnologia e tampouco na educação científica, o que deixou para os meios de comunicação a tarefa de apresentar a ciência para uma população com baixo índice de alfabetização tecnológica”, observa Ana Maria Ribeiro de Andrade, pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), do Rio de Janeiro, e autora de <i>A dinâmica da ciência na sociedade</i> (Hucitec/Mast). “Assim, apesar de alguns esforços individuais, o sensacionalismo é a principal característica dessa divulgação. A construção dos fatos científicos aparece sempre envolta em mistérios, a genialidade está sempre presente em todas as descobertas e a história está quase sempre ausente”, avalia Ana.</p>
<p>No caso dos jornais de Chateaubriand,<br />
lembra Mariza, havia uma mistura estranha de sensacionalismo e divulgação real como na manchete de primeira página: “Enxerga o jovem com os olhos do padre morto”. Com o título em letras garrafais, semelhante ao das reportagens sobre milagres, comuns no jornal, tudo fazia crer que se tratava de uma matéria sem nenhuma consistência. Mas o conteúdo da reportagem, que durou três dias, denota pesquisa, com informações precisas num texto bem escrito, aparentemente um verdadeiro paradoxo, que, no entanto, demonstrava ser uma boa estratégia para atrair o leitor.</p>
<p><b>Crianças<br />
</b>Em outra edição, o título avisa que cientistas brasileiros vão discutir os efeitos da bomba H. “Curiosamente, a chamada foi colocada bem acima da notícia de que ‘as crianças vão sofrer sem leite’ e, com certeza, na época chamou mais atenção do que a questão local das mães furiosas com a política”, observa a pesquisadora.</p>
<p>O caso da bomba H também revela a dualidade do jornal sobre a ciência, vista ao mesmo tempo como panaceia para os problemas do país, mas não isenta de muitos perigos. “Repercute entre os pesquisadores o documento dos sábios americanos”: a possibilidade de que a energia nuclear tivesse efeitos adversos levou o vespertino a conversar com professores da USP. Constrangido, um especialista como o físico Marcelo Damy afirma que “o assunto foge ao campo de sua especialidade” e se pronunciou “de forma geral contra o uso de armas atômicas para fins belicosos”. “José Goldemberg, da ‘Faculdade de Filosofia de São Paulo’, falou ‘ligeiramente’ à reportagem sobre os efeitos danosos da radioatividade.” “Muitos cientistas não gostavam de se ver associados a jornais como o <i>Diário da Noite</i> para não macular sua reputação”, nota Mariza. Essa fraca articulação entre a comunidade científica e o jornal permitiu que assuntos candentes na mistura de desenvolvimentismo e Guerra Fria decolassem.</p>
<p>Alguns literalmente, como os discos voadores, que frequentaram muitas capas do vespertino de Chateaubriand. “A imprensa brasileira foi incapaz de oferecer aos leitores informações suficientes para que eles pudessem reconhecer fenômenos celestes e objetos voadores corriqueiros. Sem um <i>background</i> científico, muitos ficaram à mercê das especulações de jornais sensacionalistas”, observa o historiador Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos, que pesquisou o tema em <i>A invenção dos discos voadores. Guerra Fria, imprensa e ciência no Brasil (1947-1958)</i>. Por isso, nos matutinos, voltados para classe média e alta, como <i>O Estado de S. Paulo</i> ou a <i>Folha da Manhã</i>, não deram tanto espaço a esse tipo de questão, mais atentos à possibilidade de que se tratasse de uma questão bélica.</p>
<p>Em geral se divulgou a ideia de uma ciência grandiosa e inacessível ao cidadão comum, com muitos mitos e cientistas isolados em sua complexidade. “Era uma muralha entre ciência e leitor pela mitificação da atividade científica que, ao lado da idealização de figuras, não predispôs o brasileiro a estudar ciência”, avalia Ana.</p>
<p>“Creio que o <i>Diário da Noite</i>, pelo contrário, aproxima a ciência do leitor, justamente pelo uso de recursos jornalísticos mais populares e, inclusive diferentemente dos outros meios de divulgação científica, expressa também os medos e angústias contemporâneos com relação ao desenvolvimento científico. Ele contribui assim para desmistificar a ciência, o que, creio, é um dos diferenciais da minha pesquisa”, nota Mariza.</p>
<p>Assim, para a pesquisadora, o <i>Diário da Noite</i> ao se definir como porta-voz das massas populares pretende, através da divulgação científica, tirá-las da ignorância, promovendo os ideais de conforto, bem-estar e de felicidade, tão caros aos anos dourados, sendo a ciência uma das portas de entrada para a modernidade. “Por outro lado, ela é desmistificada quando o jornal denuncia seus riscos e perigos, e ainda entretém o imaginário coletivo quando trata de forma ambígua temas como o dos discos voadores”, nota a autora.</p>
<p><strong>Projeto</strong><br />
Divulgação científica e imprensa popular. São Paulo e Rio de Janeiro nos anos 50 (2011/13246-2); <strong>Modalidade:</strong> Bolsa no Exterior; <strong>Coord.:</strong> Mariza Romero (PUC-SP); <strong>Investimento:</strong> R$ 22.266,26 (FAPESP).
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/078-081_Divulgacao_207.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A imprensa sensacionalista e a ciência' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/a-imprensa-sensacionalista-e-a-ciencia/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A imprensa sensacionalista e a ciência' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/a-imprensa-sensacionalista-e-a-ciencia/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A imprensa sensacionalista e a ciência' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/a-imprensa-sensacionalista-e-a-ciencia/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A imprensa sensacionalista e a ciência' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/a-imprensa-sensacionalista-e-a-ciencia/' displayText='share'></span></p>
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		<title>O passado emerge</title>
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		<pubDate>Tue, 14 May 2013 15:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabrício Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Política]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Digitalização de arquivos da repressão política em São Paulo terá impacto na pesquisa e  na investigação de violações de  direitos humanos]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_117204" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-117204" alt="Acervo do Deops de São Paulo: referência para as comissões da Verdade" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/030-034_Arquivos-DEOPS_207-1.jpg" width="290" height="186" /><p class="wp-caption-text">Acervo do Deops de São Paulo: referência para as comissões da Verdade</p></div>
<p>O Arquivo Público do Estado de São Paulo lançou no começo de abril o <a href="http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoriapolitica/" target="_blank">portal Memória Política e Resistência</a>, que permite a consulta pela internet de mais de 314 mil fichas e 12,8 mil prontuários – num total de 1 milhão de imagens – produzidos por órgãos de vigilância política do estado de São Paulo entre 1924 e 1999, período que abrange duas ditaduras (1937-1945 e 1964-1985). O trabalho de digitalização já alcançou 10% do total de páginas desses acervos preservados pelo arquivo e vai continuar nos próximos anos. O material disponível na <i>web</i> faz parte de três conjuntos de documentos. Um deles é o acervo do Departamento de Ordem Política e Social de Santos, composto por 80 metros lineares de documentos mantidos de maneira ilegal no Palácio da Polícia de Santos até 2010, quando foram recolhidos. Também há fichas e prontuários do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops), principal órgão da polícia política paulista, extinto em 1983, cujo acervo, formado por 1.173 metros lineares de documentação, foi transferido para o Arquivo Público do Estado há 23 anos. Por fim, há documentos do Departamento de Comunicação Social (DCS), que assumiu atribuições que pertenciam ao Deops e funcionou entre 1983 e 1999.</p>
<p>A digitalização teve apoio da FAPESP, que destinou R$ 1,69 milhão à modernização dos laboratórios do arquivo por meio do programa Apoio à Infraestrutura de Pesquisa do Estado de São Paulo. O Ministério da Justiça e a Casa Civil da Presidência da República também destinaram recursos à iniciativa. “As pessoas podem ter acesso de casa, não tem nenhuma senha, é tudo público. É muito importante no sentido de transparência e de informação para as famílias das vítimas do período da ditadura”, destacou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, na solenidade de lançamento. Trata-se de um marco no resgate da memória da repressão e da resistência política, e tem importância tanto para o trabalho de historiadores quanto para o da Comissão Nacional da Verdade e de comissões estaduais e municipais criadas para investigar violações dos direitos humanos. “A nossa Comissão da Verdade é a única no século XXI. Nós vamos ter acesso a tecnologias que nenhuma das 40 comissões anteriores no mundo tiveram”, afirmou o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, coordenador da Comissão Nacional da Verdade.</p>
<p>Como as comissões da Verdade no país foram criadas mais de 25 anos após o final do regime militar, a identificação de documentos é vital para a reconstrução dos fatos, uma vez que muitas testemunhas morreram ou não se lembram de detalhes capazes de elucidar crimes. “Os documentos devem ajudar sobretudo nos casos de mortos e desaparecidos, para encontrar peças que faltam no quebra-cabeça da investigação. Essa é a principal expectativa em relação a esses arquivos”, diz a cientista política Glenda Mezarobba, consultora e pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade. Segundo Ivan Seixas, coordenador da Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo, documentos do acervo do Deops têm auxiliado o trabalho de investigação da entidade. Ele cita um exemplo: a análise de seis livros datados dos anos 1970 que registram entradas e saídas da sede do Deops sugere ligações entre um diplomata norte-americano e um representante da indústria com os serviços de repressão política. Os livros apontam visitas frequentes do cônsul dos Estados Unidos em São Paulo na época, Claris Rowney Halliwell, e de Geraldo Resende de Matos, cujo cargo é identificado como “Fiesp” – a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo nega, porém, que Matos  tenha feito parte de seu quadro de funcionários. “São documentos que mostram o dia a dia do Deops”, diz Seixas. Ele aponta o benefício que a digitalização do acervo está trazendo para comissões criadas em municípios. “Já existem comissões em Santos, Bauru e Campinas. A possibilidade de obter documentos pela internet vai facilitar o trabalho dessas comissões municipais”, afirma.</p>
<div id="attachment_117210" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-117210" alt="Scanner planetário, que copia documentos sem deteriorá-los, foi usado na digitalização de documentos do acervo do Deops de Santos" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/030-034_Arquivos-DEOPS_207-5.jpg" width="290" height="99" /><p class="wp-caption-text">Scanner planetário, que copia documentos sem deteriorá-los, foi usado na digitalização de documentos do acervo do Deops de Santos</p></div>
<p>A digitalização também propiciará um inédito cruzamento de informações. “Com documentos reunidos em banco de dados, é possível cruzar informações diversas e localizar agilmente referências sobre qualquer pessoa perseguida pelo Deops”, diz o historiador Lauro Ávila Pereira, diretor do Departamento de Preservação e Difusão do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Será possível, utilizando recursos avançados de programação, fazer buscas inteligentes dentro do conjunto de documentos. “Se encontramos, por exemplo, um determinado padrão de documento que contenha informações relevantes sobre um desaparecido político, podemos fazer uma busca por outros documentos com aquele mesmo padrão, na esperança de elucidar outros casos”, diz Glenda Mezarobba. Ela participa de um subgrupo incumbido de utilizar técnicas computacionais de <i>e-Science</i>, usadas para obter resultados através de computação intensiva, e explorar grandes conjuntos de dados digitais com o objetivo de encontrar informações que contribuam para a elucidação de violações de direitos humanos. Glenda licenciou-se no ano passado do cargo de diretora da área de Ciências Humanas da FAPESP para atuar na comissão. Nesse subgrupo, ela trabalha com Roberto Marcondes Cesar Júnior, professor do Departamento de Ciência da Computação da USP e coordenador adjunto da Diretoria Científica da FAPESP. Cerca de 16 milhões de páginas do arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI) também estão sendo digitalizados. “O ideal seria termos todos os arquivos do país digitalizados. É comum encontrar cópias de um documento desaparecido de um arquivo no acervo de outro”, diz Lauro Ávila.</p>
<p>A disposição do Arquivo do Estado de tornar público o acervo na internet ampara-se na Lei de Acesso à Informação, de maio de 2012, que removeu obstáculos para a divulgação de documentos. A lei determina que “documentos que versem sobre condutas que impliquem violação dos direitos humanos praticada por agentes públicos ou a mando de autoridades públicas não poderão ser objeto de restrição de acesso”. A partir dos anos 1990, acervos de órgãos de repressão começaram a ser transferidos para arquivos estaduais. Mas, com exceção de São Paulo, o acesso na maioria dos estados só ocorreu nos anos 2000 – e, ainda assim, a consulta é frequentemente restrita a pesquisadores e familiares que comprovem vínculo com os documentos. “No caso do Arquivo do Estado de São Paulo, nós apenas pedimos a quem consulta o acervo pela internet que tome cuidado com o uso que poderá vir a fazer com informações sobre a vida privada de terceiros”, diz Carlos Bacellar, o coordenador do arquivo, que é professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. “A privacidade só pode ser aberta caso ajude a esclarecer fatos. Se a informação não esclarece nada e escancara detalhes da vida pessoal, perde o interesse social.”</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-117212" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/030-034_Arquivos-DEOPS_207-4.jpg" width="290" height="209" />A digitalização do conteúdo completo dos prontuários começou pelo acervo do Deops de Santos, encontrado em 2010, por se tratar de um conjunto de documentos desconhecido de pesquisadores e familiares de presos e desaparecidos políticos. “Começar pelo material de Santos fazia sentido pela novidade, uma vez que o grande acervo do Deops paulista já vinha sendo explorado desde meados dos anos 1990”, diz Lauro Ávila. O resgate do arquivo de Santos é um capítulo curioso da recuperação da memória. A descoberta do acervo, guardado numa delegacia de polícia na cidade, foi noticiada pelo jornal <i>Folha de S. Paulo</i> na edição de 26 de fevereiro de 2010, uma sexta-feira, e desencadeou uma operação relâmpago. O então secretário da Casa Civil do governo paulista, o hoje senador Aloysio Nunes Ferreira, e o secretário de Justiça, Luiz Antonio Marrey, determinaram que técnicos do Arquivo do Estado fossem imediatamente a Santos e tirassem os documentos de lá. O receio era de que a publicidade em torno da descoberta levasse pessoas envolvidas na repressão a remover documentos comprometedores, um tipo de mazela que desfalcou boa parte dos acervos.  “Conseguimos um caminhão emprestado da própria Polícia Civil e, às 3 horas da madrugada de sábado, as caixas com todos os documentos estavam em São Paulo”, lembra Lauro Ávila.  O estado das fichas e prontuários era bastante precário. Foi necessário mais de um ano para que os documentos fossem tratados e digitalizados. Há indícios de que contém documentos não disponíveis em outros arquivos. Foi encontrado, por exemplo, um inédito conjunto de fichas de zeladores e porteiros de prédios de Santos, que eram obrigados a informar a polícia sempre que alguém alugava um apartamento na cidade. “Os zeladores eram obrigados a atuar como informantes e pediam aos inquilinos que preenchessem uma ficha com a relação de moradores do imóvel”, diz Ávila.</p>
<p>Equipamentos foram comprados no exterior para acelerar a digitalização. “A FAPESP foi fundamental, não só pelos recursos, mas também pelo apoio que deu na importação de equipamentos. Eles foram adquiridos muito mais rapidamente do que se fôssemos comprar de outra forma”, diz Carlos Bacellar, o coordenador do arquivo. Atualmente, uma equipe de 10 técnicos, utilizando os equipamentos, consegue digitalizar quase 2 mil imagens por dia. Entre os equipamentos adquiridos destacam-se um <i>scanner</i> planetário, que permite copiar documentos sem deteriorá-los, e um outro tipo de <i>scanner</i> que permite a gravação da imagem original em microfilme.</p>
<p>A digitalização terá um papel importante na ampliação do acesso de pesquisadores aos arquivos da repressão política. Alguns historiadores já se debruçaram sobre os arquivos do Deops paulista. Maria Aparecida de Aquino, professora do Departamento de História da FFLCH/USP, lançou cinco livros, dentro da série Radiografias do Autoritarismo Republicano Brasileiro, editado pela Imprensa Oficial de São Paulo, que resultaram de seu trabalho de mapeamento e sistematização do acervo do Deops, apoiado pela FAPESP entre 1998 e 2002. “Havia um complexo código alfanumérico em cada uma das 9.626 pastas que consultamos. Deciframos esse código, com o trabalho de uma equipe de 20 bolsistas, coordenada e acompanhada por mim e por dois de meus doutorandos”, relembra a professora. “Conservamos o material trocando as pastas nas quais eles se encontravam, limpamos, colocamos papel neutro para proteger e entregamos um banco de dados completamente informatizado”, diz.</p>
<div id="attachment_117214" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-117214" alt="Livros sobre o acervo do Deops: formação de pesquisadores" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/030-034_Arquivos-DEOPS_207-9.jpg" width="290" height="420" /><p class="wp-caption-text">Livros sobre o acervo do Deops: formação de pesquisadores</p></div>
<p>Quem aproveitou de forma contínua o arquivo foi Maria Luiza Tucci Carneiro, professora do Departamento de História da FFLCH/USP. Interessada em temas como racismo e antissemitismo, obteve do arquivo nos anos 1990 autorização para analisar as fichas e prontuários com bolsistas de iniciação científica, mestrado e doutorado. “Montamos no arquivo as Oficinas de História, com até 60 estudantes trabalhando com o material por mais de uma década. Era uma aula de história ao vivo”, diz ela. “Mais de 40 pesquisadores foram formados nesse esforço, que resultou em uma dezena de dissertações, oito teses de doutorado e várias publicações, como 14 inventários de documentos.”</p>
<p>Um dos desafios, diz a professora, foi decifrar a lógica do discurso do repressor e delimitar até que ponto ele expressa a verdade e onde começa a ficção, construída para justificar a intolerância e etiquetar o crime político. “O primeiro passo foi compreender o conceito de crime político, que favorecia a vigilância, a perseguição e o encarceramento de um cidadão indesejável por suas ideias. O crime de ideias se configura a partir do momento em que o pensamento assume uma forma física, ou seja, pode ser identificado através da produção de conhecimentos, da propaganda política impressa em livros ou panfletos, confiscados como prova do crime”, afirma. Entre 1995 e 1996, Maria Luiza começou a usar o arquivo do Deops num projeto financiado pelo Instituto Goethe sobre mulheres judias expulsas do Brasil no governo Vargas. Em seguida, obteve apoio da FAPESP para dois projetos temáticos que resultaram numa série de inventários e na criação de um arquivo virtual com documentos selecionados por temáticas específicas.</p>
<p>Sob sua orientação, uma equipe de 30 pesquisadores digitou a partir de 1999 o conteúdo de mais de 185 mil fichas do Deops. “Na época não tínhamos equipamentos nem uma base de dados capazes de efetuar uma busca avançada junto às fichas policiais e a opção foi digitar”, diz. Desde o ano 2000, as fichas nominais podem ser consultadas no <i>site</i> do Proin (www.usp.br/proin), sigla para Projeto Integrado Arquivo do Estado/ USP. Também foram colocadas no <i>site</i> as primeiras páginas digitalizadas dos jornais, panfletos e livros confiscados durante os autos de busca nas residências dos suspeitos ou das associações comunitárias ou políticas. Sob a coordenação do professor Boris Kossoy, da Escola de Comunicação e Artes da USP, o Proin desenvolveu um inventário de fotografias confiscadas dos álbuns de família ou produzidas pelo Laboratório de Fotografia do Gabinete de Investigação/Deops, que eram anexadas aos prontuários e dossiês.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/030-034_Deops_207.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='O passado emerge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/o-passado-emerge/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='O passado emerge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/o-passado-emerge/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='O passado emerge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/o-passado-emerge/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='O passado emerge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/14/o-passado-emerge/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil</title>
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		<pubDate>Fri, 03 May 2013 20:33:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[Artes Visuais]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Professor Marcelo Ridenti fala sobre as relações entre cultura e política]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O professor Marcelo Ridenti, do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conversa no programa Pesquisa Brasil desta semana sobre o projeto: &#8220;Artistas e intelectuais comunistas na consolidação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil&#8221;.</p>
<p>O pesquisador investiga as relações entre cultura e política com a intermediação do Partido Comunista a partir dos anos 1950, tema abordado pela reportagem <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/04/12/revolucao-cultural-a-brasileira/" target="_blank"><em>Revolução à brasileira</em>, publicada na edição de abril da revista Pesquisa Fapesp número 206</a>.</p>
<p>Autor e organizador de livros como &#8220;O fantasma da revolução brasileira, de 1993&#8243; e &#8220;Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV&#8221;, o pesquisador Marcelo Ridenti apresenta uma seleção musical especial sobre o assunto.</p>
<p><b>Programação Musical:</b><br />
Mistério do Planeta – Novos Baianos<br />
Feio não é bonito – Nara Leão<br />
A Rã – Gal Costa<br />
Samba em paz – Caetano Veloso<br />
Roda &#8211; Gilberto Gil</p>
<p><i>Apresentação: Fabrício Marques<br />
Produção e roteiro: Biancamaria Binazzi<br />
Gravação e Montagem: Beto Alves (Rádio USP)</i></p>
<p><em>Pesquisa Brasil</em> vai ao ar todas as sextas-feiras às 13:00, pela <a href="http://www.radio.usp.br/" target="_blank">Rádio USP</a>.<br />
<a href="http://feeds.feedburner.com/podcastrevistapesquisafapesp" target="_blank">Assine <em>Pesquisa Brasil</em> como podcast!</a></p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/PESQUISA-37-RIDENTI.mp3" target="_blank">Baixar o MP3</a><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/category/multimidia/podcast/" target="_blank"><em><br />
Veja aqui o arquivo do Pesquisa Brasil</em></a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span></p>
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		<item>
		<title>Revolução cultural  à brasileira</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Apr 2013 20:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Artes Visuais]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Política]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos anos 1950, cultura e política tiveram ligação de mão dupla que interessava  a artistas e ao Partido Comunista]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_113418" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-113418" alt="O cineasta Nelson Pereira dos Santos durante a filmagem de Como era gostoso o meu francês (1971)" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/04/081-083_PC-e-cultura_206-1.jpg" width="290" height="186" /><p class="wp-caption-text">O cineasta Nelson Pereira dos Santos durante a filmagem de Como era gostoso o meu francês (1971)</p></div>
<p>Na década de 1950, o Brasil se modernizava e partidos e movimentos de esquerda, bem como movimentos artísticos, acreditavam na possibilidade de uma revolução brasileira, nacional-democrática ou socialista. “Artistas e intelectuais tiveram um papel expressivo na construção da utopia de uma ‘brasilidade revolucionária’, que permitiria realizar as potencialidades de um povo e de uma nação”, diz Marcelo Ridenti, professor de sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mas até hoje a compreensão dessa relação, entre política e cultura, é complexa e inclui nomes de peso do panteão cultural que foram comunistas, como: Jorge Amado, Nelson Pereira dos Santos, Caio Prado Jr., Nora Ney, Dias Gomes, Jorge Goulart e Di Cavalcanti, entre outros. “É um problema que não cabe numa equação simples que supõe a militância comunista de artistas e intelectuais como parte de um desejo de transformar seu saber em poder. Tampouco se pode supor que houvesse mera manipulação dos intelectuais pelos dirigentes do Partido Comunista Brasileiro [PCB]”, explica o professor, que analisou a questão no projeto <i>Artistas e intelectuais comunistas na consolidação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil</i>.</p>
<p>“Num momento como o atual, em que as pesquisas evitam a politização dos temas, é importante recuperar como cultura e política se aproximaram num período turbulento como aquele, entre os anos 1950 e 1970”, observa o pesquisador. Segundo Ridenti, vários campos artísticos e intelectuais consolidados a partir da década de 1950 só são pensáveis a partir das lutas em seu interior, em que os comunistas desempenharam um papel importante, por vezes levando os integrantes do PCB ou ex-militantes às posições de maior reconhecimento ou prestígio. Muitos mudaram de convicção política ao longo do tempo. A maioria fez uma autocrítica sobre a sua atuação naquele período, mesmo os que continuaram se identificando como de esquerda ou sendo comunistas. Houve também muita reclamação posterior de que o partido mantinha com eles uma relação “ornamental” ou “instrumental”, ou seja, apenas para angariar prestígio ou divulgar uma linha política, sem falar nas críticas sobre o despotismo da direção, pronta a vigiar o imaginário dos militantes. “Só em parte isso é verdade. Esses artistas só puderam conquistar posições a partir do histórico de militância organizada, que, assim, esteve longe de significar mera manipulação de seus artistas e intelectuais. Era uma relação de mão dupla”, observa o autor.</p>
<div id="attachment_113421" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-113421" alt="Cena de O pagador de promessas, de Dias Gomes, em 1960" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/04/081-083_PC-e-cultura_206-2.jpg" width="290" height="258" /><p class="wp-caption-text">Cena de O pagador de promessas, de Dias Gomes, em 1960</p></div>
<p>“De fato, o partido tinha uma linha política estreita e dogmática, dava pouco espaço a seus intelectuais, quase não contribuía para pensar a especificidade da sociedade brasileira, era marcado pelo centralismo e por relações autoritárias. Mas havia contrapartidas que mantiveram os artistas e intelectuais no partido apesar de tudo isso”, fala Ridenti. Para ele, não se deve caricaturar a ação cultural do PCB nos anos 1950, um elemento expressivo constituinte da cultura brasileira. “A indústria cultural ainda não estava de todo estabelecida no país. Com a modernização, muitos artistas e intelectuais estavam em busca de um espaço que não fosse a Igreja ou o Estado, então as principais instituições organizadas nos tempos em que a universidade ainda estava em crescimento”, lembra. Na maioria vindos da classe média que se expandia com a modernização do país, esses intelectuais não cabiam em nenhum dos dois espaços. “O PCB foi uma chance de organização, um fórum de debate cultural e político, que permitia ter acesso a uma rede de revistas pelo Brasil e de contatos no exterior.”</p>
<p><b>Legitimidade<br />
</b>A organização no partido dava legitimidade a certos grupos e indivíduos que buscavam marcar posição (ou evitar perder prestígio) em suas atividades. “O grande exemplo foi Jorge Amado, que teve seu talento potencializado pela ligação com o PCB, cuja rede de contatos internacionais facilitou a publicação de seus romances em vários países. Por sua vez, ele emprestava o seu prestígio de escritor ao partido e acabou sendo eleito deputado pelo PCB na Constituinte de 1946”, conta Ridenti. No exílio na França, a partir de 1948, aderiu ao movimento internacional pela paz e ganhou notoriedade mundial. “Sem desmerecer o talento de Amado, isso não teria acontecido se ele não fosse ligado ao partido. Foi por meio dessa relação que ele teve acesso a uma rede de contatos em diversos países da Europa e viu seus romances traduzidos em vários idiomas em razão disso. O mesmo aconteceu com Nelson Pereira dos Santos, que foi para a França e outros países com apoio do PCB e pôde conhecer vários cineastas”, diz o pesquisador.</p>
<div id="attachment_113423" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-113423" alt="A cantora Nora Ney no aeroporto do Galeão em 1969" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/04/081-083_PC-e-cultura_206-3.jpg" width="290" height="199" /><p class="wp-caption-text">A cantora Nora Ney no aeroporto do Galeão em 1969</p></div>
<p>Amado se transformou em divulgador do realismo socialista no Brasil e mesmo quando se afastou do PCB nunca rompeu oficialmente com os comunistas. “Ele saiu à francesa. Só ganhou autonomia como autor depois de <i>Gabriela, cravo e canela</i> (1958)”, fala Ridenti. As recompensas, porém, colocavam dilemas para os artistas, que testemunhavam as perseguições aos militantes dissidentes em escala internacional. “Eles também se inseriam nas redes comunistas como reprodutores do pensamento e da política produzida no centro, não como formuladores originais”, nota o autor. “Realmente, entre os anos 1940 e 1950, durante o realismo socialista, houve um grande controle do partido sobre os artistas e intelectuais brasileiros ligados ao PCB. Mas, no geral, essa relação foi flexível, porque o partido não se interessava muito pela cultura, o que explica por que, nos anos 1970, os artistas tentaram construir uma política cultural para o PCB, que não tinha uma”, lembra o historiador Marcos Napolitano, da Universidade de São Paulo (USP), autor do estudo <i>Políticas culturais e resistência democrática no Brasil nos anos 1970</i>.</p>
<p>“Houve um entusiasmado movimento em que os intelectuais e o partido convergiram para pensar um projeto revolucionário de nação. O partido e os intelectuais de esquerda foram as grandes referências, por exemplo, para os cineastas dispostos a fazer uma arte política e, em tese, politizadora. Infelizmente, o partido poderia ter usado mais e melhor os diagnósticos feitos pelos artistas”, observa a socióloga Célia Tolentino, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Marília, que estuda o tema em <i>O pensamento social na literatura e no cinema</i>, com apoio da FAPESP. “Os artistas não eram inocentes úteis para o PCB, também ganhavam com essa relação”, nota Ridenti.</p>
<div id="attachment_113424" class="wp-caption alignleft" style="width: 163px"><img class="size-medium wp-image-113424" alt="Jorge Amado recepciona Simone de Beauvoir e Sartre em 1960" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/04/081-083_PC-e-cultura_206-4-153x300.jpg" width="153" height="300" /><p class="wp-caption-text">Jorge Amado recepciona Simone de Beauvoir e Sartre em 1960</p></div>
<p><b>Autonomia</b><br />
A maior ou menor autonomia do partido dependia da carreira paralela à política. Figuras como Dias Gomes ou Oscar Niemeyer, para citar dois exemplos, lembra o pesquisador, não sofreram nenhuma ingerência do PCB em sua vida e obra. Essa influência atingia mais (embora de forma desorganizada) os menos conhecidos. “Assim, se há casos em que o partido foi autoritário com os artistas, fica a pergunta: por que muitos deles seguiram na militância ainda assim? Havia o sentimento de pertencer a uma comunidade que se imaginava na vanguarda mundial e podia dar apoio e organização a artistas e intelectuais em luta por prestígio e poder, distinção e consagração em seus campos de atuação, para si e para o partido”, diz o autor. Com esse movimento, os artistas comunistas prepararam o terreno para a renovação futura. “O Cinema Novo, dos anos 1960, não seria possível sem a história anterior de disputas no campo do cinema fomentada pelos cineastas comunistas”, nota Ridenti.</p>
<p>“O mesmo vale para o desenvolvimento das novelas e da TV brasileira como um todo. Após o golpe de 64, a hegemonia do PCB entre intelectuais e artistas foi cortada e a partir de 1968 eles acabam abrigados na Rede Globo, apesar de a emissora ser partidária da ditadura. Figuras como Dias Gomes, Ferreira Gullar, Gianfrancesco Guarnieri, entre outros, além de encontrarem proteção, viram a TV como uma continuidade programática, acreditavam que era uma forma de falar com o povo. Por isso chegaram a ser rotulados de ‘vendidos’, quando estavam continuando a sua política cultural”, diz o historiador Francisco Alambert, da USP, autor, entre outros, do artigo “Mario Pedrosa: art and revolution”. “Aos poucos, com o desenvolvimento da sociedade civil e da indústria cultural, as classes populares vão assumindo sua voz, não precisando mais de intelectuais falando em nome delas. A produção cultural vai se ligar ao mercado e ao espaço universitário, esvaziando os partidos e a ideia de revolução, rompendo a aproximação entre cultura e política”, diz Ridenti.</p>
<p>“Não se pode, porém, esquecer o que houve no passado. É preciso compreender os dilemas e contradições das figuras humanas daquele tempo que não raro aparecem mitificadas nos escritos sobre elas”, finaliza o pesquisador.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/04/081-083_Pesquisa_206.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Revolução cultural  à brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/04/12/revolucao-cultural-a-brasileira/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Revolução cultural  à brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/04/12/revolucao-cultural-a-brasileira/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Revolução cultural  à brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/04/12/revolucao-cultural-a-brasileira/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Revolução cultural  à brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/04/12/revolucao-cultural-a-brasileira/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Imagens ideológicas</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Oct 2012 21:44:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Humberto Mauro, cinema, história - Eduardo Morettin]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-25612" title="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/124_125_Resenhas_200-11.jpg" alt="" width="290" height="206" />Em 1937, no mesmo ano em que Vargas inaugurava o Estado Novo com uma cerimônia em que as bandeiras estaduais eram queimadas numa pira, para mostrar que agora o Brasil era uma nação, sob o comando de um único homem, estreava nos cinemas <em>O descobrimento do Brasil</em>, do cineasta Humberto Mauro (1897-1983). Entre a imolação e a criação, curiosamente, havia muita coisa em comum: ambos preconizavam o fim das “diferenças” e o novo culto aos símbolos nacionais como forma de reunir o povo em torno do ideal varguista.</p>
<p>A pesquisa de Eduardo Morettin, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), traz à luz a utilização do cinema por Vargas como forma de cooptar os brasileiros para o Estado Novo e seus ideais. Em especial, Morettin recupera uma faceta pouco lembrada do cineasta, mais conhecido da crítica pelos filmes de ficção de linguagem hollywoodiana que fez antes da propaganda varguista: <em>Brasa dormida</em> (1929) e <em>Ganga bruta</em> (1933). Neles, no espírito dos preceitos da revista <em>Cinearte</em>, de Adhemar Gonzaga, Mauro já falava em nação, mas de forma polida, como o “país do futuro”.</p>
<p>A ascensão de Vargas fez com que adotasse uma visão nacionalista mais radical, mais conservadora, já que, passou a acreditar, o país ainda não estava pronto para as vanguardas. Para Mauro, naquele momento, o cinema era sinônimo de educação, como queriam intelectuais getulistas como Roquette-Pinto e Fernando Azevedo. Não seria com a ficção que o país melhoraria, mas com o amor à pátria, capaz de redimir os brasileiros “corrompidos pelo pecado original”.</p>
<p>O ditador entendia de “modernidade”, a seu modo, e sabia do valor dos novos veículos, como o rádio e o cinema, como poucos. O referencial da Alemanha nazista, onde a UFA, estúdio cinematográfico alemão, funcionou como arma de propaganda ideológica, era forte entre os responsáveis pela cultura, como Roquette-Pinto. E o Brasil era ideal para o meio, já que “terra de analfabetos”: não sem razão, Vargas chamou-o de “livro de imagens luminosas”. Mas não era qualquer filme. Os melodramas e outros do gênero só estragavam as novas gerações. O fim precípuo do meio era educar e mostrar a “verdade”. Para o cinema, o novo <em>status</em> foi uma sorte grande e início da relação perigosa com o Estado.</p>
<p>Filmes eram meios de gerar progresso, mesmo que falando do passado. Daí o investimento feito pelo governo para ser um curta encomendado pelo Instituto do Cacau da Bahia, que convidou Mauro, então à frente do Instituto Nacional de Cinema Educativo, o Ince, para dirigir a película. A oportunidade serviu para Roquette-Pinto e Mauro mostrarem como deveria ser o cinema histórico, com um retrato científico do descobrimento, incluindo-se a supervisão do diretor do Museu Paulista, tudo ao som do músico do regime, Villa-Lobos.</p>
<p>O filme virou uma mera animação de quadros históricos e da carta de Caminha, tendo ao fundo a música do maestro dando o tom geral do corpo unido em torno de uma nação e um líder, cujo momento exemplar é a cena em que os índios são recebidos a bordo do navio de Cabral e postos carinhosamente a dormir pelo capitão. Mas é injusto, nota Morettin, ver em Mauro o arrivista do regime, como na relação entre a cineasta Leni Riefenstahl e Hitler.</p>
<p>O brasileiro não se ligava ideologicamente ao regime e, de forma mesmo inconsciente, Mauro até incluiu críticas sutis, como ao fim de <em>Descobrimento</em>, em que a música patriótica de Villa tem como contraponto a imagem da cruz e os rostos desolados dos degredados abandonados na nova terra. No filme <em>Os bandeirantes</em> (1940), que fala da epopeia de Fernão Dias Paes em busca das esmeraldas, é igualmente feito com “precisão” histórica e com toques unitaristas, como na cena em que o bandeirante se vê obrigado a enforcar o filho em prol da ordem, como faria o “pai” Getúlio. O encontro das esmeraldas é um anticlímax e o filme se encerra com a melancólica morte de Paes.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/124-125_resenhas_2001.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Imagens ideológicas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/imagens-ideol%c3%b3gicas/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Imagens ideológicas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/imagens-ideol%c3%b3gicas/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Imagens ideológicas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/imagens-ideol%c3%b3gicas/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Imagens ideológicas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/imagens-ideol%c3%b3gicas/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A primeira tentativa</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Oct 2012 21:21:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Neldson Marcolin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[FAPESP e TV Cultura produziram programas de divulgação científica]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_35899" class="wp-caption alignright" style="width: 184px"><img class="wp-image-35899" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/122-123_Memoria_200-41.jpg" width="174" height="794" /><p class="wp-caption-text">Reprodução de Ferrugem do café, com os pesquisadores Lourival Monaco, Maria Rafaela Musumeci, Walkiria Moraes e Paulo Torres de Carvalho (de cima para baixo)</p></div>
<p>Um velho rolo de filme 16 mm encontrado nos arquivos da FAPESP em 2010 revelou o que provavelmente foi a primeira tentativa de divulgação científica da Fundação para um público amplo.  Guardado em uma caixa de plástico, o <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=23937" target="_blank">filme</a> ganhou uma cópia digital e pode ser assistido: trata-se de uma reportagem de 15 minutos sobre a poluição dos rios.  No início do filme uma claquete dá algumas informações.  O nome da produção é <em>Ciência viva</em>, datada de  1º de dezembro de 1970. Em seguida, uma narração em  <em>off</em> apresenta o que deveria ser a primeira reportagem  de uma série sobre ciência. O então presidente do Conselho Superior da FAPESP, Antônio Barros de Ulhoa Cintra, aparece no começo do filme para dar algumas explicações: “A FAPESP decidiu patrocinar a realização de uma série  de programas sobre ciências e suas aplicações”, diz ele  em um texto que dura 47 segundos (<em>leia a íntegra abaixo</em>).</p>
<p>Como havia a indicação de que vários filmes poderiam ter sido feitos, a revista <em>Pesquisa FAPESP</em> solicitou à TV Cultura uma busca em seus arquivos para tentar localizar outros possíveis programas. Foi encontrado apenas <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=23938" target="_blank">mais um filme</a>, de 19 minutos, cujo tema é a ferrugem, uma praga do cafeeiro. Novamente,  o único registro sobre esse achado é a data de produção que consta na claquete:  19 de abril de 1971. De acordo com funcionários  da TV que trabalharam nas buscas, não há fichas ou roteiros que tragam mais informações. “Por alguma razão que desconhecemos, provavelmente esses programas nunca foram  ao ar”, acredita Mario Fanucchi, o coordenador  de produção da emissora daquele período.</p>
<p>Documentos da FAPESP mostram que a produção de uma série de divulgação científica começou a ser discutida no início de 1970. No meio do ano, a diretoria da FAPESP firmou um convênio com a Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura, para dar início ao  primeiro programa. Em correspondência de Mario Fanucchi para o diretor científico, Oscar Sala, estão relacionados quatro objetivos discutidos previamente com o zoólogo Paulo Vanzolini, então assessor de Ulhoa Cintra: “Dar ao povo  noção do que é a pesquisa científica e quais as suas implicações na vida moderna; mostrar o pesquisador anônimo, valorizá-lo como figura humana;  despertar vocações para a pesquisa; estimular aqueles que  se iniciam na pesquisa”.</p>
<p>Vanzolini ficou encarregado de solicitar  à Fundação o auxílio para pagar a produção. “Os programas foram uma iniciativa do Oscar Sala”, conta. “Eu participei das conversas e o projeto ficou em meu nome porque ele me pediu.” Vanzolini não sabe se os programas foram exibidos nem as razões de a série de não ter tido continuidade.</p>
<p>Os pesquisadores que participaram das filmagens elogiam a iniciativa.  No primeiro programa o principal entrevistado foi Samuel Murgel Branco, biólogo da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de  São Paulo, morto em 2003. “Lembro-me de que ele ficou bem satisfeito com  a reportagem e comentou comigo que provavelmente os assuntos ligados à ecologia, poluição ambiental e outros termos técnicos se tornariam  mais conhecidos do grande público a partir da veiculação destas informações na TV”, conta Frida Fischer, então estagiária e hoje professora titular da FSP.</p>
<p>No segundo programa o tema foi agricultura. “Havia uma preocupação com a praga do café e nós explicamos do que se tratava”, lembra Lourival Monaco, na época pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) de Campinas. “Foi um trabalho muito interessante de divulgação de um problema que envolvia conhecimento científico”, diz Walkiria B. de Camargo Moraes, de longa carreira no Instituto Biológico de São Paulo.</p>
<p>Quarenta e dois anos depois, os dois filmes <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/16/ci%C3%AAncia-viva-polui%C3%A7%C3%A3o-das-%C3%A1guas/" target="_blank"><em>Poluição das Águas</em></a> e <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/16/ci%C3%AAncia-viva-ferrugem-do-caf%C3%A9/" target="_blank"><em>Ferrugem do Café</em></a> podem ser assistidos <em>no </em>site de<em> Pesquisa FAPESP</em>.</p>
<p><strong>Ulhoa Cintra</strong><br />
“FAPESP decidiu patrocinar a realização de uma série de programas sobre ciências e suas aplicações. É reconhecido o fato de ciência e suas aplicações terem um papel preponderante no progresso e no desenvolvimento do bem-estar da humanidade nos dias que correm. Entretanto, temos ressaltado o seu papel educativo e o seu valor ético. Espera a Fundação que o desenvolvimento desses programas, contribuindo para o desenvolvimento da ciência, se consubstancie também pelo seu próprio desenvolvimento e no amparo de sua finalidade essencial.”
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/122-123_memoria_200.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A primeira tentativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-primeira-tentativa/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A primeira tentativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-primeira-tentativa/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A primeira tentativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-primeira-tentativa/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A primeira tentativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-primeira-tentativa/' displayText='share'></span></p>
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		<title>As páginas proibidas</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Sep 2012 20:00:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Fioratti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Lista de livros censurados após o AI-5 revela critérios de apreensão]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-17426" title="082-085_Censura_199-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-1.jpg" alt="" width="290" height="348" />Vinte e oito caixas guardadas no Arquivo Nacional de Brasília preservaram parte de uma história que permanece com páginas incompletas. A coleção reúne documentação dos órgãos censores da ditadura militar sobre livros publicados no período que segue a criação do Ato Institucional nº 5, de 1968.</p>
<p>O conteúdo dessas pastas foi analisado recentemente por Sandra Reimão, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, que compôs a lista até hoje mais completa de livros submetidos à censura no período. O estudo foi apresentado no livro <em>Repressão e resistência – Censura a livros na ditadura militar</em> (Edusp/FAPESP, 2011) e permite analisar, agora com mais precisão, com que critérios o governo brasileiro proibia obras literárias publicadas na época, colocando sob o manto da preservação da ordem e dos bons costumes livros políticos, como <em>O mundo do socialismo</em>, de Caio Prado Junior, e eróticos, como <em>Tessa, a gata</em>, de Cassandra Rios.</p>
<p>Na lista ainda estão <em>Feliz Ano Novo</em>, de Rubem Fonseca; <em>Zero</em>, de Ignácio de Loyola Brandão; <em>Dez histórias imorais</em>, de Aguinaldo Silva; e <em>Carniça</em>, de Adelaide Carraro. No estudo de Sandra Reimão há ainda uma subdivisão para peças teatrais publicadas em livros, em que são citados os textos <em>Papa Highirte</em>, de Oduvaldo Vianna, e <em>Abajur lilás</em>”, de Plínio Marcos.</p>
<p>São todos livros oficialmente vetados entre os anos 1970 e 1988, período compreendido entre o ano do decreto-lei 1.077/70 – que instituiu a censura prévia com vistas a publicações literárias – e o ano em que a Assembleia Nacional Constituinte pôs fim à censura.</p>
<p>Os eróticos eram alvos mais comuns. “Se você olhar a legislação, a censura sempre fez referência a matérias contrárias à moral e aos bons costumes; nunca ficou explícito que havia censura a temas políticos, a textos sobre corrupção ou tortura”, conta Marcelo Ridenti, autor do livro <em>Em busca do povo brasileiro – Artistas da revolução, do CPC à era da TV</em> (Record, 458 páginas).</p>
<p>Não se trata apenas de um disfarce. “Essa era realmente uma preocupação dos censores, e a maioria dos livros censurados eram livros eróticos. A questão é que a censura, com base nesses critérios sobre a moral e os bons costumes, proibia também obras consideradas subversivas à ordem política”, conclui.</p>
<p>Cassandra Rios, famosa autora que voltou sua produção para prosas não raro de veia homoerótica feminina, foi uma das campeãs de veto da ditadura. Na capa do livro <em>Tessa, a gata</em>, a autora inclusive reverte a ação da censura a seu favor, com o <em>slogan</em> “Um novo sucesso da autora mais proibida do Brasil”.</p>
<p>O estudo de Sabdra, com apoio da FAPESP, verificou que 313 obras foram vetadas, entre 492 submetidas à análise do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Ou seja, do total, 179 livros foram liberados após a análise do DCDP, dado importante para compreender que havia um sistema de critérios desenvolvido pelo órgão. A censura era movida por um time de funcionários contratados por meio de concurso público, muitos deles universitários.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-4.jpg" rel="lightbox[17425]" title="082-085_Censura_199-4"><img class="alignleft  wp-image-17427" title="082-085_Censura_199-4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-4.jpg" alt="" width="290" /></a>O número levantado por Sandra ainda não é definitivo. A lista completa de livros censurados pela ditadura dificilmente chegará a um fim, diz a pesquisadora, pois antes do decreto-lei 1.077 não havia uniformidade na metodologia da censura. “Antes de 1970 havia coação, apreensão a livros, invasão de livrarias e prisão de livreiros de maneira desorganizada. A censura era feita por órgãos do Estado e, depois do AI-5, passou a ser função do Ministério da Justiça”, diz ela.</p>
<p>Mesmo os documentos guardados nas 28 pastas do Arquivo Nacional podem estar incompletos. “O arquivo que existe é o que foi preservado. Não sabemos quanto desse arquivo foi perdido”, explica a pesquisadora. Os documentos guardados pelo Arquivo Nacional só ficaram disponíveis a partir do ano 2000. “Há muita novidade a respeito do assunto. Esse material ainda não havia sido analisado simplesmente porque antes não estava com uma organização mínima”, diz a pesquisadora.</p>
<p>Um trabalho similar, no entanto, não somente antecede a pesquisa de Sandra como lhe serve também como ponto de partida. Doutor em letras pela USP, o professor Deonísio da Silva, no livro <em>Nos bastidores da censura</em>, já havia indicado 430 livros proibidos pela censura durante a época do regime militar. Entre os títulos, 92 são assinados por autores brasileiros. “Eu dou continuidade ao trabalho que o Deonísio começou”, diz Sandra. Quando virou seus holofotes também para a publicação de livros, a censura já atingia amplamente e com força total outros campos de expressão artística, especialmente o teatro, a música e o cinema. “A quantidade de livros censurados é menor do que a de outros meios de diversão pública.”</p>
<p>Marcelo Ridenti confirma que a literatura foi “relativamente” menos atingida pela censura do que campos de expressão vizinhos. “A produção audiovisual tinha mais potência de difusão em massa. Cinema e televisão, naturalmente, eram mais visados”, explica o pesquisador. As editoras nacionais, ele prossegue, não foram obrigadas a submeter seus lançamentos à censura prévia, como acontecia com produtoras de filmes e de programas de televisão. Para colocar em funcionamento seu sistema de vigilância também sobre a produção literária nacional, os censores contavam com uma ajuda básica: as denúncias, feitas muitas vezes por cidadãos comuns.</p>
<p>Por ter sido menos visada, a literatura permitiu o exercício de um pouco mais de liberdade. “Serviu como válvula de escape”, diz Ridenti. “<em>Calabar</em>, de Chico Buarque, foi proibida em teatro, mas saiu em forma de livro”, exemplifica o pesquisador. “Com a literatura, dava para respirar um pouco mais.”</p>
<p>Segundo levantamento de Zuenir Ventura apresentado em <em>1968 – O ano que não terminou</em>, nos 10 anos de vigência do AI-5 (1968-1978) foram censurados cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, 100 revistas, mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos de sinopses de novelas.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-17428" title="082-085_Censura_199-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-2.jpg" alt="" width="290" height="419" />Boa parte das denúncias reunidas entre os pareceres emitidos pelos órgãos censores – vários deles publicados nas últimas páginas do livro de Sandra com boa legibilidade, graças ao projeto gráfico de Carla Fernanda Fontana – recrimina conteúdos considerados eróticos ou pornográficos: “O livro <em>Dias de Clichy</em>, de Henry Miiler [sic], é um verdadeiro atentado ao pudor, no entanto encontrava-se à disposição de qualquer adolescente na Biblioteca Municipal, desta localidade”, diz carta de Usana Minette, de Lençóis Paulista, de setembro de 1974 e endereçada ao ministro da Justiça, Armando Ribeiro Falcão. O livro “&#8230; foi apoiado pelo senhor prefeito e presidente da biblioteca e só foi retirado de circulação depois de muita insistência”, continua a carta-denúncia.</p>
<p>Escrito à máquina, esse exemplar data justamente do período de maior atuação dos órgãos censores. A bem da verdade, é em 1975 que houve o maior número de proibições a livros nacionais. Segundo a pesquisa de Sandra Reimão, 109 livros, dos 132 analisados pela Justiça, foram censurados em 1975.</p>
<p>Em 1976 foram 61 os livros proibidos. Entre eles aparece <em>Feliz Ano Novo</em>, de Rubem Fonseca, uma das obras mais estudadas pelos pesquisadores da censura a livros no período da ditadura. Resumidamente, o livro conta a história de três personagens que, durante os festejos de ano-novo, assaltam uma mansão, matam três pessoas, estupram uma e, no final, brindam a passagem do ano.</p>
<p>No parecer assinado por Raymundo F. de Mesquista com as palavras “Não Liberação” em caixa-alta preenchendo o campo “Classificação Etária”, a censura é justificada da seguinte forma: “O presente livro [...] retrata, em quase sua totalidade, personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio, sem qualquer referência a sanções&#8230;” Mais adiante o documento enfim aponta que, nas páginas 31, 139 e 141, são feitas “rápidas alusões desmerecedoras aos responsáveis pelo destino do Brasil e ao trabalho censório”.</p>
<p>A partir de 1976, o número de livros censurados começa a cair gradualmente (<em>ver quadro</em>). Uma das hipóteses para esse decréscimo – no número de obras censuradas também em outras áreas das artes – é a morte do jornalista Vladimir Herzog em decorrência de tortura praticada pelos militares, em 1975.</p>
<p>A partir de então acentua-se a cobrança da sociedade pela redemocratização e também pelo fim da censura. “Esse é um dos fatores”, diz Flamarion Maués Pelúcio Silva, doutorando em história social e mestre em história econômica pela USP, que estuda as editoras de oposição à ditadura no Brasil. No início dos anos 1970 houve o maior número de mortes e desaparecimentos de figuras políticas que se opunham ao regime, “na militância armada ou não”. E a morte de Herzog nesse contexto, lembra Flamarion, faz com que o país “conheça de maneira mais ampla” a situação política agravada pela repressão, o que provoca uma reação imediata.</p>
<p>Para o pesquisador, o estudo de Sandra, ao limitar-se ao universo de livros que foram proibidos por uma censura oficial e documentada, mostra “de forma coerente” quais eram os fundamentos da perseguição a obras literárias. “São trabalhos censurados a partir de um ponto de vista formal, com pareceres. Os documentos trazem justificações, e esse material é valioso”, avalia.</p>
<p>Em tempo: no final de seu livro, Sandra faz referência ainda à resistência de editores e de escritores ante as exigências da censura institucionalizada. Érico Verissimo e Jorge Amado, com suas manifestações públicas em repúdio ao regime militar, se destacaram dentro desse movimento – que foi protagonizado ainda por “uma legião de anônimos”, encerra a pesquisadora.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_censura_199.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A história visível</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Sep 2012 20:00:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Neldson Marcolin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Disponibilizadas 7 mil imagens de documentos sobre a escravidão]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_17467" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-17467" title="088-089_Memoria_199-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/088-089_Memoria_199-1.jpg" alt="" width="290" height="209" /><p class="wp-caption-text">Carta de 1875 dirigida ao presidente da Câmara Municipal de Belém do Descalvado, em São Paulo: acesso facilitado aos documentos</p></div>
<p>Em 1883, a apenas seis anos da abolição da escravidão, surgiu em São Paulo uma nova organização social, oficialmente reconhecida pela presidência da província. Um grupo formado apenas por mulheres fundou a Associação Protetora dos Escravos com o intuito de fazer valer as disposições contidas na lei de 28 de setembro de 1871 – depois dessa data, a chamada Lei do Ventre Livre determinava que fossem considerados libertos todos  os filhos de escravas. Além dos fatos históricos ligados diretamente à escravidão, a criação da associação revela outra faceta social da época: sociedades como essas eram compostas muitas vezes apenas de mulheres num tempo em que elas não tinham direitos políticos, como o do voto. “Foi uma forma por elas encontrada para entrarem na grande política quando isso lhes era interditado”,  diz o historiador Rafael Marquese, professor e pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.</p>
<p>É o que se pode afirmar a partir do estatuto original da Associação Protetora dos Escravos. O documento está acessível <em>on-line</em> junto com outras 7 mil imagens relacionadas à memória da escravidão recentemente digitalizadas pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo (<a href="http://www.arquivoestado.sp.gov.br/viver/escravos" target="_blank">www.arquivoestado.sp.gov.br/viver/escravos</a>).  A coleção Escravos é um conjunto de cartas dirigidas à presidência  da província de São Paulo, ofícios sobre investigações de tráfico negreiro,  relações de escravos matriculados nos municípios, estatísticas  da população escrava, entre muitos outros papéis reunidos entre 1764 e 1890.</p>
<p>Todo o material foi acumulado por órgãos administrativos da província paulista nesse período e reunido na década de 1950 em uma única coleção. O trabalho de organização e digitalização levou três meses ao custo de R$ 30,9 mil do Programa de Apoio ao Desenvolvimento dos Arquivos Ibero-americanos (Adai), fundo do governo espanhol para o desenvolvimento arquivístico.</p>
<div id="attachment_17468" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-17468" title="088-089_Memoria_199-4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/088-089_Memoria_199-4.jpg" alt="" width="290" height="227" /><p class="wp-caption-text">Livro-caixa da cidade de Santa Branca com informações sobre alforria de escravos, de 1882</p></div>
<p>Outro documento que também desperta o interesse de estudiosos é um ofício de 26 de julho de 1886 do Ministério dos Negócios, da Agricultura, Comércio e Obras Públicas ao inspetor da Tesouraria da Fazenda de São Paulo sobre a dúvida que este último tinha a respeito da matrícula de escravos na cidade de Bananal. Alguns deles alegavam terem sido “importados” para o Brasil depois da lei de 7 de novembro de 1831, que proibiu o tráfico negreiro transatlântico.  Ou seja, eles não poderiam ser considerados cativos.  A ordem do ministério, no entanto, é clara: o coletor de Rendas Gerais de Bananal não deveria se negar matricular os escravos. A matrícula foi criada pelo governo para obrigar os fazendeiros a registrar o número correto de escravos de modo que pudessem constar no censo demográfico e para que se soubesse quem nasceu antes e depois da Lei do Ventre Livre.</p>
<p>“Mesmo com a lei de 1831, que bania o tráfico, de 1835 a 1850 houve intenso comércio ilegal de escravos”, diz Marquese. Nos anos 1880, o abolicionismo ganhou novo ânimo com militantes antiescravidão estimulando os escravos que chegaram ilegalmente ao Brasil a exigir seu direito à liberdade. “Bananal foi uma das cidades onde essa reação se tornou mais visível por ser uma região cafeeira com muitos escravos e protestos de ativistas ligados a José do Patrocínio, do Rio de Janeiro, figura importante do abolicionismo.” O ofício do ministério mostra como a lei era menosprezada quando se tratava de escravos.</p>
<p>Para o historiador Carlos Bacellar, coordenador do Arquivo Público do Estado de  São Paulo, documentos como esses iluminam melhor o período e servem como porta de entrada para outras investigações sobre escravidão em  São Paulo, além da óbvia vantagem de poderem ser consultados via internet. “Professores de história, incluindo os do ensino médio, podem também baixar documentos e usá-los para ilustrar aulas”, conclui Bacellar.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/088-089_memoria_199.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A história visível' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/a-historia-visivel/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A história visível' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/a-historia-visivel/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A história visível' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/a-historia-visivel/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A história visível' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/a-historia-visivel/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Uma incômoda pitada de magia</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Sep 2012 20:00:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Química]]></category>

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		<description><![CDATA[Pesquisadoras descobrem pó alquímico em arquivo da Royal Society]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>de Londres</em></p>
<div id="attachment_17267" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-17267" title="018-025_CAPA_alkahest_199-1" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-1.jpg" width="290" height="233" /><p class="wp-caption-text">Original da carta enviada por Boutens a Oldenburg mostrando o pequeno envelope fechado</p></div>
<p>Não é fácil abalar a fleuma britânica. Daí a sintomática reação de Keith Moore, diretor dos arquivos da Royal Society, ao ser questionado sobre a importância do achado das pesquisadoras Ana Maria Goldfarb e Márcia Ferraz, do Centro Simão Mathias da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Cesima PUC-SP) [<a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=18297" target="_blank">ouça entrevista com elas</a>]. Com a sobrancelha levantada e cauteloso, Moore respondeu: “Estava debaixo de nossos narizes, mas em 350 anos ninguém encontrou”. Trata-se de uma pitada de pó amarelado e com odor fortemente pungente, embalado num pequeno envelope colado em uma carta de 1675 endereçada ao primeiro-secretário da Royal Society, Henri Oldenbrug (1515-1677), vinda de Antuérpia e enviada por um apotecário e alquimista chamado Augustin Boutens. Embora não tenha chamado a atenção até agora, é uma valiosa e concreta amostra do <em>Ludus</em>, um material secretíssimo, que, juntamente com o <em>alkahest</em>, famigerado solvente universal foi alvo de buscas que movimentaram gerações de alquimistas e mesmo filósofos naturais como Robert Boyle e Isaac Newton.</p>
<p>Após revelarem, em 2010, num projeto temático apoiado pela FAPESP, a única receita curta e completa conhecida do <em>alkahest</em> (“<em><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2008/12/01/a-agenda-secreta-da-quimica/" target="_blank">A agenda secreta da química</a>”</em>, Pesquisa FAPESP <em>154</em>), de 1661, a dupla encontrou agora, afirmam, “uma amostra real de ‘<em>Ludus</em> composto’, com o que poderia ser um tipo de <em>alkahest</em>, de que se tem notícia desde o século XVII”. O que é o pó?</p>
<p>Certamente a Royal Society quer que a amostra seja analisada por um de seus <em>fellows</em>, provavelmente Martyn Poliakoff (<a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=17281" target="_blank"><em>ver entrevista na página 26</em></a>), vice-presidente da instituição. “Apesar da curiosidade pessoal, como pesquisadoras em história da ciência, não pretendemos ir ao laboratório procurando saber o que seria pelos moldes de hoje o tal pó, pois estaríamos impondo, de forma anacrônica, nossas ideias a estudiosos do século XVII”, fala Márcia. “O que importa é a descoberta de mais uma evidência forte de que uma boa porção das ciências antigas, como a alquimia, persiste mesmo após o surgimento de uma nova visão de ciência (e até fizeram parte na formação desta), mantendo-se na agenda das figuras que supostamente promoveram a revolução científica que originou a química moderna. Há uma história pouco conhecida que conta que essa passagem foi mais suave e coerente e só se encerrou no século XIX”, afirma Ana.</p>
<p>Acima de tudo, confirma o credo das pesquisadoras de que fazer a história da ciência é arregaçar as mangas e enfrentar a poeira secular dos documentos originais para dar vida a eles. Prova disso, para surpresa de Moore, é que o documento passou pelas mãos da historiadora Marie Boas-Hall, responsável, nos anos 1960, pela imaculada catalogação da correspondência de Oldenburg, por 15 anos o “faz-tudo” da Royal Society. Diante do pequeno envelope, Marie Boas apenas anotou: “Amostra do que parece ser pirita, anexada ao texto”.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-info.jpg" target="_blank" rel="none" title="018-025_CAPA_alkahest_199-info"><img class="alignleft  wp-image-17268" title="018-025_CAPA_alkahest_199-info" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-info.jpg" width="250" height="495" /></a>“A obra de Marie Boas é impecável, mas, pensando como muitos em sua época, ignorou possíveis interesses alquímicos dos ‘novos cientistas’ e, assim, terminou por não investigar o caráter hermético das cartas de Oldenburg. Então, como alguns ainda fazem agora, era importante manter a ideia de uma ‘revolução científica’, o que incluía, por vezes, a ‘limpeza’ do passado e, por vezes, intervenções pouco recomendáveis”, avalia Ana. “Esse achado amplia a visão de que a filosofia química não morreu com o triunfo da visão mecânica e corpuscular. Saber que ainda se perseguiam materiais como o <em>Ludus</em> e o <em>alkahest</em> comprova isso e inclui mais nomes importantes na lista dos que praticavam essas buscas, mesmo alguns que se pensava convertidos ao racionalismo e, mais ainda, ao mecanicismo do século XVII”, explica Pyio Rattansi, professor emérito da University College London, que revelou a importância do hermetismo e da Bíblia nas obras científicas de Newton, até então visto como “santo padroeiro” da ciência moderna. “Além dele, outros ‘homens de razão’ tinham ‘segundas agendas’ que discretamente continham processos alquímicos”, conta Ana.</p>
<p>Essa revisão da história da ciência só veio à tona quando as pesquisadoras, apesar do “canto de sereia” da tecnologia, viram a limitação dos catálogos e das bases de dados digitais e se enfurnaram diretamente nos “fundos fechados” do arquivo, enfrentando a incredulidade inicial dos ingleses. “Tínhamos claro que era preciso procurar entender o pensamento dos homens de ciência daquela época. Havia uma espécie de dualidade diante de qualquer descoberta ou fato novo: por um lado, havia a necessidade de manter sigilo, pois, em especial quando se tratava de materiais ou processos de laboratório, muitos eram verdadeiros segredos de Estado; por outro lado, estava uma das máximas (que, aliás, se mantém até hoje) da nova ciência, que defendia o saber elaborado por muitos e ao alcance de todos”, conta Ana. “Muitos estão se coçando para pôr as mãos nesse conhecimento e sabe-se lá o que farão para vê-lo publicado”, escreveu Newton a Oldenburg em 1676. Os meandros “rocambolescos” que as pesquisadoras precisaram vencer para encontrar a receita do <em>alkahest</em> é fruto dessa visão.</p>
<p>“Depois das descobertas iniciais de documentos, consideramos que tudo relacionado ao <em>alkahest</em> na Royal Society estava claro e vísivel”, lembra Márcia. Até encontrarem a misteriosa carta de Boutens para Oldenburg. “Já se passaram anos desde que enviei ao senhor uma boa quantidade do <em>Ludus helmontiano</em>, a partir do qual eu produzi o material sulfuroso que anexo abaixo. Confio na sua sabedoria para entender que efeitos ele produz.” A referência ao mineral argiloso chamou a atenção de Ana e Márcia. Afinal, o <em>Ludus</em> era base, juntamente com o “<em>liquour</em> <em>alkahest</em>”, de uma receita produzida pelo médico belga Van Helmont (1579-1644), que dedicou sua vida a estudar os obscuros trabalhos de Paracelso para produzir o que seria o “remédio para todas as doenças”. Capaz de dissolver qualquer substância sem deixar resíduos, reduzindo-a a seus constituintes primários, o <em>alkahest</em> seria fonte de remédios poderosos, em especial contra os “males da pedra”, a litíase renal, causadora incurável de muitas mortes até o século XIX.</p>
<p>“Segundo Van Helmont, era possível, por exemplo, fazer um remédio contra o cálculo urinário pela dissolução do <em>Ludus</em> com o <em>alkahest</em>. Não tanto pelo mineral, mas pela capacidade do <em>alkahest</em> em transformá-lo em fonte de cura. Tudo era fruto de um pensamento milenarista: o solvente seria um presente de Deus quando o mundo se aproximasse do fim”, explica o historiador Paulo Porto, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). O <em>Ludus</em>  funcionaria como a cápsula plástica que, hoje, envolve as pílulas, permitindo a difusão gradual do medicamento no organismo. O dilema dos alquimistas era justamente garantir que a solvência do <em>alkahest</em> acontecesse aos poucos, não matando o paciente ao tentar curá-lo. “Desde os anos 1640, o objetivo central da ciência inglesa era prolongar a vida das pessoas e o <em>alkahest</em> preparado com <em>Ludus helmontiano</em> seria o remédio indicado para isso”, diz Paulo. Para muitos contemporâneos, o rei Charles II criara a Royal Society, acima de tudo, para reunir as maiores cabeças da época a fim de que produzissem “o grande remédio”.</p>
<div id="attachment_17272" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-17272" title="018-025_CAPA_alkahest_199-2" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-2.jpg" width="290" height="383" /><p class="wp-caption-text">Henri Oldenburg: secretário da Royal Society centralizava toda a informação para a Instituição e foi um dos pioneiros nos padrões científicos</p></div>
<p>Por isso, a carta levantou suspeitas nas pesquisadoras. Como entender que após procurarem por anos o “grande remédio” não houvesse registros nas atas da Royal Society da chegada de uma amostra de seus componentes? Tudo indicava que estávamos diante de um ‘segredo’ valioso para os <em>fellows</em> da instituição”, diz Márcia. Era preciso, então, entender melhor a relação de Oldenburg e Boutens. A primeira pista foi uma carta de setembro de 1667, escrita para Boyle logo após o secretário sair da prisão, onde foi encarcerado pelos seus contatos “excessivos” com o exterior. Logo se descobriu que a correspondência intensa era parte de seu trabalho. Oldenburg trocava cartas com quem pudesse ter ou conhecer informações sobre ciência, incluindo algum segredo sobre a “Arte”. E os vários espiões espalhados pela Europa o informavam de qualquer experiência.</p>
<p>Sintomaticamente, a carta para Boyle foi a primeira coisa que fez após sair da prisão. “O senhor menciona uma caixa que, creio, foi endereçada a mim. É <em>Ludus</em> da Antuérpia. Sinta-se livre para abri-la e depois enviá-la a mim, com sua opinião se é o <em>Ludus</em> genuíno.” Várias cartas mais tarde, com o mesmo teor de súplica humilde, não foram suficientes para Boyle atender a seu pedido e parece que Oldenburg nunca pôs as mãos na preciosa caixa. Os arquivos foram revelando aos poucos os elos do secretário e Boutens, o alquimista da Antuérpia. Em novembro de 1667, Oldenburg escreveu ao alquimista: “Soube por um amigo de Paris (<em>certamente um de seus espiões</em>) de sua grande predisposição para a curiosidade e sua inclinação especial pela sólida filosofia que se fundamenta na observação e nos experimentos que estamos tentando estabelecer aqui na Royal Society. Também fui informado de suas tentativas infatigáveis de descobrir os segredos da natureza pelo bom caminho da química”.</p>
<p>A sedução epistolar vai adiante. “Gostaria que o senhor soubesse como os ingleses admiram operações químicas feitas por homens de bom senso que são livres dos preconceitos vulgares impostos pelo mundo por algumas pessoas que pretendem falar dogmaticamente sem nenhuma experimentação crítica preliminar, como o excelente senhor Boyle achou necessário fazer em seu <em>Sceptical Chymist</em> (1661)”, continua. “Sabemos que há <em>Ludus helmontiano</em> em abundância na sua região: peço ardentemente que nos envie para Londres por mar.” Em dezembro, chegou a resposta de Boutens: “Vou enviar mais de 70 quilos do <em>Ludus</em> com a descrição do método que utilizo para fazer o remédio”. O pagamento da empobrecida Royal Society foi feito em livros, cobiçados por alquimistas. A carta foi recebida com grande entusiasmo pelos membros da Royal Society, assim como outra carta escrita por Boutens alguns meses depois descrevendo os lugares onde era possível encontrar o <em>Ludus</em>. Essa correspondência, no entanto, não teve continuidade e apenas em junho de 1675 aparece uma nova carta de Boutens justamente aquela em que está afixada a amostra do “pó secretíssimo”.</p>
<p>Oldenburg, porém, não respondeu à carta. De início, as pesquisadoras atribuíram a atitude nada típica do secretário ao excesso de trabalho. Mas descobriram outra razão. Francis Mercurius, filho de Van Helmont, estava no mesmo período na Inglaterra e, sabidamente, tinha conhecimento dos muitos segredos do pai&#8230; até mesmo amostras de seus materiais. Junior, como era conhecido, aproximou-se rapidamente de grandes estudiosos ingleses. Através de Henri More, tornou-se mentor de Lady Anne Conway, vítima de terríveis enxaquecas que o próprio Harvey não conseguiu curar. Por sua vez o circulo de Lady Conway incluía, além de Henry More e Ralph Cudworth, líderes dos Platonistas de Cambridge, e também um experiente homem de laboratório como Ezekiel Fox-croft que, por sua vez, era íntimo amigo e colaborador do grande Newton. “O que os unia era a preocupação com o ceticismo radical da época, que tentaram combater com a aceitação ‘racional’ de profecias bíblicas mescladas com visões milenaristas. Para justificar o novo universo científico cético, assumiram o ideal de que viviam tempos como os descritos nos livros de <em>Daniel</em> e <em>Revelação</em>”, observa Rattansi. Para Daniel, o conhecimento aumentaria à medida que a humanidade se aproximasse de seu final. Isso era a realidade cotidiana do século XVII e estava presente no forte diálogo de Junior com Lady Conway. E os dois acabaram se convertendo à seita dos <em>quakers</em>, notórios milenaristas adeptos desses ideais.</p>
<div id="attachment_17273" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-17273" title="018-025_CAPA_alkahest_199-3" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-3.jpg" width="290" height="190" /><p class="wp-caption-text">Salão de pesquisa da Royal Society, com as pesquisadoras brasileiras sentadas</p></div>
<p>Além disso e como seria de esperar, Junior levou para a Inglaterra não apenas as receitas do pai, mas também amostras de seus materiais secretíssimos, entre estes pedaços do precioso <em>Ludus</em>. Um desses pedaços foi dado por ele a Foxcroft, que o repassa a Newton, que, por sua vez, o repassa ao naturalista John Woodward. “Newton me deu um pedaço do material trazido da Alemanha pelo jovem Helmont como o verdadeiro <em>Ludus</em> de seu pai, que, na minha visão não é em nada diferente do achado aqui mesmo na Inglaterra”, anotou descrente. O interesse de Newton no <em>Ludus</em> e outros materiais semelhantes, como o <em>alkahest,</em> era profundo e isso agora aparece de forma visível. E a caixa enviada a Oldenburg anos antes? “Boyle a tomou para si, entregando a Locke, que era um de seus homens favoritos no laboratório, para que ele analisasse”, conta Ana.</p>
<p>“Tais revelações ampliam o espectro da ligação complexa do círculo inglês com a ciência nascente, e debates como aquele entre empiristas e racionalistas começam a perder sentido”, acredita Rattansi. Segundo o professor, os achados obrigam a uma revisão das origens intelectuais da ciência dos séculos XVI e XVII. “A ciência aristotélica estava desacreditada como estéril. Houve então uma cisão entre a ‘filosofia mecanicista’, baseada em Galileu e Descartes, e grupos heterogêneos de ‘filósofos da natureza’, em especial neoplatonistas e herméticos. As diferenças entre os grupos não eram tão acentuadas: eles eram antiaristotélicos; defendiam a observação, a experimentação e a experiência em detrimento da razão abstrata; preconizavam que ciência e religião apoiavam-se uma na outra; ambos sonhavam em elevar e espalhar o conhecimento sobre a natureza para fins práticos”, analisa o professor.</p>
<p>Mas enquanto um grupo entendia que por trás de todas as mudanças na natureza havia o mecanismo da matéria em movimento, os outros viam essas alterações como o jogo de simpatias e antipatias secretas, agindo a distância. “Para os mecanicistas havia uma divisão entre o mundo inanimado da matéria e aquele da alma e da inteligência. Já os herméticos criam que tudo possuía vida e entendimento. Em resumo: as crenças se dividiam entre os que tinham uma cosmovisão mágica e encantada, plena de acontecimentos prodigiosos, enquanto os mecanicistas optaram pela visão de um mundo sóbrio, desencantado e preocupado principalmente com o curso cotidiano da natureza.” As novas descobertas mostram, de forma mais contundente, semelhanças entre as duas vertentes e obrigam a relativizar esse quadro, explica Rattansi.</p>
<p>Pouco antes da Revolução Gloriosa, a ciência hermética tomou conta da Inglaterra, por conter o ideal de uma nova filosofia natural como parte de um grande projeto reformista, o que explica a harmonia inicial entre correntes poderosas da revolução e os herméticos, e os puritanos foram em parte responsáveis pela divulgação dessa visão encantada e reformadora. Em tempos de guerra, fome e miséria, uma corrente que preconizava a realização de feitos para melhorar a vida cotidiana, a agricultura, a educação e a saúde de todos tinha grande apelo popular. Logo, alguns grupos começaram a pregar reformas intensas, como o de Samuel Hartlib e seu Colégio Invisível, apoiado nas máximas do tcheco Jan Comenius, que foi convidado a ir à Inglaterra, onde escreveu extensamente sobre educação com ideias que combinavam, às vezes, alquimia e filosofia natural. Entre as propostas estava a criação de universidades em todas as cidades. Mesmo Boyle e outros que viriam a fundar a Royal Society, simpatizantes da causa de Comenius, começaram a temer pela ordem e estabilidade nesse clima de sectarismo.</p>
<div id="attachment_17274" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-5.jpg" rel="lightbox[17266]" title="018-025_CAPA_alkahest_199-5"><img class="wp-image-17274" title="018-025_CAPA_alkahest_199-5" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-5.jpg" width="290" /></a><p class="wp-caption-text">Decreto de criação da Royal Society com a efígie do rei Charles II</p></div>
<p>A Inglaterra passou a ser invadida desta vez pelas novas doutrinas “sóbrias” de Descartes e de Gassendi, com um número notável de conversões à ciência mecanicista, que passou a ser apreciada como a mais apropriada, uma grande síntese entre teologia e filosofia natural: se o universo era como uma máquina, a doutrina aponta para o seu criador. “Na Inglaterra do século XVII era usual o estudo da filosofia natural se harmonizar com a visão mística e teológica do mundo. Daí a reverência de Newton, mas não apenas dele, como sabemos agora, à <em>prisca sapientia</em>, o conhecimento dos clássicos que ele e outros acreditavam ser verdades reveladas por Deus aos primeiros habitantes da Terra”, diz Rattansi.</p>
<p>Assim, continua o professor, os achados das pesquisadoras reforçam essa perspectiva revisionista da revolução científica, pois, mesmo após a aceitação das explicações mecanicistas, os problemas que chamavam a atenção de figuras racionais como Newton e Boyle eram os mesmos que preocupavam os herméticos: a transmutação e o <em>alkahest</em>; a ação do pó de simpatia; a influência das constelações sobre os homens e o uso de fórmulas magistrais com fins medicinais. “O que se encontra nos arquivos da Royal Society são lembranças salutares das muitas correntes que concorreram para a revolução científica do século XVII. São lembranças de em que medida criadores da ciência moderna, como Newton, ainda usavam a tradição hermética junto à nova filosofia natural.”</p>
<p>“Os problemas médicos sempre lideraram os interesses, e os médicos sempre foram uma comunidade abrangente. As pessoas que olhavam para um contexto maior, como Isaac Newton, sempre existiram em menor número, mesmo nos séculos xvii, xviIi e xix. Por exemplo, em 1820, havia apenas 100 pessoas nessa ilha para realizar pesquisa. A ciência não era vista como algo que pudesse resolver os problemas da tecnologia ou da medicina, por isso não havia investimento em capital humano para trabalhar nessas áreas”, lembra o historiador da ciência Frank James, presidente da Royal Institution.</p>
<p>“Está claro que o trabalho de Newton relacionado à força e à gravitação está associado às experiências com a alquimia, exatamente porque esses conceitos não estavam contemplados no pensamento filosófico daquele período. E esse é o motivo que faz com que outros autores tenham problema com as ideias de Newton, posto que eles não necessariamente reconhecem como legítimas as origens de seus postulados. Somente Newton sabia da validade de seus estudos porque muito se baseava nos seus trabalhos como alquimista”, analisa James. “Newton só fez as descobertas que realizou ao lançar mão de todas as maneiras de conhecimento, o que permitiu que visse o que pensadores ‘racionais’ não conseguiram enxergar”, concorda Rattansi.</p>
<div id="attachment_17275" class="wp-caption alignleft" style="width: 271px"><img class="wp-image-17275" title="018-025_CAPA_alkahest_199-8" alt="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199-8.jpg" width="261" height="260" /><p class="wp-caption-text">Selo da instituição com a frase Nullius in verba: não se confia apenas nas palavras, mas nos experimentos</p></div>
<p>O historiador Michael Hunter, do Birbeck College, em Londres, vê “exagero nessas afirmações”. “Alguns membros individuais podem até ter se aventurado na alquimia ou na busca por curas milagrosas, mas deixavam isso de lado quando se reuniam na Royal Society, que marginalizava buscar mágicas em detrimento do estudo da filosofia natural, da qual a instituição foi a maior propagadora publicamente”, fala Hunter. “É preciso lembrar que a Royal Society funcionava como uma entidade corporativa e teve um papel fundamental em estabelecer as fronteiras do que era ou não ciência”, observa. Segundo ele, nos artigos do <em>Philosofical Transactions</em> tais alquimias eram tratadas de forma tangencial, quando se falava delas. Era um ponto de honra para o seu editor, Henri Oldenburg, que rejeitava “magias”. “Encontramos raramente investigações de laboratório ligadas à alquimia, até mesmo porque o público intelectual da época rejeitava coisas sobrenaturais e entrar nessa seara significaria sujar a reputação de quem o fizesse”, analisa Hunter. Vale lembrar, no entanto, que as pesquisadoras encontraram também um documento, de punho e letra de Oldenburg, listando “as experiências feitas na Royal Society da Inglaterra durante a presidência de Sir Murray”, entre as quais se encontra a que foi realizada com o <em>alkahest</em>.</p>
<p>Seja como for, o ponto mais importante nessa história que, hoje, pode passar desapercebido é a padronização dos modos de pensar e operar no laboratório. “Num mundo em que a alquimia trabalhava com teorias e receituários sigilosos, cada grupo de estudiosos tinha diferentes formas de pensar e operar sobre a matéria. O trabalho da Royal Society e de Oldenburg, então, pode ser visto como uma forma de reunir esses grupos dispersos e estabelecer padrões de trabalho no laboratório que pudessem ser repetidos como reza a ciência moderna”, diz Ana.</p>
<p>Isso está presente na correspondência do secretário com o médico hermético veneziano Francesco Travagino. Oldenburg descobre que o amigo italiano convertera mercúrio comum em prata pura e desejava ter a receita. Ao enviá-la, Travagino lamenta ser incapaz de repetir o feito. A resposta de Oldenburg revela os anseios da época em encontrar um rumo moderno para a ciência do laboratório: para ele, uma das maiores dificuldades em qualquer procedimento era ter como um dos raros parâmetros a origem do material. “Assim como Boyle, Oldenburg pensava em estabelecer padrões claramente definidos de forma que o experimento pudesse ser reproduzido e universalmente aceito”, observa Márcia. As cartas revelam que o primeiro secretário da Royal Society, talvez, tenha sido bem mais do que um <em>intelligencer</em> trocando ideias com grandes figuras como Boyle. Um imigrante sempre visto com desconfiança e ciente de sua posição como secretário, Oldenburg preferiu compartir suas ideias e possível experiência de laboratório com outros membros dessa sociedade. Com isso teria obtido, em troca, posto oficial e um salário mais digno.</p>
<p>Partimos, então, para um novo mistério, relacionado à possível ingestão de sigilosos preparados herméticos, com consequências muitas vezes dramáticas, envolvendo novamente várias figuras do cenário inglês. Uma história ainda sob investigação, mas que as pesquisadoras prometem será muito bem fundamentada em documentos.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/018-025_CAPA_alkahest_199NOVO-TEXTO.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Uma incômoda pitada de magia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/uma-incomoda-pitada-de-magia/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Uma incômoda pitada de magia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/uma-incomoda-pitada-de-magia/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Uma incômoda pitada de magia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/uma-incomoda-pitada-de-magia/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Uma incômoda pitada de magia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/uma-incomoda-pitada-de-magia/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Os engenhos e os holandeses</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Sep 2012 20:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Milena Fernandes Maranho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[O bagaço da cana - Evaldo Cabral de Mello]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-17511" title="094-095_Resenhas_199-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/094-095_Resenhas_199-2.jpg" alt="" width="290" height="262" />O recém-lançado livro do historiador Evaldo Cabral de Mello, <em>O bagaço da cana – Os engenhos de açúcar no Brasil holandês</em>, é um tesouro para os pesquisadores que se dedicam a investigar a produção açucareira e todos os desdobramentos que a envolviam na configuração econômica e política do Nordeste colonial seiscentista.</p>
<p>A cana-de-açúcar foi cultivada na península Ibérica desde a época da conquista dos mouros, ocorrida a partir da expansão árabe do século VII. O autor indica em outro estudo que até mesmo a palavra açúcar deriva etimologicamente do árabe <em>al-succar</em>, que tem origem no sânscrito <em>sarkara</em>, ou seja, semelhante à areia branca. Desde Chipre e Creta até o norte da África, o cultivo da cana foi introduzido nessas localidades a partir do século XIV. Por volta de 1440, a região da Madeira foi o ponto de partida para a expansão do cultivo da cana e da produção de açúcar no mundo atlântico, servindo como modelo para os Açores, Cabo Verde, São Tomé e Brasil. Nas primeiras décadas do século XVI, Antuérpia, Amsterdã e Lisboa tinham fortes relações econômicas envolvendo o açúcar pernambucano, as quais, devido à grande demanda, suscitaram muitos investimentos de judeus portugueses e de negociantes dos próprios Países Baixos, levando a que diversos fatores dessa conjuntura histórica, aliada à união das coroas ibéricas, culminassem na invasão holandesa em Pernambuco.</p>
<p>A partir deste contexto, Evaldo Cabral tem como foco o período da dominação batava em Pernambuco, e dividiu o livro em seis capítulos. O primeiro, As fontes, apresenta o diversificado <em>corpus</em> documental consultado pelo autor: denunciações e confissões inquisitoriais, fontes de índole administrativa, listagens de engenhos, crônicas e relatórios sobre o Brasil holandês. O segundo capítulo, Antes dos holandeses, indica as conjunturas históricas e as características dos engenhos anteriores ao período neerlandês em Pernambuco. Os três capítulos seguintes, Os desastres da guerra, Euforias nassovianas e O grande calote, tratam do período holandês e das várias fases e transformações nas características dos engenhos e de sua produção desde o governo de Maurício de Nassau em 1637 até a fase final da Restauração pernambucana de 1654 e seus desdobramentos.</p>
<p>Outro destaque é o debate sobre a natureza da própria insurreição contra os batavos. Esta chegou a ser pensada como “uma empresa desesperada de relapsos devedores luso-brasileiros, ansiosos por se libertarem das dívidas”. Mas parte da documentação demonstrou que muitos devedores não se mostraram totalmente favoráveis à insurreição. No último capítulo, Os engenhos de açúcar no Brasil holandês, é apresentado um levantamento cronológico, histórico e descritivo detalhado sobre os engenhos.</p>
<p>Para cada engenho há um mapeamento de informações que auxilia a visualização de paisagens históricas e dados econômicos, bem como de suas transformações no tempo. Este capítulo também apresenta particularidades que nos aproximam de vários microcosmos, com questões familiares e tramas políticas que permitem a compreensão de processos históricos mais complexos como aqueles que envolviam as relações entre senhores de engenho, holandeses e a administração lusa.</p>
<p>Na verdade, ao trazer informações que constituíram uma das bases para a vasta produção deste historiador pernambucano sobre a história do Nordeste colonial, o livro apresenta notáveis exercícios de investigação e compilação de Evaldo Cabral para organizar e dar sentido a informações de origem tão diversa. Enfim, podemos dizer que <em>O bagaço da cana </em>oferece ainda muito “caldo” sobre este fascinante tema que é o dos engenhos de açúcar coloniais do Nordeste e a dominação holandesa, tendo em vista os seus significados na estruturação da América portuguesa no século XVII.</p>
<p><strong>Milena Fernandes Maranho</strong><em> é pesquisadora-colaboradora do IFCH/Unicamp e autora da tese</em> O moinho e o engenho – São Paulo e Pernambuco em diferentes contextos e atribuições no império colonial português, 1580 &#8211; 1720 (USP, 2006).
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/094-095_resenhas_1991.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Os engenhos e os holandeses' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/os-engenhos-e-os-holandeses/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Os engenhos e os holandeses' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/os-engenhos-e-os-holandeses/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Os engenhos e os holandeses' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/os-engenhos-e-os-holandeses/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Os engenhos e os holandeses' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/os-engenhos-e-os-holandeses/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Bóson de Higgs e uma nova física</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Sep 2012 17:30:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Pública]]></category>

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		<description><![CDATA[Sérgio Novaes explica a importância do Bóson de Higgs]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Veiculado em 7 de setembro de 2012</em></p>
<p>No dia 4 de julho, pesquisadores da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) anunciaram ter encontrado uma nova partícula elementar que pode ser o Bóson de Higgs. A expectativa é que a descoberta complete uma teoria da física chamada Modelo Padrão, que explica do que é feita a matéria e como ela se comporta no nível subatômico. O físico Sérgio Novaes, colaborador do detector CMS, um dos experimentos responsáveis pelo achado, conversa sobre o Bóson de Higgs e os desafios enfrentados pela física. Durante a entrevista, o pesquisador que  também lidera um grupo de pesquisa no Instituto de física Teórica da Unesp e na Universidade Federal do ABC, apresenta músicas relacionadas à faceta revolucionária da ciência. Leia também a reportagem <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/quebra-cabeca-em-expansao/" target="_blank"><em>Quebra-cabeça em expansão</em></a>.</p>
<p>Também nesta edição, o historiador e cientista social <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/um-pa%C3%ADs-se-faz-com-homens-sa%C3%BAde-e-doen%C3%A7as/" target="_blank">Gilberto Hochman</a>, da Fundação Oswaldo Cruz, apresenta o projeto “Saúde pública e construção de Estado: políticas nacionais, organizações internacionais e programas de controle e erradicação de doenças no Brasil”, sobre as primeiras organizações internacionais de saúde que atuaram no país.</p>
<p><strong>Programação Musical:</strong><br />
As coisas – Gilberto Gil e Caetano Veloso<br />
Sonho impossível – Maria Bethânia (indicação Sérgio Novaes)<br />
O Mosquito – Arnaldo Antunes<br />
Travessia – Milton Nascimento (indicação Sérgio Novaes)<br />
Tanto Mar – Chico Buarque  (indicação Sérgio Novaes)</p>
<p>Apresentação: Celso Filho (Rádio USP), Fabrício Marques e Maria Guimarães.<br />
Produção e roteiro: Biancamaria Binazzi<br />
Gravação e montagem: Beto Alves (Rádio USP).</p>
<p><em>Pesquisa Brasil</em> vai ao ar todas as sextas-feiras às 13:30, pela <a href="http://www.radio.usp.br/" target="_blank">Rádio USP</a>.</p>
<p><a href="http://feeds.feedburner.com/podcastrevistapesquisafapesp" target="_blank">Assine <em>Pesquisa Brasil </em>como podcast!</a></p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/15_Sergio-Novaes.mp3" target="_blank">Baixar o MP3</a></p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/category/multimidia/podcast/" target="_blank"><em>Veja aqui o arquivo do Pesquisa Brasil</em></a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Bóson de Higgs e uma nova física' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/07/b%c3%b3son-de-higgs-e-uma-nova-f%c3%adsica/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Bóson de Higgs e uma nova física' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/07/b%c3%b3son-de-higgs-e-uma-nova-f%c3%adsica/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Bóson de Higgs e uma nova física' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/07/b%c3%b3son-de-higgs-e-uma-nova-f%c3%adsica/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Bóson de Higgs e uma nova física' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/07/b%c3%b3son-de-higgs-e-uma-nova-f%c3%adsica/' displayText='share'></span></p>
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		<item>
		<title>Nos ombros de gigantes mágicos</title>
		<link>http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/nos-ombros-de-gigantes-m%c3%a1gicos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=nos-ombros-de-gigantes-m%25c3%25a1gicos</link>
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		<pubDate>Wed, 22 Aug 2012 22:00:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Especial]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Química]]></category>

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		<description><![CDATA[Processo de transformação da alquimia foi mais longo do que se imagina]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Foi preciso muita coragem para Einstein assumir, em plena idade moderna, que “a ciência sem a religião é coxa e a religião sem a ciência é cega”. Em especial, a primeira parte da citação ainda provoca calafrios em muitas mentes científicas que associam de forma ortodoxa ciência à ideia de progresso: assim, os antigos conheceram pior do que os medievais e estes pior que os modernos, totalmente libertos de qualquer “obscurantismo” religioso. “Em especial, há a visão de uma estreita passagem da alquimia para a química, entre meados dos anos 1600 e finais dos anos 1700, cujas marcas seriam a publicação de <em>Químico cético</em>, de Boyle, livro que teria iniciado a química moderna em 1661, e o ‘gran finale’ de Lavoisier em seu <em>Tratado elementar de química</em>, em 1789”, explica a professora Ana Alfonso-Goldfarb, do Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência (Cesima), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).</p>
<p>“Não se pode dissociar o desenvolvimento da ciência de aspectos religiosos, assim como o saber alquímico e tradição hermética não foram eliminados pela revolução científica, mas conviveram por longos séculos. Não se trata de rupturas, mas de permanências e transformações lentas de conhecimentos antigos”, analisa a pesquisadora que, ao lado da professora Márcia Ferraz, também do Cesima, trouxe à luz uma importante rede de discussões sobre os princípios da matéria, que se estendeu até, pelo menos, o século XVIII, no projeto temático <em>Revelando os processos naturais através do laboratório: a busca por princípios materiais nos três reinos até a especialização das ciências no setecentos</em>, apoiado pela FAPESP.  “Mentes notáveis de uma instituição como a Royal Society, apesar de realizarem procedimentos próximos aos da ciência moderna ainda viam no laboratório ‘iluminista’ o ‘olhar de Deus’”, observa Márcia Ferraz. Foi, aliás, mergulhando nos arquivos da sociedade britânica que as duas estão colocando cada vez mais em suspeição a crença de que a alquimia, baseada em mistérios, não resistiu à passagem para um universo racional e mecanicista, onde qualquer mistério era inadimissível.</p>
<p>“As ideias alquímicas, sob outro nome, ainda intrigaram por muito tempo grandes figuras hoje associadas à ciência moderna. Essa é a beleza dessa história: não há uma razão única, mas várias ‘razões’ que souberam conviver até o século XIX”, analisa Ana. Isso será, aliás, o foco do desdobramento do temático num novo projeto, também apoiado pela FAPESP e iniciado agora, que alcançará o oitocentos, período em que, as pesquisas das professoras confirmaram, se dará o efetivo desmembramento das áreas do saber em direção a um sistema de organização moderno. “Ao mesmo tempo, e talvez não por acaso, a noção de princípio ou princípios materiais será superada de muitas formas, inclusive por meio de variações distantes como foram as novas concepções de princípios ativos”, afirma Márcia.</p>
<p>Até então, duas vertentes dividiam o interesse dos estudiosos. Uma das perspectivas concebia a organização da matéria em “princípios reitores”: estes seriam exclusivos ao reino que constituíam e intransferíveis, mesmo no laboratório, a outros reinos da natureza. Um segundo grupo, preconizava a existência de um único princípio que circularia entre os três reinos (mineral, vegetal e animal), embora agindo de forma distinta em cada um deles. Crença que datava a tempos aristotélicos, essa ideia se fundamentava na observação de processos em que materiais de reinos distintos, ao interagirem, pareciam transferir suas características uns aos outros. Entre os adeptos dessa visão estavam estudiosos notáveis da primeira modernidade e suas reverberações continuaram a prevalecer século XVIII adentro.</p>
<p>“Muitas das obras que criaram a ciência moderna estavam num limiar, captando, por um lado, essa lógica totalizante dos saberes de vozes do passado e, ao mesmo tempo, iniciando um contato com a nova cosmologia e as novas ideias”, diz Ana. Para as próprias pesquisadoras, no início, a descoberta de que homens como Boyle e Newton acreditavam na possibilidade da “pedra filosofal” provocou uma sensação incômoda. Mas, boas adeptas da razão, os achados documentais das pesquisadoras no acervo da Royal Society fizeram com que elas revissem suas crenças e passassem a enxergar os antigos modelos da nova ciência pelo prisma da época, e não com a visão anacrônica e “preconceituosa” dos nossos tempos.</p>
<p>Afinal, como desmentir um documento oficial de uma instituição vetusta que acaba de completar 350 anos de história, em especial nos escritos de Henry Oldenburg, membro de uma rede europeia de sábios e secretário da recém-criada sociedade inglesa. “Para os estudiosos da Royal Society não havia nada mais a se descobrir em seus arquivos, em especial após a catalogação completa do acervo feita pelo casal Marie e Rupert Hall a partir dos anos 1960”, conta Ana. As brasileiras, porém, descobriram muito material nos “fundos fechados” do arquivo, e não foi pouca coisa. O achado mais “espetacular” foi a “receita” do alkahest, suposto “solvente universal” alquímico que poderia dissolver qualquer substância, reduzindo-a a seus componentes primários. Isso, nos papéis de homens “iluminados” pela razão como Oldenburg e Jonathan Goddard, lente da instituição. A descoberta só confirmava que os “papéis secretos” de Newton, aos poucos revelados desde os anos 1930, e sua relação com a alquimia, eram a ponta de um <em>iceberg</em> maior do que o desejável.</p>
<p>“Havia uma segunda agenda na pauta dos novos cientistas e os documentos mostram, numa forma concisa e quase moderna, que em muitos experimentos havia concepções e processos ligados a velhos tratados e receituários. Basta ver as tentativas de refino de ouro com antimônio descritos por Goddard à Royal Society”, lembra Márcia. Antes de julgar, porém, é preciso conhecer a vinculação, na época, das ciências da matéria às ciências médicas, lugar preferencial desse hibridismo entre o antigo e o novo no campo de batalha dos laboratórios. “Os chamados ‘males da pedra’, a litíase renal, era uma das principais causas de morte até o século XIX. Nesse contexto, a alquimia se insinuou como tábua de salvação, já que sua suposta capacidade de ‘abrir’ os materiais mais resistentes, para extrair sua essência mais pura, poderia dissolver as pedras do organismo”, observa Ana.</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Revelando os processos naturais através do laboratório: a busca por princípios materiais nos três reinos até a especialização das ciências no setecentos – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-tematicos/1284/revelando-processos-naturais-atraves-laboratorio/" target="_blank">nº 2005/56638-7 </a>(2006-2011)</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Auxílio Pesquisa – Projeto Temático</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Coordenadoras</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Ana Maria Alfonso – Goldfarb<br />
Márcia Ferraz Cesima – PUC- SP</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 659.361,18</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Era preciso encontrar algo com o poder do ácido sem os seus efeitos colaterais letais para o corpo humano. “Alkahest e a pedra filosofal, combinados, formariam o remédio ideal: o primeiro suavizaria os efeitos negativos do ácido e a pedra era o complemento ideal, pois seria potente o bastante para dissolver até um metal resistente como o ouro e, ao mesmo tempo, inócuo contra o organismo”, explica Márcia. Não se pode, porém, negar que a busca desses produtos alquímicos também esteve ligada ao desejo de produzir ouro, almejado por plebeus e monarcas, e a muito “filosofismo” esotérico, em voga na Inglaterra puritana. “Encontramos muitos documentos nos arquivos da Royal Society que revelam uma visão milenarista de muitos sábios da época”, diz Ana.</p>
<p>Menos vulgar do que o milenarismo medieval, os lentes britânicos preconizavam a “importação” de judeus dos Países Baixos para a Inglaterra, promovendo o encontro deles com os puritanos, uma mistura que criaria um “caldo natural” de onde nasceria o messias capaz de iniciar uma nova era de progresso científico, educacional e médico, onde todos poderiam se beneficiar dos avanços feitos nos laboratórios. “Eles queriam tornar tudo o que era incompreensível, logo ameaçador, em compreensível, via puritanismo, gerando o melhor e mais racional dos mundos”, conta Ana. Longe de delírio, era um debate que envolveu intensa troca de cartas entre membros da Royal Society e figuras como Espinoza e Leibniz. Einstein, que não jogava dados com o universo, tinha lá sua razão.</p>
<p>Ao lado das pesquisas híbridas com a alquimia, todos eram segredos guardados a sete chaves. “Muitas vezes, havia casos de suborno, espionagem e roubo de ‘receitas’ alquímicas a mando de Oldenburg, em nome do progresso científico”, conta a pesquisadora. Essas receitas, porém, levantavam questões que ajudaram na criação da nova ciência. Afinal, os papéis secretos tinham ingredientes exóticos ou não os descreviam com precisão. Assim, como obter o material certo, puro o suficiente, capaz de fazer o receituário funcionar? Talvez, o malogro de se conseguir a pedra filosofal, por exemplo, se devesse a essas imprecisões. “Era a busca da transmutação, mas dentro de procedimentos que seriam a pedra fundamental da ciência moderna. O laboratório se transforma no lugar da ‘prova’. Antes usado para criar produtos, agora, entre os séculos XVII e XVIII, ele passa a servir como centro de padronização de experimentos”, observa Ana.</p>
<p>A partir de questões alquímicas, iniciou-se a discussão sobre a necessidade de uma ciência universal, em cujo centro estava a preocupação com a capacidade de reproduzir um dado experimento, em se estabelecerem parâmetros científicos, um meio do caminho entre aspectos místicos e ciência. “O desenvolvimento gradativo da imprensa, que permitiu a maior circulação de informações, e as trocas entre os que haviam, tradicionalmente, guardado informações sigilosas, extraídas da antiga literatura e portadoras de seus vestígios, foi um fator de peso para o nascimento da nova ciência química”, analisa Ana. “Em troca das buscas obsessivas por materiais lendários, o laboratório acabou garantindo marcadores excelentes para os progressos de análise e síntese. Acima de tudo, pensava-se garantir através deles uma expressão material e visível para o estudo dos princípios ou bases elementares que, de outra forma, pareciam inatingíveis”, completa Márcia. Foram necessários mais de dois séculos para que o velho laboratório do alquimista se transformasse no do químico, com seus padrões modernos. Tempos em que a ciência tentava não mancar e parte da religião queria enxergar.</p>
<p><em><strong>Artigos Científicos</strong></em><br />
1. ALFONSO-GOLDFARB, A. M. <em>et al</em>. <a href="http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&amp;aid=8411931" target="_blank">Gur, Ghur, Guhr or Bur? The quest for a metalliferous prime matter in early modern times</a>. <strong>British Journal for the History of Science</strong>. v. 44, p. 1-15, 2011.<br />
2. ALFONSO-GOLDFARB, A. M. <em>et al</em>. <a href="http://revistas.pucsp.br/index.php/circumhc/article/view/2759" target="_blank">Chemical Remedies in the 18th Century: Mercury and Alkahest</a>. <strong>Circumscribere</strong>. v. 7, p. 19-30, 2010.<br />
3. ALFONSO-GOLDFARB, A. M. <em>et al</em>. <a href="http://rsnr.royalsocietypublishing.org/content/64/4/435.abstract" target="_blank">Lost Royal Society documents on &#8216;alkahest&#8217; (universal solvent) rediscovered</a>. <strong>Notes and Records of the Royal Society of London</strong>. p. 1-23, 2010.</p>
<p><em><strong>De nosso arquivo</strong></em><br />
<em><a href="http://revistapesquisa2.fapesp.br/?art=3704&amp;bd=1&amp;pg=1&amp;lg=" target="_blank">A agenda secreta da química</a> </em>– Edição nº 154 – dezembro de 2008<em><br />
</em><em><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=11805" target="_blank">O ouro da sabedoria</a> </em>– Edição nº 177 – novembro de 2010<br />
<em><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=7626" target="_blank">Documentos que valem ouro</a> </em>– Edição nº 182 – abril de 2011
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/246-251_alquimia.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Nos ombros de gigantes mágicos' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/nos-ombros-de-gigantes-m%c3%a1gicos/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Nos ombros de gigantes mágicos' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/nos-ombros-de-gigantes-m%c3%a1gicos/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Nos ombros de gigantes mágicos' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/nos-ombros-de-gigantes-m%c3%a1gicos/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Nos ombros de gigantes mágicos' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/nos-ombros-de-gigantes-m%c3%a1gicos/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A reconstrução do passado</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Aug 2012 19:22:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Izique</dc:creator>
				<category><![CDATA[Especial]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Memórias lançam luz sobre o fim do colonato nas usinas de açúcar]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1966, os colonos da Usina Amália, uma das maiores e mais tradicionais produtoras de cana-de-açúcar no interior do estado de São Paulo, entraram em greve por melhores salários e condições dignas de trabalho. Em plena ditadura militar, o movimento resultou na expulsão de cerca de quatro mil famílias da fazenda. O episódio teria caído no esquecimento não tivesse ficado indelevelmente registrado na memória dos colonos que, trinta anos depois, contaram à pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva histórias de violência, traição e medo. “Eles caíram numa armadilha dos proprietários da fazenda e do sindicato”, ela afirma.</p>
<p>As lembranças dos trabalhadores – e 208 processos judiciais contra a Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, proprietária da usina – ajudaram Maria Aparecida a reconstituir um perío-do de profunda transformação das relações de trabalho nas lavouras de cana, quando o colonato deu lugar ao trabalho temporário, constituindo personagens como o trabalhador volante e os bóias-frias. Os relatos permitiram também que ela conhecesse detalhes das atividades diárias das famílias: a cana era cortada pelos adultos e amontoada em feixes pelas crianças, antes de ser transportada para a usina. Emoldurando o dia a dia, casamentos, batizados, folia de reis e noites embaladas pela valsa da Siriema: “<em>Teus olhos, quantas cores/De uma Ave Maria/ Que um rosário de amargura/ eu rezo todo o dia</em>”.</p>
<p>A pesquisa, iniciada em 1997, contou com o apoio da FAPESP. O projeto – <em>Mulheres da Cana: Memórias</em> – pretendia reconstituir histórias relacionadas ao trabalho feminino na lavoura. A menção recorrente a uma greve na Usina Amália, no entanto, obrigou-a a ampliar seu escopo de investigação. “Na bibliografia sobre a história da proletarização rural em São Paulo, esta greve não é mencionada”, justifica. Utilizando o “sistema de redes”, como ela explica, pôde identificar e contatar mais de 70 ex-colonos espalhados pela região – Leme, Ribeirão Preto, Barrinha, Santa Rosa do Viterbo, São Simão. “Foi necessário recorrer à história oral para reconstruir os acontecimentos.”</p>
<p>Com 11 mil alqueires, a Usina Amália era o braço agroindustrial das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Além das lavouras, sediava unidades industriais para o aproveitamento da cana e do bagaço, do eucalipto e de frutas e legumes produzidos no local. Ali se produziam açúcar, álcool, papelão, ácido cítrico, sabonetes e conservas. No início dos anos 1950, a Usina Amália antecipava-se ao conceito de biorrefinaria no aproveitamento da biomassa. Empregava milhares de pessoas – de trabalhadores rurais a operários – todos eles vinculados ao Sindicato da Indústria da Alimentação, de acordo com a legislação da época. No caso dos colonos, o titular do contrato de trabalho era chefe da família, mas o cálculo de produtividade – pela qual ele era remunerado – envolvia o trabalho não remunerado da mulher e dos filhos.</p>
<p>Os funcionários mais graduados tinham acesso à escola<em></em><strong><em>, </em></strong>ao hospital, a cinema, à igreja e até a um supermercado, todos instalados na área da fazenda. Os trabalhadores rurais, não. Distribuíam-se entre mais de 20 colônias – cada uma delas com 100 a 150 famílias – distantes da sede, no meio do canavial. Tinham direito a cultivar um pequeno pomar e horta, mas os produtos necessários à subsistência eram adquiridos no armazém. Esses gastos eram abatidos do salário do chefe da família e, no final do mês, resultavam num saldo muitas vezes negativo.</p>
<p><strong>A greve</strong><br />
A vida na usina e a greve de 1966 foram descritas na reportagem de Marcos Pivetta, <em>Casa-grande dos Matarazzo na Califórnia Paulista</em>, publicada na edição nº 61 da revista <em>Pesquisa FAPESP</em>, em janeiro de 2001.</p>
<p>A relação da empresa com os colonos tensionou com a implantação do Estatuto do Trabalhador Rural, em 1963, que igualou os direitos do homem do campo aos do trabalhador urbano, tornando ilegal o sistema de titularidade, escreveu Pivetta. Os cortadores de cana passaram a ter direito a férias, 13º salário, carteira assinada – para cada trabalhador e não apenas para os titulares do contrato, como ele sublinhou –, atendimento médico pelo INSS e aposentadoria. Essa tensão foi arbitrada pelas leis de Segurança Nacional e de Greve, no primeiro ano da ditadura militar: instilados pelo sindicato, na avaliação de Maria Moraes, os trabalhadores rurais da Usina Amália foram à greve pelos direitos garantidos pelo novo estatuto e foram expulsos da fazenda por terem deflagrado um movimento considerado ilegal. “Assim que um cortador era despedido e convencido a deixar a fazenda, sua antiga casa era posta abaixo pelos patrões”, contou Pivetta. Junto com a casa do colono, arruinava-se um sistema de relação de trabalho.</p>
<p>Na memória de alguns desses ex-colonos, a greve, que durou seis dias, teria se estendido por cinco anos, período em que tramitaram os processos judiciais e recursos da empresa, desde o Fórum Municipal de Santa Rosa do Viterbo até o Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília. “Em todos os pareceres dos juízes, há menções relativas à dispensa discriminatória dos trabalhadores, à legalidade da greve, ao caráter pacífico dos acontecimentos, ao direito dos trabalhadores, ao caráter pacífico da convocação da assembléia pelo sindicato, aos motivos de reivindicação dos valores não pagos pela empresa por ocasião do dissídio coletivo aprovado pelo Egrégio Tribunal do Trabalho e à obediência à determinação da Justiça do Trabalho ao decretar a cessação do movimento”, escreveu Maria Moraes, no artigo <em>Greve na Fazenda</em>, publicado na coletânea <em>História Social do Campesinato no Brasil</em>.</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Mulheres da cana: memórias – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-regulares/13406/mulheres-cana-memorias/" target="_blank">nº 1996/12858-2</a>  (1997-1999)</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Auxílio a projetos de pesquisa</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Coordenadora</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Maria Aparecida de Moraes Silva</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 16.608,13</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Nesse ínterim, “muitos trabalhadores fizeram acordo com a empresa, mediante o pagamento de quantias irrisórias, depois de muitos anos de espera pela solução judicial”, ela afirma. Respaldados pela Justiça, alguns permaneceram na fazenda, sem qualquer vínculo empregatício ou trabalho para lhes garantir o sustento, apenas aguardando o desfecho desde sempre inevitável.</p>
<p>Nas memórias dos ex-colonos não há registro de qualquer triunfo da Justiça. “Eles retiram da experiência vivida relatos permeados de dramaticidade, emoções, simbolismo, fruto não de uma mera descrição do passado, mas de sua recriação e revificação”, afirma Maria Moraes.</p>
<p>As mulheres, sujeitos privilegiados da pesquisa, guardam na lembrança a dificuldade em conseguir trabalho, a fome, a sopa de mandioca nos momentos de extrema dificuldade. “Ainda que não participando diretamente da greve, elas, como filhas ou esposas, sofreram as consequências”, analisa.</p>
<p>Trinta anos depois, Maria Moraes encontrou muitas delas na condição de chefes de família. Para desempenhar esse novo papel, tiveram que vencer desafios ainda maiores do que em seu passado de colonas, observou Pivetta na matéria publicada pela revista <em>Pesquisa FAPESP</em> em 2000. “Concorrendo com homens mais novos e máquinas que vão tomando conta do corte da cana, as mulheres bóias-frias enfrentavam enormes dificuldades em encontrar emprego no meio rural.” Algumas catavam tocos de cana rejeitados por colheitadeiras ou “mexiam” com agrotóxico em viveiros de mudas da planta; outras eram empregadas domésticas.</p>
<p>Na periferia das cidades, elas guardavam também lembranças das relações familiares, do compadrio e da vizinhança. “A sociabilidade ancorada nas relações primárias, caracterizada pelo reconhecimento interpessoal e autorreconhecimento, cedem lugar à sociabilidade individualizada e estranhada”, diz Maria Moraes. As tradições e cultura “do mundo de antes” não cabiam mais nos limites do novo espaço. “Foi necessária a construção de lugares para protegê-las, para impedir sua morte.”</p>
<p>Ali, nesses “lugares”, como ela diz, estão guardados fragmentos de histórias individuais e coletivas. “À medida que as lembranças vão brotando dos subterrâneos da memória e se dirigindo à superfície, aquilo que era até então nebuloso vai aos poucos assumindo formas nítidas, com conteúdos multicoloridos”, escreveu a pesquisadora no artigo<em> A memória na esteira do tempo</em>, publicado em 2001. “Nossa vizinha fazia umas broinhas de fubá: quebrava os ovos ali, bate bem, põe gordura ali, põe canela ali, uma meia dúzia de ovos e bate bem&#8230; com a mão mesmo. Depois ainda engrossava com fubá de milho. Ficavam macias e gostosas. Ela fazia e mandava para a mamãe uma biscoiteira cheia daquelas broinhas&#8230;”, contou-lhe dona Onícia, aos 93 anos, abrigada num passado em que lealdade e retribuição eram manifestações simbólicas de um grupo social.</p>
<p><strong>Bricolagem</strong><br />
Mas a memória trama, reconstrói e reinventa lembranças fragmentadas, fazendo das culturas uma espécie de “canteiro de obras”, nas palavras do historiador Peter Burke. Algumas das ex-colonas da Amália ainda integravam, nos anos 1990, grupos de Folia de Reis, uma antiga festa rural. “O sentido da festa ainda era o mesmo: o pagamento de promessas feitas aos santos por uma graça alcançada”, explica Maria Moraes. Mas as andanças dos foliões, os cânticos e o encontro das bandeiras dos Santos Reis tinham novos significados surgidos da simbiose entre rememorar e reinventar personagens renascidos pela trama narrativa. Ela própria acompanhou uma festa de Reis na cidade de Barrinha: a bandeira dos Santos Reis, “aquela que saiu pelo mundo”, encontrava-se com a de Nossa Senhora Aparecida, que não tinha foliões, simbolizando outro momento bíblico: o encontro de Maria – encarnada em Nossa Senhora Aparecida – e Jesus durante a via-crúcis. “<em>Na demora dos três Reis/Herodes se indignou/chamou seus secretários e seu decreto, decretou/ Que seguisse para Belém/ e que lá fosse matando/e que matasse menino homem/ até a idade de dois anos</em>.”</p>
<p><em><strong>Artigo científico</strong></em><br />
SILVA, M. A. M. <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-88392001000300013&amp;script=sci_arttext" target="_blank">A cultura na esteira do tempo</a>. <strong>São Paulo em Perspectiva</strong>. v. 15, n. 3, p. 102-12, 2001.</p>
<p><em><strong>De nosso arquivo</strong></em><br />
<a href="http://revistapesquisa2.fapesp.br/?art=1192&amp;bd=1&amp;pg=1&amp;lg=" target="_blank"><em>Casa-Grande e Senzala dos Matarazzo na Califórnia Paulista</em></a> – Edição nº 61 – janeiro e fevereiro de 2001
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/208-211_mulheres.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span></p>
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		<title>O eterno escravo da história</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Aug 2012 21:08:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Três vezes Zumbi - Jean Marcel França e Ricardo Ferreira]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright  wp-image-15664" title="094-095_Resenhas_198-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/094-095_Resenhas_198-2.jpg" alt="" width="203" height="248" />Infeliz o país que precisa de heróis e ainda mais infeliz aquele cujos historiadores ajudam a criar esses heróis ou transformá-los em vilões. <em>Três vezes Zumbi </em>não se trata de uma biografia de Zumbi, mas bom estudo de caso sobre como a história é “filha do seu tempo”, nas palavras do historiador Jacques Le Goff. Ou seja, por mais que se queira objetiva e documental, na maioria das vezes a história é construção social interessada, uma visão do passado a dar força a ideais do presente.</p>
<p>Zumbi é emblemático porque há raros registros documentais dele, que impediriam uma biografia, mas não interpretações. Na literatura colonial, “zumbi” era título de guerreiros corajosos e não um indivíduo; no século XIX, que queria refazer o país em “civilização”, ele é transmutado em “pessoa”, a oposição exemplar bárbara ao que o Brasil seria e sua coragem foi exaltada para dar maior estatura a seu algoz, um bandeirante; o marxismo do século XX trocou seu protagonismo pelo coletivo simbólico de Palmares, exemplo de “resistência” contra a opressão, razão do nome do grupo VAR-Palmares, do qual participava a presidente Dilma.</p>
<p>Por fim, o movimento <em>gay</em> resolveu entronizá-lo em seu panteão. O diapasão, porém, era o mesmo: ícone de luta contra todo o tipo de repressão. Triste: Zumbi é, de novo, um “escravo”, agora da história, “acorrentado” a ideologias. Nessa “biografia das biografias”, a ironia é ler como muitos dos historiadores questionados, observou Lilia Schwarcz numa resenha, foram os primeiros a denunciar o mesmo processo de construção da memória nacional. “Não há história de um homem, herói ou líder, mas a construção da verdade do passado que pactuamos como nacional e criou o que chamamos ‘identidade brasileira’”. Zumbi é consagrado como líder revolucionário, capaz de abalar as bases de sustentação das classes dominantes desde os tempos do Brasil colonial. Logo, não bastam apenas bons historiadores, mas  também é preciso leitores atentos que não se curvem ao <em>status</em> que se dá às letras impressas num papel, em livros ou jornais.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/24_resenhas_1981.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='O eterno escravo da história' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/o-eterno-escravo-da-hist%c3%b3ria/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='O eterno escravo da história' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/o-eterno-escravo-da-hist%c3%b3ria/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='O eterno escravo da história' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/o-eterno-escravo-da-hist%c3%b3ria/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='O eterno escravo da história' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/o-eterno-escravo-da-hist%c3%b3ria/' displayText='share'></span></p>
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		</item>
		<item>
		<title>Vocação bem-sucedida</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Aug 2012 20:45:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Neldson Marcolin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>

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		<description><![CDATA[Há 104 anos Pirajá da Silva descrevia o parasita da esquistossomose]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_15642" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-15642" title="088-089_memoria-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/088-089_memoria-2.jpg" alt="" width="290" height="386" /><p class="wp-caption-text">Pirajá da Silva aos 35 anos, quando descreveu o parasita, em Salvador</p></div>
<p>O médico Manuel Augusto Pirajá da Silva não tinha nenhum gosto pelo trabalho clínico. Seu interesse estava todo voltado para os estudos acadêmicos, algo não muito comum em 1896, quando se formou na Faculdade de Medicina de Salvador. Baiano de Camamu, clinicou no interior e em Manaus, mas na primeira oportunidade mudou-se para a capital do estado com intenção de trabalhar apenas com investigações médicas de doenças tropicais. Deu certo. Em 1908, ele descreveu o parasita <em>Schistosoma mansoni</em>, causador da esquistossomose, e publicou artigo com o estudo no Brasil e na França no mesmo ano e na Inglaterra em 1909.</p>
<p>“Pirajá acertou em cheio ao seguir sua vocação para a vida acadêmica”, diz Roberto Santos, pesquisador médico que foi reitor da Universidade Federal da Bahia, ministro da Saúde e governador da Bahia. “Dos estudiosos que se dedicaram à pesquisa de doenças tropicais na Bahia, ele é o que tem o trabalho mais original.” A doença que Pirajá investigou  é conhecida popularmente como barriga-d’água e afeta principalmente o intestino, o fígado e o baço. É uma das principais moléstias parasitárias do Brasil.</p>
<p>Pirajá da Silva (1873-1961) começou a dedicar-se à pesquisa científica em 1902 quando foi nomeado assistente de clínica médica na Faculdade de Medicina. O catedrático era Anísio Circundes, que em viagem à Inglaterra conheceu a Escola de Medicina Tropical de Londres, criada pelo escocês Patrick Manson, fundador da medicina tropical. Circundes entusiasmou Pirajá ao relatar as pesquisas nesse setor.</p>
<p>Na época havia uma polêmica sobre o parasita <em>Schistosoma haematobium </em>descoberto em 1851 pelo helmintologista alemão Theodor Bilharz. Os britânicos, liderados por Manson, diziam que a esquistossomose poderia ser provocada por outra espécie do gênero <em>Schistosoma</em>. Os alemães, tendo à frente Arthur Looss, da Escola de Medicina do Cairo, acreditavam em apenas uma espécie. Em 1907 um dos assistentes de Manson, Louis Sambon, ao analisar a morfologia de um ovo diferente dos ovos do <em>S. haematobium </em>e um único verme mal conservado concluiu que estava diante de uma nova espécie. Em homenagem ao mestre que havia aventado a possibilidade de haver  outras espécies do verme, Sambon o chamou de <em>Schistosoma mansoni</em>.</p>
<p>Pirajá conhecia a polêmica. Desde 1904 ele procurava ovos do <em>S. haematobium</em> em pacientes com esquistossomose na Bahia sem sucesso. Em 1908 publicou no <em>Brazil-Médico</em> o artigo “Contribuição para o estudo da schistosomíase na Bahia”. Nele, o pesquisador descrevia ovos e um parasita diverso do <em>S. haematobium</em>.</p>
<p>“Pirajá encontrou ovos com o espículo lateral na mucosa retal e na veia cava de pacientes autopsiados que eram portadores da esquistossomose clínica baiana”, conta Santos. A posição lateral do espículo (pequeno espinho) dos ovos diferia da posição polar verificada nos ovos do<em> S. haematobium</em>, achados na mucosa da bexiga dos africanos com a doença. “Na veia cava dos portadores baianos de esquistossomose, ele também identificou vermes adultos, machos e fêmeas, inclusive em posição de cópula.”</p>
<p>A princípio, Pirajá chamou a nova espécie de <em>S. americanum</em>; depois, concluiu tratar-se do mesmo <em>S. mansoni</em> batizado por Sambon. “A diferença entre os trabalhos de Pirajá e Sambon é que o brasileiro descreveu o verme da forma mais correta possível, com análises minuciosas, enquanto o inglês o fez baseado em uma intuição de Manson”, diz Naftale Katz, pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz, lotado no Centro de Pesquisa René Rachou, em Belo Horizonte.</p>
<p>A contribuição de Pirajá como codescobridor do <em>S. mansoni</em> nunca foi publicamente reconhecida pelos ingleses. O brasileiro correspondeu-se com Robert Leiper – também da escola inglesa e ligado tanto a Manson como a Looss –, que sempre foi reticente em admitir, mesmo nas cartas pessoais, a importância do trabalho realizado na Bahia.</p>
<p>Outros cientistas europeus foram mais generosos. A prova é que  em 1913 Pirajá da Silva foi convidado pelo Instituto Karolinska, que distribui  os Prêmios Nobel, para indicar um candidato na categoria de Medicina ou Fisiologia daquele ano. Pirajá indicou Carlos Chagas pelos trabalhos sobre o <em>Trypanosoma cruzi</em>. No <a href="http://www.nobelprize.org" target="_blank"><em>site</em> oficial</a> informa-se que os nomeadores convidados são aqueles considerados “competentes e qualificados” pelo instituto.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/21_memoria_198.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Vocação bem-sucedida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/voca%c3%a7%c3%a3o-bem-sucedida/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Vocação bem-sucedida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/voca%c3%a7%c3%a3o-bem-sucedida/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Vocação bem-sucedida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/voca%c3%a7%c3%a3o-bem-sucedida/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Vocação bem-sucedida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/voca%c3%a7%c3%a3o-bem-sucedida/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Um país se faz com homens, saúde e doenças</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Aug 2012 20:20:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Programas de erradicação forçada influenciaram construção do Estado]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_15623" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-15623" title="078-083_rockefeller-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/078-083_rockefeller-2.jpg" alt="" width="290" height="416" /><p class="wp-caption-text">Membro do grupo de erradicação no Nordeste</p></div>
<p>Como em qualquer casamento, a união entre Brasil e brasileiros para a formação de um Estado nacional aconteceu sob a advertência do “na saúde e na doença”, em especial esta última, pois após o médico Miguel Pereira declarar, em 1916, que o “país é um imenso hospital”, os brios nacionais foram dirigidos para desfazer essa imagem negativa que maculava os “noivos”. O padrinho “acidental” dessa união foi um estrangeiro, a Divisão Internacional da Fundação Rockefeller, presente entre nós desde os anos de 1910 em parcerias com o governo brasileiro no combate à ancilostomíase e à febre amarela e na formação de profissionais da saúde. A tese da saúde como força-motriz da nação é do historiador Gilberto Hochman, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz e coordenador do projeto <em>Saúde pública e construção de Estado: políticas nacionais, organizações internacionais e programas de controle e erradicação de doenças no Brasil. </em>O “presente” oferecido aos recém-casados era a crença em um programa recente adotado pela fundação, a erradicação de doenças e seus vetores, em oposição ao mero controle, como preconizavam médicos brasileiros que preferiam enfrentar doenças como a malária, então o “grande inimigo” do progresso, com a melhoria de vida dos pobres e quinino. Hochman traz visão alternativa do que até então era visto apenas como mais uma forma de “imperialismo ianque”, desta vez via medicina.</p>
<p>A Rockefeller, no contexto de entusiasmo incontido pela ciência da época, rejeitava paliativos e prometia cortar o mal pela raiz e erradicar de vez as enfermidades com todo o aparato tecnológico disponível e uma organização quase militar de combate, dirigida pelo médico Fred Soper (1893-1977), cuja experiência em doenças tropicais era restrita a um curso intensivo de três semanas. Segundo ele, se o mosquito <em>Anopheles</em> <em>gambiae</em>, encontrado nos anos 1930 no Nordeste, não fosse erradicado, a epidemia sairia de controle e, mais importante, chegaria aos Estados Unidos. Segundo o pesquisador, o novo governante brasileiro, Getúlio Vargas, que queria uma nação unida e saudável, mesmo que “na marra”, abriu as portas para Soper.</p>
<p>“A decisão de ‘erradicar’ doenças deve ser vista de pontos de vista históricos, ideológicos e políticos. No Brasil, foi adotada por pressões externas que, em função do tipo de forças políticas no poder, foram aceitas com cautela ou alinhamento a esse conceito. A saúde pública foi crucial no processo de construção do Estado nacional. Territórios e populações foram incorporados ao Brasil a partir de agulhas e seringas. Nesse processo, foi fundamental a interação entre organismos internacionais e nacionais de saúde, feita, numa primeira fase, para o combate à malária, entre 1939 e 1969”, afirma o pesquisador. “Isso não ocorreu sem diálogo, tensão e conflito entre as duas partes, com redes de interesses políticos e econômicos e diversidade e assimetria entre países, atores e instituições”, observa. Ainda assim, a erradicação imposta pelos Estados Unidos e implantada pela Rockefeller ajudou a “criar” um país, bem como impactou, e muito, o conceito de sistema de saúde nacional, responsável, ainda hoje, por suas conquistas e mazelas.</p>
<p>“Também foi importante para toda uma geração de jovens médicos e epidemiologistas que participaram das campanhas e, mais tarde, ajudaram a revisar o conceito de ‘erradicação’, então vertical e imposto que desprezava as práticas culturais, higiênicas e nutricionais das populações rurais brasileiras, que deveriam passivamente receber, e ‘agradecer’, os benefícios da nova medicina pública”, analisa Gilberto. “Assim, após uma longa trajetória histórica das políticas de saúde associadas ao processo de construção do Estado nacional, um desenvolvimento ligado a poder, desigualdade, inclusão, controle, direitos civis, como resultado imprevisível à população, aos poucos conquistou uma ‘cidadania biomédica’, consolidada na Constituição de 1988, em que a imunização se transforma de coerção em direito”, analisa.</p>
<div id="attachment_15624" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="wp-image-15624" title="078-083_rockefeller-6" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/078-083_rockefeller-6.jpg" alt="" width="290" height="222" /><p class="wp-caption-text">Soper (bigode) e colegas aguardam troca de pneu furado (1934)</p></div>
<p>Do lado da Rockefeller e, mais tarde, dos países do Primeiro Mundo, o Brasil também foi fundamental para a defesa do conceito de erradicação. “Desde o século XIX o país mantém uma relação intensa com questões e organismos internacionais de saúde ligada a ciclos epidêmicos de cólera, varíola, febre amarela e malária. Aqui foram feitos ensaios de como se fazer uma campanha de saúde que serviram como base para empreendimentos mais amplos e globais”, avalia Gilberto. Desses experimentos emergiu a crença na urgência de erradicar doenças em escala global, que esteve no topo da agenda das organizações internacionais do pós-Segunda Guerra Mundial. Ciência e medicina eram vistas como meios fundamentais para levar países pobres ao panteão do Primeiro Mundo, evitando-se, assim, o crescimento do populismo e do socialismo nessas regiões. “Havia a crença, ainda hoje preconizada por muitos técnicos e organizações, de que eram as doenças que impediam o desenvolvimento socioeconômico dos países pobres, e não o contrário, que era a pobreza que gerava as doenças”, observa o historiador da medicina Randall Packard, da Johns Hopkins University, autor, ao lado do brasileiro Paulo Gadelha, do estudo <em>A land filled with mosquitoes: Frederick Soper, the Rockefeller Foundation and the </em>Anopheles gambia<em> invasion of Brazil, 1932-1939</em> (1994).</p>
<p>“Eram tempos de grande entusiasmo pela capacidade da ciência em mudar as coisas. Mas essa <em>expertise</em> era privilégio de partes do globo e precisava ser transferida para as outras que não a detinham. Era uma visão de que boa parte do mundo carecia de soluções que viriam de fora, ainda que isso implicasse um total desconhecimento do que realmente acontecia nos países em intervenção”, nota o americano. “A erradicação foi pensada como intervenções técnicas, conduzidas por especialistas que objetivavam a eliminação completa de doenças, uma após a outra, sem nenhum tipo de envolvimento com os determinantes sociais e econômicos da relação saúde-doença. Era o ‘universalismo etiológico’, ou seja, em qualquer lugar onde a doença fosse encontrada, presumia-se que teria a mesma causa e seria eliminada pelos mesmos métodos, independentemente das diferenças nas condições econômicas e geográficas e de classe das populações, que não se levava em consideração”, observa o historiador Rodrigo Cesar Magalhães, que está trabalhando no projeto <em>Desenvolvimento e cooperação internacional em saúde: a campanha continental para a erradicação do </em>Aedes aegypti<em> e os seus impactos no Brasil</em>, na Universidade de Maryland, com apoio da Fundação Fullbright, pesquisando os <em>Fred L. Soper papers</em>. “A erradicação, que teve em Soper o seu maior defensor, tinha um caráter universalista e, para ele, não havia necessidade de reformas sociais profundas para diminuir a incidência de doenças como malária e febre amarela”, conta.</p>
<div id="attachment_15625" class="wp-caption alignright" style="width: 271px"><img class="wp-image-15625" title="078-083_rockefeller-8" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/078-083_rockefeller-8.jpg" alt="" width="261" height="392" /><p class="wp-caption-text">Soper em 1928, já no staff da Rockefeller</p></div>
<p>Soper, que esteve no Brasil entre 1920 e 1942, é a figura central do livro mais recente da historiadora e brasilianista americana Nancy Stepan, professora emérita da Universidade Columbia,<em> Eradication: ridding the world of diseases forever?. </em>O médico americano liderou uma campanha sanitária no Nordeste brasileiro que culminou com a erradicação, em tempo recorde – apenas 35 meses –, do mais eficiente dentre os vetores da malária, o mosquito <em>Anopheles gambiae</em>. O relatório dessa “vitória”, aliás, <em>Anopheles gambiae no Brasil – 1930 a 1940</em>, de<em> </em>1943, acaba de ser publicado pela Fiocruz, a primeira versão fiel do estudo em português. “Esse suposto ‘sucesso’, que provou ser passageiro e enganoso, revela como campanhas internacionais de erradicação são um obstáculo ao desenvolvimento de sistemas de saúde básicos, levando governos a investir dinheiro em ações custosas que comprometem os programas locais existentes, nem sempre baseados nas necessidades de um dado país. Muitas vezes, doenças são eleitas como alvo de campanhas internacionais em função de critérios políticos, econômicos e simbólicos, ou seja, por razões outras que a devastação que causam em relação a outras enfermidades e problemas que assolam um país”, explica Nancy.</p>
<p>“Soper era um administrador autocrático que pouco se interessava por pesquisas e desconfiava da eficácia de vacinas, preferindo a erradicação de vetores das doenças. Para ele, cada programa nacional deveria ser uma entidade independente com seus próprios empregados e um coordenador que se reportava diretamente ao chefe de Estado. No caso brasileiro, sua parceria com o regime autoritário de Vargas foi perfeita”, observa a pesquisadora. A tecnologia organizacional trouxe ao Brasil uma nova mentalidade de saúde pública, especialmente na sua estruturação. “Já nos anos 1920 se percebe como a erradicação nos moldes da Rockefeller e Soper vai reorganizando o país. Em plena República Velha, de um federalismo exacerbado, os americanos desenvolvem, ainda que timidamente, uma campanha vertical de total precisão em que um supervisor cronometrava o tempo que um agente do Serviço de Febre Amarela (SFA) levava para percorrer um quarteirão. Era um assombro”, nota Gilberto.</p>
<p>Soper foi nomeado chefe do escritório da Fundação Rockefeller no Brasil e coordenador do SFA em 1930, mesmo ano em que Vargas tomava o poder. “Getúlio queria modernizar e unificar o país, criar uma nação, e aceitou de bom grado a colaboração dos americanos. O combate à doença consolidava a autoridade estatal em diversas regiões e era ideal no seu projeto de um Estado nacional coeso e forte”, observa Rodrigo. “Já do lado de Soper, o trabalho sanitário foi facilitado pela ausência de democracia. Era possível prender quem se recusasse a colaborar com os técnicos e há casos mesmo de trocas de tiros entre moradores recalcitrantes e agentes da SFA”, conta a historiadora francesa Ilana Löwy, diretora de pesquisa do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm) e autora do estudo <em>Representação e intervenção em saúde pública: vírus, mosquitos e especialistas da Fundação Rockefeller no Brasil</em> (1999).</p>
<div id="attachment_15627" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="wp-image-15627" title="078-083_rockefeller-10" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/078-083_rockefeller-10.jpg" alt="" width="290" height="212" /><p class="wp-caption-text">Esquadrão de captura de mosquitos em Pernambuco (1934)</p></div>
<p>“O pessoal da Rockefeller sabia que doenças como tuberculose, febre tifoide ou gastrenterite ocasionavam mais vítimas do que a febre amarela ou a malária, mas como aquelas eram percebidas como doenças ligadas às condições de vida, eram vistas como inadequadas para ações de erradicação com fins exemplares”, analisa. “Tinham um desejo de ‘civilizar’ os brasileiros, mas isso não era mera expressão de racismo ou imperialismo. Os funcionários da Rockefeller promoviam interesses de empresas americanas de construção, assegurando-lhes contratos em projetos de saneamento urbano e, ao mesmo tempo, estavam convencidos de que o Brasil se beneficiaria de suas ações”, observa Ilana. Ao longo do tempo e dos insucessos, a fundação foi se afastando das ideias de Soper, mas reveses inesperados, como o surto de febre amarela no Rio em 1928, e de malária em 1938, traziam sempre de volta à cena a erradicação.</p>
<p>E, com ela, os desdobramentos políticos sobre o Estado brasileiro. “Nos anos 1950 houve um entrecruzamento entre o otimismo sanitário e a Guerra Fria que levou a eleição da malária com o alvo das atenções internacionais, incluindo-se a política externa americana da administração Eisenhower. A erradicação ganhou novo impulso, pois era vista como precondição da liberação de populações para atividades econômicas, evitando movimentos sociais. Havia mesmo uma associação entre malária e comunismo, ambos capazes de ‘escravizar’ indivíduos”, conta Gilberto. Novamente a saúde mesclava-se diretamente com a consolidação do Estado nacional. “O governo de Juscelino Kubitschek enfrentava uma crise econômica grave e problemas de financiamento externo para seus projetos de desenvolvimento e a construção de Brasília. A política americana de cooperação em saúde, peça importante na Guerra Fria, dava assistência financeira para o combate à malária apenas para os países que convertessem seus programas de controle em programas de erradicação. Assim, em 1958, a malária, ‘quase extinta’ como dizia o então candidato Juscelino em 1955, voltou ao topo da agenda sanitária brasileira”, afirma o pesquisador. A malária foi então tratada numa intersecção de políticas de saúde locais, da agenda internacional, de projetos de desenvolvimento e interesses americanos. Mais uma vez a erradicação reunia brasileiros e estrangeiros e influenciava o modelo de Estado e de sistema de saúde nacionais.</p>
<p>Mas já surgiam críticas ao modelo e os chamados “sanitaristas desenvolvimentistas” defendiam campanhas horizontais contra as doenças que produziriam condições básicas de infraestrutura sanitária. Na contramão da erradicação soperiana, preconizavam o desenvolvimento socioeconômico como pré-requisito para a melhoria da saúde. O golpe de 1964, porém, jogou um balde de água fria nessas visões alternativas.  O governo Castello Branco (1964-1967) inseriu o Brasil no esforço global das “erradicações”, trocando, em sintonia com as organizações internacionais, a malária agora pela varíola. “A erradicação da varíola poderia ser uma resposta política dos militares à comunidade internacional, dando legitimidade ao governo num momento em que se aumentavam a censura e a repressão internas. Ao mesmo tempo, foi uma oportunidade para os profissionais de saúde se qualificarem”, nota Gilberto. A campanha ampliava a agenda de saúde para além da erradicação de uma só doença, dava oportunidade para o incremento da produção de vacinas.</p>
<div id="attachment_15626" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-15626" title="078-083_rockefeller-9" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/078-083_rockefeller-9.jpg" alt="" width="290" height="435" /><p class="wp-caption-text">Soper em encontro com Vargas no Nordeste em 1940</p></div>
<p>“Ao contrário da campanha da malária, que não teve nenhum apelo popular, a da varíola exigiu mobilização de multidões no esforço de vacinação. Embora não estivesse no plano dos militares, esse movimento aumentou o contato da população com os serviços de saúde e a compreensão da vacina como um bem público a ser oferecido pelo Estado”, observa o pesquisador. As dezenas de milhões de doses aplicadas em cinco anos, com uso aparentemente residual de meios coercitivos, modificaram a trajetória da imunização no país. “A erradicação da pólio e a meta de erradicação de outras doenças imunopreveníveis são consequência direta da campanha da varíola, que influenciou a oferta crescente de vacinas para uma população que cada vez mais demanda imunização, uma espécie de ‘civismo imunológico’”, avalia Gilberto. O Brasil passava da revolta contra a vacina coerciva para a vacina como direito conquistado.</p>
<p>“É uma vitória da cidadania, embora não só em termos positivos, pois nem sempre as escolhas são feitas pela sociedade, que, muitas vezes, não sabe que o dinheiro gasto numa campanha poderia ser usado para melhorar condições básicas de saúde, tão importantes como vacinações ou erradicações. O ‘remédio’ para isso é maior transparência, controle social e democracia”, avalia o historiador. Para Gilberto, hoje a questão é entender as possibilidades de políticas de saúde domésticas autônomas num mundo cada vez mais interdependente, que exige uma “diplomacia da saúde” que erradique, de vez, os velhos dogmas soperianos. “Afinal, vimos que as políticas estatais de saúde no Brasil do pós-Segunda Guerra tiveram sua dinâmica interna, mas foram resultantes e condicionadas por interações com pressões internacionais. A nacionalização da saúde vem se fazendo ao longo do século XX como formação do Estado brasileiro e muitas vezes usando elementos externos nessa própria construção.”</p>
<p>Curiosamente, essa mistura entre saúde e política talvez seja comprovada no país que importou a erradicação vertical para o mundo. “Há uma teoria que estou examinando de que o retorno do <em>Aedes aegypti</em> ao Brasil, nos anos 1950, após ser erradicado, seja fruto de um trabalho de combate malfeito no sul dos Estados Unidos. Há várias cartas inéditas de Soper acusando o governo americano de que as autoridades sanitárias não fizeram o trabalho que estava sendo feito no resto do continente. Mas como aquele modelo de campanha poderia ser implantado num contexto democrático como o dos Estados Unidos com sua cultura consolidada de liberdade e privacidade?”, pergunta-se Rodrigo. “No conflito entre erradicar o mosquito e as liberdades individuais, essas teriam prevalecido, com prejuízos para todo um continente. Caso a teoria esteja correta, seria uma ironia que confirmaria a questão da erradicação e democracia, com toda uma discussão sobre um suposto imperialismo americano nas Américas no âmbito da saúde.” Seria a confirmação de que é possível se ajudar a criar um país “na saúde e na doença”. O perigo, como sempre, é a “infidelidade” ou o “até que a morte os separe”.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/19_rockefeller_198.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Um país se faz com homens, saúde e doenças' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/um-pa%c3%ads-se-faz-com-homens-sa%c3%bade-e-doen%c3%a7as/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Um país se faz com homens, saúde e doenças' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/um-pa%c3%ads-se-faz-com-homens-sa%c3%bade-e-doen%c3%a7as/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Um país se faz com homens, saúde e doenças' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/um-pa%c3%ads-se-faz-com-homens-sa%c3%bade-e-doen%c3%a7as/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Um país se faz com homens, saúde e doenças' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/um-pa%c3%ads-se-faz-com-homens-sa%c3%bade-e-doen%c3%a7as/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Matemática na computação, filosofia e música</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Aug 2012 22:40:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Matemática]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[No centenário de Alan Turing, um programa dedicado à matemática]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Veiculado em 3 de agosto de 2012</em></p>
<p>No ano em que se celebra o centenário do Alan Turing, um dos fundadores da ciência da computação, o matemático e filósofo Newton da Costa conversa sobre as principais contribuições científicas do cientista inglês, e sua conturbada biografia. Ele discorre também sobre o conhecimento científico e apresenta a lógica paraconsistente e a teoria da quase verdade, estudos que lhe deram fama entre lógicos e matemáticos. <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/o-homem-que-computava/" target="_blank">Leia mais sobre Turing na <em>Memória</em> de julho</a>.</p>
<p>Também neste programa, você conhece  o <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/ainda-assim-o-som-se-move/" target="_blank">músico Vincenzo Galilei</a>, pai de Galileo Galilei, que teria influenciado o filho na busca pela verdade experimental a partir de seus estudos sobre música e matemática.</p>
<p>Na trilha sonora desta edição, “Cérebro Eletrônico”, com Gilberto Gil, “Aula de Matemática” com Tom Jobim, “Bachianas Brasileiras n.5”, em versão de chorinho por Paulo Sérgio Santos, “O Mundo é Assim”, com Bruno Morais, e “Com qualquer dois mil réis”, com os Novos Baianos.</p>
<p><em>Pesquisa Brasil</em> vai ao ar pela <a href="http://www.radio.usp.br" target="_blank">Radio USP</a> todas as sextas, às 13h.<br />
Apresentação: Mariluce Moura e Fabrício Marques<br />
Produção e roteiro: Biancamaria Binazzi<br />
Gravação e Montagem: Beto Alves (Rádio USP)</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/10_Alan-Turing.mp3.mp3">Baixar o MP3</a></p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/category/multimidia/podcast/" target="_blank"><em>Veja aqui o arquivo do Pesquisa Brasil</em></a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Matemática na computação, filosofia e música' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/03/matem%c3%a1tica-na-computa%c3%a7%c3%a3o-filosofia-e-m%c3%basica/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Matemática na computação, filosofia e música' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/03/matem%c3%a1tica-na-computa%c3%a7%c3%a3o-filosofia-e-m%c3%basica/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Matemática na computação, filosofia e música' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/03/matem%c3%a1tica-na-computa%c3%a7%c3%a3o-filosofia-e-m%c3%basica/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Matemática na computação, filosofia e música' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/03/matem%c3%a1tica-na-computa%c3%a7%c3%a3o-filosofia-e-m%c3%basica/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Comissão Rondon deu origem à política indigenista</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jul 2012 16:06:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vídeos]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Comissão Rondon deu origem à política indigenista]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><iframe src="http://www.youtube.com/embed/i0r1XeaXn8U" frameborder="0" width="560" height="315"></iframe>Cândido Rondon, chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA), tinha como missão construir uma linha telegráfica entre Cuiabá e Santo Antonio do Madeira (Porto Velho), em 1912. Durante a incursão pelo interior do Brasil, pesquisadores documentaram &#8211; inclusive em vídeos &#8211; a cultura indígena, a fauna e a flora. Esse esforço ajudou a institucionalizar a pesquisa científica no Brasil.</p>
<p>Saiba mais na matéria <em><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/ciencia-para-criar-uma-nacao/" target="_blank">Ciência para criar uma nação</a></em>.
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Comissão Rondon deu origem à política indigenista' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/30/comiss%c3%a3o-rondon-deu-origem-%c3%a0-pol%c3%adtica-indigenista/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Comissão Rondon deu origem à política indigenista' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/30/comiss%c3%a3o-rondon-deu-origem-%c3%a0-pol%c3%adtica-indigenista/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Comissão Rondon deu origem à política indigenista' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/30/comiss%c3%a3o-rondon-deu-origem-%c3%a0-pol%c3%adtica-indigenista/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Comissão Rondon deu origem à política indigenista' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/30/comiss%c3%a3o-rondon-deu-origem-%c3%a0-pol%c3%adtica-indigenista/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Getúlio pelo olhar de um repórter</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jul 2012 20:00:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Victor Gentilli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Getúlio – Dos anos de formação à conquista do poder - Lira Neto]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-13758" title="087_Resenhas_197" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/087_Resenhas_197.jpg" alt="" width="290" height="400" />Lira Neto é repórter. E a magnífica trilogia sobre Getúlio Vargas, a maior personalidade política do século XX no Brasil, cujo primeiro tomo foi lançado em maio pela Companhia das Letras, é seu grande projeto de vida. Iniciado há dois anos, resultará em três volumes que terão, cada um, ao menos 600 páginas. Completa, a trilogia ultrapassará 1.800. É projeto para cinco anos.</p>
<p>Este primeiro volume cuida do período de formação até a Revolução de 1930, quando Getúlio assume o poder. O segundo, a ser lançado em 2013, tratará do período entre 1930 e 1945, época em que ocupa o poder ininterruptamente, a partir de 1937 como ditador. O terceiro tratará dos anos de exílio, de seu retorno em 1950 “nos braços do povo” e culminará com seu suicídio. Será lançado em 2014, exatos 60 anos depois da sua morte.</p>
<p>Cearense, Lira trabalhou em <em>O Povo, </em>onde, muito jovem, chegou a ser <em>ombudsman</em>. Ainda em Fortaleza, fez seu primeiro experimento biográfico narrando a vida de Rodolfo Teófilo, escritor e médico sanitarista, um equivalente cearense a Oswaldo Cruz. Em 2004, já em São Paulo, lançou a biografia de Castello Branco. A seguir vieram José de Alencar (2006) – que lhe rendeu um Jabuti –, Maysa (2007) e Padre Cícero (2009). Como se vê, Lira sempre escolhe para biografar personalidades fascinantes, complexas e contraditórias.</p>
<p>Getúlio Vargas talvez seja o brasileiro mais estudado. Sobre ele produziram-se livros, perfis biográficos, biografias, dissertações e teses. Lira leu tudo o que encontrou. E também buscou fontes primárias como jornais, documentos em arquivos e bibliotecas, folhetos, marchinhas, fotos, tudo. Estudos de primeira qualidade e muito material produzido por áulicos ou detratores. Também tirou da poeira inquéritos e processos.</p>
<p>Todo este garimpo resultou em várias descobertas. Dois assassinatos atribuídos a ele foram esclarecidos: Getúlio é inocente em ambos. Antes de Lira, outros pesquisadores já trataram destes casos. Mas o autor, nos dois casos, foi o primeiro a se debruçar e dissecar os inquéritos e processos. No primeiro, uma briga em Ouro Preto, onde estudava com seus irmãos mais velhos, resultou na morte do filho de um quatrocentão paulista. Nas centenas de páginas, lidas uma a uma, Lira encontrou uma descrição do assassino feita por uma testemunha-chave: usava bigode. Meninote, Getúlio naquela época ainda era imberbe. No outro, de uma índia no interior do Rio Grande, encontrar o inquérito não foi fácil. Não estava arquivado na pasta em que deveria estar. A persistência do repórter que não desiste fez com que terminasse encontrando-o. O assassino chamava-se Getúlio Dornelles de Vargas. Era um homônimo. Na certidão de nascimento do assassino, os nomes dos pais eram outros. Sem este esforço de busca, tais documentos mofariam nos arquivos sem que ninguém os tocasse.</p>
<p>Essa obsessão pelas minudências resulta que a narrativa de cada episódio de sua vida seja descrita num texto leve, fluente e de leitura agradável, que envolve, encanta e segura o leitor. Embora mergulhe fundo e se envolva profundamente com seu biografado, não se deixa contaminar pela paixão e não perde a isenção. A realidade do Rio Grande do Sul na virada do século XIX para o século XX e o Brasil da República Velha são bem apresentados como pano de fundo da narrativa. E o leitor já identificará no biografado atributos que se tornarão marcas do Getúlio maduro.</p>
<p>Trabalho de jornalista, a obra é dedicada ao grande público. Mas para pesquisadores, historiadores e outros interessados, todos os fatos narrados são referidos em notas ao fim do volume. Neste tomo, são exatas 1.773. Pela primeira vez, Getúlio Vargas contará com uma biografia exaustiva feita “com base numa pesquisa impressionante”, como anotou Boris Fausto na contracapa. Maria Celina D’Araujo fala em “imensidão de dados”. Os brasileiros precisam conhecer a vida deste homem cujo legado permanece e ainda gera tanta polêmica.</p>
<p><strong>Victor Gentilli </strong><em>é jornalista, mestre e doutor pela ECA-USP e professor da Universidade Federal do Espírito Santo.</em>
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/Pesquisa_197-28.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Getúlio pelo olhar de um repórter' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/getulio-pelo-olhar-de-um-reporter/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Getúlio pelo olhar de um repórter' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/getulio-pelo-olhar-de-um-reporter/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Getúlio pelo olhar de um repórter' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/getulio-pelo-olhar-de-um-reporter/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Getúlio pelo olhar de um repórter' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/getulio-pelo-olhar-de-um-reporter/' displayText='share'></span></p>
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		<title>O homem que computava</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jul 2012 20:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Neldson Marcolin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Computação]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Alan Turing criou as bases teóricas da ciência da computação ]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-13764" title="088-089_Memoria_197-3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/088-089_Memoria_197-3.jpg" alt="" width="290" height="392" />A palavra computador era usada somente em um sentido até as primeiras décadas do século XX. O significado indicava apenas uma pessoa que fazia cálculos, um profissional envolvido no uso dos algoritmos. Computar exigia muitas horas de trabalho com grande concentração e o auxílio apenas de instrumentos como o ábaco ou a máquina de somar. Em 1936, o inglês Alan Mathison Turing, nascido há 100 anos, escreveu um trabalho acadêmico de lógica propondo uma estrutura matemática abstrata que chamou de “máquina universal” capaz de fazer qualquer tipo de cálculo. O artigo <em>On computable numbers, with an application to the Entscheidungsproblem</em>, publicado no início de 1937, é considerado um dos fundadores da ciência da computação.</p>
<p>Quando escreveu <em>On computable numbers</em>, ele não estava pensando em uma máquina que poderia vir a ser construída – o objetivo era apenas resolver um problema de lógica. “Sua máquina universal, conhecida como ‘máquina de Turing’, na verdade era uma metáfora das ideias fundamentais que viriam a ser usadas para se construir o computador”, diz o matemático Ubiratan D’Ambrosio, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</p>
<p>No mesmo artigo Turing apresentou uma solução para uma questão matemática, o <em>Entscheidungsproblem</em> (problema de decisão): determinados problemas não podem ser resolvidos por máquinas ou computadores teóricos. O inglês não foi o único a pensar nisso. Também em 1936 o lógico americano Alonzo Church, já Ph.D., escreveu e publicou de modo independente um artigo com a mesma conclusão. Turing, então com 25 anos, foi fazer seu doutorado sob a orientação de Church na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Em 1939 ele voltou à Inglaterra e passou a trabalhar para o governo.</p>
<p>Tudo começou porque os militares ingleses ficaram sabendo de seu gosto por criar e decifrar códigos e o convocaram para trabalhar com um grupo de cientistas em um projeto secreto. O objetivo era decifrar as ordens alemãs – codificadas por uma máquina chamada Enigma – enviadas aos submarinos que patrulhavam o Atlântico. A questão era capital para os ingleses. Os submarinos alemães impediam a circulação dos navios britânicos, quase isolando a Inglaterra. Turing conseguiu quebrar o código ao aperfeiçoar uma enorme máquina decodificadora chamada Bomba, cuja primeira versão havia sido construída por cientistas poloneses. Com isso a esquadra inglesa deixou de ser surpreendida pelos ataques do Terceiro Reich.</p>
<div id="attachment_13769" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-13769" title="088-089_Memoria_197-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/088-089_Memoria_197-1.jpg" alt="" width="290" height="187" /><p class="wp-caption-text">Protótipo da máquina ACE, de 1952, projeto de Turing que posteriormente foi bandonado</p></div>
<p>“Além de ser um teórico brilhante, Turing tinha um lado prático forte”, diz Newton da Costa, matemático aposentado da Universidade de São Paulo e professor de filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina. Entre outros projetos, por exemplo, ele criou a máquina-piloto ACE, sigla para Automatic Computing Engine, uma espécie de ancestral do computador, para “atacar problemas complexos”.</p>
<p>Em 1950 o matemático publicou seu artigo seminal, <em>Computing machinery and intelligence</em>. “Proponho que consideremos a questão: ‘as máquinas podem pensar?’”, escreveu ele na primeira linha do texto. “Turing introduz uma discussão sobre se é justificável chamar um computador de cérebro eletrônico e lança as bases do que viria a ser o campo de inteligência artificial”, explica D’Ambrósio. “Com trabalhos como esse, ele exerceu influência em toda cultura contemporânea e não apenas na lógica e na matemática”, diz Costa.</p>
<p>A vida pessoal de Turing foi muito mais difícil do que a acadêmica. Homossexual, ele foi preso em 1952 acusado de indecência grave com outro homem com base em lei de 1885, a mesma que levou Oscar Wilde à prisão em 1895. O matemático aceitou trocar a pena por uma castração química e usar estrogênio para “ser curado” da homossexualidade. Em 1954, aos 41 anos, Turing morreu ao morder uma maçã envenenada com cianeto. Para a polícia inglesa foi suicídio. A família e os amigos nunca aceitaram essa versão.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/Pesquisa_197-29.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='O homem que computava' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/o-homem-que-computava/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='O homem que computava' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/o-homem-que-computava/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='O homem que computava' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/o-homem-que-computava/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='O homem que computava' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/o-homem-que-computava/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Ainda assim o som se move</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jul 2012 20:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Pai de Galileu influenciou filho na busca pela verdade experimental]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13730" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-13730" title="082-085_Acustica_197-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/082-085_Acustica_197-1.jpg" alt="" width="290" height="407" /><p class="wp-caption-text">Retrato de um cavalheiro que se presume seja o compositor Vincenzo Galilei, pintado por Alessando Allori e datado do século XVI</p></div>
<p>&#8220;A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são”, escreveu Fernando Pessoa. A certeza do poeta foi motivo de debates e de uma profusão de tratados filosóficos na passagem do século XVI, com sua crença platônico-pitagórica na matemática como fundamento da ciência e da arte, para o século XVII, quando se percebeu que nem tudo podia ser reduzido a números. Em especial as coisas sentidas.</p>
<p>Um pioneiro dessa visão crítica foi o músico Vincenzo Galilei (1520-1590), pai de Galileu Galilei, que antes do advento da revolução científica já percebia os limites da “matematização”, capaz de gerar mudanças positivas na classificação de algumas ciências, mas ineficaz em outras. “Não somente porque a busca da natureza dos objetos de algumas ciências estava sendo posto em dúvida, mas porque as diferentes formas de interação entre os conhecimentos práticos, teóricos e dos artesãos se deram de maneiras diversas”, afirma, a historiadora Carla Bromberg, que trabalha os vários tratados teóricos de Vincenzo, a maioria inéditos, na sua pesquisa de pós-doutorado <em>Do número ao som: a transformação do conceito quinhentista de música defendida por Vincenzo Galilei</em>.</p>
<p>“Ele demonstrou que a música era um fenômeno natural sonoro, contradizendo a tradição vigente que a entendia apenas como número e proporção”, explica. “Em seus escritos, fruto de experimentações práticas e observações matemáticas, Vincenzo proporcionou esclarecimentos sobre o descompasso que havia entre a teoria e práticas musicais de sua época e propôs ideias que se tornaram fundamentos da acústica, da música barroca e do sistema tonal que perdurou por mais de 150 anos”, observa a pesquisadora. Embora mais conhecido como o pai de Galileu, Vincenzo influenciou filósofos naturais contemporâneos a ele e posteriores como Marin Mersenne, Simon Stevin e o próprio filho astrônomo.</p>
<p>Se, hoje, é mera fonte de prazer, a música, desde a Idade Média, era considerada como uma ciência que tinha por fundamento a aritmética e, consequentemente, seu objeto não era o som, mas o número.  Nas universidades, só se aceitava que se teorizasse sobre o mundo sonoro. Dentre os autores desses tratados poucos praticavam a música.  “Foi o choque das formas de conhecimento prático e técnico com o teórico que mostrou a necessidade de uma mudança e método. Defender ideias que contradiziam autoridades e estruturas do pensamento ocidental foi algo que Vincenzo já fazia antes de Galileu.”</p>
<p>Em seus tratados musicais, o tocador de alaúde e teórico musical esboçou um método investigativo inovador. “Na contramão da sua época, Vincenzo preconizou a supremacia da observação e dos experimentos”, nota a pesquisadora. Vincenzo não hesitava em questionar doutrinas tradicionais. “Como ninguém havia explicado os problemas de forma a satisfazer o intelecto, foram necessárias uma averiguação e a arguição dos fatos teóricos”, escreveu. Para ele, qualquer que fosse o autor, antigo ou moderno, era preciso contestar alegações falsas, pois uma ideia não deveria ser propagada apenas por causa da autoridade do seu criador.</p>
<p>O alvo de Vincenzo era justamente os adeptos dos conceitos pitagóricos, como Gioseffo Zarlino (1517-1590), mestre-capela da catedral de São Marcos, em Veneza. Embora tenha sido mestre de Galilei por algum tempo, Zarlino tinha uma leitura tradicional da natureza matemática da música, tentando encaixar na velha moldura pitagórico-platônica legitimada na tradição textual as “novidades sonoras” advindas dos excessos da polifonia. Galilei, a partir de seus experimentos, concluiu que muitas das razões propostas teoricamente não existiam na prática. Vincenzo também percebeu que muitos dos intervalos musicais que o sistema vigente negava existiam e eram matematicamente representáveis.</p>
<div id="attachment_13731" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-13731" title="082-085_Acustica_197-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/082-085_Acustica_197-2.jpg" alt="" width="290" height="363" /><p class="wp-caption-text">A tocadora de alaúde, pintura de Andrea Solario, datada do século XVI, em Roma</p></div>
<p><strong>Incompatibilidade</strong><br />
Segundo a pesquisadora, ao experimentar, na prática, as variações nos comportamentos dos corpos, ou seja, da matéria, e perceber que isso gerava diferenças sonoras, Vincenzo viu que havia fatores que as ciências matemáticas não davam conta de explicar. Foi essa evidência da incompatibilidade do mundo matemático, com seus objetos abstratos, e o mundo físico, de objetos reais, que levou Galilei a concluir que, se a natureza do material estudado, o som, era sensorial, a evidência da experimentação era o caminho indicado para a investigação. Não se devia privilegiar o estudo da música especulativa ao estudo das sonoridades, campo das coisas “como se sente que são”.</p>
<p>Mas, como faria o filho, a briga do pai mexia com conceitos já estabelecidos há muito tempo. A argumentação de Zarlino baseava-se na teoria de razões de números inteiros, transmitida pelo filósofo Sevério N. Boécio e baseada nos gregos. Era ilustrada historicamente através da lenda da invenção das consonâncias atribuída a Pitágoras e seu monocórdio, instrumento descrito como composto por uma única corda estendida entre dois cavaletes fixos. Segundo se acreditava, o filósofo investigara a relação entre o comprimento de uma corda vibrante e o tom musical produzido por ela. Pitágoras observou que pressionando um ponto situado a 3/4 do comprimento da corda em relação a sua extremidade – o que equivale a reduzi-la a 3/4 de seu tamanho original – e tocando-a a seguir, ouvia-se uma quarta acima do tom emitido pela corda inteira. Com 2/3 do tamanho original da corda, ouvia-se uma quinta acima e com 1/2 obtinha-se a oitava. A música, como tudo no Universo, era matemática.</p>
<p>Para Vincenzo, porém, números não eram sonoros, mas tinham que ser aplicados a algum corpo sonoro, ou seja, a música tinha nos números apenas uma representação dos sons. A matemática passava a instrumentalizar a música, e não a fundamentá-la. Logo, a música não era um sistema numérico perfeito que existia em reinos celestiais, como queriam os pitagóricos, mas composta de sons emitidos de corpos cujas diferentes composições afetavam a percepção auditiva das razões teóricas dadas.</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Do número ao som: a transformação do conceito quinhentista de música defendida por Vicenzo Galilei – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/55895/numero-som-transformacao-conceito-quinhentista/" target="_blank">nº 2009/52252-8</a></td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Bolsa de pós-doutorado</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Coordenadora</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Carla Bromberg – Cesima/PUC-SP</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 144.869,89 (FAPESP)</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Com seu alaúde, ele demonstrou que a altura de uma nota poderia variar não apenas em função do comprimento ou da tensão da corda, mas também quando se alterava a sua espessura ou o material do qual era feita. A legitimação dos intervalos musicais de acordo com a teoria pressupunha também que os intervalos excluídos do sistema não eram naturais.  Contudo, para Galilei, um som era tão natural quanto outro: se ele agradava ou não o ouvido não podia ser explicado por um sistema numérico, mas pela própria audição particular e individual. A matemática não tinha poder sobre os sentidos. Vincenzo libertava a música do domínio dos números ao mostrar que a realidade empírica não combinava necessariamente com as antigas razões que, se acreditava, organizavam o Universo.</p>
<p>A grande ousadia de Galilei foi trabalhar diretamente sobre os corpos sonoros, experimentando o som usando vasos de metal e outros objetos de tamanho, largura e volume diferentes, além de cordas feitas de materiais variados, observando que os sons sofriam alterações de acordo com o comportamento de cada material. “Vincenzo demonstrava assim, de forma inédita, a relevância da matéria e de seu comportamento”, analisa a pesquisadora.</p>
<p><strong>Ciência da acústica</strong><br />
Vincenzo, através dos instrumentos musicais, introduziu princípios que seriam estudados, no futuro, pela ciência da acústica, desenvolvida por Joseph Saveur no século XVII”, nota Carla. Ao “desnumeralizar” a música, Vincenzo fez uma investida ousada. “Os teóricos do século XVI enfatizavam as razões pitagóricas porque estas faziam parte de uma forma de compreender o mundo. Segundo o pensamento pitagórico, tudo o que existia era representado por números e suas relações, por razões matemáticas”, lembra a autora. “Ao invalidar, no campo musical, o conceito das razões pitagóricas, Galilei abalava uma ordem maior. Mas, talvez por não pertencer a nenhuma corte, entidade religiosa ou universidade, sua obra não causou o impacto que deveria.”</p>
<p>Vincenzo tratou a música simultaneamente como um fenômeno físico e cultural. Era uma criação humana, baseada em leis físicas que governavam a produção do som, bem como um fenômeno sonoro sujeito a regras culturais definidas. “Para ele, a combinação dos sons, descrita como consonâncias ou dissonâncias, dependia tanto de causas naturais como da convenção e era isso que explicava por que a música que agradava aos italianos não tinha o mesmo efeito sobre outras nações”, lembra a pesquisadora. Para muitos, essas visões influenciaram diretamente o filho, Galileu.</p>
<p>“Os estudos do pai apontavam para o que seria a acústica, e os do filho, para a mecânica. Ambos atacaram pilares da sabedoria aristotélica, como o fundamento matemático da música e a perfeição do mundo celeste e abraçaram outro pilar, o da relevância da matéria e do comportamento dos materiais para o estudo do movimento e da mecânica”, analisa Carla.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/Pesquisa_197-26.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Ainda assim o som se move' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/ainda-assim-o-som-se-move/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Ainda assim o som se move' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/ainda-assim-o-som-se-move/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Ainda assim o som se move' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/ainda-assim-o-som-se-move/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Ainda assim o som se move' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/ainda-assim-o-som-se-move/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A dança das cadeiras da ONU</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jul 2012 20:00:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Diplomacia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Ideia do Brasil no Conselho de Segurança partiu dos Estados Unidos]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13721" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-13721" title="078-081_BrasilONU_197-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/078-081_BrasilONU_197-1.jpg" alt="" width="290" height="330" /><p class="wp-caption-text">Bertha Lutz assina pelo Brasil na Conferência de São Francisco (1945)</p></div>
<p>Estrela do encontro, Rui Barbosa confessou sua decepção com os rumos práticos da Conferência de Haia, de 1907. “Mas seus resultados invisíveis foram muito longe, pois mostraram aos fortes o papel necessário dos fracos na elaboração do direito das gentes.” Esse conceito de superação das relações assimétricas de poder por novas formas ideais de interação diplomática, em que o estatuto igualitário seria um dado essencial, permanece no discurso diplomático brasileiro até hoje, presente, em especial, na candidatura do país a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Para muitos analistas, essa aspiração é uma <em>misperception</em> da nossa real estatura internacional, o desejo por um <em>status</em> que, alcançado, traria um ônus financeiro e militar elevado. A ação recente do Executivo nesse sentido seria até uma “obsessão”.</p>
<p>A história, porém, revela que a pretensão de ser o “sexto membro” do conselho não é fruto de uma visão distorcida, mas fez parte da agenda da criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em seus primórdios. “Em 1944, na Conferência de Dumbarton Oaks, que reuniu as potências aliadas, foram aprovadas propostas para a criação de uma nova organização internacional encarregada de manter a paz futura, pela força se necessário. O Brasil, ausente do encontro, foi o único país a ser cogitado como detentor de uma sexta cadeira permanente no futuro Conselho de Segurança”, conta o diplomata Eugênio Garcia, professor titular do Instituto Rio Branco e autor de <em>O sexto membro permanente: o Brasil e a criação da ONU</em> (Contraponto). A sugestão partiu do presidente Roosevelt, que instruiu sua delegação a trabalhar pela candidatura brasileira. Fazer parte do órgão que realmente detinha o poder na ONU, responsável pela segurança global, era um sonho de consumo, privilégio dos chamados Quatro Policiais: Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética e China. A França, posteriormente, se juntaria  a eles e formaria o grupo dos P-5.</p>
<p>“Relatei ao presidente que havíamos levantado a questão de um lugar permanente para o Brasil no Conselho de Segurança, que o grupo soviético e o britânico se opuseram e que pressionar ainda, a esta altura, não seria aconselhável. O presidente, finalmente, concordou em não incluir o Brasil na minuta inicial, mas que uma cláusula geral deveria ser incluída na proposta, de maneira a deixar uma porta aberta para que, trabalhando com Stalin e com o primeiro-ministro britânico, ele pudesse, mais tarde, voltar a tocar no assunto, antes do início do funcionamento da organização”, escreveu o subsecretário de Estado americano Edward Stettinius em seu diário pessoal em agosto de 1944. Dias mais tarde, completou: “Entreguei ao presidente o memorando sobre o Brasil que recomendava que não pressionássemos por um lugar permanente para o Brasil. A princípio, ele não gostou, mas depois concordou. O presidente declarou que isso era importante porque, no futuro, ele poderia querer propor um lugar para um país islâmico e que o Brasil era um trunfo escondido para uso posterior”.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/078-081_BrasilONU_197-4.jpg" rel="lightbox[13719]" title="078-081_BrasilONU_197-4"><img class="alignleft size-medium wp-image-13722" title="078-081_BrasilONU_197-4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/078-081_BrasilONU_197-4-300x140.jpg" alt="" width="300" height="140" /></a>O projeto de um grupo que pairasse bem acima de uma assembleia geral de países “menores” foi uma maneira de repartir o papel de “segurança” pelas várias regiões, desonerando os Estados Unidos de terem que intervir militarmente em todo o globo. “O governo brasileiro não foi consultado e só soube da proposta em outubro de 1944, quando foi divulgada a minuta de Carta aprovada na reunião sigilosa. A iniciativa nem sequer foi amadurecida nos círculos decisórios americanos, mas assim como incluíra a China no grupo, a despeito da resistência dos outros aliados, Roosevelt achou que a sugestão vingaria”, observa o autor. Um memorando interno, de setembro de 1944, levou ao Departamento de Estado uma conversa com o representante brasileiro em Washington: “O embaixador explicou as dificuldades advindas de completa ignorância em que são mantidos sobre as negociações de Dumbarton Oaks. Disse que o presidente Vargas estava muito embaraçado por admitir que só sabem o que sai na imprensa e que até o governo argentino está tão informado quanto eles”.</p>
<p><strong>Rio Branco</strong><br />
A resistência imediata da Inglaterra e da União Soviética ligava-se ao pró-americanismo brasileiro, explícito desde os tempos de Rio Branco. O Brasil, no conselho, diziam, seria “voto duplo” dos Estados Unidos. Mesmo a delegação americana desaconselhou Roosevelt, porque os Estados Unidos seriam “responsáveis” pelo desempenho brasileiro. Acordou-se, então, que o apoio de Washington seria limitado à candidatura do Brasil a um lugar temporário no órgão, o que aconteceu em 1946. “Mas as alegações eram muito seletivas. Falava-se que o poder militar era condição para um assento, mas a China, então, só controlava uma fração de seu território. A imposição americana foi estratégica, para fortalecer o aliado asiático na luta contra o Japão”, analisa Eugênio. A Inglaterra, por sua vez, contrária ao Brasil, deixou de lado sua restrição a um novo membro para dar um assento à França gaullista. No Catete o balão de ensaio de Roosevelt encheu-se de entusiasmo, visto como recompensa ao único país sul-americano a enviar tropas à Europa.</p>
<div id="attachment_13723" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-13723" title="078-081_BrasilONU_197-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/078-081_BrasilONU_197-2.jpg" alt="" width="290" height="205" /><p class="wp-caption-text">Encontro de Dumbarton Oaks, em 1944, que “inventou” a ONU</p></div>
<p>Era também a chance de ajustar contas com as grandes potências após o desastrado episódio da Liga das Nações de 1926, quando o governo de Arthur Bernardes apostou todas as fichas na “candidatura natural” do Brasil a membro permanente do órgão. Preterido pela Alemanha, o país desligou-se da instituição. O assento traria a retomada do multilateralismo brasileiro de escopo universal. Vargas, que dirigia pessoalmente a política externa brasileira, em detrimento da chancelaria do amigo Oswaldo Aranha, tinha fé na sua amizade pessoal com Roosevelt e apostou na conversação bilateral para barganhar seu lugar no conselho. Mais tarde, conformado com um assento provisório, a diplomacia varguista continuou focada no conselho. “O Brasil fez essa opção porque viu que ali seria jogada a partida principal. Que Vargas tenha tomado essa decisão é digno de nota. Apesar do seu foco no desenvolvimento econômico, ele não renunciou a conseguir um papel para o Brasil na esfera da segurança internacional”, diz Eugênio.</p>
<p>A ligação “especial” com Washington fez com que o Brasil mantivesse vínculos débeis com a vizinhança, que retribuía o “dar as costas” com desconfiança, em especial a Argentina. “Vargas, no entanto, oscilava entre afinar-se com os Estados Unidos e precaver-se contra a deterioração das relações com os argentinos”, conta o autor. Afinal, entre 1944 e 1945, com o fim do conflito, o Brasil não era mais um parceiro estratégico e os Estados Unidos foram se afastando do “amigo leal”. A morte de Roosevelt em 1945 sepultaria de vez a era das relações bilaterais “especiais”.  A Conferência de São Francisco foi convocada naquele ano para formalizar as propostas de Dumbarton Oaks com os “45 países menores”.</p>
<p><strong>Pressão</strong><br />
Vários países foram pressionados a estabelecer relações com a União Soviética, como condição para participar da conferência, atendendo às reclamações de Stalin. O Brasil foi o primeiro a ser “trabalhado” pelos americanos. Desde 1917 o país não tinha laços diplomáticos com os russos. Vargas, a contragosto, viu-se constrangido a fechar um acordo com Moscou. A amizade duraria pouco: em 1947, o presidente Dutra, no fogo cruzado da Guerra Fria, rompeu relações com a URSS. Mas a pressão de 1945 já antecipava o tom do encontro, que deveria apenas ratificar as decisões dos Policiais, incluindo-se o poder de veto dentro do Conselho de Segurança. A conferência serviria para manter a essência da Carta “na marra”: ou se aceitava a manutenção das prerrogativas dos membros permanentes, ou, avisaram, não haveria organização alguma.</p>
<p>O Brasil, que de início se opôs à concessão do veto ante a ameaça de malogro da conferência, voltou atrás e aceitou os termos. Antes de se render, a delegação brasileira propôs a revisão da Carta em cinco anos com a “emenda Velloso”, nome do chanceler que substituíra Aranha. Seria um mecanismo de revisão quinquenal, a cargo da Assembleia Geral, com poderes constituintes para mudar a Carta por maioria de dois terços, sem veto. Foi igualmente derrotada. De notável restou a participação de Bertha Lutz, a escolha menos conservadora de Vargas para a delegação, que se empenhou na defesa dos direitos das mulheres.</p>
<div id="attachment_13724" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-13724" title="078-081_BrasilONU_197-3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/078-081_BrasilONU_197-3.jpg" alt="" width="290" height="173" /><p class="wp-caption-text">Dutra, ao centro, olha o projeto do prédio da ONU, em 1947</p></div>
<p>“O Brasil apostou na intercessão americana como caminho curto para o seu objetivo, mas a estratégia falhou, porque os Estados Unidos não viam mais o país como estrategicamente vital. Quando o governo brasileiro mais ansiava o reconhecimento de sua lealdade para colher os frutos da relação especial que acreditava ter com os Estados Unidos, estes abandonaram o país. Foi o início do desencantamento”, observa o autor.  Se o país ganhasse o assento em 1945 seria uma consequência da intervenção americana, como no caso da China, ou, voltando no tempo, da mesma forma que o Brasil entrou no Conselho da Liga das Nações, em 1919, por indicação do presidente Wilson. Sobraram concessões como um assento temporário (já ocupado uma dezena de vezes), a participação de Oscar Niemeyer na equipe que projetou o edifício-sede da ONU, em Nova York, e a convocação de Aranha para presidir a espinhosa sessão da Assembleia Geral que ratificou a partilha da Palestina em 1947. Os fortes ainda não reconheciam o papel necessário dos fracos na elaboração do direito das gentes.</p>
<p>Apenas em 1989 o então presidente José Sarney voltou a tocar na questão do assento em seu discurso na Assembleia Geral. Em 1994, durante o governo de Itamar Franco, o Brasil relançou oficialmente a sua candidatura a uma vaga permanente e atuou em favor de uma reforma do conselho. Durante o governo Lula, a reforma e o assento tornaram-se um dos principais tópicos da sua política externa, e o presidente, já em 2003, em seu primeiro discurso na ONU, defendeu abertamente o projeto. Foi a mesma atitude adotada em 2011 pela presidente Dilma Rousseff, que insistiu na defesa da candidatura nacional.</p>
<p>Para Eugênio, as chances brasileiras, hoje, são maiores. Mas adverte: “A cadeira permanente não significaria que o Brasil se transformou em uma ‘potência mundial’ da noite para o dia, mas que o conselho se abriu a países em desenvolvimento aceitando-os como membros permanentes via eleição da Assembleia Geral”. Segundo ele, o órgão, importantíssimo, não reflete a realidade em sua composição. “É preciso que ele seja mais representativo para ser mais legítimo e eficaz”, observa. O pesquisador acredita que o país está preparado para a função. “Se em 1945 o presidente Roosevelt achava que o Brasil poderia integrar o conselho, quando o país era muito menos do que é atualmente, porque o Brasil não pode ser hoje o sexto membro permanente? É preciso pensar nisso”, diz.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/Pesquisa_197-25.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A dança das cadeiras da ONU' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/a-danca-das-cadeiras-da-onu/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A dança das cadeiras da ONU' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/a-danca-das-cadeiras-da-onu/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A dança das cadeiras da ONU' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/a-danca-das-cadeiras-da-onu/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A dança das cadeiras da ONU' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/a-danca-das-cadeiras-da-onu/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Uma indústria &#8216;a media luz&#8217;</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jun 2012 20:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Cinema argentino optou pela via comercial, ao contrário do Brasil]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_10501" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-10501" title="074-077_Cinema_196-3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/074-077_Cinema_196-3.jpg" alt="" width="290" height="416" /><p class="wp-caption-text">Libertad Lamarque em &quot;Cita en la frontera&quot; (1940)</p></div>
<p>Em <em>Pneumotórax</em>, Manuel Bandeira, após se descobrir doente e lamentar “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”, ouve do médico a sentença: “A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”. Talvez, hoje, o cinema nacional não chorasse “o que podia ter sido” se tivesse, como os portenhos, nos anos 1930, apostado menos nas benesses do Estado e mais num similar local do “tango argentino”. “Entre 1933 e 1942, o cinema argentino, com seus musicais populares baseados no tango e no melodrama, viveu <em>la epoca de oro</em>, não apenas subsistindo no seu próprio mercado, enfrentando e se diferenciando da concorrência de Hollywood, como avançou sem a interferência do Estado. A mesma década, no Brasil, como escreveu o crítico Alex Viany, foi simplesmente ‘ingrata’, apesar, ou por causa, do protecionismo estatal”, observa Arthur Autran, professor do Departamento de Artes e Comunicação da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e autor da pesquisa <em>Sonhos industriais: o cinema de estúdio no Brasil e na Argentina (1930-1955)</em>.</p>
<p>De início, nos dois países, as oportunidades para a criação de uma indústria cinematográfica eram semelhantes, mas os resultados foram muito diferentes. “O Brasil tinha uma produção numericamente razoável que entrou rapidamente numa decadência que se manteve até o fim da Segunda Guerra Mundial. Já a Argentina teve um aumento paulatino da sua produção e atingiu números expressivos: entre 1930 e 1940, o número de filmes de longa metragem passou de 2 para 56, recorde inigualável, numa indústria que reuniu 4 mil técnicos e atores em 30 estúdios”, diz Autran.</p>
<p>Lá, como aqui, a chegada do cinema sonoro animou os produtores, que apostaram na existência de um público para o filme nacional. Afinal, os <em>talkies</em> americanos, que eram apresentados em inglês, demoraram dois anos para se adaptar ao mercado internacional com legendas e dublagens e atingir um público maior que, até então, não compreendia os filmes por não dominar a língua em que eram feitos. Além disso, a maioria dos exibidores não tinha capital para investir em equipamentos sonoros.</p>
<p>“Era uma oportunidade única e os produtores brasileiros e argentinos, após as décadas do marasmo artesanal do cinema mudo, se movimentaram para criar uma indústria nacional, nos moldes de Hollywood, mas adaptada ao gosto local”, diz o pesquisador. Falava-se mesmo que era “dever pátrio” impedir a “desnacionalização” das culturas nacionais, ameaçadas pelos <em>talkies</em> ianques. No Brasil, a “cruzada” levou à criação da Cinédia, por Adhemar Gonzaga, da Sonofilms, por Alberto Byington, ambas em 1930, e da Brasil Vita Filmes, de Carmen Santos, em 1933. Na Argentina, propiciou a criação da Argentina Sono Film (1931), a Lumiton (1933) e a Rio de La Plata (1934).</p>
<div id="attachment_10503" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-10503" title="074-077_Cinema_196-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/074-077_Cinema_196-1.jpg" alt="" width="290" height="198" /><p class="wp-caption-text">&quot;Alô, alô carnaval&quot;, com Aurora Miranda (1936)</p></div>
<p>A Revolução de 1930, em busca de “meios modernos” para implantar o programa de criação de uma identidade nacional, abriu os braços para o cinema, o que só aumentou as esperanças dos produtores brasileiros. Com razão: em 1932, o novo governo baixou o decreto 21.240, que reduzia as taxas de importação de filme virgem e obrigava os cinemas a exibir curtas nacionais antes dos longas estrangeiros. “Os produtores não se cabiam em si de felicidade. Mas a ação do Estado não só foi insuficiente, como provou, mais tarde, ser deletéria para a indústria, ao tirar do cinema a chance de se regular pelas leis do mercado e não perder a sua liberdade criativa”, explica Autran. A criação passou a ser regulada pelo Estado. O “favor” do governo exigia contrapartidas, entre as quais o poder de orientar a temática e a estética das produções de acordo com os projetos oficiais. Não havia como reclamar, pois se tratava de um pacto feito para atender demandas do meio profissional. Para os produtores, o patronato estatal seria a única forma de conviver com a concorrência estrangeira.</p>
<p><strong>Hollywood</strong><br />
Os argentinos, porém, provaram que havia outras vias. “Para se diferenciarem de Hollywood, que investia pesado nos musicais, e conquistar uma audiência local de massa, eles também produziram musicais. Mas tiveram a sabedoria de levar para as telas o ‘sabor portenho’, aproveitando-se da experiência bem-sucedida do ‘sainete’, peças teatrais com música e comédia, e da paixão nacional pelo tango, cultuado como a quintessência argentina”, observa o historiador americano Matthew Karush, autor do estudo <em>The melodramatic nation</em> (2007). Ao conseguir com que os filmes nacionais apelassem diretamente para a população, de uma maneira que os americanos nunca conseguiriam, conquistaram as massas operárias ao usar lugares familiares onde se desenrolavam temas que interessavam as plateias argentinas.</p>
<p>O Brasil também investiu em produções embaladas por música popular, em especial o samba, mas de forma tímida e nem sempre bem-sucedida. O tango era efetivamente expressão nacional, com um poder de integração que atingia até mesmo os muitos imigrantes, que se sentiam, nas telas, assimilados à Argentina. O brasileiro, porém, não necessariamente se reconhecia no samba acabado o Carnaval. Afinal, fora o Estado que impusera o ritmo dos morros, convertido em símbolo de nacionalidade. “Aqui e lá, críticos e elite torciam o nariz para a presença do popular, o que levou alguns produtores a investir em películas ‘sofisticadas’ o bastante para atrair pagantes mais lucrativos”, diz Autran.</p>
<div id="attachment_10504" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-10504" title="074-077_Cinema_196-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/074-077_Cinema_196-2.jpg" alt="" width="290" height="212" /><p class="wp-caption-text">Gilda de Abreu em &quot;Bonequinha de seda&quot; (1936)</p></div>
<p>Havia, porém, uma diferença crucial: a indústria argentina era comandada por produtores com experiência no comércio cinematográfico, em especial na distribuição, o termômetro mais eficiente das demandas do público. Os brasileiros não só careciam dessa <em>expertise</em>, como tinham preconceitos contra a “intromissão” do teatro e da música populares nas telas, apesar da prova em contrário do sucesso de <em>Alô, alô carnaval</em> (1936), <em>Bonequinha de seda</em> (1936) ou <em>Favela dos meus amores</em> (1938). Os portenhos, mais sábios, logo voltaram a colocar em cena, para deleite do público, filmes com Gardel, comédias debochadas com Sandrini, malandro pobretão e digno, e os melodramas de Libertad Lamarque no papel da pobre e honesta mocinha num mundo de ricos abusados. “O público se identificava com esses personagens e fazia uma associação direta com a divisão de classes da sociedade argentina, uma visão que preconizava a superioridade moral dos menos favorecidos ante o escárnio dos ricos”, nota Karush. Apesar de conservadores pela sua temática conformista, os filmes argentinos eram socialmente ambíguos, exigindo, e conseguindo, uma consciência de classe dos espectadores.</p>
<p>Afinal, era a massa trabalhadora que frequentava em peso os cinemas, para assistir a filmes em cujo enredo se entrevia a oposição entre os ricos, apresentados como hipócritas, elitistas e antinacionalistas, e os pobres, papel dado aos personagens nobres, generosos e nacionalistas. “Eram filmes que não disseminavam apenas imagens de uma identidade nacional, mas colocavam uma visível polarização social. Assistir a uma dessas produções permitia que se pudesse sonhar não apenas com uma nação unida, mas capaz de rejeitar o egoísmo das elites modernas, celebrando a digna solidariedade dos pobres. Contando com a força do poder imagético do cinema, esse maniqueísmo populista se consolidou pela sociedade argentina e ganhou um apelo irresistível que, mais tarde, o peronismo canalizaria em seu favor”, analisa Karush.</p>
<p>“A visão experiente dos produtores argentinos criou uma produção cinematográfica que conseguiu manter um contato estreito com o públi-co interno. O que gerou renda e possibilitou, com o crescimento ex-ponencial do número de filmes, chances de exportação para o mercado latino-americano, inclusive o brasileiro, onde os argentinos enxergavam um bom potencial”, conta Autran. Não sem razão, pois, no Brasil, a situação era a oposta, com produtores cheios de dificuldades para sobreviver graças aos laços tênues que se estabeleceram entre o público e o cinema nacional. Afinal, como vencer um mercado ainda dominado pelos longas americanos contando apenas com produções nacionais, padronizadas segundo os parâmetros “culturalistas” do Estado?</p>
<div id="attachment_10505" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-10505" title="074-077_Cinema_196-4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/074-077_Cinema_196-4.jpg" alt="" width="290" height="221" /><p class="wp-caption-text">Gardel, ao centro, em &quot;Tango Bar&quot; (1935)</p></div>
<p><strong>Nação</strong><br />
“O governo nunca se interessou pela industrialização do cinema brasileiro, mas apenas na sua utilização como instrumento de propaganda oficial para o programa de formação da nacionalidade”, lembra Autran.  Cabia às produções nacionais apenas levar valores culturais e unificar a nação. O entretenimento, que o governo desprezava, poderia ser provido pelas produções estrangeiras. “No Brasil, ao contrário da Argentina, na hora de decidir entre o Estado e o público, os produtores foram cooptados e se decidiram pelo primeiro.” <strong></strong></p>
<p>Os argentinos souberam avaliar o potencial do mercado e não se uniram ao Estado. “A opção brasileira de se alinhar ao governo cobrou, e ainda cobra, um preço alto, marca da relação viciada entre cinema e Estado que só piora com o tempo”, fala Autran. As chances eram iguais, mas <em>por una cabeza</em> os argentinos conseguiram cristalizar uma indústria cinematográfica. Só a ascensão do peronismo imporá uma legislação protecionista ao cinema. “Ainda assim, a intervenção estatal se restringia aos documentários e noticiários, com propaganda política. Nos filmes de ficção não se falava em Perón. Devemos isso ao modelo de desenvolvimento adotado pelo cinema argentino nos anos 1930, que conseguiu uma boa produção sem amargar a regulação do Estado”, avalia a historiadora argentina Clara Krieger, autora de <em>Cine y peronismo </em>(2009). “Apenas em 1942 é que a indústria entra em crise, em especial por causa da neutralidade dúbia do peronismo com os fascistas, o que levou os americanos a cortar a exportação de película virgem para filmes, inviabilizando a produção”, lembra. “Durante anos, o cine argentino levou a imagem dos setores populares às telas.”</p>
<p>Numa total inversão do processo portenho, os brasileiros, a partir dos anos 1950, investiram, enfim, com entusiasmo nas chanchadas musicais, onde os brasileiros podiam se ver. Essa união de temas populares com artistas do rádio, do circo e das revistas teatrais, por tanto tempo estigmatizados pelos produtores, numa ironia do destino, foi um dos lucrativos períodos da indústria cinematográfica nacional. “Com a chanchada, as manifestações das classes populares passam a ser a base do repertório da indústria cultural, expressão de classe que canalizava sua insatisfação ante a estatização da vida festiva, da restrição da praça pública, da supressão do riso pela seriedade oficial”, nota Autran. O Brasil assumia o <em>cambalache</em>, ainda que tardio. O “pecado original”, porém, não tinha volta. “No mundo todo, à exceção dos EUA e da Índia, o Estado apoia o cinema, mas apenas no Brasil isso é feito de forma incondicional, sem a necessidade de qualquer retorno de mercado dos cineastas, permitindo que tenhamos produções caríssimas, sem qualquer justificativa, a não ser o lucro de uns poucos”, fala o pesquisador. Como antes, não há incentivo para o cinema andar com suas pernas, apenas continuar a “dançar” com o Estado. O que fazer se já passou da hora de “tocar um tango argentino”?
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/074-077_cinemaARG-BR_196.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Uma indústria &#8216;a media luz&#8217;' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/uma-industria-a-media-luz/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Uma indústria &#8216;a media luz&#8217;' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/uma-industria-a-media-luz/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Uma indústria &#8216;a media luz&#8217;' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/uma-industria-a-media-luz/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Uma indústria &#8216;a media luz&#8217;' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/uma-industria-a-media-luz/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Entre teoremas e estradas de ferro</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jun 2012 20:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Matemática]]></category>

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		<description><![CDATA[Debate sobre matemática positivista abriu espaço para a ciência pura]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-10512" title="078-081_Matematica_196-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/078-081_Matematica_196-1.jpg" alt="" width="290" height="238" />Para muitos historiadores, a fundação da Universidade de São Paulo, em 1934, marcou, enfim, o início da ciência moderna no Brasil: “É uma revolução intelectual e científica que mudará as concepções econômicas e sociais dos brasileiros”, nas palavras de Sérgio Milliet. Até então, afirmam, o país amargara um “isolamento científico”, culpa do grupo “autoritário e anticientificista” que impôs “ordem e progresso” à bandeira e aos brasileiros. Assim, numa curiosa distorção, o positivismo, cujo credo era a fé na ciência como alavanca de progresso e civilização, acabou “demonizado” como o grande obstáculo ao desenvolvimento científico nacional.</p>
<p>A acusação ganha contornos polêmicos ao recair, em especial, sobre a disciplina vista pelo francês Auguste Comte (1798-1857), criador do positivismo, como a base da educação: a matemática. “O positivismo à brasileira da Primeira República (1889-1930) foi, e ainda é, analisado de maneira simplista e generalizadora por causa da sua visão ‘cientificista’, que preconizava ciên-cia e matemática pragmáticas, instrumentos práticos para solucionar os problemas nacionais com progresso material e modernização social. Leituras apressadas e interessadas os acusam de supervalorizar a ciência aplicada, criando constrangimentos para o avanço científico, cujo motor seria a ciência pura e desinteressada”, explica o matemático Rogério Monteiro de Siqueira, professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP), autor da pesquisa <em>Modernismo, modernidade e modernização nas ciências matemáticas brasileiras</em>, apoiada pela FAPESP.</p>
<p>“Claro que antes dos anos 1930 não se fazia aqui uma matemática como a europeia.  Mas não podemos simplificar e dizer que não tivemos qualquer tipo de  desenvolvimento matemático antes da USP. Existiam, sim, indivíduos publicando trabalhos com regularidade e originalidade em revistas internacionais. Logo, dizer que os positivistas impediram que se tentasse fazer uma ciência pura, como querem seus detratores de ontem e de hoje, é um engano”, avisa. “Ainda assim muitos hoje insistem que só houve avanços nas ‘escapadas do positivismo’. Isso joga uma nuvem sobre o passado, reduzindo o progresso matemático a um panteão restrito de antipositivistas ‘modernos’ como Otto de Alencar (1874-1912), Manuel de Amoroso Costa (1885-1928), Theodoro Ramos (1895-1935) e Lélio Gama (1892-1981)”, avisa Rogério.</p>
<p>O embate entre ciência pura e aplicada é muito mais complexo e é pouco estudado, como o pesquisador descobriu ao analisar os artigos das revistas especializadas. “Havia matemáticos ‘positivistas’ que criticavam Comte. O Brasil não teve um positivismo único, radical, mas dividiu-se em várias facções com diferentes graus de ortodoxia”, diz. Basta ver que a figura de proa do movimento no país, Benjamin Constant de Magalhães (1833-1891), republicano de primeira grandeza e professor de matemática em escolas militares, objetava abertamente as leituras comtianas da matemática. “É preciso também conhecer a produção dos ‘modernos’ na sua totalidade. Hoje há apenas um retrato incompleto dos debates, dos quais se extraíram as variáveis políticas e os jogos de interesses. Pinçam-se apenas os artigos ‘modernos’ que escreveram, deixando de lado os muitos outros sobre questões aplicadas. ‘Esquece-se’ também que os ditos ‘pioneiros da matemática pura’ eram ‘híbridos’, pois, além dos teoremas, também aceitaram cargos públicos e escreveram sobre a prática da engenharia, não se limitando à ‘ciência desinteressada’”, diz.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/078-081_Matematica_196-3.jpg" rel="lightbox[10511]" title="078-081_Matematica_196-3"><img class="alignleft  wp-image-10513" title="078-081_Matematica_196-3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/078-081_Matematica_196-3.jpg" alt="" width="290" /></a>Afinal, mesmo Amoroso Costa, que responsabilizava o positivismo pela situação precária das ciências exatas no Brasil, viu-se obrigado a reconhecer que “o nosso terreno é ainda impróprio ao cultivo dessa suprema flor de espírito que é a ciência pura, contemplativa e desinteressada”. “Essa briga era sintoma da readequação de forças políticas nas ciências nacionais, onde o grupo de engenheiros que investiu numa matemática alheia às suas aplicações, seguindo um padrão então em hegemonia na Europa, viu-se aos poucos desvalorizado e sem espaço. Ao mesmo tempo, isso ocorreu num ambiente em que a matemática, cada vez mais, era vista como instrumento de trabalho prático para o progresso do país”, analisa Rogério. Alijados, passam a defender a criação de um “lócus” institucional para a ciência “descompromissada”, a universidade, que dominariam.</p>
<p>Efetivamente, um pequeno grupo radical de positivistas era contrário à criação desse espaço, cientes da queda de braço em curso, mas muitas outras facções não comungavam dessa “censura”, tendo uma postura não dogmática dos textos de Comte. “Também não se pode esquecer que a influência do positivismo na Primeira República não durou muito tempo e a geração de 1870, a cúpula militar invadida pelos ideais reformistas sociais de Comte, foi alijada do poder pelas oligarquias”, explica Angela Alonso, professora do Departamento de Sociologia da USP e autora do estudo <em>Ideias em movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império</em> (2002). O grupo queria a cisão entre civis e militares, com um notório desprezo pelos “bacharéis” e sua visão liberal e de conformismo romântico para o Brasil monárquico. Para essa contraelite de militares, engenheiros e médicos, todos com formação técnico-científica, o positivismo confirmou a consciência que tinham do fosso existente entre o país e a “civilização”.</p>
<p><strong>Canhão</strong><br />
“Essa é uma particularidade dos positivistas brasileiros que, em vez de pensar a doutrina em termos religiosos, a usam para discutir questões políticas num terreno social. A ciência, então, emerge como a fonte de soluções”, observa. Adeptos da “ilustração brasileira”, defendiam a educação como panaceia e se viam como participantes de uma “missão”: conhecer a realidade social e a natureza brasileiras, superando obstáculos com ciência e soluções práticas, e revelar, assim, as potencialidades do território. “Não era valorizar a ciência aplicada em detrimento da ciência pura, mas praticar o conhecimento científico com uma destinação social associada ao papel fundamental atribuído ao cientista no novo Brasil positivista”, explica Luiz Otávio Ferreira, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz, e coordenador do estudo <em>O ‘ethos’ positivista e a institucionalização da ciência no Brasil</em> (2007).</p>
<p>“Logo, não havia como abrir espaço para ‘matemática pura’ nesse desbravamento urgente dos territórios. Mas surgiram vozes divergentes, a partir da criação, em 1858, da Escola Central de Engenharia, que cindiu o ensino da engenharia entre civis e militares, grupo que vai abraçar, nas academias militares, o positivismo”, observa Ferreira. Os matemáticos “puros” alinharam-se aos engenheiros civis. O conflito abriu-se em 1896, quando Benjamin Constant de Magalhães, como ministro da Instrução Pública, encerrou os cursos de ciências físicas, matemáticas e naturais na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. “Mesmo que o encerramento possa ser atribuído ao fato de que desde 1874 apenas 67 alunos se matricularam, para alguns professores o que se pretendia era a imposição, pelos positivistas que dominavam a instituição, da visão utilitarista das ciências”, explica Ferreira.</p>
<p>Para os “engenheiros cientificistas” era um golpe destinado a roubar-lhes espaço. Em 1898 veio a reação. Otto de Alencar, um ex-positivista, publicou o artigo “Alguns erros de mathematica na <em>Synthese subjectiva</em> de A. Comte”, o primeiro “tiro” da “guerra” entre “puros” e “aplicados”. Era munição de pequeno calibre, mas serviu como bucha para o “canhão” acionado, em 1918, nas conferências de Amoroso Costa. “Há nos países novos um fanatismo pelo progresso material que ignora que exista um ideal científico superior ao homem que fabrica mil carros por dia ou opera um apêndice em 10 minutos. A opinião é unânime: a ciência é útil, porque os engenheiros, médicos e militares precisam dela. Não vale a pena fazê-la no Brasil: é mais cômodo e barato importar da Europa. Essa é a mentalidade que predomina entre os educadores e aqueles que nos governam”, atacou o matemático.</p>
<div id="attachment_10515" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-10515" title="078-081_Matematica_196-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/078-081_Matematica_196-2.jpg" alt="" width="290" height="198" /><p class="wp-caption-text">Escola Militar, Urca, Rio de Janeiro, 1885, um no†ório reduto de positivistas</p></div>
<p><strong>Contemplativos</strong><br />
Uma década mais tarde, Lélio Gama, no Rio, e Theodoro Ramos, em São Paulo, foram à luta para “reaver” o espaço da ciência “desinteressada”, o que ajudou a criação da USP e da carioca Universidade do Brasil, em 1939. Mas havia espaço para as “ciências contemplativas” antes dos anos 1930? “Na Europa, matemática, física e engenharia logo foram separadas, ao contrário do Brasil. Isso foi possível por causa do processo acelerado de industrialização europeu no século XIX. Aqui não existia demanda de conhecimento técnico para todas as áreas do conhecimento, como houve, por exemplo, no caso da medicina”, observa Rogério. Tampouco as críticas antipositivistas eram “puras”.</p>
<p>“As pechas de ‘imprecisão’ e ‘falta de rigor científico’ que jogavam sobre os positivistas são discutíveis. Os matemáticos italianos, por exemplo, eram chamados de ‘poetas’ por uma suposta imprecisão e não se culpou o positivismo por isso. O ‘rigor’ reclamado não era exercido nos escritos dos ‘modernos’ brasileiros, muito aquém de como se trabalhava na Europa”, fala o pesquisador. “O que se almejava era criar uma ‘diferenciação’: a tese de Theodoro Ramos, por exemplo, usava teoria dos conjuntos menos em prol da ‘matemática pura’ do que como estratégia de luta”, diz Rogério.</p>
<p>Mas quais seriam as motivações dos “puros”? “Eles tinham uma sensação de descompasso, de ‘ideias fora do lugar’. Muitos haviam viajado ao exterior e voltaram com os novos conceitos científicos praticados na Europa”, avalia Rogério. Para o pesquisador, não se pode negar a presença constante de um componente político, de luta entre grupos que se excluíam e queriam seu lugar ao sol. “Isso se evidencia a partir da ligação de Ramos com a Revolução de 1930. Não foi por acaso que ele trouxe matemáticos italianos, muitos deles fascistas, para a USP, para agradar Vargas, um admirador do Duce. A ação igualmente atendeu às demandas da grande comunidade italiana paulista”, fala.</p>
<p>Na divisão, alemães e italianos ficaram com as exatas e os franceses com as humanas. A primeira geração de matemáticos dos anos 1950 é “herdeira” dessa escolha, incluindo-se nisso um desprezo pela didática, incutido por mestres italianos como Luigi Fantappié. A matemática nacional, cuja projeção no exterior se iniciou nos anos 1960, formou-se a partir de um “imbróglio intelectual”. “Os adeptos das ‘ciências puras’ se apropriavam de artigos que vinham do exterior sem, no entanto, conhecer o contexto e o debate em que estes estavam inseridos. Eram apropriados de forma direta e, assim, criou-se uma mistura que gerou um tipo ‘nacional’ de matemática”, nota Rogério.</p>
<p>Assim, a “demonização” do positivismo merece uma revisão. “As críticas das ideias científicas positivistas não foi apenas uma empreitada de jovens matemáticos inovadores que queriam romper o ciclo do arcaico conservadorismo científico brasileiro. Essa interpretação ignora que as fronteiras entre o arcaico e o moderno resultam de processos de construção social”, observa Ferreira. O positivismo foi a base para o desenvolvimento de uma classe de cientistas que era sua adversária. “Foram os positivistas que propiciaram os conteúdos ideológicos necessários à formação da categoria ‘cientista’. O modelo de intelectual positivista, objetivo e preciso, reformador social ou não, fez escola entre os que queriam ser vistos como cientistas.”
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/078-081_matematica_196.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Entre teoremas e estradas de ferro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-teoremas-e-estradas-de-ferro/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Entre teoremas e estradas de ferro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-teoremas-e-estradas-de-ferro/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Entre teoremas e estradas de ferro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-teoremas-e-estradas-de-ferro/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Entre teoremas e estradas de ferro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-teoremas-e-estradas-de-ferro/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Entre Deus e os homens</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jun 2012 20:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Estudos sobre Vieira - João Adolfo Hansen, Hélder Garmes, Adma Muhana]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-10548" title="088-089_Resenhas_196-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/088-089_Resenhas_196-1.jpg" alt="" width="290" height="436" />&#8220;A envergadura excepcional desse homem de ação, de imaginação e de expressão exige constantes releituras. Novos perfis aparecem por trás da fisionomia que tínhamos a presunção de conhecer”, escreve Alfredo Bosi no artigo “Antônio Vieira, profeta e missionário”, parte da coletânea de 17 artigos que compõem o livro <em>Estudos sobre Vieira</em>. É a melhor resposta quando se sabe da publicação de mais um livro sobre o autor dos <em>Sermões</em> e realmente cumpre a promessa ao colocar figuras como Cleonice Berardinelli, Thomas Cohen e Isabel Almeida, entre outros, para analisar aspectos polêmicos ou pouco estudados.</p>
<p>O livro é uma chance de conhecer os trabalhos apresentados pelos autores no Encontro Internacional pelo Quarto Centenário de Nascimento do Padre Antônio Vieira, evento realizado em 2008 em São Paulo. A apresentação, feita por João Adolfo Hansen, um dos organizadores da coletânea, é um primor à parte, prova recorrente de sua capacidade de inserir Vieira em meio ao mundo “engenhoso” e “agudo” barroco dos séculos XVI e XVII, uma das maneiras mais eficientes de compreender não apenas a concepção retórica do padre, mas, acima de tudo, a sua visão de história, curiosa mistura fruto de um homem que adorava reunir a política terrena da corte lusitana com elevadas concepções místicas de um Quinto Império e da Segunda Vinda de Cristo.</p>
<p>Daí, a maior presença de artigos que discutem a atuação de Vieira na escravidão, as missões jesuíticas, a aproximação das minorias raciais e étnicas pela Companhia de Jesus e o amálgama que fazia entre Destino, Profecia e História. Em seus 90 anos, o pregador defendeu duas grandes causas: a legitimação do reinado de dom João IV e a defesa dos cristãos-novos, em parte para contar com o suporte financeiro dos judeus. Na escravidão, Vieira condenava o cativeiro dos índios (pelos quais não nutria nenhuma simpatia) e defendia o dos negros que, escravos, se aproximariam da luz cristã. Uma boa mostra dos muitos aspectos de Vieira, terreno e divino.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/088-089_resenhas_1961.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Entre Deus e os homens' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-deus-e-os-homens/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Entre Deus e os homens' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-deus-e-os-homens/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Entre Deus e os homens' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-deus-e-os-homens/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Entre Deus e os homens' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/entre-deus-e-os-homens/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Um zoo na Amazônia</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jun 2012 20:00:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Neldson Marcolin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Botânica]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Zoologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeiro zoológico do país foi aberto há 117 anos em Belém]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_10532" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/086-087_Memoria_196-1.jpg" rel="lightbox[10531]" title="086-087_Memoria_196-1"><img class="wp-image-10532" title="086-087_Memoria_196-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/086-087_Memoria_196-1.jpg" alt="" width="290" /></a><p class="wp-caption-text">Lago das vitórias-régias e, eventualmente, dos peixes-boi: formato igual ao do mar Negro, na Rússia</p></div>
<p>Onde poderia existir um museu com parque de plantas e animais silvestres em cativeiro que recebesse anualmente quase o mesmo número de visitantes que o de habitantes da cidade onde está localizado? No final do século XIX e começo do XX, Belém foi palco dessa experiência. O Parque Zoobotânico do Museu Paraense recebeu 48 mil pessoas em 1896, quando a população do município era cerca de 50 mil. A capital do Pará se encantou com o primeiro zoológico brasileiro, criado anexo ao museu em 1895 pelo zoólogo suíço Emílio Goeldi. Nele não havia elefantes, girafas ou rinocerontes como nos zoos das cidades europeias. Os frequentadores se divertiam ao ver animais típicos da Amazônia, como antas, jacarés, peixes-boi, onças e garças, exatamente como havia sido planejado por Goeldi.</p>
<p>Construir um zoológico já estava nos planos do governador paraense Lauro Sodré quando contratou Goeldi em 1894 para dirigir a instituição. O hoje chamado Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) fora fundado em 1866 e precisava ser reorganizado. Na época, o zoólogo morava no Rio com a família, havia trabalhado alguns anos no Museu Nacional e tinha bom trânsito com cientistas do exterior. “Em Belém, ele percebeu que seria inútil competir com os museus cosmopolitas e decidiu fazer uma instituição regionalizada, especializada na Amazônia, também como uma forma de garantir espaço para sua instituição no movimento científico internacional”, conta Nelson Sanjad, pesquisador de história da ciência do Museu Goeldi e editor do <em>Boletim do MPEG, Ciências Humanas</em> (janeiro-abril de 2012),  em que há um artigo sobre o Parque Zoobotânico.</p>
<p>Com apoio do governo estadual, o cientista suíço concentrou-se em uma série de obras que duraram oito anos, necessárias para transformar o museu em um centro de pesquisas sobre fauna e flora da região – o parque foi apenas uma delas. Goeldi desenhou os recintos dos animais com a ajuda dos dois responsáveis pela gestão do zoo e do horto. Num primeiro momento, o zoólogo alemão Hermann Meerwarth; depois o zoólogo suíço Gottfried Hagmann.</p>
<div id="attachment_10533" class="wp-caption alignleft" style="width: 242px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/086-087_Memoria_196-3.jpg" rel="lightbox[10531]" title="086-087_Memoria_196-3"><img class="wp-image-10533" title="086-087_Memoria_196-3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/086-087_Memoria_196-3.jpg" alt="" width="232" height="309" /></a><p class="wp-caption-text">Em 1902 foi criado um dia especial de visitação para famílias e pessoas bem trajadas: segregação</p></div>
<p>Os estudos e o acervo concentrados na Amazônia não impediram a europeização do espaço do museu. “Os animais e plantas eram daqui. Mas o traçado, os elementos arquitetônicos, viveiros e recantos remetiam às paisagens e aos monumentos europeus”, conta Sanjad. “Embora pareça paradoxal, foi uma atitude coerente com a mentalidade da elite da época.” As residências e laboratórios do museu, por exemplo, tinham o feitio de chalés e o lago para as aves aquáticas a mesma forma do lago Maggiore, na Itália, com a cobertura de arame feita em Paris. O lago para as vitórias-régias foi construído com o formato do mar Negro, na Rússia meridional.</p>
<p>Um zoológico – único no Brasil – e horto gratuitos, construídos com zelo, viraram o passeio principal de um público urbano e de imigrantes que já tinham pouco contato com os animais. Os filhotes de onça, as aves formando ninhos, um peixe pulmonado nadando (espécie difícil de manter em cativeiro)  e até o florescimento da vitória-régia, cultivada em ambiente público na Amazônia pela primeira vez, encantavam o público.</p>
<p>Tal sucesso trouxe pelo menos um problema. A elite econômica da cidade começou a se queixar dos maus modos da massa que frequentava o museu aos domingos e feriados. Pressionado, Goeldi reagiu criando, em 1902, o “dia de famílias”. O parque passou a ser aberto um dia a mais na semana, às terças-feiras, apenas para pessoas acompanhadas das respectivas famílias e convenientemente vestidas. “Na prática houve uma segregação do público  de acordo com a classe social”, diz Sanjad.</p>
<p>O parque manteve sua primazia até a década de 1940, quando começaram a ser criados outros zoos pelo país. Belém tem hoje 2 milhões de habitantes  e o Zoobotânico recebe de 200 mil a 250 mil pessoas por ano. Não é  o mesmo sucesso de 117 anos atrás, mas se mantém dentro dos 10% da população da cidade, que é o padrão internacional.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/086-087_memoria_196.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Um zoo na Amazônia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/um-zoo-na-amazonia/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Um zoo na Amazônia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/um-zoo-na-amazonia/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Um zoo na Amazônia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/um-zoo-na-amazonia/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Um zoo na Amazônia' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/um-zoo-na-amazonia/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Conforto no ar</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Jun 2012 19:54:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Engenharia]]></category>
		<category><![CDATA[Evolução]]></category>
		<category><![CDATA[Fisiologia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>

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		<description><![CDATA[Bem-estar em aviões e Fritz Müller no rádio]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Veiculado em 1º de junho de 2012</em></p>
<p>Na edição de estreia do programa na Radio USP (93,7 Mhz), o professor Jurandir Itizo Yanagihara, coordenador do Laboratório de Energia Térmica e Ambiental da USP, apresenta o  projeto “Conforto de Cabine” desenvolvido por pesquisadores de universidades brasileiras em parceria com a Embraer, com o objetivo de estudar o bem-estar nas viagens aéreas (<a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/04/10/bem-estar-no-ar/" target="_blank">veja reportagem</a>).</p>
<p>Nesta edição, você também conhece o naturalista <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/04/10/meu-caro-senhor/" target="_blank">Fritz Müller</a>. Radicado no Brasil, o pesquisador trocou correspondências com Darwin e contribuiu para a consolidação da teoria da evolução das espécies. Saiba também sobre a <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/04/10/mem%C3%B3rias-de-um-cientista-subversivo/" target="_blank">biografia</a> do pesquisador Luiz Hildebrando Pereira da Silva, lançada recentemente pela editora Vieira &amp; Lent.</p>
<p>Na programação musical, Chico Buarque, Tulipa Ruiz, Belchior e Jorge Mautner. <em>Pesquisa Brasil</em> agora vai ao ar pela Radio USP todas as sextas, às 13h.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/pesquisa-brasil-01-conforto-na-cabine.mp3">Baixar o MP3</a></p>
<p><a href="http://revistapesquisa2.fapesp.br/?sec=61&amp;type=md&amp;nb=1&amp;lg="><em>Veja aqui o arquivo do Pesquisa Brasil</em></a></p>
<p><strong>E ouça também destaques do <em>Clip Pesquisa</em>:</strong><br />
- Fabrício Marques: redes sociais acadêmicas<br />
- Fabrício Marques: navio Alpha Crucis<br />
- Fabrício Marques: uso de satélite para monitorar queimada na cana-de-açúcar<br />
- Marcos de Oliveira: circuitos de computador feitos de luz<br />
- Marcos de Oliveira: softwares para analisar e prever clima<br />
- Maria Guimarães: produção de nanotubos de carbono<br />
- Maria Guimarães: fungos que emitem luz
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Conforto no ar' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/13/conforto-no-ar/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Conforto no ar' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/13/conforto-no-ar/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Conforto no ar' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/13/conforto-no-ar/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Conforto no ar' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/13/conforto-no-ar/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Einstein depois dos 40</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 20:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Zorzetto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[O sonho de Einstein - Pietro Greco]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-8290" title="090-091_Resenhas_195-3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/090-091_Resenhas_195-3.jpg" alt="" width="290" height="392" />Albert Einstein produziu os trabalhos mais importantes de sua carreira científica, que o tornariam conhecido no mundo todo e inclusive lhe renderiam o Prêmio Nobel, antes dos 40 anos. Em 1905, aos 26, publicou quatro artigos que modificaram profundamente a física em três áreas: tornou consistente a teoria de que a matéria é composta de átomos; propôs a ideia de que a luz se propaga em pacotes (<em>quanta</em>) de energia e que se comporta como onda e partícula; e formulou a teoria da relatividade restrita, que descreve como se movimentam os corpos na ausência de campos gravitacionais. Doze anos mais tarde incorporou o efeito da gravidade à teoria de 1905 e apresentou ao mundo a relatividade geral, que aprimorava as ideias propostas por Isaac Newton três séculos antes e agora era válida para todo o Universo.</p>
<p>Mas o que Einstein fez depois?</p>
<p>Os livros, ensaios e artigos que tratam da vida do mais ilustre cientista do século XX quase nunca dizem. Incomodado com esse silêncio, o químico e jornalista de ciência italiano Pietro Greco decidiu explorar a atividade científica do físico alemão em seus anos de maturidade. Em <em>O sonho de Einstein – Em busca da teoria do todo</em>, Greco parte da última correspondência que Einstein trocou com seu amigo mais próximo, o engenheiro italiano Michele Besso, para mostrar que Einstein nunca deixou de se interessar pela física. Depois de apresentar publicamente a ideia da relatividade geral em 1916, o grande físico passou as últimas três décadas de sua vida tentando chegar a uma teoria que unificasse o campo gravitacional e o eletromagnético, a teoria do todo. A busca de um sistema único que permitisse interpretar e predizer o que acontece tanto no mundo do muito grande quanto no do extremamente pequeno, escreve Greco, dominou a mente de Einstein e quase o atormentou até os últimos dias de sua vida. Greco apresenta de modo acessível e instigante o percurso do físico na busca da teoria final a que nunca conseguiu chegar. Nem ninguém.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/Pesquisa_195-312.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Einstein depois dos 40' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/einstein-depois-dos-40/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Einstein depois dos 40' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/einstein-depois-dos-40/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Einstein depois dos 40' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/einstein-depois-dos-40/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Einstein depois dos 40' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/einstein-depois-dos-40/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Uma aventura brasileira</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 20:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Neldson Marcolin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Gente]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Há 78 anos começava a pesquisa de física no Brasil, com Gleb Wataghin]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8269" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/86-87_Memoria_195-1.jpg" rel="lightbox[8268]" title="86-87_Memoria_195-1"><img class="wp-image-8269" title="86-87_Memoria_195-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/86-87_Memoria_195-1.jpg" alt="" width="290" height="165" /></a><p class="wp-caption-text">Wataghin com aparelho em avião da FAB para medir raios cósmicos na altitude, em 1940</p></div>
<p>O esforço para a criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, trouxe ao Brasil professores franceses, alemães, italianos e um português. Teodoro Ramos, engenheiro da Escola Politécnica de São Paulo, foi à Europa convidar os docentes que, de acordo com o crítico e ensaísta Antonio Candido, instituíram a moderna concepção de pesquisa científica e investigação intelectual no país. De todos os estrangeiros que ajudaram na formação da USP, talvez o mais bem-sucedido tenha sido Gleb Wataghin, um ucraniano naturalizado italiano, filho de pais russos, que teve seu trabalho brasileiro reconhecido no exterior poucos anos depois de iniciar a pesquisa em física no país.</p>
<p>“Em certa ocasião, minha mulher, Amélia, e eu estávamos em um congresso sobre história da física na Itália quando fomos abordados pelo historiador da ciência americano Lewis Pyenson com a seguinte questão, ‘Como o Wataghin fez aquele milagre em São Paulo nos anos 1930?’”, conta Ernst Hamburger, do Instituto de Física (IF) da USP. Sílvio Salinas, também do IF, relata uma história parecida do físico Freeman Dyson, em meados dos anos 1980.</p>
<p>“Durante um colóquio, em Pittsburgh, Dyson citou a ‘aventura brasileira’ de Wataghin, quando, em condições improváveis, em um lugar sem nenhuma tradição de ensino e pesquisa em física, em poucos anos começaram a aparecer artigos brasileiros publicados por ele na <em>Physical Review</em>”, relata Salinas. Os trabalhos eram feitos em colaboração com alunos formados por ele.</p>
<div id="attachment_8270" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-8270" title="86-87_Memoria_195-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/86-87_Memoria_195-2.jpg" alt="" width="290" height="203" /><p class="wp-caption-text">Wataghin em frente do instituto que leva seu nome, em 1971: homenagem da Unicamp</p></div>
<p>Wataghin iniciou duas linhas de pesquisa. Na experimental trabalharam Marcello Damy de Souza Santos, Paulus Aulus Pompeia e Yolande Monteux; na teórica, Mario Schenberg, Paulo Saraiva de Toledo e Abraão de Morais. Mais tarde se juntaram a eles César Lattes, Sonia Ashauer, Walter Schutzer, Jayme Tiomno, Roberto Salmeron, Paulo Leal Ferreira e Oscar Sala.</p>
<p>Para Henrique Fleming, do IF, que conheceu Wataghin em 1967 em Turim, os primórdios do curso de física foram excepcionais. “Não sei se é possível achar mais uma dúzia de exemplos como aquele na história da física”, diz. “E o principal personagem nesse cenário foi Wataghin, a pessoa mais extraordinária que conheci.”</p>
<p>Gleb Wataghin (1899-1986) nasceu em Birsula, na Ucrânia, e estudou em Kiev. Em 1920 a família estava em Turim fugindo da revolução comunista russa. Lá ele se formou em física e matemática e em 1929 começou a lecionar na Universidade de Turim. Quando esteve na Itália, a primeira escolha de Teodoro Ramos para a cadeira de física era Enrico Fermi, que indicou o jovem professor. O fascismo, a dificuldade para conseguir uma cátedra e a boa oferta financeira convenceram Wataghin a vir.</p>
<div id="attachment_8271" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-8271" title="86-87_Memoria_195-3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/86-87_Memoria_195-3.jpg" alt="" width="290" height="199" /><p class="wp-caption-text">Na década de 1970, na sua casa em Turim: figura-chave para a física brasileira</p></div>
<p>Em São Paulo, ele parece ter encontrado as pessoas certas. Seus alunos vinham de boas escolas secundárias, estavam ansiosos por aprender e curiosos com aqueles estrangeiros que faziam tudo diferente da velha tradição portuguesa. Wataghin estimulava os discípulos a irem para o exterior trabalhar com físicos como Fermi, Paul Dirac, Arthur Compton, William Bragg, Eugene Wigner, John Wheeler, R.G. Herb e Cecil Powell. Esse esforço rendeu frutos. A partir dos anos 1940 surgiram, entre outras instituições, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, o Instituto de Física Teórica, hoje ligado à Universidade Estadual Paulista, e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica.</p>
<p>O Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) surgiu em 1966 sob a direção de Damy, que levou Lattes para lá. Em 1971, o instituto passou a se chamar Gleb Wataghin – então professor visitante da Unicamp – e Rogério Cezar de Cerqueira Leite assumiu sua direção.</p>
<p>Durante a Segunda Guerra Mundial o governo da Itália chamou seus professores de volta. Wataghin sabia que poderia ser perigoso retornar, por não ser fascista nem italiano nato. “Ele ficou até 1949, quando voltou para dirigir o Instituto de Física da Universidade de Turim”, conta sua neta Lucia Wataghin, professora de língua e literatura italiana da USP. Filha de André, um dos dois filhos de Gleb, Lucia diz que o avô nunca esqueceu o Brasil.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/Pesquisa_195-30.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Uma aventura brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/uma-aventura-brasileira/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Uma aventura brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/uma-aventura-brasileira/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Uma aventura brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/uma-aventura-brasileira/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Uma aventura brasileira' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/uma-aventura-brasileira/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Ciência para criar uma nação</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 20:00:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Presença pouco conhecida de naturalistas na Comissão Rondon]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8210" class="wp-caption alignnone" style="width: 590px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-11.jpg" rel="lightbox[8205]" title="75_Rondon_195-1"><img class="size-full wp-image-8210" title="75_Rondon_195-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-1.jpg" alt="" width="580" height="342" /></a><p class="wp-caption-text">Rondon com índios Paresi, em imagem de documentário do Major Thomaz (sem data)</p></div>
<p>Há exatos 100 anos, a produção anual de filmes no Brasil, iniciada apenas em 1908, não passava de meia dúzia. Naquele mesmo ano, em 1912, o primeiro-tenente Cândido Rondon (1865-1958), desde 1907 nomeado pelo presidente Afonso Pena como chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA), que deveria construir uma linha telegráfica entre Cuiabá e Santo Antonio do Madeira (Porto Velho), cria a Secção de Cinematographia e Photographia, que coloca sob a direção do Major Thomaz Reis. Se na capital federal o cinema engatinhava, imagine a ousadia da criação de uma seção especializada em documentar a expedição em material fotossensível, que exigia altos investimentos e a apropriação e uso de uma tecnologia inexistente no país em péssimas condições ambientais, de alta umidade, com dificuldades de transporte por matas cheias de índios e doenças.</p>
<p>Esse esforço do sertanista só é compreendido ao se revelar um aspecto desconhecido da Comissão Rondon (1907-1915): a estreita relação com a ciência. Ou, nas palavras do antropólogo Roquette-Pinto, que acompanhou Rondon em 1912: “A construção da linha telegráfica foi o pretexto. A exploração científica foi tudo”. “Já se analisou a função de defesa das fronteiras e da ‘missão civilizatória’ da Comissão, mas quase nada das pesquisas científicas e do grupo de naturalistas, em sua maioria do Museu Nacional, feitas durante a expedição e que abriram um campo inédito para a ciência e para os pesquisadores brasileiros”, explica a historiadora Dominichi Miranda de Sá, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e responsável pelo projeto <em>Inventário da natureza do Brasil: as atividades científicas da Comissão Rondon</em>. “A ciência, a partir da expedição, passou a ser vista como elemento fundamental na construção do Estado Nacional brasileiro, objetivo maior da República”, analisa Dominichi.</p>
<div id="attachment_8211" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-2a1.jpg" rel="lightbox[8205]" title="75_Rondon_195-2a"><img class="size-full wp-image-8211" title="75_Rondon_195-2a" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-2a.jpg" alt="" width="290" height="207" /></a><p class="wp-caption-text">Rondon sentado em acampamento, fotograma de documentário da comissão (sem data)</p></div>
<p>A pesquisa concluiu que o propósito da Comissão Rondon era de que seus membros não estavam encarregados apenas da expansão da rede telegráfica nacional, mas da definição das distintas potencialidades do território da porção norte do país para a discriminação entre áreas de exploração e conservação de recursos naturais e humanos. O projeto, nesse contexto, traz à luz a importância da comissão na institucionalização das ciências no país e no papel crescente do Estado como fomentador das pesquisas científicas, em especial a ciência aplicada, pensada como instrumento de modernização nacional. “Enquanto estendiam fios telegráficos para efetivar as comunicações com a porção norte do Brasil, eram delimitadas as áreas de fronteira com outros países e demarcadas terras indígenas, mas também aquelas propícias ao povoamento, ao cultivo de lavouras e à expansão da pecuária”, conta a pesquisadora. “Ao lado disso, foram realizadas incursões de exploração científica para conhecimento e descoberta de rios, vistos como caminhos de escoamento da produção agrícola, marcos naturais de fronteiras e de orientação geográfica, bem como obstáculos à colonização por supostamente dificultarem a circulação e potencializarem a incidência de doenças, sobretudo a malária”, observa. Este último aspecto, aliás, nunca havia sido trabalhado pela historiografia da comissão, embora seja porta de entrada para discutir a história da apropriação de um objeto natural, os rios, por projetos estatais de conhecimento e ocupação territorial.</p>
<p>A ciência era, então, tão estratégica quanto os postos de telégrafo, defendidos pelo engenheiro Francisco Bhering, o autor do projeto telegráfico levado a cabo pela comissão, como “precursor do progresso” que deveria chegar à Amazônia, vista, ao lado de Mato Grosso e Goiás, como prioridade republicana, sob pena de esse trecho norte e suas populações “acabarem por se destacar e distanciar do território nacional”. O “clima intelectual” entre os oficiais da época, doutrinados pelo positivismo, não queria criar militares para a guerra, mas defendia um treinamento técnico e científico para formar “agentes do progresso”, não soldados. Para esse grupo, a dualidade sertão (atraso) e litoral (civilização), polêmica central no novo regime, era uma falácia. Segundo eles, o sertão era definido pela distância em relação ao poder central e aos projetos modernizadores. “O sertão no Brasil começa onde termina a Avenida Central”, como disse o intelectual Afrânio Peixoto</p>
<div id="attachment_8212" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-2b1.jpg" rel="lightbox[8205]" title="75_Rondon_195-2b"><img class="size-full wp-image-8212" title="75_Rondon_195-2b" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-2b.jpg" alt="" width="290" height="217" /></a><p class="wp-caption-text">Rondon com índios Paresi, imagem do Major Thomaz (sem data)</p></div>
<p>“A Amazônia era ‘sertão’ pelo abandono do poder central e sua ‘paisagem’ estava destinada a desaparecer. Era preciso ocupar, povoar e modernizar o ‘território vazio’, delimitar a ‘fronteira’ e domar a ‘floresta’ com seus animais, doenças e rios. A civilização, no entendimento dos membros da comissão, era resultado possível”, observa a socióloga Nísia Trindade, da Fiocruz e integrante do projeto. Afinal, segundo Rondon, “desbravar esses sertões, torná-los produtivos, submetê-los à nossa atividade, aproveitar a sua feracidade e suas riquezas é o mesmo que estender até os confins desta terra enorme a ação civilizadora do homem”. Estaria, assim, resolvida a dualidade com a inclusão do sertão nos projetos de construção da nacionalidade.</p>
<p>Quando, em 1906, o Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (Maic) foi criado, as atividades e instituições científicas (entre elas o Museu Nacional e o Jardim Botânico) foram atreladas ao novo órgão e passaram a fazer parte das expedições de integração, como a Comissão Rondon, também ligada a um Ministério da Guerra positivista e pró-ciência. O levantamento científico do território, com o estudo de climas, incidência de doenças, rios, plantas, animais e capacidade de terras para agricultura, mineração e pecuária era indissociável dos projetos de diversificação produtiva, de modernização da agricultura, construção de caminhos para  o escoamento da produção e fixação de mão de obra no interior. A ênfase na ciência aplicada era imperativa, pois se tratava de colocar a natureza (vista como recurso natural), com destaque para a agricultura, a serviço do homem. Com o poder sobre as expedições nas mãos do Maic, ao lado dos fios, iriam os naturalistas e os próprios engenheiros militares para identificar as terras boas para lavoura que tivessem condições de salubridade para o povoamento pelos trabalhadores, integrando ao poder central as áreas isoladas. Acima de tudo, era preciso descobrir os rios para permitir a comunicação com os mercadores consumidores.</p>
<p>A isso se juntaram as demandas do Museu Nacional, em plena crise, achincalhado por Olavo Bilac como “instituição anquilosada”, paralisada. O diretor do museu, João Batista Lacerda, enfurecido, desde 1905 tentava sensibilizar as autoridades de que “se queremos tornar indiscutível a hegemonia do Brasil na América do Sul, devemos encarar essa política do ponto de vista de superioridade de nossos recursos intelectuais, e dos nossos institutos de ensino e ciência”. Como “condição essencial ao progresso e desenvolvimento científico do Museu, é preciso o restabelecimento do antigo cargo de naturalista-viajante”, criado no Império e extinto na República. Era preciso “criar conhecimentos por brasileiros sobre a natureza brasileira”, até então uma atividade monopolizada por naturalistas estrangeiros, como satirizado por Machado de Assis no conto<em> Lição de botânica</em> (1906).</p>
<div id="attachment_8213" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-2c1.jpg" rel="lightbox[8205]" title="75_Rondon_195-2c"><img class="size-full wp-image-8213" title="75_Rondon_195-2c" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-2c.jpg" alt="" width="290" height="207" /></a><p class="wp-caption-text">Homem trabalhando em laboratório (sem data)</p></div>
<p>Os naturalistas que acompanharam Rondon, além de coletarem, classificarem e catalogarem o material coligido, redigiram relatórios científicos detalhados, deram conferências e publicaram textos de divulgação sobre as viagens. Entre eles destacavam-se: na zoologia, Alípio de Miranda, Arnaldo Blake Santana e José Geraldo Kuhlmann; na geologia, Cícero de Campos e Euzébio de Oliveira; na antropologia, Roquette-Pinto; e na botânica, Frederico Carlos Hoehne e João Geraldo Kuhlmann. Boa parte desses nomes estaria, no futuro, no panteão da ciência nacional. O Museu Nacional cresceu a passos largos: entre 1908 e 1916 a instituição recebeu 8.837 espécimes botânicos, 5.637 espécimes zoológicos, 42 exemplares geológicos, mineralógicos e paleontológicos e 3.380 peças antropológicas, tudo originado da Comissão Rondon, conforme assinalado pela pesquisadora Magali Romero Sá, da Fiocruz, outra integrante do projeto.</p>
<p>Miranda Ribeiro chegou a afirmar que “as coleções reunidas durante a Comissão Rondon fizeram em oito anos mais pelo Museu Nacional do que tudo o que tinha sido realizado em 100 anos de existência da instituição”. O zoólogo, aliás, não atuava apenas como coletor, mas seu entrosamento com as teorias evolucionistas, ainda polêmicas no país então, levava-o a estabelecer questões, observar as inter-relações dos animais como meio e outras observações ecológicas sobre os espécimes coletados. Adolpho Lutz foi premiado com uma coleção de dípteros vindos do grupo de Rondon e publicou, em 1912, um trabalho sobre os 70 exemplares de tabanídeos coletados. O botânico Hoehne percorreu 7.350 quilômetros de campos e florestas de Mato Grosso e comentou mais tarde que mapear a região com Rondon equivaleria a desenvolver a economia de todo o Brasil.</p>
<p>“Para além da pesquisa científica, os membros da comissão demarcavam terras indígenas, discriminavam, em levantamentos médicos, a ‘selva’, onde grassaria a malária, da ‘floresta’, objeto que começava a ser discutido como área de ‘aproveitamento racional’”, observa Dominichi. A floresta amazônica virou foco da comissão entre 1915 e 1920, em especial no levantamento de rios, que, esperava-se, eram os caminhos, as estradas de penetração, esquadrinhamento e inventário, modernização e ocupação da fronteira noroeste do país. Os mapas eram sempre corrigidos e novos rios descobertos, como o Juruena ou o rio da Dúvida, afluente do Madeira, “descoberto” na célebre viagem feita por Rondon ao lado do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, entre 1913 e 1914. Começava a surgir o novo “mito da Amazônia”.</p>
<div id="attachment_8216" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-3a1.jpg" rel="lightbox[8205]" title="75_Rondon_195-3a"><img class="size-full wp-image-8216" title="75_Rondon_195-3a" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-3a.jpg" alt="" width="290" height="227" /></a><p class="wp-caption-text">Índios Apalaí do rio Jari dançando, em imagem do fotógrafo Harald Schultz (sem data)</p></div>
<p>O termo “Amazônia” foi usado como designação de uma região associada à prodigalidade pela primeira vez no livro<em> O país das amazonas</em>, de 1883, do barão de Santa-Anna Nery. Seu título, que convertia a província do Amazonas em Amazônia, era destinado a atrair imigrantes. “A Amazônia”, escreveu Nery, “confirmaria o destino de ‘terra de promissão’ apontado por cronistas e naturalistas, se povoada em favor do incremento da agricultura e da mineração; se desmentidas as ideias negativas sobre os malefícios do clima quente; se a floresta e matérias-primas exploráveis fossem usadas racionalmente e em detrimento da extração exclusiva da borracha; sobretudo se os elementos naturais fossem conhecidos em sua ‘harmoniosa unidade’”, explica a pesquisadora Nísia Trindade.</p>
<p>A República renovou, com maior intensidade, o interesse monárquico na região. Daí os investimentos do Estado em financiar uma política regular de conhecimento científico da diversidade natural e regional brasileira, em que a Amazônia tinha um lugar de destaque, objeto de análise das instituições científicas nacionais. Em especial, após o nascimento do Maic, que enviou grupos de naturalistas para estudar a região e que, na volta, divulgaram suas visões em publicações populares. Boa parte desses trabalhos veio de membros da Comissão Rondon. Mesmo o mapeamento dos rios ajudou a criar um novo mito moderno. “Da polissemia dos rios do norte se foi construindo a imagem da floresta amazônica pela comissão: região de chuvas intermitentes e clima quente; grandes extensões de terras opulentas, férteis e abundantes para serem cultivadas; solos perfeitos para agricultura e alternativa ao exclusivismo extrativista da borracha, cujo aumento da plantação dependia apenas da derrubada ‘racional da mata’, ocupação e povoamento por ‘lavradores operosos’ e criação de meios de transporte para o escoamento da produção”, conta Dominichi.</p>
<p>Era mesmo o “país das amazonas”. Miranda Ribeiro tinha razão ao elogiar a comissão por eliminar a palavra “desconhecido” dos mapas nacionais, o que iria, no futuro, transformar esse “país das amazonas” em Brasil. “A comissão forneceu material e imaginário para a consolidação da ‘Amazônia’: objeto de ciência, imaginação, turismo, disputas políticas, curiosidade e temário central dos debates sobre o uso sustentável de recursos naturais e preservação ecossistêmica.” Mas a utopia geográfica que via o país como uma imensa fronteira e que bastava abrir a picada mais adiante que o progresso faria o resto não se confirmou.</p>
<div id="attachment_8217" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-3b1.jpg" rel="lightbox[8205]" title="75_Rondon_195-3b"><img class="size-full wp-image-8217" title="75_Rondon_195-3b" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-3b.jpg" alt="" width="290" height="230" /></a><p class="wp-caption-text">Índias Paresi em rede, registradas pelo Major Thomaz (sem data)</p></div>
<p>Rondon preocupava-se em registrar tudo em imagens e preparou vários álbuns fotográficos das atividades da comissão e os enviava para as autoridades mais importantes do governo brasileiro. “Os álbuns, os artigos publicados nos principais jornais do país e principalmente as apresentações dos filmes seguidas de conferências funcionavam como uma espécie de <em>marketing</em> pessoal e uma forma de persuasão para a continuidade das atividades da comissão. Visavam principalmente a elite urbana, sedenta de imagens e informações sobre o sertão brasileiro, e principal grupo formador de opinião”, observa o historiador Fernando Tacca, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor de <em>A imagética da Comissão Rondon</em> (1996). Assim, Rondon alimentava o espírito nacionalista construindo etnografias de um ponto de vista estratégico e simbólico: a ocupação do oeste brasileiro através da comunicação pelo telégrafo, pela visualidade da fotografia e do cinema mudo, com filmes do Major Thomaz, em especial <em>Ao redor do Brasil </em>(1932). “Todo esse período de produção de imagens pode ser considerado uma extensão das atividades da comissão”, avalia Tacca.</p>
<p>“O cruzamento entre filmes e fotografias foi uma prática inovadora na produção da Comissão Rondon e a segunda categorização se dá no campo da pacificação, quando imagens demonstram um índio dócil e sujeito a mudanças pelo avanço civilizatório. Constrói-se assim uma imagem de sujeição, e não de impedimento à ocupação territorial da nação”, observa Tacca. Há uma construção imagética, “científica”, da existência de grupos tradicionais que aceitam a nacionalidade da bandeira e de outros símbolos da nação reconhecendo, em alguns casos, a fronteira nacional. É exemplar da condução para uma integração do índio pela ação civilizatória do Estado a imagem simbólica do índio fronteiriço ao lado da bandeira nacional, marcando a existência de um índio brasileiro, e não somente “índio”.</p>
<p>Em 1915, o Mato Grosso tinha 4.502 quilômetros de linhas telegráficas, e os membros da expedição tinham realizado o que consideravam uma “epopeia”, a custo de muitas vidas e sacrifícios terríveis, fazendo o levantamento de uma área de 50 mil quilômetros entre os rios Juruena e Madeira. Apesar dos muitos equívocos, Rondon se esforçou em integrar os índios, de forma pacífica, ao Brasil. Como positivista, não desprezava os índios, só acreditava que viviam num estágio anterior da evolução social, numa época em que intelectuais urbanos como Silvio Romero escreviam sobre a inferioridade racial dos nativos. Era um otimista que via todos como parte de um Brasil só, que ele conseguiria reunir e modernizar.</p>
<div id="attachment_8218" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-3c1.jpg" rel="lightbox[8205]" title="75_Rondon_195-3c"><img class="size-full wp-image-8218" title="75_Rondon_195-3c" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/75_Rondon_195-3c.jpg" alt="" width="290" height="240" /></a><p class="wp-caption-text">Índios escutando música de vitrola (sem data)</p></div>
<p>“Em pouco tempo, porém, esse entusiasmo de que se conseguiria superar a natureza e fazer dela o ‘celeiro da terra’, como dizia Rondon, com um povoamento sem grandes problemas, bastando estradas e linhas telegráficas, deu de cara com barreiras nosológicas intransponíveis, doenças que dizimavam as expedições e cuja difícil erradicação vai transparecendo, de forma crescente, nos relatórios dos médicos da comissão”, observa Arthur Torres, mestre em história formado na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. “Viu-se que era imprescindível estratégias de controle de moléstias como a malária para que a comissão pudesse concluir a linha telegráfica no noroeste do país e implantar a civilização desejada. Isso não aconteceu e a custosa e demorada transformação deixou os objetivos de Rondon distantes dos planos da sua comissão.”</p>
<p>Ao mesmo tempo que Rondon lutava para instalar seus fios, Oswaldo Cruz, a pedido da Mamoré Railway Company, tentava fazer a profilaxia da malária que matava os trabalhadores da estrada de ferro. As expedições feitas por ele e seus colegas de Manguinhos trouxeram um novo retrato, sanitarista, do Brasil, diverso do otimismo positivista do Estado e de Rondon, enfatizando que não era o clima, mas a doença a grande causa do atraso nacional. Vários dos membros da comissão, inclusive o próprio chefe, já integram as fileiras do movimento pelo saneamento dos sertões e o movimento sanitarista tornou público o debate. “O debate sobre identidade nacional no Brasil passou a se dar pela metáfora da doença. O sertão não é apenas distante do poder central, mas uma região que passa a ser caracterizada de vez pelo abandono e pelas moléstias”, nota Nísia, que analisou o tema, ao lado de Gilberto Hochman, na pesquisa<em> Brasil imenso hospital </em>(Fiocruz).
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/Pesquisa_195-27.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/historia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Ciência para criar uma nação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/ciencia-para-criar-uma-nacao/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Ciência para criar uma nação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/ciencia-para-criar-uma-nacao/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Ciência para criar uma nação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/ciencia-para-criar-uma-nacao/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Ciência para criar uma nação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/ciencia-para-criar-uma-nacao/' displayText='share'></span></p>
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