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	<title>Revista Pesquisa Fapesp &#187; Sociologia</title>
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	<description>Revista Pesquisa Fapesp</description>
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		<title>Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil</title>
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		<pubDate>Fri, 03 May 2013 20:33:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[Artes Visuais]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Professor Marcelo Ridenti fala sobre as relações entre cultura e política]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O professor Marcelo Ridenti, do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conversa no programa Pesquisa Brasil desta semana sobre o projeto: &#8220;Artistas e intelectuais comunistas na consolidação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil&#8221;.</p>
<p>O pesquisador investiga as relações entre cultura e política com a intermediação do Partido Comunista a partir dos anos 1950, tema abordado pela reportagem <a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/04/12/revolucao-cultural-a-brasileira/" target="_blank"><em>Revolução à brasileira</em>, publicada na edição de abril da revista Pesquisa Fapesp número 206</a>.</p>
<p>Autor e organizador de livros como &#8220;O fantasma da revolução brasileira, de 1993&#8243; e &#8220;Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV&#8221;, o pesquisador Marcelo Ridenti apresenta uma seleção musical especial sobre o assunto.</p>
<p><b>Programação Musical:</b><br />
Mistério do Planeta – Novos Baianos<br />
Feio não é bonito – Nara Leão<br />
A Rã – Gal Costa<br />
Samba em paz – Caetano Veloso<br />
Roda &#8211; Gilberto Gil</p>
<p><i>Apresentação: Fabrício Marques<br />
Produção e roteiro: Biancamaria Binazzi<br />
Gravação e Montagem: Beto Alves (Rádio USP)</i></p>
<p><em>Pesquisa Brasil</em> vai ao ar todas as sextas-feiras às 13:00, pela <a href="http://www.radio.usp.br/" target="_blank">Rádio USP</a>.<br />
<a href="http://feeds.feedburner.com/podcastrevistapesquisafapesp" target="_blank">Assine <em>Pesquisa Brasil</em> como podcast!</a></p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/05/PESQUISA-37-RIDENTI.mp3" target="_blank">Baixar o MP3</a><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/category/multimidia/podcast/" target="_blank"><em><br />
Veja aqui o arquivo do Pesquisa Brasil</em></a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Aristas e intelectuais comunistas e a indústria cultural no Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/05/03/aristas-e-intelectuais-comunistas-na-industria-cultural-no-brasil/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Uma arte feita de tensões</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Oct 2012 21:11:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Produções intelectuais e indústria cultural entre tapas e beijos]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-36294" title="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/118-121_IndustriaCUltural_200-11.jpg" alt="" width="290" height="383" />Em <em>A perda da auréola</em>, dos <em>Pequenos poemas em prosa</em>, Baudelaire descreve o poeta, apressado, a saltitar por entre poças de lama. De repente, sua aura cai numa delas, mas ele nem se preocupa em pegá-la de volta, confessando seu alívio a um passante: “Posso enfim me entregar à devassidão, como qualquer mortal. A dignidade me entedia. Eis-me aqui, igualzinho a você, como vê!”. Assim, o antigo “bebedor de quintessências” e “comedor de ambrosia” percebe que precisa deixar, de bom grado, a sua aura na “lama” para viver os novos tempos. “No Brasil do século XIX já se percebe um diálogo inicial entre ‘alta’ e ‘baixa’ cultura, catalisado pelo crescimento da imprensa. Afinal, sem produtos comerciais como os jornais, fruto de uma indústria cultural nascente, não haveria espaço para figuras como Machado de Assis, Lima Barreto ou João do Rio. Por um paradoxo, foi um movimento na ‘baixa’ cultura que provocou a criação de obras de ‘alta’ literatura”, diz a <em>Pesquisa FAPESP</em> o sociólogo Sergio Miceli, da Universidade de São Paulo (USP).</p>
<p>Segundo o pesquisador, deixar a aura na “lama” e desenvolver a produção artística em veículos sem “ambrosias e quintessências” passou a ser característica do desenvolvimento da cultura brasileira. “A nossa cultura é resultado dessa complexa interação entre elementos ‘intelectuais’, ‘elevados’, e as mídias da indústria cultural. É uma relação tensa: às vezes mais harmoniosa; em outras, em litígio aberto. Essa relação entre ‘alta’ e ‘baixa’ cultura é típica do Brasil. Na Argentina, por exemplo, o peso da indústria cultural é muito menor e sua influência demorou a mexer com a sociedade”, conta Miceli. Para entender esse dilema numa perspectiva inovadora, o sociólogo reuniu um grupo de pesquisadores no projeto <em>Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo</em>.</p>
<p>“Entendemos que uma verdadeira história crítica da cultura brasileira deve revelar as ligações entre surtos estratégicos da produção cultural erudita e a expansão de setores dinâmicos da indústria cultural, em geral vista, de maneira equivocada, como mero reduto de vulgarização da criação erudita, totalmente apartada da cultura elaborada”, fala. Segundo Miceli, a cultura nacional percorre uma via de mão dupla. “De um lado, temos intelectuais e artistas moldando rumos e linguagens das mídias de cada tempo histórico. Ao mesmo tempo, as transformações da indústria cultural vão impondo feições e significados ao trabalho desses criadores”, analisa. O que o projeto traz de novo é a discussão sobre como a cultura letrada se articula com a indústria cultural, misturando o polo erudito às mídias comerciais. “Historicamente, nossa cultura resultou do elo indissociável entre projetos intelectuais e artísticos e as condições estruturais que propiciaram a viabilização desses projetos.”</p>
<p>O grupo de Miceli quis romper a barreira analítica interposta entre as culturas popular e erudita para ressaltar seus pontos de inflexão, as linhas de continuidade, o constante combate entre preconceitos defensivos, as mediações feitas por empresas e lideranças, e os fluxos de linguagem, ideias, modelos, autores e obras. “Assim, é possível perceber os intercâmbios e as brigas em que operam intelectuais, escritores e artistas, expostos às circunstâncias históricas e aos condicionantes das mídias e dos veículos em que circulam e são recepcionados os seus trabalhos criativos”, afirma o sociólogo.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-25598" title="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/118-121_IndustriaCUltural_200-2.jpg" alt="" width="290" height="164" />Para dar conta desse painel, foram reunidas pesquisas que, à primeira vista, pouco têm a ver umas com as outras. Tudo serviu para compreender a sutileza dessa interação: da ligação entre Lima Barreto e o jornalismo à crítica disparatada contra Paulo Coelho, passando pelas modificações na imprensa contemporânea, o advento do romance regionalista, as divas do teatro paulistano, chegando, ao fim, na temática contemporânea dos “filmes de favela”. “Em cada um desses momentos históricos os produtores culturais eruditos se nutriram de materiais formatados e veiculados na mídia comercial, assim como os suportes e gêneros da indústria cultural se alimentaram dos repertórios da chamada alta cultura”, conta Miceli. Um percurso iniciado com a expansão da imprensa e das revistas ilustradas que sofreu grande impulso com o surto empreendedor do setor editorial, tudo culminando com as ações modeladoras do teatro, do rádio, da televisão e do cinema. “Nesses ciclos, cada transformação das mídias provoca mudanças na vida intelectual, fazendo dessa união entre produtos e suportes uma liga esclarecedora da substância da nossa cultura.”</p>
<p><strong>Modas</strong><br />
No abre-alas do projeto está o trabalho da historiadora da e antropóloga da USP Lilia Schwarcz sobre Lima Barreto. “A nova mídia jornalística impõe contornos e novos formatos à literatura e Lima Barreto é um caso exemplar. Nele conviviam o intelectual crítico, avesso a modas literárias e comprometidas com a cultura popular, e o escritor que se esforçava para se integrar ao campo das letras”, conta Lilia. Nessa ambivalência estão as tensões da cultura da época em formação. “No Brasil daquele tempo, o popular e o erudito não eram formalmente estabelecidos e Lima Barreto é fruto desse contexto: criador e criatura de sua obra, ele misturou instâncias, espaços de veiculação e tornou ainda mais ambíguas essas ligações”, fala.</p>
<p>Com o <em>boom</em> das editoras nos anos 1930 e 1940, o modernismo saiu do eixo Rio–São Paulo e trouxe novas temáticas. Esse fenômeno editorial era baseado em produtos rentáveis como o romance regionalista, que atingia novos e maiores públicos. Em especial, aqueles cujos escritores e tramas se passavam em regiões ainda pouco conhecidas dos brasileiros, como o Nordeste e até mesmo o Sul, reveladas por nomes como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Érico Verissimo, entre outros. “Embora o modernismo seja na origem um fenômeno tipicamente de São Paulo e do Rio, a fixação dos princípios vanguardistas só se realizou integralmente com a incorporação de outras regiões. Foi ‘de fora’ das duas metrópoles que chegou o verdadeiro novo”, diz a socióloga Maria Arminda do Nascimento, da USP. Desprezados pelos modernistas elitizados como Carlos Drummond, para quem Graciliano era um “escritor de quinta”, ou Oswald de Andrade, que os chamava de “búfalos do Nordeste”, os regionalistas se adaptaram a essa nova demanda da indústria cultural e, ao mesmo tempo, retrataram fenômenos sociais, unindo ficção e política para questionar a modernização.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-36296" title="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/118-121_IndustriaCUltural_200-31.jpg" alt="" width="290" height="374" />“A modernização não tinha força para bater nas relações sociais e superá-las e estas não tinham o vigor necessário para se ajustar à nova dinâmica. Dessa tensão nasceu o romance social e regional dos anos 1930”, conta Arminda. Foi nesse contexto, observa o sociólogo Marcelo Ridenti, da Unicamp, que se deu o envolvimento entre artistas e o Partido Comunista Brasileiro (PCB) na mesma época. “Foi uma relação que fincou raízes profundas na nossa cultura, moldando linguagens às utopias de uma sociedade alternativa em busca de um projeto político viável para a superação das desigualdades”, analisa Ridenti. Uma relação, não obstante, muito delicada. “É claro que não era apenas uma militância que desejava transformar saber em poder. Havia interesses do partido. Mas é injusto afirmar que foi mera manipulação dos intelectuais pelos dirigentes comunistas. A relação trouxe benefícios para ambos”, diz.</p>
<p>Igualmente sutil foi a ligação entre as ciências sociais paulistanas e a beleza das divas do teatro, afirma a antropóloga Heloisa Pontes, da Unicamp. Segundo a pesquisadora, entre os anos 1940 e 1970 houve muitos nexos entre teatro, campo intelectual e espaço urbano, representado pelo universo das figuras do TBC, Arena e Oficina. “O teatro foi precursor. Nas peças de Nelson Rodrigues, Guarnieri, Jorge Andrade, entre outros, houve uma tradução do Brasil que os romances não fizeram e as ciências sociais só fariam mais tarde. Ainda assim, essa análise acadêmica partiu de um grupo de intelectuais, entre os quais Décio de Almeida Prado e Antonio Candido, que, antes da universidade, militou na crítica cultural.”</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-tematicos/2201/formacao-campo-intelectual-industria-cultural/" target="_blank">nº 2008/55377-3</a></td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Projeto Temático</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Coordenador</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Sergio Miceli Pessoa de Barros – USP</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 549.453,60 (FAPESP)</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Ainda segundo Heloisa, foi também nos palcos, veículo da indústria cultural, e não nas ciências sociais, que se discutiram pela primeira vez as transformações ocorridas no país com o fim da ordem agrária e o surgimento de uma sociedade urbano-industrial lastreada na riqueza do trabalho imigrante. No outro extremo temático e temporal, o fenômeno da interação entre culturas se repete no sucesso do escritor Paulo Coelho e nas análises de que ele é “vítima”. “Com ele, o livro vira uma mercadoria de alta rentabilidade. Além disso, como autor e celebridade internacional, ele embaralha as fronteiras entre cultura popular e erudita. Coelho é revelador das trocas entre o erudito e o comercial, também por conta das críticas que recebe sobre o <em>status</em> de legitimidade a que faria jus”, conta o sociólogo da USP Fernando Pinheiro Filho. Para o pesquisador, o escritor popular é um exemplar da manipulação de materiais expressivos híbridos. “Vindos de matriz erudita, eles são reciclados pela mídia comercial, apropriados pela versão ficcional do entretenimento e, curiosamente, convertidos em matéria de reflexão para intelectuais acadêmicos”, observa. A grande ironia para Fernando são os esforços infrutíferos de críticos renomados para “desmascarar” Coelho. “O problema é que tentam fazer isso com um instrumental erudito inadequado, bom para um Machado de Assis, mas que nada tem a ver com as propostas do escritor ou suas aspirações literárias.”</p>
<p>O mesmo equívoco pode ser observado nas análises “intelectuais” de filmes com temáticas centradas na violência das favelas. “Numa favela projetamos <em>O invasor</em>,<em> </em>de Beto Brant, e a série televisiva <em>Antônia</em>. O entusiasmo dos críticos pelo filme de Brant não teve eco na comunidade, que se viu mais bem representada por <em>Antônia</em>. Isso porque a audiência de periferia assistiu aos filmes com lentes de população residente”, diz a socióloga Esther Hamburger, da USP. “Em vez de ver o filme de Brant como crítica à elite paulista, como fazem os intelectuais, reclamaram de mais uma detração da periferia, cujas melhorias eram ignoradas no filme.”</p>
<p><strong>Pauta</strong><br />
Os jornais voltam aos holofotes do projeto com o sociólogo Alexandre Bergamo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que analisa a imprensa dos “filhos da pauta”. “É como a geração mais nova, dos anos 1980, fruto dos cursos universitários, foi chamada pelos jornalistas mais velhos. O embate nesse produto pioneiro da nossa indústria cultural mostra o que mudou nas redações ao longo desse tempo, com a reinvenção da notícia e da reportagem, agora vistas como elementos cruciais da originalidade e da autoimagem”, observa Alexandre. Nesse movimento, o pesquisador observou a gradativa perda de autoridade do repórter provocada pela crescente divisão do trabalho jornalístico. “O jornalismo, antes ‘trabalho intelectual’, agora é definido pelo que tem de ‘técnico’”, explica. Para Alexandre, as posições propriamente “intelectuais” são, cada vez mais, as definidas em função da autoridade e autonomia obtidas na academia, distante das pressões e da linguagem (técnica) que, ironicamente, marcam as posições mais burocráticas e de menor prestígio do jornalismo, fechando o ciclo iniciado nos tempos de Lima Barreto. A razão está com o poeta de Baudelaire: “Num lugar em que a morte chega a galope de todos os lados, achei melhor perder as insígnias do que uns ossos”.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/118-121_industriacultural_200.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Uma arte feita de tensões' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/uma-arte-feita-de-tens%c3%b5es/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Uma arte feita de tensões' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/uma-arte-feita-de-tens%c3%b5es/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Uma arte feita de tensões' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/uma-arte-feita-de-tens%c3%b5es/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Uma arte feita de tensões' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/uma-arte-feita-de-tens%c3%b5es/' displayText='share'></span></p>
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		</item>
		<item>
		<title>A pesquisa que vira política</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Oct 2012 20:54:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Izique</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Pol. Públicas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Estudos acadêmicos cada vez mais ajudam governos a adotar soluções]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-25592" title="" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/110-113_Ciencias-Sociais_200-1.jpg" alt="" width="290" height="306" />O Tribunal de Contas do Estado (TCE) de Mato Grosso monitora os gastos nas áreas de educação e saúde de 141 municípios e os impactos dessas políticas na qualidade do atendimento à população, por meio de base de dados georreferenciados desenvolvida pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM). “Esse modelo permite não apenas avaliar se os municípios estão gastando o que a Constituição exige, mas também se eles vêm melhorando o seu desempenho”, diz Marta Arretche, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do CEM.</p>
<p>A metodologia, criada há cinco anos por encomenda do TCE de Mato Grosso, foi transferida para o estado e passou a ser utilizada como ferramenta de avaliação de desempenho das administrações municipais. Mais que isso: as informações resultantes da aplicação do <em>Índice do desempenho da saúde e da educação</em> das cidades do Mato Grosso estão disponíveis no <em>site</em> do TCE e podem ser acessadas por qualquer cidadão interessado em obter informações sobre gastos e atendimento nessas áreas em  seu município.</p>
<p>A transferência de conhecimento na avaliação de políticas públicas é a principal missão do CEM, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP, formado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Desde a sua instalação, em 2003, já foram implementados mais de 30 projetos de pesquisa envolvendo transferência de metodologia ao setor público.</p>
<p>A parceria entre o TCE/MT e CEM iniciou-se quando o tribunal decidiu, em 2007, fazer uma investigação que fosse além da verificação da regularidade do gasto público, no que se refere à sua legalidade, legitimidade e economicidade. “O tribunal entendeu que também era preciso avaliar se os referidos gastos tiveram impacto positivo na sociedade”, conta Volmar Bucco Júnior, auditor público do TCE/MT. Foi quando surgiu a ideia de avaliar políticas públicas por meio de indicadores de resultados e foi firmada a parceria com o CEM.  “Trata-se de uma ferramenta valiosa. Ao retratar os resultados das políticas públicas de saúde e educação do estado e dos municípios, o controle externo avalia a eficiência na gestão dos recursos públicos”, ele explica. As administrações, assim, podem avaliar sua própria atuação, verificando a evolução dos resultados e sua posição em comparação com a média Brasil, o que permite tomada de decisões, e a sociedade pode acompanhar o desempenho dos gestores públicos, podendo reivindicar a melhoria dos serviços.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/110-113_Ciencias-Sociais_200-2A.jpg" rel="none" target="_blank" title="110-113_Ciencias-Sociais_200-2A"><img class="alignleft  wp-image-19141" title="110-113_Ciencias-Sociais_200-2A" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/110-113_Ciencias-Sociais_200-2A.jpg" alt="" width="250" /></a>O <em>Índice do desempenho da saúde e da educação</em> é, na verdade, uma base geor-referenciada de dados com informações fornecidas pelos ministérios da Educação e da Saúde e que permite a comparação do desempenho dos diferentes municípios brasileiros. A matriz da avaliação considera 10 itens para cada uma das áreas em questão. A análise dos sistemas de saúde, por exemplo, contabiliza mortalidade neonatal, cobertura à saúde da gestante, indicadores sobre a saúde da criança, óbitos por doenças infectocontagiosas (como dengue e tuberculose) e números de atendimentos relativos à saúde da mulher. Os dados são recolhidos pelo banco de dados do Sistema Único de Saúde (Datasus). Para a análise do sistema de educação, foram recolhidas informações sobre taxas de reprovação até a 4ª série e da 5ª à 8ª série do ensino fundamental, entre outros quesitos. As informações foram fornecidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e pelo Censo Escolar (sistemas de avaliação da educação básica do país).</p>
<p><strong>Dados nacionais</strong><br />
Os mapas ao lado e da página 113 permitem, por exemplo, comparar o desempenho de sistemas de saúde e de educação em diferentes municípios do país. As manchas vermelhadas sinalizam situações classificadas como “muito ruins”. A cor azul-escuro revela o que foi avaliado como “muito bom”. Esses dois tons e o degradê de cores que existe entre eles consolidam dados recolhidos município por município em todo o território nacional.</p>
<p>Segundo Marta Arretche,  esse tipo de estudo só pode ser realizado porque o país tem sistemas públicos abrangentes e gratuitos de informação. “Para saber como os governos municipais ou estaduais estão gastando, é preciso montar um sistema confiável. E essa informação já existe. Só o Japão se compara ao Brasil em termos de disponibilização da informação de sistemas públicos.”  Nos Estados Unidos, ela acrescenta, não existem sistemas de informações nacionais sobre os municípios. Lá, para montar um sistema semelhante, seria preciso percorrer cidade por cidade, buscando a informação desejada, para depois compatibilizá-la. “Aqui temos o Censo Escolar, a Prova Brasil, o Datasus, além das pesquisas de informações municipais do IBGE.”</p>
<p>Essas informações devem ser equacionadas para possibilitar comparações. Para cada indicador, o município recebe uma nota de 0 a 1. Para a nota total, os itens são somados. As condições são analisadas sempre em períodos de três anos (os mapas se referem aos triênios de 2004 a 2006 e de 2007 a 2009). “A gente trabalha com média de três anos porque, se houve um evento extremo em uma cidade em um dado ano, por exemplo, dá para corrigir distorções.”</p>
<p>O resultado das análises comparativas no período revela que, na educação, havia uma “massa” de municípios em péssima situação no início da década, enquanto  um pequeno número de cidades representava “ilhas de excelência” que aumentaram ao longo da década. Na saúde brasileira, por outro lado, não existe essa situação de contrastes. “Há menos desigualdade entre os municípios, mas não temos pontos de excelência, ainda que se tenha registrado melhoras significativas com o passar dos anos”, analisa Arretche.</p>
<p><strong>Indicador de qualidade de vida</strong><br />
A expectativa do auditor público do TCE/MT é viabilizar essa metodologia de análise para qualquer órgão público, ou mesmo privado, do Brasil. Na avaliação de Marta Arretche, o estudo pode ajudar a medir o grau de desenvolvimento econômico e a qualidade de vida oferecida à população de um país com as dimensões do Brasil. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), em sua avaliação, não dá uma boa medida de sistemas descentralizados de prestação de serviços públicos. Já a metodologia do CEM permite avaliar o desempenho de políticas sociais de saúde e de educação em esferas muito mais abrangentes e mais próximas da realidade, o que permite que as políticas públicas tenham melhor precisão e efeitos sobre a população afetada.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/110-113_Ciencias-Sociais_200-2B.jpg" rel="none" target="_blank" title="110-113_Ciencias-Sociais_200-2B"><img class="alignright  wp-image-19142" title="110-113_Ciencias-Sociais_200-2B" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/110-113_Ciencias-Sociais_200-2B.jpg" alt="" width="250" /></a>Mato Grosso, por exemplo, já começa a contabilizar os resultados. Os diagnósticos consolidados por esse sistema já resultaram em melhorias para todo o estado. “Como o TCE/MT passou a utilizar também essa metodologia para a apreciação das contas dos gestores públicos, o controle social se intensificou e a ferramenta começou a mostrar a situação de seu município frente aos demais”, explica. “Os agentes públicos, então, tiveram que tomar medidas para melhorar seus índices.”</p>
<p>O sucesso da implementação da metodologia teve até desdobramentos: o CEM foi convidado a desenvolver para a Secretaria de Segurança Pública do estado um painel de monitoramento do número de homicídios, baseado em um conjunto de indicadores que medem o desempenho das ações de segurança e que também permitem a comparação entre diversas regiões do estado. O painel funciona como uma espécie de alarme sempre que registra mudanças negativas nos padrões médios dos indicadores.</p>
<p>“Essa metodologia de informações se tornou uma ferramenta importante para avaliar e subsidiar a formulação de políticas públicas”, afirma Eduardo Marques, pesquisador do CEM e professor do Departamento de Ciência Política da USP. O CEM desenvolveu mais de 30 projetos de pesquisa orientados para auxiliar a formulação e a implementação de políticas públicas. Entre elas se inclui, para a prefeitura de São Paulo, o <em>Mapa da vulnerabilidade social</em> – que permitiu detectar as situações de carência social por meio da análise da distribuição da estrutura socioeconômica – e os <em>Indicadores ambientais e gestão urbana: os desafios para a construção da sustentabilidade na cidade de São Paulo</em>, que possibilitou à administração identificar o alto grau de variedade em relação aos problemas e pressões ambientais em diferentes espaços urbanos. Ainda para a prefeitura paulistana foram desenvolvidos dois estudos sobre a precariedade habitacional, que subsidiaram o Plano Habitacional do Município. Esta última experiência levou o Ministério das Cidades a encomendar o desenvolvimento de metodologia para análise de assentamentos precários gerando informações sobre carências habitacionais de um grupo selecionado em 560 municípios.</p>
<p>As parcerias com os órgãos públicos ocorreram de forma paulatina por contatos entre os gestores. “O CEM foi um dos primeiros a digitalizar bases de dados”, diz Marques. “Começamos com a prefeitura de Mauá, em 2003. A informação circula e as demandas aparecem.”
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/10/110-113_ciencias-sociais_200.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A pesquisa que vira política' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-pesquisa-que-vira-pol%c3%adtica/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A pesquisa que vira política' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-pesquisa-que-vira-pol%c3%adtica/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A pesquisa que vira política' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-pesquisa-que-vira-pol%c3%adtica/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A pesquisa que vira política' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/a-pesquisa-que-vira-pol%c3%adtica/' displayText='share'></span></p>
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		<title>As páginas proibidas</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Sep 2012 20:00:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Fioratti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Lista de livros censurados após o AI-5 revela critérios de apreensão]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-17426" title="082-085_Censura_199-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-1.jpg" alt="" width="290" height="348" />Vinte e oito caixas guardadas no Arquivo Nacional de Brasília preservaram parte de uma história que permanece com páginas incompletas. A coleção reúne documentação dos órgãos censores da ditadura militar sobre livros publicados no período que segue a criação do Ato Institucional nº 5, de 1968.</p>
<p>O conteúdo dessas pastas foi analisado recentemente por Sandra Reimão, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, que compôs a lista até hoje mais completa de livros submetidos à censura no período. O estudo foi apresentado no livro <em>Repressão e resistência – Censura a livros na ditadura militar</em> (Edusp/FAPESP, 2011) e permite analisar, agora com mais precisão, com que critérios o governo brasileiro proibia obras literárias publicadas na época, colocando sob o manto da preservação da ordem e dos bons costumes livros políticos, como <em>O mundo do socialismo</em>, de Caio Prado Junior, e eróticos, como <em>Tessa, a gata</em>, de Cassandra Rios.</p>
<p>Na lista ainda estão <em>Feliz Ano Novo</em>, de Rubem Fonseca; <em>Zero</em>, de Ignácio de Loyola Brandão; <em>Dez histórias imorais</em>, de Aguinaldo Silva; e <em>Carniça</em>, de Adelaide Carraro. No estudo de Sandra Reimão há ainda uma subdivisão para peças teatrais publicadas em livros, em que são citados os textos <em>Papa Highirte</em>, de Oduvaldo Vianna, e <em>Abajur lilás</em>”, de Plínio Marcos.</p>
<p>São todos livros oficialmente vetados entre os anos 1970 e 1988, período compreendido entre o ano do decreto-lei 1.077/70 – que instituiu a censura prévia com vistas a publicações literárias – e o ano em que a Assembleia Nacional Constituinte pôs fim à censura.</p>
<p>Os eróticos eram alvos mais comuns. “Se você olhar a legislação, a censura sempre fez referência a matérias contrárias à moral e aos bons costumes; nunca ficou explícito que havia censura a temas políticos, a textos sobre corrupção ou tortura”, conta Marcelo Ridenti, autor do livro <em>Em busca do povo brasileiro – Artistas da revolução, do CPC à era da TV</em> (Record, 458 páginas).</p>
<p>Não se trata apenas de um disfarce. “Essa era realmente uma preocupação dos censores, e a maioria dos livros censurados eram livros eróticos. A questão é que a censura, com base nesses critérios sobre a moral e os bons costumes, proibia também obras consideradas subversivas à ordem política”, conclui.</p>
<p>Cassandra Rios, famosa autora que voltou sua produção para prosas não raro de veia homoerótica feminina, foi uma das campeãs de veto da ditadura. Na capa do livro <em>Tessa, a gata</em>, a autora inclusive reverte a ação da censura a seu favor, com o <em>slogan</em> “Um novo sucesso da autora mais proibida do Brasil”.</p>
<p>O estudo de Sabdra, com apoio da FAPESP, verificou que 313 obras foram vetadas, entre 492 submetidas à análise do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Ou seja, do total, 179 livros foram liberados após a análise do DCDP, dado importante para compreender que havia um sistema de critérios desenvolvido pelo órgão. A censura era movida por um time de funcionários contratados por meio de concurso público, muitos deles universitários.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-4.jpg" rel="lightbox[17425]" title="082-085_Censura_199-4"><img class="alignleft  wp-image-17427" title="082-085_Censura_199-4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-4.jpg" alt="" width="290" /></a>O número levantado por Sandra ainda não é definitivo. A lista completa de livros censurados pela ditadura dificilmente chegará a um fim, diz a pesquisadora, pois antes do decreto-lei 1.077 não havia uniformidade na metodologia da censura. “Antes de 1970 havia coação, apreensão a livros, invasão de livrarias e prisão de livreiros de maneira desorganizada. A censura era feita por órgãos do Estado e, depois do AI-5, passou a ser função do Ministério da Justiça”, diz ela.</p>
<p>Mesmo os documentos guardados nas 28 pastas do Arquivo Nacional podem estar incompletos. “O arquivo que existe é o que foi preservado. Não sabemos quanto desse arquivo foi perdido”, explica a pesquisadora. Os documentos guardados pelo Arquivo Nacional só ficaram disponíveis a partir do ano 2000. “Há muita novidade a respeito do assunto. Esse material ainda não havia sido analisado simplesmente porque antes não estava com uma organização mínima”, diz a pesquisadora.</p>
<p>Um trabalho similar, no entanto, não somente antecede a pesquisa de Sandra como lhe serve também como ponto de partida. Doutor em letras pela USP, o professor Deonísio da Silva, no livro <em>Nos bastidores da censura</em>, já havia indicado 430 livros proibidos pela censura durante a época do regime militar. Entre os títulos, 92 são assinados por autores brasileiros. “Eu dou continuidade ao trabalho que o Deonísio começou”, diz Sandra. Quando virou seus holofotes também para a publicação de livros, a censura já atingia amplamente e com força total outros campos de expressão artística, especialmente o teatro, a música e o cinema. “A quantidade de livros censurados é menor do que a de outros meios de diversão pública.”</p>
<p>Marcelo Ridenti confirma que a literatura foi “relativamente” menos atingida pela censura do que campos de expressão vizinhos. “A produção audiovisual tinha mais potência de difusão em massa. Cinema e televisão, naturalmente, eram mais visados”, explica o pesquisador. As editoras nacionais, ele prossegue, não foram obrigadas a submeter seus lançamentos à censura prévia, como acontecia com produtoras de filmes e de programas de televisão. Para colocar em funcionamento seu sistema de vigilância também sobre a produção literária nacional, os censores contavam com uma ajuda básica: as denúncias, feitas muitas vezes por cidadãos comuns.</p>
<p>Por ter sido menos visada, a literatura permitiu o exercício de um pouco mais de liberdade. “Serviu como válvula de escape”, diz Ridenti. “<em>Calabar</em>, de Chico Buarque, foi proibida em teatro, mas saiu em forma de livro”, exemplifica o pesquisador. “Com a literatura, dava para respirar um pouco mais.”</p>
<p>Segundo levantamento de Zuenir Ventura apresentado em <em>1968 – O ano que não terminou</em>, nos 10 anos de vigência do AI-5 (1968-1978) foram censurados cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, 100 revistas, mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos de sinopses de novelas.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-17428" title="082-085_Censura_199-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_Censura_199-2.jpg" alt="" width="290" height="419" />Boa parte das denúncias reunidas entre os pareceres emitidos pelos órgãos censores – vários deles publicados nas últimas páginas do livro de Sandra com boa legibilidade, graças ao projeto gráfico de Carla Fernanda Fontana – recrimina conteúdos considerados eróticos ou pornográficos: “O livro <em>Dias de Clichy</em>, de Henry Miiler [sic], é um verdadeiro atentado ao pudor, no entanto encontrava-se à disposição de qualquer adolescente na Biblioteca Municipal, desta localidade”, diz carta de Usana Minette, de Lençóis Paulista, de setembro de 1974 e endereçada ao ministro da Justiça, Armando Ribeiro Falcão. O livro “&#8230; foi apoiado pelo senhor prefeito e presidente da biblioteca e só foi retirado de circulação depois de muita insistência”, continua a carta-denúncia.</p>
<p>Escrito à máquina, esse exemplar data justamente do período de maior atuação dos órgãos censores. A bem da verdade, é em 1975 que houve o maior número de proibições a livros nacionais. Segundo a pesquisa de Sandra Reimão, 109 livros, dos 132 analisados pela Justiça, foram censurados em 1975.</p>
<p>Em 1976 foram 61 os livros proibidos. Entre eles aparece <em>Feliz Ano Novo</em>, de Rubem Fonseca, uma das obras mais estudadas pelos pesquisadores da censura a livros no período da ditadura. Resumidamente, o livro conta a história de três personagens que, durante os festejos de ano-novo, assaltam uma mansão, matam três pessoas, estupram uma e, no final, brindam a passagem do ano.</p>
<p>No parecer assinado por Raymundo F. de Mesquista com as palavras “Não Liberação” em caixa-alta preenchendo o campo “Classificação Etária”, a censura é justificada da seguinte forma: “O presente livro [...] retrata, em quase sua totalidade, personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio, sem qualquer referência a sanções&#8230;” Mais adiante o documento enfim aponta que, nas páginas 31, 139 e 141, são feitas “rápidas alusões desmerecedoras aos responsáveis pelo destino do Brasil e ao trabalho censório”.</p>
<p>A partir de 1976, o número de livros censurados começa a cair gradualmente (<em>ver quadro</em>). Uma das hipóteses para esse decréscimo – no número de obras censuradas também em outras áreas das artes – é a morte do jornalista Vladimir Herzog em decorrência de tortura praticada pelos militares, em 1975.</p>
<p>A partir de então acentua-se a cobrança da sociedade pela redemocratização e também pelo fim da censura. “Esse é um dos fatores”, diz Flamarion Maués Pelúcio Silva, doutorando em história social e mestre em história econômica pela USP, que estuda as editoras de oposição à ditadura no Brasil. No início dos anos 1970 houve o maior número de mortes e desaparecimentos de figuras políticas que se opunham ao regime, “na militância armada ou não”. E a morte de Herzog nesse contexto, lembra Flamarion, faz com que o país “conheça de maneira mais ampla” a situação política agravada pela repressão, o que provoca uma reação imediata.</p>
<p>Para o pesquisador, o estudo de Sandra, ao limitar-se ao universo de livros que foram proibidos por uma censura oficial e documentada, mostra “de forma coerente” quais eram os fundamentos da perseguição a obras literárias. “São trabalhos censurados a partir de um ponto de vista formal, com pareceres. Os documentos trazem justificações, e esse material é valioso”, avalia.</p>
<p>Em tempo: no final de seu livro, Sandra faz referência ainda à resistência de editores e de escritores ante as exigências da censura institucionalizada. Érico Verissimo e Jorge Amado, com suas manifestações públicas em repúdio ao regime militar, se destacaram dentro desse movimento – que foi protagonizado ainda por “uma legião de anônimos”, encerra a pesquisadora.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/082-085_censura_199.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='As páginas proibidas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/as-paginas-proibidas/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Criticar para construir</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Sep 2012 20:00:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Política]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Amaury de Souza contribuiu para a ciência política no Brasil]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_17437" class="wp-caption alignright" style="width: 271px"><img class="wp-image-17437" title="087_Obituario_199" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/087_Obituario_199.jpg" alt="" width="261" height="345" /><p class="wp-caption-text">Souza: trabalhos que ajudam a explicar o Brasil atual</p></div>
<p>Intelectual brilhante, cientista político destacado, acadêmico multitemático e liberal corajoso. As qualidades normalmente atribuídas pelos amigos, colegas e alunos a Amaury de Souza se multiplicaram por muitas outras vozes depois de 17 de agosto, quando ele morreu em consequência de câncer no pâncreas, aos 69 anos.</p>
<p>Souza nasceu em Uberlândia, Minas Gerais, onde fez os cursos de sociologia e política e o de administração na Universidade Federal de Minas Gerais, concluídos em 1965. No Rio de Janeiro, onde se estabeleceu, foi um dos fundadores do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio).</p>
<p>Esteve algumas vezes nos Estados Unidos como professor visitante das universidades de Michigan e da Califórnia (Ucla) e fez o doutorado em ciência política pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), no final dos anos 1970. Segundo o sociólogo Bolívar Lamounier, amigo desde a adolescência, sua tese tratava do sindicalismo brasileiro, cuja estrutura corporativa criticava duramente. “Entre seus colegas dos tempos de graduação que viriam a colaborar decisivamente no estabelecimento da ciência política acadêmica no Brasil estavam Antônio Octávio Cintra (Ph.D. pelo MIT), Bolívar Lamounier (Ph.D. pela Ucla), Fábio Wanderley Reis (Ph.D. por Harvard), José Murilo de Carvalho (Ph.D. por Stanford) e Simon Schwartzman (Ph.D. por Berkeley)”, escreveu Octavio Amorim Neto, professor da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas, do Rio (Ebase/FGV).</p>
<p>Ao voltar dos Estados Unidos, Souza se engajou nas lutas pela redemocratização do país e pelas reformas estruturais, como controle da inflação e reforma do Estado, que começaram a ser implementadas nos anos 1990. “Outra área a que Amaury se dedicou foi a da metodologia empírica aplicada à pesquisa sociopolítica, setor em que se firmou como um dos principais senão o principal nome de nossa geração”, escreveu Lamounier sobre o amigo. Ele realizou um longo e produtivo trabalho como consultor, desde os anos 1980. Era diretor da Techne, empresa de consultoria empresarial, e da MCM, de consultoria em economia e análise política.</p>
<p>Nos últimos anos publicou dois livros que ajudam a explicar o Brasil atual. <em>A agenda internacional do Brasil: a política externa brasileira de FHC a Lula</em>, de 2009, e <em>A classe média brasileira: ambições, valores e projetos de sociedade</em>, de 2010, este último junto com Bolívar Lamounier. “O campo que mais o interessava passou a ser o das relações internacionais”, escreveu Lamounier. “Participava de um projeto internacional sobre os Brics [Brasil, Rússia, Índia e China] e sobre a África do Sul e começara a trabalhar num livro sobre os aspectos internacionais do desenvolvimento econômico e político do Brasil quando surgiu o câncer.”</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=17439" target="_blank"><em>Leia artigo de Bolívar Lamounier sobre Amaury de Souza</em></a>
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/09/087_obituario_199.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Criticar para construir' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/criticar-para-construir/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Criticar para construir' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/criticar-para-construir/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Criticar para construir' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/criticar-para-construir/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Criticar para construir' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/criticar-para-construir/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A violência consentida</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Aug 2012 20:20:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marili Ribeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Especial]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[As preocupações do Núcleo de Estudos da Violência da USP]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Há permanências preocupantes no comportamento da população brasileira em relação à consolidação dos princípios democráticos, apesar de todos os avanços do país nas últimas décadas no plano econômico e social. Na linha do tempo sobre a evolução dos dados recolhidos, comparados e analisados pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), em 25 anos de existência, salta aos olhos dos coordenadores que ali trabalham desde o início das atividades a mentalidade conservadora da população no combate à violência. Sobressai um viés autoritário com inclinação a resolver conflitos pelas próprias mãos.</p>
<p>“Um ranço reacionário da sociedade não desaparece com o avanço da democracia”, observa a pesquisadora Nancy Cardia, vice-coordenadora do NEV/USP. “A democracia não conseguiu até agora se tornar um valor universal e, após todos os ganhos e progressos obtidos nas últimas décadas, um terço dos brasileiros apoiaria um golpe militar, algo fortemente mais rejeitado em países vizinhos da Améruca Latina, como Chile, Uruguai e Argentina.” Para os profissionais que investigam o tipo de democracia e governança que se desenvolve no Brasil a partir das relações entre violência, democracia e direitos humanos, essas permanências antidemocráticas são assustadoras.</p>
<p>Sergio Adorno, coordenador do NEV/USP, explica que o trabalho do núcleo vem concentrando grande energia na investigação dos avanços da sociedade brasileira, mas sempre considerando o contexto do país, onde persistem graves violações de direitos humanos, existem territórios dominados pelo crime organizado e são elevadas as taxas de homicídio, entre outros problemas. “Temos de reconhecer profundas mudanças, sobretudo nessa última década, com melhoras na oferta de trabalho, redução das imensas desigualdades que ainda prevalecem na sociedade brasileira e avanços no acesso às instituições promotoras de bem-estar”, pondera. “Mas há um longo caminho a percorrer.”</p>
<p>Segundo Nancy, a crença de que a lei vale para todos não está arraigada aqui no Brasil. Ela lembra que, apesar das campanhas pelo desarmamento, pesquisas recentes do NEV/USP mostram que a crença que a presença de uma arma em em casa traz segurança persiste. “A população acredita que dessa forma está protegida. Há um sentimento de que as leis não funcionam e o cidadão toma para si a tarefa de se proteger.”</p>
<p>A Justiça, um dos pilares da democracia, falha em passar para a população a razão de sua existência e não reforça o fato de que está presente na sociedade para proteger o cidadão de um potencial abuso do poder por parte do Estado. “As pessoas não conseguem entender isso”, afirma Nancy. “Os brasileiros ainda se consideram alheios à Justiça.” Quando se pergunta ao brasileiro se é melhor soltar dez culpados para garantir que um inocente não sofra por um erro da Justiça ou manter um inocente preso, a maioria prefere mantê-lo na cadeia. “Esta resposta é o oposto dos resultados internacionais, que mostram que não se concebe que um erro prejudique um único cidadão”, observa Nancy.</p>
<p>Desde 1999, Nancy coordena uma pesquisa que tem por objetivo focalizar o contato de diferentes estratos da população urbana com a violência. O estudo foi feito em cinco momentos no município de São Paulo (2001, 2003, 2006, 2008 e 2010) e, por duas vezes (1999 e 2010), em 11 capitais estaduais. Os resultados permitem conhecer quais os estratos sociais mais vulneráveis à violência e quais revelam atitudes mais conservadoras e resistentes à universalização do acesso aos direitos. Esses resultados podem orientar campanhas de conscientização de direitos e por maior tolerância com as diferenças sociais.</p>
<p>Uma das conclusões é que, após 27 anos de democracia, o apoio aos direitos civis e políticos não é tão sólido o quanto seria de esperar. Entre as duas pesquisas realizadas em 11 capitais, diminuiu a proporção daqueles que discordam que “os tribunais podem aceitar provas obtidas através de tortura”. Era de 71,2% em 1999 e caiu para 52,5% em 2010. Mas dobrou a proporção daqueles que concordam em parte com a tortura (de 8,8% em 1999 para 18,3% em 2010).</p>
<p><strong>Laboratório</strong><br />
A meta do NEV/USP tem sido enfrentar desafios a partir de dados trabalhados cientificamente e de forma interdisciplinar para auxiliar as políticas públicas no controle democrático da violência. Certos temas dependem de pesquisa de longa duração, além de serem em si campos novos. Na literatura mundial, há poucos estudos que mostram como se constroem nações democráticas. Daí a importância de o NEV/USP tornar-se um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP entre 2000 e 2011. O programa Cepid, uma modalidade de apoio de longa duração, permitiu ao NEV/USP dispor de um laboratório e de um banco de dados nessa área de pesquisa, que hoje é referência para a América Latina.</p>
<p>O interesse que a violência desperta na população não é proporcional aos cuidados com os registros dos casos de crimes, assim como com a manutenção de arquivos de processos ao longo do tempo. Os levantamentos mostram que dados colhidos em delegacias são falhos e, muitas vezes, nem sequer preservados. Há 11 anos, Sergio Adorno se dedica a um estudo que reflete, de certa forma, a origem da impunidade no Brasil. A pesquisa “Inquérito policial e o processo em São Paulo: caso dos homicídios”, financiada pela FAPESP e que está em fase de finalização, traça o fluxo do sistema de Justiça, das delegacias à sentença final. Foram analisados 344 mil boletins policiais, dos quais somente 6% viraram inquérito. Desse universo, cerca de quatro mil eram registros de homicídio, dos quais Adorno fez um recorte para monitorar 600. “Levei dois anos para conseguir resgatar os dados de somente 197 inquéritos. O resto não foi localizado”, relata. Outro agravante é que toda a investigação se faz em cima das provas testemunhais, o que resulta em fragilidade nos processos. A produção de provas é pouco explorada. “Casos semelhantes têm soluções diferentes”, diz Adorno. Cauteloso, prefere não avançar em conjecturas. Mas é impossível não considerar que a inoperância do sistema endosse a descrença da população na Justiça.</p>
<p><strong>Queda de homicídios</strong><br />
A queda nas taxas de homicídios em São Paulo, explica Adorno, representa para o NEV/USP a oportunidade de testar, ao menos em parte, em que medida e com que peso as melhorias sociais e econômicas, bem como mudanças na segurança pública, explicam essa tendência. Uma das pesquisas do NEV/USP buscou identificar a extensão da queda nos homicídios dolosos no estado de São Paulo e os condicionantes dessa diminuição. Um segundo projeto pretende identificar os determinantes relacionados com a queda dos homicídios no município de São Paulo, a partir do ano 2000, utilizando-se de uma vertente quantitativa e outra qualitativa.</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Centro de estudos da violência – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-de-pesquisa/29261/centro-estudos-violencia/" target="_blank">nº 1998/14262-5</a> (2000-2012)</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Programa Centros de Pesquisa (Cepid)</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Coordenador   </strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Paulo Sergio de Moraes Sarmento Pinheiro – USP</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 8.044.453,67</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>No Brasil, a violência foi elevada a uma das quatro principais causas de óbito desde 1989. Tomando as taxas de homicídios como indicadores de violência, a gravidade dessa situação pode ser confirmada: de 1980 e 2010, houve 1.093.710 homicídios. “O perfil e a distribuição da criminalidade violenta no país têm mostrado algumas mudanças, mas sua incidência global não parece ter diminuído”, pondera Adorno. “Têm crescido no estado de São Paulo casos de assaltos e roubos envolvendo mortes.” Informações a respeito de tais crimes em outros estados são escassas, ou de baixa credibilidade. Por outro lado, os dados nacionais sobre as taxas de homicídio, coletados pelo Ministério da Saúde, mostram que, embora no Norte e no Nordeste as taxas de homicídios tenham aumentado, houve queda sustentada em São Paulo nos últimos 10 anos: a taxa de homicídios caiu de 64,2 casos por 100 mil habitantes em 1999 para 9,9 em 2011. A queda das taxas de homicídios nas cidades do estado de São Paulo não pode ser atribuída a uma única combinação de fatores. “Não obstante, identificaram-se correlações entre a queda de homicídios dolosos e mudanças nos aspectos demográficos e socioeconômicos, bem como na melhoria dos mecanismos de gestão e controle, especialmente às ações adotadas pela Secretaria de Segurança Pública na última década.”</p>
<p>Desde os primeiros anos de vida, o Núcleo de Estudos da Violência da USP se empenhou em criar metodologias que produziram relatórios com participação destacada em organismos internacionais. A credibilidade e constância das pesquisas abriram portas, inclusive, à participação destacada no “Relatório sobre a violência contra a criança”, editado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O trabalho foi inicialmente coordenado por uma das figuras que mais projetaram o NEV/USP, o professor Paulo Sérgio Pinheiro, um de seus fundadores. Os dados colhidos são públicos e podem ser acessados por meio do site <a href="http://www.nevusp.org" target="_blank">www.nevusp.org</a>.</p>
<p><em><strong>Artigos científicos</strong></em><br />
1. ADORNO, S. 2006. <a href="http://www.nevusp.org/portugues/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=1036&amp;Itemid=96" target="_blank">A violência brasileira: um retrato sem retoques</a>. <strong>Clio</strong>. v. 14/15, p. 241-62, 2006.<br />
2. CARDIA, N. <a href="http://www.revistafal.com/2005/marzo-2005/" target="_blank">Miedo y violencia en Sao Paulo</a>. <strong>Foreign Affairs en Español</strong>. v. 5, n. 1, p. 121-39, 2005.<br />
3. SALLA, F.A. <a href="http://www.nevusp.org/portugues/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=1012&amp;Itemid=96" target="_blank">As rebeliões nas prisões: novos significados a partir da experiência brasileira</a>. <strong>Sociologias</strong>. v. 16, p. 274-307, 2006.<br />
4. PERES, M.F.T <em>et al</em>. <a href="http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1020-49892008000400007" target="_blank">Homicídios, desenvolvimento socioeconômico e violência policial no município de São Paulo, 2000</a>. <strong>Revista Panamericana de Salud Pública</strong>. v. 23, n 4, p. 268-76, 2008.</p>
<p><em><strong>De nosso arquivo</strong></em><br />
<em><a href="http://revistapesquisa2.fapesp.br/?art=3245&amp;bd=1&amp;pg=1&amp;lg=" target="_blank">Números para mudar o Brasil</a> – </em>Edição Especial Cepids – maio de 2007
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/216-219_violencia.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A violência consentida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-viol%c3%aancia-consentida/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A violência consentida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-viol%c3%aancia-consentida/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A violência consentida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-viol%c3%aancia-consentida/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A violência consentida' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-viol%c3%aancia-consentida/' displayText='share'></span></p>
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		</item>
		<item>
		<title>Uma metrópole em metamorfose ambulante</title>
		<link>http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/uma-metr%c3%b3pole-em-metamorfose-ambulante/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=uma-metr%25c3%25b3pole-em-metamorfose-ambulante</link>
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		<pubDate>Wed, 22 Aug 2012 19:50:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Especial]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Centro de Estudos da Metrópole desvenda múltiplas faces de São Paulo]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de muita reflexão, o milionário americano Nelson Rockefeller concluiu que “o principal problema das pessoas de baixa renda é a pobreza”. Pode-se rir da obviedade da observação, mas, a “pérola” de sabedoria é uma falácia. “A renda é uma dimensão muito relevante para a análise da pobreza e da desigualdade e não é à toa que as comparações internacionais focam esta dimensão. Entretanto, nosso esforço no Centro de Estudos da Metrópole (CEM) tem se orientado a examinar a pobreza e a desigualdade em suas múltiplas facetas, porque a situação de pobreza de um indivíduo é resultado da combinação de diferentes aspectos, além da renda”, explicou a diretora do CEM, a cientista política Marta Arretche, em entrevista concedida em 2010. “Estes são: seu acesso ao mercado formal de trabalho, aos serviços públicos e a vínculos sociais e associativos. A situação de desproteção de um indivíduo é resultado dessas múltiplas dimensões.”</p>
<p>Criado em 2000 e sediado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o CEM, um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP, realiza atividades de pesquisa, transmissão de conhecimento (em especial para órgãos públicos) e difusão de informações para especialistas e o grande público. Estão entre os objetivos do centro analisar as mudanças em curso nas metrópoles e avaliar seus efeitos, usando novas abordagens conceituais e metodológicas; servir como centro de referência para documentação e consolidação de informações e estudos sobre a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) e outras cidades; sustentar e atualizar um Sistema de Informações Geográficas (SIG), que mapeia a metrópole, inclusive por meio de satélites.</p>
<p>“A hipótese central e o foco de nossos esforços analíticos, hoje, é verificar que a reprodução social da pobreza é resultado de uma combinação de processos econômicos e mecanismos sociopolíticos”, afirma Marta. A partir dessa constatação, o CEM priorizou em sua agenda de pesquisas formas de socialização, redes sociais, padrões de segregação residencial e a eficácia e extensão das políticas públicas sobre esse estado de coisas. As pesquisas igualmente revelaram que havia, na literatura especializada nacional, uma ênfase excessiva em aspectos econômicos na análise da dinâmica da metrópole. “Nossas pesquisas revelaram um aparente paradoxo: que um cenário econômico/emprego negativo pode coexistir com melhorias nos indicadores sociais, mesmo nas regiões de favelas”, analisa a diretora.</p>
<p>Entraram em cena então outras variáveis, como redes sociais e espaço urbano, que ajudaram no entendimento dos mecanismos que reúnem processos macro e estruturas com ações micro, ligadas ao indivíduo e ao comportamento familiar, cujo impacto poderia reduzir ou reforçar as desigualdades. Mesmo a religião e o lazer entraram no escopo das pesquisas. “Nossos estudos partem do pressuposto teórico de que o trabalho, os serviços sociais e a sociabilidade são mecanismos decisivos para a superação de atenuação das situações de pobreza. Você pode ter dois indivíduos com a mesma renda nominal, mas, se um deles tem acesso à habitação e saúde subvencionada pelo Estado, e o outro não tem, um é mais pobre e segregado do que o outro. É preciso analisar sempre além da renda”, avalia Marta. “A pobreza até pode estar sendo atenuada, mas por outro lado a desigualdade pode estar sendo reproduzida”, avisa a pesquisadora.</p>
<p>Esse mapeamento e descobertas das pesquisas permitiu o surgimento de um painel mais amplo da dinâmica espacial e social das metrópoles, não apenas trazendo novas luzes para o debate acadêmico, como também contribuindo para a idealização e formalização de políticas públicas. Segundo a diretora do CEM, a instituição abriu mão da ambição de apontar uma grande solução para o problema das metrópoles, pela impossibilidade de realizar a tarefa, e, no lugar, passou a selecionar temas específicos para os quais conseguisse contribuir. Assim, entre os estudos mais importantes do CEM, o destaque é o <em>Mapa da vulnerabilidade social</em>, que utilizou dados do Censo de 2000 e técnicas de geoprocessamento para mapear a pobreza no município de São Paulo. Divulgado em 2004, o mapa cartográfico produziu um mosaico da situação de cada um dos 13 mil setores da cidade estabelecidos pelo IBGE, conseguindo captar situações específicas de vulnerabilidade em grupos de 300 a 400 famílias agregadas em cada setor censitário.</p>
<p>A cada novo estudo, o CEM desmitifica noções antigas que, já há algum tempo, guiam políticas públicas na direção errada. “Há uma série de processos que já não estão ocorrendo em São Paulo há muito tempo e se continua com a mesma impressão e diagnóstico sobre a cidade, datados dos anos 1970, que já não fazem muito sentido”, afirma o sociólogo e pesquisador do CEM Eduar-do Marques, que lançou em livro a pesquisa <em>São Paulo: novos percursos e atores</em> (Editora 34, 2011). Segundo Marques, um dos mitos está relacionado aos processos migratórios que se reduziram muito intensamente nas últimas décadas. “Hoje, poucos assuntos relacionados a São Paulo são fortemente impactados pela questão da imigração”, avisa. A cidade, ao contrário do que se dizia, parou de crescer e de receber migrantes, com mais gente saindo do que entrando, em especial a força de trabalho de menor qualificação, que teve suas chances diminuídas.</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Centro de Estudos da Metropole (CEM) – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-de-pesquisa/29419/centro-estudos-metropole-cem/" target="_blank">n° 1998/14342-9</a> (2009-2012)</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Programa Centros de Pesquisa – Cepid</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Coordenadora</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Marta Teresa da Silva Arretche &#8211; Cebrap</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 9.727.502,00</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Assim, o novo panorama paulista apresentado pelo CEM é de uma cidade que cresce pouco, mas continua se expandindo para as periferias, que se tornaram mais heterogêneas. A boa notícia é que o Estado se faz muito mais presente em todas as áreas da cidade, inclusive nas periferias. Mas há grandes diferenças de qualidade de suas políticas, o que faz com que as desigualdades sociais então se coloquem de forma diferente, mais multifacetadas e menos simples de serem compreendidas. “As diferenças de acesso às políticas públicas têm se reduzido, embora tenham se recolocado diferenças de qualidade de serviços públicos, e o tecido urbano tenha ficado mais heterogêneo”, avalia o pesquisador. É um ciclo complexo: a cidade fechou suas portas para um determinado tipo de trabalhador, que se vê obrigado a morar em municípios próximos ou regiões próximas, expulso da metrópole.</p>
<p>Um exemplo notável dessa nova complexidade surge, por exemplo, na pesquisa realizada por Nadya Guimarães. “Agora se pede diploma de segundo grau ou universitário para qualquer função. Um gari da prefeitura, por exemplo, precisa apresentar diploma de segundo grau, tamanha a distorção. É um efeito perverso dessa elitização da cidade”, disse. “A pergunta que fica é: qual é a recompensa de se ter estudado para acabar fazendo telemarketing e ganhar tão pouco? São Paulo só confirma a ideia enraizada na nossa cultura de que o estudo não leva a nada.” Surge, porém, nessa metrópole segregada uma nova força: as redes de sociabilidade. “A pobreza tem uma dimensão territorial: pessoas pobres podem estar segregadas espacialmente, mas podem estar unidas espacialmente, combatendo exatamente esse efeito da segregação”, observa Marques. Pesquisas revelam que relações com vizinhos, familiares, amigos, colegas etc. importam muito, acima de escolaridade e outros fatores, se o indivíduo está ou não empregado, a qualidade do emprego e a sua renda.</p>
<p>“Pessoas com amigos têm muito mais chances de ter um emprego e, assim, ampliar a renda e, logo, diminuir a desigualdade, por meio de suas relações pessoais, mostrando que essas redes de relações são mais efetivas do que as políticas públicas”, analisa Marta. Para a diretora do CEM, o combate à pobreza não pode prescindir das políticas sociais tradicionais, mas como redes têm muita penetração nas comunidades, sua integração às políticas do Estado pode ajudar a que essas cheguem de forma mais precisa e customizada. A metrópole não é mais apenas “a boca de mil dentes” descrita por Mário de Andrade em <em>Paulicéia desvairada</em>. “Como é a vida de um desempregado numa metrópole agora? Apesar das dificuldades, os filhos dele continuam na escola e ele ainda conta com serviços de saúde. E o mais importante: sem precisar de favores ou benesses de nenhum político”, conta Marta.</p>
<p>Segundo a pesquisadora, as regiões metropolitanas não são mais os piores lugares do Brasil. “Nessa perspectiva, o Brasil parece estar seguindo uma trajetória particular, pois a democracia brasileira tem conseguido produzir redução da desigualdade de renda combinada à redução da desigualdade de acesso a serviços públicos”, pondera a cientista política do CEM Argelina Figueiredo. A desigualdade também pede uma reflexão política, e não apenas econômica. A expectativa da maior parte dos cientistas sociais no início da década de 1990 era de que o Estado brasileiro seria incapaz de atender às demandas da dívida social herdada do regime militar, uma séria ameaça à democracia. “Os governos que se seguiram à ditadura levaram cada vez mais adiante na agenda da redemocratização o resgate da dívida social deixada pela ditadura. Não há dúvida de que a concentração de renda e o acesso limitado das camadas mais baixas da sociedade tiveram origem na configuração de forças políticas e nas políticas públicas priorizadas pelos governos de plantão”, diz Argelina. “Estes homens de São Paulo, iguais e desiguais, parecem-me uns macacos, fracos, baixos e magros”: a visão de Mário, agora, parece desvairada.</p>
<p><strong><em>Artigos científicos</em></strong><br />
COELHO, V. S. <em>et al</em>. <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002010000100007&amp;script=sci_arttext" target="_blank">Mobilização e participação: um jogo de soma zero?</a>. <strong>Revista Novos Estudos Cebrap</strong>. v. 86, p. 121-39, 2010.<br />
GOMES, S. <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69092012000100012&amp;script=sci_arttext" target="_blank">“Vínculos” e “nós” no centro da explicação da pobreza urbana</a>. <strong>Revista Brasileira de Ciência Sociais</strong>. v. 27, n.78, p. 176-9, 2012.<br />
BOTELHO, I. <a href="http://www.centrodametropole.org.br/pdf/espaco_debates.pdf" target="_blank">Os equipamentos culturais na cidade de São Paulo: um desafio para a gestão pública</a>. <strong>Espaço e Debates &#8211; Revista de Estudos regionais e urbanos</strong>. V. 3, n. 43, 2004.<br />
ALMEIDA, R. R. M. e D´ANDREA, T. <a href="http://novosestudos.uol.com.br/indice/indice.asp?idEdicao=102" target="_blank">Pobreza e Redes Sociais em uma Favela Paulistana</a>. <strong>Novos Estudos</strong>. v. 68, p. 94-106, 2004.</p>
<p><strong><em>De nosso arquivo</em></strong><br />
<a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=3399" target="_blank"><em>Terra em transe</em></a> – Edição nº 193 – março de 2012 <em><br />
<a href="http://revistapesquisa2.fapesp.br/?art=4076&amp;bd=1&amp;pg=1&amp;lg=" target="_blank">Desigualdade sem igual</a></em> – Edição nº 169 – março de 2010 <em><br />
<a href="http://revistapesquisa2.fapesp.br/?art=3246&amp;bd=1&amp;pg=1&amp;lg=" target="_blank">Dentro da boca de mil dentes</a> </em>– Edição Especial Cepids – maio de 2007
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/212-215_metropole.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Uma metrópole em metamorfose ambulante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/uma-metr%c3%b3pole-em-metamorfose-ambulante/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Uma metrópole em metamorfose ambulante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/uma-metr%c3%b3pole-em-metamorfose-ambulante/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Uma metrópole em metamorfose ambulante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/uma-metr%c3%b3pole-em-metamorfose-ambulante/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Uma metrópole em metamorfose ambulante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/uma-metr%c3%b3pole-em-metamorfose-ambulante/' displayText='share'></span></p>
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		</item>
		<item>
		<title>A reconstrução do passado</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Aug 2012 19:22:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Izique</dc:creator>
				<category><![CDATA[Especial]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Memórias lançam luz sobre o fim do colonato nas usinas de açúcar]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1966, os colonos da Usina Amália, uma das maiores e mais tradicionais produtoras de cana-de-açúcar no interior do estado de São Paulo, entraram em greve por melhores salários e condições dignas de trabalho. Em plena ditadura militar, o movimento resultou na expulsão de cerca de quatro mil famílias da fazenda. O episódio teria caído no esquecimento não tivesse ficado indelevelmente registrado na memória dos colonos que, trinta anos depois, contaram à pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva histórias de violência, traição e medo. “Eles caíram numa armadilha dos proprietários da fazenda e do sindicato”, ela afirma.</p>
<p>As lembranças dos trabalhadores – e 208 processos judiciais contra a Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, proprietária da usina – ajudaram Maria Aparecida a reconstituir um perío-do de profunda transformação das relações de trabalho nas lavouras de cana, quando o colonato deu lugar ao trabalho temporário, constituindo personagens como o trabalhador volante e os bóias-frias. Os relatos permitiram também que ela conhecesse detalhes das atividades diárias das famílias: a cana era cortada pelos adultos e amontoada em feixes pelas crianças, antes de ser transportada para a usina. Emoldurando o dia a dia, casamentos, batizados, folia de reis e noites embaladas pela valsa da Siriema: “<em>Teus olhos, quantas cores/De uma Ave Maria/ Que um rosário de amargura/ eu rezo todo o dia</em>”.</p>
<p>A pesquisa, iniciada em 1997, contou com o apoio da FAPESP. O projeto – <em>Mulheres da Cana: Memórias</em> – pretendia reconstituir histórias relacionadas ao trabalho feminino na lavoura. A menção recorrente a uma greve na Usina Amália, no entanto, obrigou-a a ampliar seu escopo de investigação. “Na bibliografia sobre a história da proletarização rural em São Paulo, esta greve não é mencionada”, justifica. Utilizando o “sistema de redes”, como ela explica, pôde identificar e contatar mais de 70 ex-colonos espalhados pela região – Leme, Ribeirão Preto, Barrinha, Santa Rosa do Viterbo, São Simão. “Foi necessário recorrer à história oral para reconstruir os acontecimentos.”</p>
<p>Com 11 mil alqueires, a Usina Amália era o braço agroindustrial das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Além das lavouras, sediava unidades industriais para o aproveitamento da cana e do bagaço, do eucalipto e de frutas e legumes produzidos no local. Ali se produziam açúcar, álcool, papelão, ácido cítrico, sabonetes e conservas. No início dos anos 1950, a Usina Amália antecipava-se ao conceito de biorrefinaria no aproveitamento da biomassa. Empregava milhares de pessoas – de trabalhadores rurais a operários – todos eles vinculados ao Sindicato da Indústria da Alimentação, de acordo com a legislação da época. No caso dos colonos, o titular do contrato de trabalho era chefe da família, mas o cálculo de produtividade – pela qual ele era remunerado – envolvia o trabalho não remunerado da mulher e dos filhos.</p>
<p>Os funcionários mais graduados tinham acesso à escola<em></em><strong><em>, </em></strong>ao hospital, a cinema, à igreja e até a um supermercado, todos instalados na área da fazenda. Os trabalhadores rurais, não. Distribuíam-se entre mais de 20 colônias – cada uma delas com 100 a 150 famílias – distantes da sede, no meio do canavial. Tinham direito a cultivar um pequeno pomar e horta, mas os produtos necessários à subsistência eram adquiridos no armazém. Esses gastos eram abatidos do salário do chefe da família e, no final do mês, resultavam num saldo muitas vezes negativo.</p>
<p><strong>A greve</strong><br />
A vida na usina e a greve de 1966 foram descritas na reportagem de Marcos Pivetta, <em>Casa-grande dos Matarazzo na Califórnia Paulista</em>, publicada na edição nº 61 da revista <em>Pesquisa FAPESP</em>, em janeiro de 2001.</p>
<p>A relação da empresa com os colonos tensionou com a implantação do Estatuto do Trabalhador Rural, em 1963, que igualou os direitos do homem do campo aos do trabalhador urbano, tornando ilegal o sistema de titularidade, escreveu Pivetta. Os cortadores de cana passaram a ter direito a férias, 13º salário, carteira assinada – para cada trabalhador e não apenas para os titulares do contrato, como ele sublinhou –, atendimento médico pelo INSS e aposentadoria. Essa tensão foi arbitrada pelas leis de Segurança Nacional e de Greve, no primeiro ano da ditadura militar: instilados pelo sindicato, na avaliação de Maria Moraes, os trabalhadores rurais da Usina Amália foram à greve pelos direitos garantidos pelo novo estatuto e foram expulsos da fazenda por terem deflagrado um movimento considerado ilegal. “Assim que um cortador era despedido e convencido a deixar a fazenda, sua antiga casa era posta abaixo pelos patrões”, contou Pivetta. Junto com a casa do colono, arruinava-se um sistema de relação de trabalho.</p>
<p>Na memória de alguns desses ex-colonos, a greve, que durou seis dias, teria se estendido por cinco anos, período em que tramitaram os processos judiciais e recursos da empresa, desde o Fórum Municipal de Santa Rosa do Viterbo até o Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília. “Em todos os pareceres dos juízes, há menções relativas à dispensa discriminatória dos trabalhadores, à legalidade da greve, ao caráter pacífico dos acontecimentos, ao direito dos trabalhadores, ao caráter pacífico da convocação da assembléia pelo sindicato, aos motivos de reivindicação dos valores não pagos pela empresa por ocasião do dissídio coletivo aprovado pelo Egrégio Tribunal do Trabalho e à obediência à determinação da Justiça do Trabalho ao decretar a cessação do movimento”, escreveu Maria Moraes, no artigo <em>Greve na Fazenda</em>, publicado na coletânea <em>História Social do Campesinato no Brasil</em>.</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Mulheres da cana: memórias – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-regulares/13406/mulheres-cana-memorias/" target="_blank">nº 1996/12858-2</a>  (1997-1999)</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Auxílio a projetos de pesquisa</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Coordenadora</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Maria Aparecida de Moraes Silva</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 16.608,13</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Nesse ínterim, “muitos trabalhadores fizeram acordo com a empresa, mediante o pagamento de quantias irrisórias, depois de muitos anos de espera pela solução judicial”, ela afirma. Respaldados pela Justiça, alguns permaneceram na fazenda, sem qualquer vínculo empregatício ou trabalho para lhes garantir o sustento, apenas aguardando o desfecho desde sempre inevitável.</p>
<p>Nas memórias dos ex-colonos não há registro de qualquer triunfo da Justiça. “Eles retiram da experiência vivida relatos permeados de dramaticidade, emoções, simbolismo, fruto não de uma mera descrição do passado, mas de sua recriação e revificação”, afirma Maria Moraes.</p>
<p>As mulheres, sujeitos privilegiados da pesquisa, guardam na lembrança a dificuldade em conseguir trabalho, a fome, a sopa de mandioca nos momentos de extrema dificuldade. “Ainda que não participando diretamente da greve, elas, como filhas ou esposas, sofreram as consequências”, analisa.</p>
<p>Trinta anos depois, Maria Moraes encontrou muitas delas na condição de chefes de família. Para desempenhar esse novo papel, tiveram que vencer desafios ainda maiores do que em seu passado de colonas, observou Pivetta na matéria publicada pela revista <em>Pesquisa FAPESP</em> em 2000. “Concorrendo com homens mais novos e máquinas que vão tomando conta do corte da cana, as mulheres bóias-frias enfrentavam enormes dificuldades em encontrar emprego no meio rural.” Algumas catavam tocos de cana rejeitados por colheitadeiras ou “mexiam” com agrotóxico em viveiros de mudas da planta; outras eram empregadas domésticas.</p>
<p>Na periferia das cidades, elas guardavam também lembranças das relações familiares, do compadrio e da vizinhança. “A sociabilidade ancorada nas relações primárias, caracterizada pelo reconhecimento interpessoal e autorreconhecimento, cedem lugar à sociabilidade individualizada e estranhada”, diz Maria Moraes. As tradições e cultura “do mundo de antes” não cabiam mais nos limites do novo espaço. “Foi necessária a construção de lugares para protegê-las, para impedir sua morte.”</p>
<p>Ali, nesses “lugares”, como ela diz, estão guardados fragmentos de histórias individuais e coletivas. “À medida que as lembranças vão brotando dos subterrâneos da memória e se dirigindo à superfície, aquilo que era até então nebuloso vai aos poucos assumindo formas nítidas, com conteúdos multicoloridos”, escreveu a pesquisadora no artigo<em> A memória na esteira do tempo</em>, publicado em 2001. “Nossa vizinha fazia umas broinhas de fubá: quebrava os ovos ali, bate bem, põe gordura ali, põe canela ali, uma meia dúzia de ovos e bate bem&#8230; com a mão mesmo. Depois ainda engrossava com fubá de milho. Ficavam macias e gostosas. Ela fazia e mandava para a mamãe uma biscoiteira cheia daquelas broinhas&#8230;”, contou-lhe dona Onícia, aos 93 anos, abrigada num passado em que lealdade e retribuição eram manifestações simbólicas de um grupo social.</p>
<p><strong>Bricolagem</strong><br />
Mas a memória trama, reconstrói e reinventa lembranças fragmentadas, fazendo das culturas uma espécie de “canteiro de obras”, nas palavras do historiador Peter Burke. Algumas das ex-colonas da Amália ainda integravam, nos anos 1990, grupos de Folia de Reis, uma antiga festa rural. “O sentido da festa ainda era o mesmo: o pagamento de promessas feitas aos santos por uma graça alcançada”, explica Maria Moraes. Mas as andanças dos foliões, os cânticos e o encontro das bandeiras dos Santos Reis tinham novos significados surgidos da simbiose entre rememorar e reinventar personagens renascidos pela trama narrativa. Ela própria acompanhou uma festa de Reis na cidade de Barrinha: a bandeira dos Santos Reis, “aquela que saiu pelo mundo”, encontrava-se com a de Nossa Senhora Aparecida, que não tinha foliões, simbolizando outro momento bíblico: o encontro de Maria – encarnada em Nossa Senhora Aparecida – e Jesus durante a via-crúcis. “<em>Na demora dos três Reis/Herodes se indignou/chamou seus secretários e seu decreto, decretou/ Que seguisse para Belém/ e que lá fosse matando/e que matasse menino homem/ até a idade de dois anos</em>.”</p>
<p><em><strong>Artigo científico</strong></em><br />
SILVA, M. A. M. <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-88392001000300013&amp;script=sci_arttext" target="_blank">A cultura na esteira do tempo</a>. <strong>São Paulo em Perspectiva</strong>. v. 15, n. 3, p. 102-12, 2001.</p>
<p><em><strong>De nosso arquivo</strong></em><br />
<a href="http://revistapesquisa2.fapesp.br/?art=1192&amp;bd=1&amp;pg=1&amp;lg=" target="_blank"><em>Casa-Grande e Senzala dos Matarazzo na Califórnia Paulista</em></a> – Edição nº 61 – janeiro e fevereiro de 2001
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/208-211_mulheres.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A reconstrução do passado' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/22/a-reconstru%c3%a7%c3%a3o-do-passado/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Cebrap celebra prêmio de Fernando Henrique Cardoso</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Aug 2012 16:49:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabrício Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Cebrap celebra prêmio de Fernando Henrique Cardoso]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_15966" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/FHC-3.jpg" rel="lightbox[15965]" title="Fernando Henrique recebe prêmio"><img class="size-medium wp-image-15966" title="Fernando Henrique recebe prêmio" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/FHC-3-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Fernando Henrique, com Elza Berquó (esq.) e Paula Montero, recebe fac símile da ata de fundação do Cebrap</p></div>
<p>Pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) prestaram uma homenagem ao sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, na noite de quinta-feira (16),  e comemoraram o prêmio que ele recebeu da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em meados de julho, o Kluge Prize, uma das mais importantes honrarias em campos das ciências humanas e sociais não abrangidos pelo prêmio Nobel. Um dos fundadores do Cebrap, Fernando Henrique recebeu das mãos da demógrafa Elza Berquó e da antropóloga Paula Montero, professora da Universidade de São Paulo (USP) e atual presidente do centro, um fac símile da ata de fundação da instituição. “Fernando Henrique: há 43 anos, 3 meses, 13 dias e 4 horas,  nós nos encontrávamos no apartamento do professor Cândido Procópio, na Rua Espírito Santo, 122, e era criado o Cebrap“, disse Elza Berquó. “Esse é o registro de um pedaço da nossa história. Parabéns”. A homenagem aconteceu no Teatro do Sesc Consolação, no centro de São Paulo.</p>
<p>Fernando Henrique foi um dos fundadores do Cebrap, ao lado de Elza Berquó, José Arthur Giannotti, Juarez Brandão Lopes, Celso Lafer e Paul Singer, entre outros,  em 1969. A criação do centro de pesquisas foi o meio encontrado por um grupo de professores e acadêmicos, alguns deles expulsos da universidade por força do Ato Institucional nº 5, para não se submeter às severas restrições impostas pelo regime militar de 1964 à produção intelectual independente.</p>
<p>A homenagem foi aberta por uma apresentação de Paula Montero, que relembrou a trajetória do Cebrap. Ela abordou a contribuição decisiva dos fundadores na criação de uma instituição capaz de discutir soluções para as questões agudas da sociedade da época, como a redemocratização ou o modelo econômico da ditadura militar, e também o esforço dos pesquisadores que os sucederam nas décadas de 1980, 1990 e 2000, para diversificar as áreas de interesse da instituição, envolvendo temas como a reprodução humana e os estudos da metrópole, e se mantendo fiel ao espírito do grupo original.  “O Prêmio Kluge vem coroar um trabalho que é parte de nossa trajetória. Estamos orgulhosos da honraria recebida”, afirmou Paula Montero.</p>
<p>O cientista político Fernando Limongi, professor da USP e pesquisador do Cebrap, relembrou a trajetória intelectual e política de Fernando Henrique Cardoso. “Sua obra se define pela busca da quebra de dogmas. Ele chacoalhou paradigmas. Não há exemplo maior de grandeza de um intelectual”, afirmou, referindo-se ao livro <em>Dependência e desenvolvimento na América Latina</em>, que Fernando Henrique escreveu com Enzo Faletto, em 1969. “Explicar a importância dessa contribuição é difícil, pois hoje pensamos todos como dependentistas. O fato é que ela relegou ao esquecimento as teses que a rejeitaram. Para conhecer essas teses, hoje é preciso consultar livros empoeirados”, diz. Em linhas gerais, a teoria da dependência desafiou a ideia de que o desenvolvimento dos países da periferia do capitalismo teria de repetir a trajetória dos países desenvolvidos. Os dois autores destacaram o papel de fatores internos na compreensão dos processos estruturais de dependência. Procuraram mostrar como diferentes formas de articulação entre economias nacionais e sistema internacional indicavam formas distintas de integração com os polos hegemônicos do capitalismo. “Fernando Henrique questionou um dogma, que era a suposição de que a história dos países em desenvolvimento seria linear e mostrou que não havia uma rota única para o desenvolvimento, ainda que as opções dos países fossem limitadas pelos caminhos que adotavam”, disse Limongi.</p>
<p>Fernando Henrique Cardoso agradeceu a homenagem e, citando o discurso de Limongi, destacou em tom de brincadeira “o esforço enorme que ele fez para encontrar motivos para me elogiar”. Afirmou que não se lembrava da existência da ata de fundação do Cebrap, mas disse recordar-se bastante daquele momento. “Em especial da solidariedade de pessoas que não tinham sido postas para fora da universidade como eu, mas ajudaram a fundar o Cebrap”, disse, referindo-se por exemplo ao primeiro presidente do centro, o sociólogo Cândido Procópio Ferreira de Camargo. “As suspeitas eram enormes e o nosso desafio era alcançar legimitidade”. O ex-presidente mencionou a ajuda, nos primeiros tempos do centro, de personalidades como o empresário Severo Gomes e Paulo Egydio Martins, governador de São Paulo entre 1975 e 1979. Embora estivessem no campo político oposto, disse Fernando Henrique, aceitaram, por conta de sua formação liberal, colaborar para a manutenção da instituição. “Me lembro do Dilson Funaro, que foi secretário estadual da Fazenda, com quem conseguimos, usando nomes de terceiros, fazer contratos de assessoria e de organização de pesquisa que beneficiaram o Cebrap”, disse.</p>
<p>Também recordou as “brigas de morte” que travava com professores e intelectuais nos debates no Cebrap, ao redor do famoso “mesão” do centro. “Quem pensava contra o governo militar ia lá, como Maria da Conceição Tavares, Luciano Martins, José Serra. Nós realmente acreditávamos, tínhamos pureza d’alma”. Por fim, lembrou sua passagem pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, onde principalmente físicos e matemáticos de grande potencial, na casa dos 30 anos de idade, são desafiados a produzir contribuições originais. “Eu pensava se nas ciências humanas não poderia ser diferente, se a maturidade não podia tornar melhores os pesquisadores. Mas hoje considero que um pouco de ignorância, natural da juventude, leva à ousadia. Quando você sabe muito, encontra várias desculpas para não ousar. Quando criamos o Cebrap, o momento era difícil, mas nós ousamos. Fico agradecido por se lembrarem de mim”.
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Cebrap celebra prêmio de Fernando Henrique Cardoso' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/18/cebrap-celebra-pr%c3%aamio-de-fernando-henrique-cardoso/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Cebrap celebra prêmio de Fernando Henrique Cardoso' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/18/cebrap-celebra-pr%c3%aamio-de-fernando-henrique-cardoso/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Cebrap celebra prêmio de Fernando Henrique Cardoso' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/18/cebrap-celebra-pr%c3%aamio-de-fernando-henrique-cardoso/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Cebrap celebra prêmio de Fernando Henrique Cardoso' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/18/cebrap-celebra-pr%c3%aamio-de-fernando-henrique-cardoso/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Referências intelectuais</title>
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		<comments>http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/referencias-intelectuais/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 10 Aug 2012 20:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabrício Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Arquitetura]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Pol. Públicas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Prêmios internacionais valorizam a comunidade científica brasileira]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_15510" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-15510" title="036-039_FHC_198-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/036-039_FHC_198-1.jpg" alt="" width="290" height="217" /><p class="wp-caption-text">Fernando Henrique é cumprimentado pelo historiador James Billington ao receber o Prêmio John Kluge em Washington.</p></div>
<p>O sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, 81 anos, recebeu no dia 10 de julho o Prêmio John W. Kluge, concedido pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. O prêmio, no valor de US$ 1 milhão, foi criado para reconhecer a obra de estudiosos em áreas de ciências humanas e sociais não incluídas nas categorias do Prêmio Nobel, como história, filosofia, ciência política, psicologia, antropologia e filosofia. “Estou profundamente comovido por este título inesperado. Sou o primeiro brasileiro – e o primeiro latino-americano – a receber o Prêmio Kluge. É um verdadeiro privilégio”, disse Fernando Henrique, em seu discurso de agradecimento. “Tempos atrás, seria difícil para mim imaginar um prêmio como este. Passei boa parte da minha carreira acadêmica estudando as relações entre os países ricos  e os países da periferia – nações como o Brasil, economicamente e geograficamente distantes. Esta divisão entre rico e pobre parecia imutável”, afirmou.</p>
<p>Professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Henrique governou o Brasil entre 1995 e 2002. Foi senador da República (1983 a 1992), ministro das Relações Exteriores (1992) e ministro da Fazenda (1993 e 1994). O historiador James H. Billington, que comanda a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos desde 1987, destacou o peso da obra do sociólogo brasileiro. “O presidente Cardoso tem sido aquele tipo de pesquisador moderno que combina conhecimento profundo com respeito às evidências empíricas”, afirmou. “Sua aspiração fundamental é buscar a verdade sobre a sociedade, mantendo-se aberto a revisitar suas conclusões quando novas evidências se acumulam.” O prêmio é administrado pelo Centro Kluge da Biblioteca do Congresso, criado graças a uma doação do empresário John Kluge (1914-2010) com o objetivo de “promover um relacionamento enriquecedor entre o mundo das ideias e o mundo da ação, entre estudiosos e líderes políticos”.</p>
<p>Segundo comunicado da Biblioteca do Congresso, a escolha de Fernando Henrique foi baseada em sua contribuição como sociólogo e intelec-tual, que serviu de alicerce para sua liderança política. “Sua análise acadêmica das estruturas sociais do governo, da economia e das relações raciais no Brasil estabeleceu a base intelectual para sua liderança como presidente na transformação do Brasil de uma ditadura militar com alta inflação em uma democracia vibrante e mais inclusiva com forte crescimento econômico”, afirmou o comunicado. A instituição ressaltou a “enorme energia intelectual” do ex-presidente do Brasil, autor ou coautor de mais de 23 livros acadêmicos e de 116 artigos científicos. “Ele se tornou internacionalmente conhecido pela análise inovadora desenvolvida com o chileno Enzo Faletto no debate das melhores alternativas para o desenvolvimento”, justificou a biblioteca. O trabalho em parceria com Faletto está no livro <em>Dependência e desenvolvimento na América Latina</em>, de 1969.</p>
<div id="attachment_15511" class="wp-caption alignleft" style="width: 271px"><img class="wp-image-15511" title="036-039_FHC_198-4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/036-039_FHC_198-4.jpg" alt="" width="261" height="380" /><p class="wp-caption-text">O físico José Goldemberg foi laureado com o Prêmio Planeta Azul, considerado o Nobel do campo do meio ambiente</p></div>
<p><strong>&#8220;Uma heresia na época&#8221;</strong><br />
Os dois autores destacaram o papel de fatores internos na compreensão dos processos estruturais de dependência. Procuraram mostrar como diferentes formas de articulação entre economias nacionais e sistema internacional indicavam formas distintas de integração com os polos hegemônicos do capitalismo. “Trabalhando com meu colega Enzo Faletto, escrevemos um livro que descrevia um mundo complexo e dinâmico”, disse Fernando Henrique. “Partindo da análise econômica do economista argentino Raúl Prebisch e de outros pensadores da Cepal [Comissão Econômica para a América Latina e Caribe], percebemos que a periferia estava longe de ser homogênea e estática. Nós sublinhamos a formação histórica das classes sociais, do Estado, bem como as relações diferentes com o mercado mundial.” Tais diferenças, disse o ex-presidente, pavimentaram o caminho para diferentes formas de desenvolvimento econômico e social. “Isso queria dizer que os países pobres não são condenados ao atraso permanente, mas desafiados a encontrar os caminhos adequados para superar as barreiras estruturais. Isso parece evidente hoje, mas foi considerado uma heresia naquela época. Fomos um dos primeiros a falar sobre a internacionalização dos mercados internos”, afirmou em seu discurso.</p>
<p>Concedido desde 2003, o prêmio já distinguiu, entre outros, o historiador norte-americano Jaroslav Pelikan (1923-2006), o filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005) e o filósofo polonês Leskek Kolakowski (1927-2009). No passado recente, outros nomes da academia e da pesquisa do Brasil foram reconhecidos por prêmios internacionais. Um exemplo é o físico José Goldemberg, laureado em 2008 pela Asahi Glass Foundation, do Japão, com o Prêmio Planeta Azul, com direito a 50 milhões de ienes (o equivalente a R$ 800 mil), por “ter dado grandes contribuições na formulação e implementação de diversas políticas associadas a melhoras no uso e na conservação de energia”, com destaque para um conceito formulado por ele segundo o qual, para se desenvolver, países pobres não precisam repetir paradigmas tecnológicos trilhados no passado pelos ricos.</p>
<p>Criado em 1992 e apontado como um equivalente ao Nobel na área ambiental, o Prêmio Planeta Azul já reconheceu a contribuição de pesquisadores como o britânico James Lovelock, criador da hipótese de Gaia, que vê a Terra como um grande organismo vivo. Na sua última edição, anunciada na Conferência Rio+20, teve como um dos ganhadores Thomas Lovejoy, o biólogo que introduziu o termo biodiversidade na comunidade científica.</p>
<p>Em 2006, o arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha, 82 anos, tornou-se o segundo brasileiro a ganhar o Prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura mundial. Oscar Niemeyer foi premiado em 1988. “Seus materiais de concreto, que são sua assinatura, e seus métodos de construção inteligentes e notavelmente diretos criam prédios poderosos e expressivos reconhecidos internacionalmente”, informou o júri do Pritzker. A arquitetura de Paulo Mendes da Rocha é um exemplo do pensamento que caracteriza a escola paulista da arquitetura brasileira, vertente encabeçada por João Batista Vilanova Artigas, e difundida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, da qual Mendes da Rocha tornou-se professor. A escola paulista preocupava-se essencialmente com a promoção de uma arquitetura “crua, limpa, clara e socialmente responsável”.</p>
<div id="attachment_15512" class="wp-caption alignright" style="width: 271px"><img class="wp-image-15512" title="036-039_FHC_198-5" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/036-039_FHC_198-5.jpg" alt="" width="261" height="380" /><p class="wp-caption-text">O arquiteto Paulo Mendes da Rocha recebeu em 2006 o Prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura</p></div>
<p>Na opinião do sociólogo Simon Schwartzman, estudioso da comunidade científica brasileira e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), o reconhecimento internacional de nomes como Fernando Henrique, Goldemberg e Mendes da Rocha tem grande importância para a ciência brasileira. “Além do prestígio e do orgulho que estes prêmios trazem, ajudam a formar a imagem de que temos no Brasil pessoas competentes que atuaram ou atuam em instituições de alto nível, capazes por isso de participar de igual para igual em redes de intercâmbio de conhecimentos, receber estudantes e especialistas internacionais”, afirma o professor, que ressalta a origem dos três pesquisadores. “Eles foram professores da Universidade de São Paulo, que é considerada a melhor universidade da América Latina, e uma das poucas da região a aparecer nos <em>rankings</em> internacionais de excelência acadêmica”, diz. “Mas nos falta, ainda, um Nobel”, completa.</p>
<p><strong>Orgulho nacional</strong><strong></strong><br />
Há vários exemplos de laureados com prêmios científicos e acadêmicos que inspiraram as gerações seguintes, observa o historiador da ciência Shozo Motoyama, professor da USP. Um deles foi o primeiro Nobel de Física concedido a um japonês, o físico teórico Hideki Yukawa, em 1949. “O prêmio devolveu o orgulho nacional ao Japão arrasado pela guerra e incentivou os jovens nipônicos a se dedicarem à carreira de cientista, com excelentes resultados”, diz Motoyama. Um segundo exemplo é o do dinamarquês Niels Bohr, Nobel de Física em 1922. “O prêmio encheu de orgulho a pequena Dinamarca, que financiou o Instituto de Física de Copenhague, onde não só os dinamarqueses, mas também os jovens físicos talentosos de todo o mundo, puderam desenvolver as suas pesquisas. Um dos resultados da atuação desse instituto foi a premiação de outro dinamarquês pelo Nobel: Aage Bohr, filho do Niels, em 1975”, afirma. “Acho importante essas premiações do ponto de vista da sociedade brasileira, uma nação sem tradição científica. Num mundo globalizado em rede, a procura por identidades, seja individual, nacional, comunitária, religiosa ou outras, passa pela criação de referências, leia-se mitos, que alavanquem a sua cultura”, observa Motoyama.</p>
<p>José Goldemberg afirma que há pesquisadores brasileiros que tiveram  credenciais para ganhar um Nobel, como Carlos Chagas (1878-1934), descobridor do protozoário causador da doença que seria conhecida como mal de Chagas, e Maurício da Rocha e Silva (1910-1983), que descobriu a bradicinina usada contra hipertensão. “Há uma injustiça do Nobel em relação à contribuição dos países periféricos”, diz Goldemberg. “Jorge Amado foi um escritor mais importante do que muitos vencedores do Nobel de Literatura.” Goldemberg lembra que o Nobel foi criado nos primeiros anos do século XX, baseado numa estrutura disciplinar da época, e reconhece contribuições em física, química e medicina ou fisiologia. “Mesmo os prêmios da Paz e de Economia não estavam previstos no testamento de Alfred Nobel, que morreu em 1896, e foram criados posteriormente”, diz.</p>
<p>O Prêmio Planeta Azul que Goldemberg recebeu é apontado como uma espécie de Nobel da ecologia, área do conhecimento que estava longe de ser uma preocupação da ciência em 1901. “É um prêmio importante e me ressenti um pouco da pouca repercussão que teve no Brasil. A premiação do Fernando Henrique, que é totalmente merecida, lavou minha alma, pois vários de nós demos contribuições significativas. No caso do ex-presidente, é um exemplo de intelectual que contribuiu para resolver problemas da sociedade”, afirma.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/10_fhc_198.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Referências intelectuais' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/referencias-intelectuais/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Referências intelectuais' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/referencias-intelectuais/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Referências intelectuais' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/referencias-intelectuais/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Referências intelectuais' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/10/referencias-intelectuais/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Entre a ética e o espírito</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jul 2012 20:00:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Pierucci foi um dos maiores intérpretes da atual religiosidade brasileira]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13751" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-13751" title="086_ObitFlavio_197" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/086_ObitFlavio_197.jpg" alt="" width="290" height="292" /><p class="wp-caption-text">Pierucci, em 2004: análise dos movimentos pentecostal e católico</p></div>
<p>Ele, que entendia como poucos o “desencantamento do mundo” weberiano, uma de suas especialidades, sem querer acabou incrementando com sua morte, em 8 de junho, aos 67 anos, esse desencanto. O sociólogo Flávio Pierucci atuou no campo da sociologia da religião a partir do referencial de Max Weber e, recentemente, discutia o fenômeno da religiosidade brasileira a partir dos dados dos vários censos demográficos. Interessava-se em particular pelo crescimento do pentecostalismo em suas várias vertentes, pela predominância da Igreja Católica, a despeito da queda percentual dos fiéis, e lamentava a diminuição dos adeptos das religiões africanas como umbanda e candomblé como fruto dessa expansão neopentecostal.</p>
<p>Especializou-se em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (1970), graduou-se em filosofia (1973) e obteve os títulos de mestre em ciências sociais, em 1977, com a dissertação “Igreja Católica e reprodução humana no Brasil”, defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); doutor em sociologia, em 1985, com “Democracia, igreja e voto: o envolvimento do clero católico nas eleições de 1982”; e livre-docente, em 2001, com “Desencantamento do mundo: os passos do conceito em Max Weber”, este último pela Universidade de São Paulo, onde foi professor titular e chefe do departamento de sociologia até o seu falecimento. Entre 1971 e 1987 foi pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).</p>
<p>Entre 1978 e 1985, foi professor do departamento de sociologia da PUC-SP. Entre 1992 e 1996, foi secretário executivo da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e, de 2001 a 2012, foi secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).</p>
<p>Entre as dezenas de trabalhos publicados, destacam-se os livros <em>A realidade social das religiões no Brasil </em>e<em> Igreja: contradições e acomodação</em>. Um de seus trabalhos analisava a relação entre o crescimento das igrejas neopentecostais e seu envolvimento com a política. Foi um dos estudos pioneiros nesse tema.</p>
<p>Para Pierucci, o Brasil assiste a uma oferta enorme de religiões, assim, afirmar que religião hoje é um negócio não seria um erro. E para aboca-nharem mais fiéis, ou clientes, segundo Pierucci, as igrejas usam estratégias de <em>marketing</em> como as empresas. As pessoas não procuram mais a salvação depois da morte, seus desejos são imediatos. É isso que as novas religiões procuram oferecer. As que não oferecem, perdem clientes.</p>
<p>“As pessoas estão procurando um novo tipo de religião, que são as igrejas pentecostais, que na verdade prometem para você não a lealdade a seu passado religioso, mas a ruptura com seu passado religioso. É uma religião que cola muito na cultura capitalista”, afirmava. “A religião faz hoje muito <em>marketing</em> de si mesma. Ela diz: olha, é preciso religião para ser feliz, para ter saúde, mental e física. Alguns precisam e outros não. Uns vivem muito bem sem religião”, avisava.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/Pesquisa_197-27.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Entre a ética e o espírito' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/entre-a-etica-e-o-espirito/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Entre a ética e o espírito' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/entre-a-etica-e-o-espirito/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Entre a ética e o espírito' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/entre-a-etica-e-o-espirito/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Entre a ética e o espírito' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/entre-a-etica-e-o-espirito/' displayText='share'></span></p>
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		<title>FHC recebe Prêmio John W. Kluge</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jul 2012 16:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabrício Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[FHC recebe prêmio da Biblioteca do Congresso dos EUA]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13437" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/fhc.jpg" rel="lightbox[13436]" title="Fernando Henrique Cardoso"><img class="wp-image-13437" title="Fernando Henrique Cardoso" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/fhc-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">Fernando Henrique Cardoso em 2008, durante entrevista concedida a Pesquisa Fapesp</p></div>
<p>O sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, 81 anos,  recebeu nesta terça-feira (10) o Prêmio John W. Kluge, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. O prêmio, no valor de US$ 1 milhão, foi criado para reconhecer a obra de estudiosos em áreas de ciências humanas e sociais não incluídas nas categorias do Prêmio Nobel, tais como história, filosofia, ciência política, psicologia, antropologia e filosofia. Concedido desde 2003, o prêmio já distinguiu, entre outros, o historiador norte-americano Jaroslav Pelikan (1923-2006), o filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005) e ao filósofo polonês Leskek Kolakowski (1927-2009).  &#8220;Estou profundamente comovido por este título inesperado. Sou o primeiro brasileiro – e o primeiro latino-americano – a receber o Prêmio Kluge. Isto é um verdadeiro privilégio&#8221;, disse Fernando Henrique, em seu discurso de agradecimento. &#8220;Tempos atrás, seria difícil para mim imaginar um prêmio como este. Passei boa parte da minha carreira acadêmica estudando as relações entre os países ricos  e os países da periferia &#8211; nações como o Brasil, economicamente e geograficamente distantes. Esta divisão entre rico e pobre parecia imutável&#8221;, afirmou.</p>
<p>Professor emérito da Universidade de São Paulo, Fernando Henrique governou o Brasil entre 1995 a 2002. Também foi senador da República (1983 a 1992), ministro das Relações Exteriores (1992) e ministro da Fazenda (1993 e 1994). O historiador James H. Billington, que comanda a biblioteca do Congresso dos Estados Unidos desde 1987, destacou o peso da obra de Fernando Henrique. &#8220;O presidente Cardoso tem sido aquele tipo de pesquisador moderno que combina conhecimento profundo com  respeito às evidências empíricas&#8221;, afirmou. &#8220;Sua aspiração fundamental é buscar a verdade sobre a sociedade, mantendo-se aberto a revisitar suas conclusões quando novas evidências se acumulam&#8221;.</p>
<p>Segundo comunicado da Biblioteca do Congresso sobre a escolha de Fernando Henrique, sua  análise acadêmica das estruturas sociais do governo, da economia e das relações raciais no Brasil &#8220;estabeleceram a base intelectual para sua liderança como presidente na transformação do Brasil de uma ditadura militar com alta inflação em uma democracia vibrante e mais inclusiva com forte crescimento econômico”. A instituição também ressaltou a “enorme energia intelectual” do ex-presidente do Brasil, autor ou co-autor de mais de 23 livros acadêmicos e de 116 artigos científicos. “Cardoso tornou-se internacionalmente conhecido pela análise inovadora desenvolvida com o chileno Enzo Faletto no debate das melhores alternativas para o desenvolvimento. Essa estrutura interpretativa abriu o caminho para novas ideias e alternativas e influenciou gerações de acadêmicos na América Latina, nos Estados Unidos e no mundo, antecipando o conceito posterior de ‘globalização’”, diz o comunicado. O trabalho em parceria com Faletto está no livro Dependência e Desenvolvimento na América Latina, de 1969.</p>
<p>Em seu discurso, Fernando Henrique lembrou a vida acadêmica e seu trabalho pioneiro em estudos sobre desigualdade e subdesenvolvimento na Universidade de São Paulo. &#8220;Eu e meu colega Enzo Faletto escrevemos Dependência e Desenvolvimento na América Latina,  que descrevia um mundo mais complexo e dinâmico. Hoje, isso é evidente, mas posso assegurar que era considerado uma heresia naquela época. Éramos um dos primeiros, ao final dos anos 60, a falar sobre a internacionalização dos mercados internos. Este processo foi o que mais tarde tornou-se conhecido como globalização.&#8221;</p>
<p>Abordou o sucesso do Plano Real, que lançou quando era Ministro da Fazenda em 1993, e teve o condão de acabar com a hiperinflação no Brasil. &#8220;O Plano foi conduzido por jovens economistas brilhantes em engenharia financeira. Minha maior contribuição foi na viabilização dos meios para apresentar o plano e assegurar apoio político necessário do Congresso e da Sociedade&#8221;, afirmou. &#8220;Como um sociólogo, eu sabia que em sociedades democráticas, cumplicidade é tão importante quanto competência técnica. Comunicação entre líderes e sociedade é tão crítica, quanto as políticas que estavam sendo implementadas. Eu acredito verdadeiramente que a transparência foi o fator determinante para o nosso sucesso.&#8221;</p>
<p>Também lembrou o trabalho de sua mulher, a antropóloga Ruth Cardoso (1930 -2008), no programa Comunidade Solidária, que rompeu com o habitual assistencialismo dos programas sociais. &#8220;O foco do problema passou meramente de uma satisfação de necessidades para um fortalecimento das pessoas e das comunidades&#8221;, disse. E, por fim, expressou sua confiança em relação ao futuro do Brasil. &#8220;Eu espero que as pessoas olhem para a experiência brasileira e percebam a importância da tolerância e da diversidade&#8221;, disse. &#8220;Tenho confiança que o Brasil, com sua criatividade e imaginação única, pode ser um importante agente na construção da ordem político-econômica, que possibilite não somente o crescimento do PIB, como também a felicidade das nações. Talvez eu tenha realizado minha pequena contribuição em promover esta discussão.&#8221;
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='FHC recebe Prêmio John W. Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/12/fhc-recebe-pr%c3%aamio-john-w-kluge/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='FHC recebe Prêmio John W. Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/12/fhc-recebe-pr%c3%aamio-john-w-kluge/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='FHC recebe Prêmio John W. Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/12/fhc-recebe-pr%c3%aamio-john-w-kluge/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='FHC recebe Prêmio John W. Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/12/fhc-recebe-pr%c3%aamio-john-w-kluge/' displayText='share'></span></p>
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		<title>FHC recebe Prêmio Kluge</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jun 2012 20:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estratégias]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Fernando Henrique Cardoso receberá o Prêmio John W. Kluge]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_10164" class="wp-caption alignright" style="width: 213px"><img class="wp-image-10164" title="012_Estrategias_196-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/012_Estrategias_196-2.jpg" alt="" width="203" height="365" /><p class="wp-caption-text">O ex-presidente: reconhecimento à trajetória acadêmica e política</p></div>
<p>A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos anunciou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso receberá o Prêmio John W. Kluge. A distinção, que inclui o montante de US$ 1 milhão, será entregue em Washington no dia 10 de julho. O Prêmio Kluge distingue acadêmicos das áreas de ciências humanas e sociais. Lançado em 2003, o Kluge não tem periodicidade. Foi entregue pela última vez em 2008. Entre os sete ganhadores anteriores estão os filósofos  Paul Ricoeur e Leszek Kolakowski e os historiadores John Hope Franklin e Yu Ying-shih. “Sua análise acadêmica das estruturas sociais do governo, da economia e das relações raciais no Brasil estabeleceram a base intelectual  para sua liderança como presidente na transformação do Brasil de uma ditadura militar com alta inflação em uma democracia vibrante e mais inclusiva com forte crescimento econômico”, destacou o comunicado da Biblioteca do Congresso. O ex-presidente é autor ou coautor de mais de 23 livros acadêmicos e de 116 artigos científicos. “Cardoso tornou-se conhecido pela análise inovadora desenvolvida com o chileno Enzo Faletto no debate das melhores alternativas para o desenvolvimento”, diz o comunicado, referindo-se ao livro <em>Dependência </em><em> </em><em>e desenvolvimento na América Latina</em>, de 1969.
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='FHC recebe Prêmio Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/fhc-recebe-premio-kluge/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='FHC recebe Prêmio Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/fhc-recebe-premio-kluge/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='FHC recebe Prêmio Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/fhc-recebe-premio-kluge/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='FHC recebe Prêmio Kluge' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/06/14/fhc-recebe-premio-kluge/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Relações delicadas</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 20:39:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabrício Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Contribuição paulista para os estudos de gênero no país]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5468" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="wp-image-5468" title="042-043_50Anos_194" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/042-043_50Anos_194.jpg" alt="" width="290" height="199" /><p class="wp-caption-text">Manifestação contra o machismo e pelos direitos das mulheres em Brasília, em 2011</p></div>
<p>O espaço conquistado pelas mulheres e a consequente teia de relações que elas se habilitaram a estabelecer foram abordados por pesquisadores do estado de São Paulo cujo trabalho recebeu financiamento da FAPESP ao longo dos 50 anos de trajetória da Fundação. Se a preocupação dos estudos feitos nos anos 1960 e 1970 referiu-se principalmente à condição feminina, materializada nos efeitos da violência doméstica e nas assimetrias do mercado de trabalho, o referencial expandiu-se nas décadas seguintes para abarcar as relações de gênero, os vínculos estabelecidos entre homens e mulheres (e também no interior das duas categorias) em camadas diversas da condição humana.</p>
<p>Em 1963, a socióloga Eva Alterman Blay, pioneira em estudos sobre a mulher no Brasil e referência do movimento feminista, recebeu uma bolsa da FAPESP para fazer seu mestrado sobre a condição da mulher no trabalho doméstico, domiciliar e na indústria. Ela havia se graduado e fora convidada para trabalhar como instrutora voluntária, sem remuneração, no departamento de ciências sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. “Eu tinha sido uma boa aluna e os professores me convidaram para trabalhar como professora e pesquisadora. Mas como não havia vaga, o trabalho era sem remuneração”, relembra. Azis Simão e Ruy Coelho, dois de seus professores, sentiam-se desconfortáveis com a situação e sugeriram que ela pedisse uma bolsa para a recém-criada Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Eva apresentou seu projeto, para realizar estudos sobre a mulher trabalhadora, e foi chamada para conversar com o então diretor científico da FAPESP, o geneticista Warwick Kerr.</p>
<p>“Ele me tratou muito bem, e deve ter gostado do projeto, porque a bolsa foi concedida. Mas parecia ter dificuldade em compreender por que eu queria estudar a condição da mulher. Expliquei que faltavam dados sobre a mulher, que a sociedade era dividida entre homens e mulheres, entre adultos e crianças, e que cada categoria desperta o interesse da sociologia. Ele fazia perguntas de forma muito bem-humorada e em nenhum momento me senti constrangida. Mas como ninguém fazia esses estudos naquela época, ele, assim como muita gente, tinha dificuldade de compreender a importância desse tema”, recorda-se Eva Blay, que cita a colega Heleieth Saffioti (1934-2010) como outro exemplo de pesquisadora interessada no tema naquela mesma época. “O livro da Simone de Beauvoir havia circulado no Brasil nos anos 1950, mas não teve a repercussão que hoje se diz”, recorda-se a professora, que sentiu um forte impacto sobre o tema depois de ler uma versão em francês do livro da feminista Betty Friedan (1921-2006), <em>La femme mystifiée</em>. “Me lembro de ler o livro enquanto amamentava meu filho em 1964 e concluir que era aquilo que eu queria estudar”, afirma.</p>
<p>A bolsa de mestrado rendeu uma dissertação sobre o Ginásio Industrial Feminino em São Paulo, apresentada em 1969. Mesmo antes de concluí-la, já orientava na pós-graduação. Nessa época,  ofereceu uma disciplina na pós-graduação da sociologia sobre a questão da mulher. “Ninguém se inscreveu”, diz. Ela recebeu outra bolsa da FAPESP para fazer o doutorado, concluído em 1973, sobre o espaço das mulheres na indústria paulista. “Foi uma dificuldade tremenda obter os dados, porque até aquela época o IBGE não distinguia homens e mulheres nos censos industriais. Só queria saber quem era o chefe da família, deduzindo <em>a priori </em>que era o homem, mesmo que não fosse. O tema era ignorado.” Um dos achados de sua pesquisa foi mostrar que as mulheres com trabalho qualificado na indústria paulista eram claramente subaproveitadas. “O salário era pouco maior do que a metade do dos homens. Mesmo sendo formadas em medicina ou em química, recebiam tarefas subalternas na indústria, como traduzir manuais, ou trabalhar em funções de secretariado”, lembra.</p>
<div id="attachment_5469" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-5469" title="044-045_50Anos_194-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/044-045_50Anos_194-1.jpg" alt="" width="290" height="186" /><p class="wp-caption-text">Ativistas defendem direitos femininos na Constituinte, em 1986</p></div>
<p>O ineditismo de sua pesquisa e o avanço do feminismo nos Estados Unidos e na Europa chamaram atenção para o tema e geraram uma série de convites para palestras. “A princípio, alguns sindicatos reagiram mal aos resultados de minha pesquisa. Recebi uma carta do sindicato dos químicos dizendo que eu estava ferindo a imagem da categoria. Outros reclamavam da crítica ao salário mais baixo das mulheres. Eu dava exemplos: se a mulher ganha 50 e o homem 70, alguém está ficando com os 20 de diferença. Aí eles entendiam e a resistência diminuiu”, diz Eva Blay, que criou, nos anos 1980, o Núcleo de Estudos da Mulher e das Relações Sociais de Gênero (Nemge) da USP e se tornou uma referência do feminismo – inclusive como senadora da República, entre 1992 e 1994, quando assumiu a vaga de Fernando Henrique Cardoso, nomeado ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Logo depois de Eva Blay, outros pesquisadores envolveram-se com a questão da mulher no mercado de trabalho, caso, por exemplo, da socióloga Cristina Bruschini (1943-2012), que em 1977 concluiu mestrado na USP sobre mulheres em profissões de nível superior, com bolsa da FAPESP, e aprofundaria o tema em diversos artigos e livros, e ao longo de sua carreira de pesquisadora da Fundação Carlos Chagas.</p>
<p>Se os estudos brasileiros sobre a condição feminina sofreram influência da produção acadêmica norte-americana e europeia, uma de suas vertentes, a pesquisa sobre a violência contra a mulher, desenvolveu-se de forma particular no Brasil – impulsionada por uma realidade trágica. Um dos marcos foi o livro <em>Morte em família</em> (Grall, 1983), da antropóloga Mariza Corrêa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sobre homicídios e tentativas de homicídios cometidos em Campinas entre 1952 e 1972 e as representações jurídicas dos papéis sexuais: a Justiça avaliava mais o papel do homem e da mulher do que o crime em si. “No fundo, o que se julgava era se a vítima era boa esposa ou não ou se o marido assassino era um bom provedor do lar”, diz a antropóloga Guita Grin Debert, professora da Unicamp. Até os anos 1970 era corriqueiro na Justiça brasileira o argumento da “legítima defesa da honra” para absolver maridos que matavam esposas. “Quando cheguei a Campinas, em 1970, ocorria o julgamento de um rumoroso caso do promotor que matou a esposa adúltera e acabou absolvido. ‘Campinas lavou a sua honra’, foi a manchete do jornal”, disse Mariza Corrêa em entrevista ao <em>Jornal da Unicamp</em>, em 2004, referindo-se ao assassinato da mãe da atriz Maitê Proença, morta pelo marido. O assassinato da socialite Ângela Diniz em 1976 pelo namorado Doca Street foi um ponto de inflexão – o assassino foi absolvido num primeiro julgamento, que acabou anulado, mas condenado no segundo. O advento das delegacias da mulher foi uma resposta à mobilização do movimento feminista, mas também pode ser visto como um dos efeitos da pesquisa sobre a violência contra a mulher aplicada a políticas públicas.</p>
<p>Já na segunda metade dos anos 1970, tomou corpo uma mudança no enfoque teórico dos estudos sobre a condição feminina, marcado por uma nova nomenclatura: a pesquisa sobre as relações de gênero. “A partir de certo momento, ficou claro que a condição da mulher não existe de forma isolada como tema de pesquisa: o que existe é uma relação social, uma relação entre homens e mulheres”, explica Eva Blay. “Constatou-se que a ideia de mulher focalizada pela pesquisa até então era restrita. Dizia respeito a mulheres brancas, heterossexuais e em idade reprodutiva. Crianças e mulheres idosas, mulheres negras e homossexuais não se enxergavam nos estudos da mulher”, diz Guita Debert. “A ideia se centra mais em como as diferenças são produzidas, colocando em xeque a universalidade da dominação masculina”, afirma.</p>
<div id="attachment_5472" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-5472" title="044-045_50Anos_194-2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/044-045_50Anos_194-2.jpg" alt="" width="290" height="237" /><p class="wp-caption-text">Mulher trabalhadora no Ceará: da pesquisa às políticas públicas</p></div>
<p>A produção do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, criado na Unicamp em 1986, é exemplar da complexidade desse novo enfoque teórico. Os estudos feitos pelo núcleo abrangem preocupações como a relação entre as características masculinas e femininas e as convenções sobre o corpo, as intervenções médicas como cirurgias plásticas rejuvenescedoras ou operações de mudança de sexo, a produção artística e científica de homens e mulheres, a sociabilidade dos homossexuais que envelhecem, o mercado sexual e a pornografia, entre outros. Um projeto temático financiado pela FAPESP entre 2004 e 2009 ajudou a consolidar vários eixos de pesquisa do grupo. “O projeto foi o mais importante do núcleo, no sentido de costurar e aglutinar interesses e objetos de pesquisa que vinham sendo desenvolvidos desde sua formação”, diz Maria Conceição da Costa, professora do departamento de política científica e tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, atual coordenadora do Núcleo Pagu – seu campo de estudos é a interface entre gênero e ciência.</p>
<p>Guita Debert, que já coordenou o Núcleo Pagu, dedica-se, entre outros tópicos, ao estudo da sexualidade na velhice, com foco nas cirurgias estéticas utilizadas para camuflar os efeitos do envelhecimento. Uma de suas contribuições consistiu em mostrar que as cirurgias estéticas não ampliam as potencialidades do corpo, como imagina o senso comum. “Ao contrário, restringem tais potencialidades porque representam uma aversão às diferenças. As pessoas sabem que não vão se transformar numa Gisele Bündchen, o que querem é apagar características que fogem à normalidade e serem aceitas”, afirma a professora, que é membro da Coordenação de Ciências Humanas e Sociais da FAPESP. No caso das cirurgias usadas para remover marcas da passagem do tempo, a situação é ainda mais complexa. “A gerontologia enfatiza a ideia de que é preciso envelhecer com qualidade de vida, de que sexo não tem idade, mas o que as cirurgias fazem é tentar driblar a natureza. Não existe uma estética da velhice para norteá-la”, afirma a pesquisadora, que atualmente se debruça também sobre um projeto de políticas públicas para idosos envolvendo sexualidade, gênero e violência.</p>
<p>Adriana Piscitelli, pesquisadora e também ex-coordenadora do Núcleo Pagu, estudou a transnacionalização dos mercados do sexo, mergulhando no universo do turismo sexual em Fortaleza. Ela acompanhou as trajetórias de brasileiras que migraram para a Itália, convidadas por turistas estrangeiros, e deixaram o mercado do sexo ao casar com eles, e também de brasileiras que se dirigiram à Espanha para trabalhar, oferecendo serviços sexuais. Os resultados de sua pesquisa questionam as leituras que consideram todos esses deslocamentos como tráfico de mulheres com fins de exploração sexual. A migração de brasileiras para trabalhar na indústria do sexo europeia tem a ver com a busca de oportunidades econômicas e sociais, como é comum em fluxos migratórios. Segundo Adriana, o trabalho na indústria do sexo é, muitas vezes, uma estratégia temporária para viabilizar o projeto migratório, que pode envolver a intenção de casar e formar família.  “Encontrei numerosos casos de mulheres que saíram da indústria do sexo para se casar, permanecendo na Europa. E não são casamentos de fachada”, afirmou. Na Espanha, observou que as brasileiras encaixavam-se num <em>ranking</em> de procura dos empresários da indústria do sexo, que privilegiava as profissionais vindas do Leste Europeu, e diluía as brasileiras na categoria de prostitutas latino-americanas – ainda que fossem mais valorizadas no mercado sexual que outra categoria, as africanas.</p>
<p>Os estudos de gênero no Brasil sofisticaram-se nos últimos anos. Para ter uma ideia da diversidade, entre os projetos atualmente apoiados pela FAPESP há pesquisas sobre os cuidados com a saúde com homens e mulheres residentes na capital paulista (Faculdade de Saúde Pública da USP), o papel social das arquitetas (Universidade Mackenzie), a divisão de tarefas entre homens e mulheres numa cooperativa de catadores de papel (Faculdade de Educação da Unicamp) ou dificuldades de acesso à Justiça para as mulheres (Faculdade de Direito da USP em Ribeirão Preto). “As principais universidades do país têm grupos dedicados às pesquisas de gênero”, diz Eva Blay. “O avanço foi extraordinário: não há legislação sobre saúde, educação, violência que não leve em consideração as relações de gênero. Há um intercâmbio entre o que a universidade produz e a formulação de políticas públicas”, afirma a professora.</p>
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		<title>Terra em transe</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Mar 2012 18:46:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabrício Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanismo]]></category>

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		<description><![CDATA[As mudanças nos paradigmas da pesquisa sobre os problemas urbanos]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_3400" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3400" title="art4643img1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/03/art4643img1.jpg" alt="" width="300" height="197" /><p class="wp-caption-text">O contraste da favela Real Parque ante os prédios da região da Nova Faria Lima, na Zona Sul de São Paulo</p></div>
<p>Os problemas urbanos do Brasil se tornaram mais complexos nas últimas décadas, e a FAPESP, ao longo de seus 50 anos, financiou o trabalho de pesquisadores que revelaram essa transformação. Se na década de 1970 os estudos diagnosticavam as periferias das metrópoles como um território fortemente atingido por ondas migratórias e uniformemente alijado da presença do Estado, o paradigma atual da pesquisa mostra que elas se tornaram heterogêneas, são contempladas com serviços públicos de saúde e educação, ainda que com qualidade desigual, mas que comprometem a vida de seus moradores com deficiências de transporte e violência, para citar dois exemplos. Outra mudança de paradigma tem a ver com a capacidade de reunir dados sobre as cidades e utilizá-los, com a ajuda de recursos computacionais, para gerar conhecimento novo e aplicações para a sociedade. “A massa de dados disponível hoje é gigantesca e permite realizar estudos de grande alcance. Há não muito tempo os pesquisadores eram obrigados a restringir o alvo de pesquisa pela dificuldade de coletar dados”, explica Marta Arretche, professora do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP entre 2000 e 2011.</p>
<p>Uma das vocações do CEM é produzir e disseminar dados georreferenciados sobre as principais metrópoles brasileiras. “Quando começamos, o geoprocessamento era pouco desenvolvido no país e as bases cartográficas, raras”, diz Eduardo Marques, professor do mesmo departamento da USP e diretor do centro entre 2004 e 2009. “Órgãos públicos produziam dados, que acabavam não sendo disponibilizados. Nós compramos bases de dados, digitalizamos e integramos outras, usamos para nossas pesquisas e as colocamos no nosso <em>site</em>, de graça.” O centro também desenvolve estudos e projetos sob encomenda. Quando alguma esfera de governo precisa de um trabalho específico, o CEM faz o geoprocessamento com dados disponíveis, que são analisados e cruzados pelos pesquisadores do centro.</p>
<p>O CEM é sediado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), instituição responsável, na década de 1970, por estudos fundamentais da sociologia urbana. Um deles foi <em>São Paulo 1975: crescimento e pobreza</em>, patrocinado pela Fundação Ford e a Arquidiocese de São Paulo. A tese do livro, segundo a qual o crescimento econômico não era incompatível com o aumento das desigualdades sociais, mas antes era capaz de amplificá-las, converteu a obra em referência dos tempos da ditadura. O tipo de pesquisa que o CEM faz hoje difere do daquela época, observa Eduardo Marques. “Nos anos 1970, a metrópole era o locus para se discutir os grandes temas da agenda de pesquisa, como democracia, capitalismo e dependência, mas não era um objeto em si mesmo. Hoje é o foco central da pesquisa”, afirma.</p>
<p>No passado, os estudos de sociologia urbana tendiam a ser mais ensaísticos do que empíricos. O livro<em> Pesquisa &amp; desenvolvimento</em>, de 1973, que narra as atividades da FAPESP em sua primeira década, registra o primeiro financiamento da Fundação a estudos dessa área. Entre 1962 e 1963, os professores Azis Simão e Douglas Monteiro, da FFLCH/USP, foram auxiliados na pesquisa <em>Sociabilidade espontânea e organizada em um bairro da capital</em>. A pesquisa foi feita na Vila Diva, Zona Leste de São Paulo, com aplicação de questionários em 178 domicílios, mas não chegou a ser publicada. “Foi importante, porque quase não se fazia pesquisa de campo nessa época”, lembra-se Eva Alterman Blay, professora aposentada do Departamento de Sociologia da FFLCH, que atuou como voluntária e ajudou a aplicar os questionários. “Era um lugar distante e difícil de chegar.”</p>
<p><strong>Viver em risco</strong><br />
Naturalmente, a massa crítica formada nos anos 1960 foi importante para estabelecer as bases dos estudos atuais. Lúcio Kowarick, professor do Departamento de Ciência Política da FFLCH e um dos autores do <em>São Paulo 1975: crescimento e pobreza</em>, recorda-se do primeiro auxílio que recebeu da FAPESP, em 1966. Ele havia deixado o Brasil em 1964, temendo perseguição política da ditadura, e transferiu-se para a França, onde iniciou o mestrado com bolsa do governo francês. Após dois anos, a bolsa tornou-se insuficiente e ele procurou o então diretor científico da FAPESP, William Saad Hossne. “Expliquei a situação e ele pediu que eu escrevesse uma carta relatando que estava na França por motivos políticos. Me concedeu a bolsa para os dois anos restantes e pude concluir o mestrado”, lembra-se. Kowarick diz que a FAPESP também foi importante para que pudesse participar de seminários no exterior. No início dos anos 2000, Kowarick obteve da FAPESP um auxílio a pesquisa que rendeu o estudo <em>Viver em risco: moradia, desemprego e violência urbana na Grande São Paulo</em>. A partir de relatos de moradores de favelas, cortiços e loteamentos clandestinos, o estudo mostrou, entre outras evidências, que a violência tornou-se uma contingência com força para estruturar a vida dos habitantes das periferias. O medo da violência delimita o horário em que as pessoas saem à rua e impõe um código de silêncio. A pesquisa envolveu bolsistas de iniciação científica e mestrado e resultou num livro que ganhou o Prêmio Jabuti em 2009 na categoria Ciências Humanas.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-3401" title="art4643img2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/03/art4643img2.jpg" alt="" width="300" height="401" />Uma iniciativa da FAPESP no final dos anos 1990, o Programa de Pesquisa em Políticas Públicas, ajudou a impulsionar a colaboração entre pesquisadores dos problemas urbanos e gestores dos municípios. Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, teve dois projetos aprovados no programa e destaca seus efeitos. “Um deles envolveu a preparação de um material de capacitação dos municípios para entender o Estatuto das Cidades, criado em 2001”, afirma. “Ficou conhecido como o <em>Kit </em>do Estatuto, com um jogo, uma cartilha, um vídeo e outros materiais distribuídos para os gestores municipais”, afirma. O conteúdo foi baseado numa pesquisa sobre realidades socioterritoriais e municipais paulistas. O grupo coordenado por Raquel também obteve financiamento da FAPESP para uma série de estudos, iniciados nos anos 1990 e em fase de atualização, para mapear a evolução dos municípios paulistas do ponto de vista de suas condições de urbanização. A análise dos dados do Censo de 2010 em comparação com os de 1980, 1991 e 2000 mostra uma situação complexa. “As piores condições de urbanização não atingem necessariamente os municípios mais pobres. A precariedade afeta mais as franjas metropolitanas, na periferia de onde se concentra a riqueza e a maior disputa pela terra urbana, num processo de ocupação sem regulação que continuou operando nas últimas décadas”, afirma, citando cidades do litoral norte de São Paulo e da Baixada Santista, e, no caso da Região Metropolitana de São Paulo, de seus municípios de ocupação mais recente, como Ferraz de Vasconcelos e Francisco Morato. “O que queremos entender hoje é como a riqueza produzida pelo município se transforma ou não em condições melhores de urbanização”, diz Raquel.</p>
<p>O investimento mais robusto e articulado da FAPESP, contudo, foi o Centro de Estudos da Metrópole, apoiado ao longo de 11 anos. “Ao longo de sua trajetória, o CEM amadureceu, reforçou seus laços com parceiros internacionais e com a sociedade e afinou o foco de suas pesquisas, tornando-se uma instituição relevante internacionalmente”, diz Hernan Chaimovich, coordenador do programa dos Cepids, ao qual o CEM esteve ligado. Marta Arretche, diretora do centro, explica que a instituição abriu mão da ambição de apontar uma grande solução para o problema das metrópoles, pela impossibilidade de realizar a tarefa, e, no lugar, passou a selecionar temas específicos para os quais conseguisse contribuir. Entre os estudos mais importantes do CEM, um destaque é o <em>Mapa da vulnerabilidade social</em>, que utilizou dados do Censo e técnicas de geoprocessamento para mapear a pobreza no município de São Paulo. Divulgado em 2004, o mapa cartográfico teve como fonte básica o Censo de 2000 e produziu um mosaico da situação de cada um dos 13 mil setores da cidade estabelecidos pelo IBGE, conseguindo captar situações específicas de vulnerabilidade em  grupos de 300 a 400 famílias agregadas em cada setor censitário. “O mapa foi importante para mostrar que a renda é uma variável limitada para definir a pobreza”, diz Marta Arretche. “Ficou claro que o acesso a serviços e equipamentos públicos, entre vários fatores, pode colocar em situações de vulnerabilidade muito diferentes duas famílias que tenham a mesma renda”, afirma. Outro estudo relevante foi coordenado pela cientista política Argelina Figueiredo, primeira diretora do CEM. Foram realizados <em>surveys</em> em São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro com amostras de 40% da população mais pobre. “Eles mostraram que os pobres têm acesso universal à saúde e à educação, independentemente de sua renda. O acesso aos serviços não tem relação com critérios clientelísticos”, diz Marta Arretche.</p>
<p><strong>Redes pessoais</strong><br />
Estudos liderados por Eduardo Marques e Nadya Araújo Guimarães mostraram o papel das redes pessoais no acesso a emprego e renda. As redes se definem como o conjunto de pessoas conhecidas, como amigos, familiares, colegas de trabalho ou de escola, a quem um indivíduo pode recorrer quando está procurando emprego, em dificuldade financeira ou tentando fazer um negócio. A variedade dos tipos de redes, mesmo entre a população mais pobre, mostra situações distintas. A vulnerabilidade é maior quando o indivíduo só pode recorrer a um grupo restrito de contatos, em geral familiares e vizinhos, em situação muito semelhante à sua. Um dos dados mais importantes dessa linha de pesquisa foi a comparação entre os tipos de redes de pessoas pobres e de classe média. Em média, as redes de indivíduos em situação de pobreza são menores, menos variadas, mais locais e mais centradas na vizinhança. Quanto mais pobre o indivíduo, mais próximas dessa característica são suas redes. Mas as redes também variam no interior de cada grupo. Esse é o caso das redes dos adolescentes pobres e de classe média, ambas compostas por familiares, amigos da família e, sobretudo, colegas de escola. Os processos de diferenciação entre elas ajuda a exemplificar o efeito das redes sobre a trajetória dos indivíduos e sobre a reprodução das desigualddes sociais. “Em ambos os grupos, elas são grandes, variadas e compostas por pessoas parecidas”, diz Eduardo Marques. Quando o indivíduo ingressa na idade adulta, um abismo passa a separar os pobres da classe média. “A explicação está no acesso à universidade. Quem entra na universidade tem quatro, cinco ou seis anos para construir uma rede formada por indivíduos da mesma profissão. Se o indivíduo for um médico, será uma rede de médicos, a quem poderá recorrer se ficar desempregado ou precisar de um parceiro de negócios.” Quem não tem acesso à universidade acaba mantendo a rede que tinha, e encontra dificuldade em mantê-la. “Imagine o cozinheiro de uma padaria. Sua rede é composta por um ou dois colegas de trabalho. Se ficar desempregado, aceitará o emprego que aparecer. Se for em outra área, perderá aquela rede e construirá outra. Os pobres estão sempre jogando partes de sua rede fora”, diz.</p>
<p>Estudo recente liderado por Marta Arretche mostra uma característica pouco explorada da universalização de serviços de educação e de saúde cujos principais provedores são os governos municipais. “Esse fenômeno é fortemente influenciado pela ação do governo federal. Regras constitucionais obrigam estados e municípios a gastar 25% de seus recursos com educação e 15% com saúde, bem como ter conselhos municipais de educação e de saúde. Além disso, a regulamentação federal afeta o tipo de política implementada pelos governos subnacionais. Se não tiverem programas de saúde da família e de agentes comunitários, vão ficar sem receber recursos federais. A margem de manobra dos prefeitos é restrita – podem decidir, no máximo, se vai investir mais na periferia ou no centro”, afirma.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/03/032-035.pdf" target="_blank"><em>Baixe aqui o PDF</em></a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Terra em transe' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/03/23/terra-em-transe/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Terra em transe' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/03/23/terra-em-transe/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Terra em transe' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/03/23/terra-em-transe/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Terra em transe' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/03/23/terra-em-transe/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A política que acaba em samba</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Feb 2012 22:13:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Júnior</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Samba foi importante instrumento de consciência negra nos anos 1970]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_3843" class="wp-caption alignright" style="width: 280px"><img class="wp-image-3843" title="086-089_Samba_192_1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/03/086-089_Samba_192_1.jpg" alt="" width="270" height="358" /><p class="wp-caption-text">Longe do exótico, uma passeata do movimento negro no Rio</p></div>
<p>Uma música pode mudar tudo, provocar um movimento, uma revolução. Ou torna-se emblemática por possuir um conteúdo inédito em seus versos. Foi o que aconteceu em 1970, quando o compositor carioca Candeia (1935-1978) lançou o samba <em>Dia de graça</em>, que trazia em seus versos a frase emblemática: “Negro, acorda, é hora de acordar/ Não negue a raça/ Torne toda manhã dia de graça”. “Jamais, em toda história do samba e talvez da música popular brasileira, uma exortação explícita à ação direcionada exclusivamente aos negros havia sido imiscuída em meio a versos de canções”, observa Dmitri Cerboncini Fernandes, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador da pesquisa <em>A cor do samba: música popular e movimento negro</em>, integrada pelos professores Sergio Miceli, da Universidade de São Paulo (USP), e Gustavo Ferreira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O projeto é um desenvolvimento do pós-doutorado de Cerboncini, <em>A cor do samba: música popular e movimento negro</em>, apoiado pela FAPESP. O verso chamou tanto a atenção do pesquisador que o levou a pesquisar a biografia do autor. No caminho encontrou um movimento extremamente ativo na década de 1970 que envolveu outros sambistas engajados em questões da negritude, como Paulinho da Viola e Nei Lopes, assim como textos desses personagens que, de uma forma ou de outra, “reescreviam” a história do samba como legado da cultura africana no Brasil.</p>
<p>Até então o samba tinha sido descrito por cronistas, críticos e especialistas como emblema nacional, síntese das contribuições das três raças na formação brasileira, legado do construto da democracia racial que imperava desde a década de 1930. “Após a atuação desses sambistas, esse panorama começou a mudar.” Surgiram versos em louvor à africanidade e à inclusão de instrumentos musicais ligados às religiões afro-brasileiras, além da aproximação inédita ensaiada pelos sambistas com os países da África. E um panorama bem diverso irrompeu. “Paralelo a isso, ocorria o ressurgimento do movimento negro, pela primeira vez num tom afirmativo, que prezava a identidade negro-africana-brasileira e sua cultura. Creio que esses são os indícios mais fortes que apontam para a direção de um novo ‘caldo’ nascente no período, que mescla o surgimento de uma intelectualidade negra consciente, politicamente ativa, reunida contra a ditadura militar e que passava a enxergar no samba um dos principais legados negros a serem defendidos e valorizados”, observa o pesquisador.</p>
<div id="attachment_3844" class="wp-caption alignleft" style="width: 280px"><img class="wp-image-3844" title="086-089_Samba_192_2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/03/086-089_Samba_192_2.jpg" alt="" width="270" height="202" /><p class="wp-caption-text">O sambista Candeia, um dos principais representantes do movimento</p></div>
<p><strong>Autêntico</strong><br />
Entre as conclusões da pesquisa, o professor descobriu a existência de uma representação surgida nos anos 1970, que conferiu ao samba “autêntico” uma nova identidade, a de legado da cultura afro-brasileira em concorrência com a de “nacional”. “Tal construto foi estabelecido por um grupamento de sambistas, jornalistas e demais intelectuais engajados nas questões latentes do período, como, por exemplo, a suposta descaracterização do Carnaval e a comercialização desenfreada e empobrecedora do samba”, explica.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o movimento negro retornava com força de um longo período de desaparição forçada, “o que ensejou o encontro de ideários formulados por artistas e intelectuais afins, traçando um espaço de intercâmbio entre eles”. Fernandes acrescenta que a lógica atinente à atividade musical popular ligou-se assim às dinâmicas externas a ela, no caso, a de um dos movimentos sociais florescentes, “resultando em uma espécie de samba que participava da afirmação da identidade negra em diversos âmbitos e, em contrapartida, de um movimento negro que utilizava o samba e os sambistas como exemplos máximos da expressividade da cultura negra”. O pesquisador destaca que não se trata de afirmar que questões raciais não eram tratadas antes em versos de canções de samba, mas que as canções que falassem desses assuntos se pautavam ora por denúncias vazias, ora pelo humor – geralmente assentado nas bases do racismo cordial –, ora por motivos diversos. “O que importa ressaltar, contudo, é que jamais esses versos enalteciam a vinculação do negro ao samba como seu exclusivo produtor, criador ou cultor, fato este que só veio a irromper na década de 1970.”</p>
<div id="attachment_3845" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="wp-image-3845" title="086-089_Samba_192_3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/03/086-089_Samba_192_3.jpg" alt="" width="290" /><p class="wp-caption-text">À esquerda, Paulinho da Viola, em 1974; ao lado, Martinho da Vila, em 1977</p></div>
<p>Segundo ele, é difícil precisar como, no bojo de ampla frente formada contra o inimigo comum, a ditadura militar, um amálgama reunindo ativistas de esquerda, jornalistas, intelectuais e artistas filiados a tendências variadas ensejaria o surgimento de um grupo particular de sambistas contestadores daquela ordem, cujas atividades se notabilizaram pelo viés politizado impresso em diversas instâncias – sobretudo em suas obras musicais e literárias. “Cada sambista possuía uma trajetória distinta e havia diversos canais que interferiram na formação daquela figuração. Paulinho da Viola, Candeia e Martinho da Vila possuíam grande proximidade com jornalistas, acadêmicos, artistas e intelectuais pertencentes aos quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), casos de Sérgio Cabral e Lena Frias, o que facilitava o escoamento de suas declarações, da realização de entrevistas e de suas investidas, artísticas ou não, nas mídias em que esses personagens trabalhavam.” Outros, como Nei Lopes, tinham uma formação política tendendo ao trotskismo em razão de contatos estabelecidos no período em que cursou a faculdade de direito. “Posição que era, em tese, mais afim com a dos líderes do movimento negro renascente.”</p>
<p>Esses sambistas engajados, afirma o pesquisador, eram relativamente “ilustrados”. Isto é, diferentemente da imagem que porventura se fazia dos antigos sambistas, eles tinham um bom nível educacional. Candeia passou em primeiro lugar em concurso público para policial civil; Paulinho da Viola era empregado da burocracia bancária; Nei Lopes era formado pela Universidade do Brasil (atual UFRJ); e Martinho da Vila era sargento do Exército. “O meio artístico naquele ínterim politizava-se sobremaneira, o que fatalmente terminava por se expressar em suas obras artísticas, haja vista que este dado fazia parte de suas vivências mais caras e imediatas.” Nesse contexto, Muniz Sodré teve importância especial, apesar de não ser sambista, mas acadêmico preocupado com as questões que envolviam o samba. Em 1979, ele publicou o livro <em>O dono do corpo</em> (Codecri), pioneiro da história do samba pontilhada de radicalismo e que deslocava de vez a visão até então imperante de que o samba era “nacional”, isto é, produto das três raças formadoras da nação.</p>
<div id="attachment_3846" class="wp-caption alignleft" style="width: 271px"><img class="wp-image-3846" title="086-089_Samba_192_4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/03/086-089_Samba_192_4.jpg" alt="" width="261" height="258" /><p class="wp-caption-text">Sambistas de escola carioca visitam jornal e se apresentam</p></div>
<p><strong>Coletivo</strong><br />
Não havia, explica Fernandes, um pensamento coletivo, um movimento consciente desses artistas. “O que ocorreu estava mais para uma confluência de inúmeros fatores não planejados, uma espécie de conjunção de várias resoluções e tensões simultâneas que envolviam elementos de ordem política, artística, intelectual, econômica, entre outros.” Para citar um exemplo, a afinidade brotada entre os ideais do movimento negro na abertura política parcial na ditadura militar com as dos sambistas e demais intelectuais e jornalistas engajados na arte popular não pode ser considerada algo antevisto.</p>
<p>Cerboncini joga luz sobre um período, que conta com poucos estudos acadêmicos, de grande força musical e comercial do gênero. “Desencontros de opinião refletem a falta de maior reflexão acadêmica sobre o que teria ocorrido. Do que se pode afirmar com certeza, sabe-se que Martinho da Vila e Clara Nunes estavam entre os maiores vendedores da década, acompanhados por Paulinho da Viola e Beth Carvalho, também em grande fase. Cartola, Adoniran Barbosa e Nelson Cavaquinho lançaram seus primeiros LPs nessa década, a despeito de estarem há muitos anos na estrada. À exceção das obras de Candeia, Elton Medeiros e Nei Lopes, havia ainda outros sambistas, malvistos pela crítica de modo geral, casos de Benito di Paula e Luiz Ayrão, que arrebatavam grandes cifras nas vendagens de discos”, analisa o professor. Entre as atividades políticas que apoiavam o samba, acrescenta, havia iniciativas bem-sucedidas, como as de Hermínio Bello de Carvalho e Sérgio Cabral na Funarte.</p>
<table class="tabela_interna" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O Projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>A cor do samba: música popular e movimento negro – <a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/116861/cor-samba-musica-popular-movimento/" target="_blank">nº 2010/19900-3</a></td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Pós-doutorado</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Co­or­de­na­dor</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Marcos Napolitano – USP</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 42.705,69</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A pesquisa possui lastros com um projeto temático coordenado por Miceli e financiado pela FAPESP, <em>A formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo</em>, do qual Fernandes também faz parte. Há, nesse caso, duas vertentes de pesquisa que procuram se cruzar: uma mais voltada à análise da “alta” cultura e da intelectualidade, e outra ligada mais aos elementos “massificados”, por assim dizer. Miceli participa do estudo do samba como pesquisador sênior. “O que mais me interessou no trabalho de Dmitri foi o empenho em restituir uma história social dos sambistas fora dos parâmetros hagiográficos usuais e, também, o empenho em qualificar os aspectos musicais no trabalho criativo de sucessivas gerações”, observa Miceli. “Para entender a consagração dessa instituição, inclusive junto ao mercado fonográfico, é preciso entender como ela incorporou um determinado passado. Mais do que isso, como ela reinventou esse passado e, ao mesmo tempo, o atualizou, com a mobilização de uma inteligência estética que ia muito além da música popular em si”, analisa o professor Marcos Napolitano, do Departamento de História Social (FFLCH-USP), que foi supervisor do pós-doutorado de Fernandes.</p>
<p>“A música popular brasileira não aconteceu apenas como um conjunto de eventos históricos, mas também como narrativa desses eventos, perpetuada pela memória e pela história, que articulou e rearticulou eventos como se fossem expressão de ‘tempos fortes’ e ‘tempos fracos’ da história. Expressão de uma síncope de ideias dando ritmo e fluidez na passagem do tempo, construindo um enredo vivo, aberto e imprevisível, sujeito a revisões ideológicas, reavaliações estéticas e novas configurações de passado e futuro”, avalia Napolitano. Ele destaca dois aspectos na investigação de Fernandes: “É fundamental essa análise sociológica e histórica do processo de construção intelectual de um discurso sobre o samba que valoriza suas ‘raízes africanas’. Este discurso, bem como as expressões musicais ligadas a ele, tentou desvincular o samba da expressão de uma ‘brasilidade mestiça’”, afirma. O pesquisador igualmente elogia a análise que destacou as conexões entre cultura e política. “No caso, o papel da esquerda (comunista e trotskista) na valorização de um samba negro e africano.” Nem sempre tudo acaba em <em>pizza</em>. Pode acabar, e bem, em samba.</p>
<p><a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/086-089_192.pdf" target="_blank"><em>Baixe aqui o PDF</em></a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A política que acaba em samba' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/02/27/a-pol%c3%adtica-que-acaba-em-samba/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A política que acaba em samba' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/02/27/a-pol%c3%adtica-que-acaba-em-samba/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A política que acaba em samba' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/02/27/a-pol%c3%adtica-que-acaba-em-samba/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A política que acaba em samba' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/02/27/a-pol%c3%adtica-que-acaba-em-samba/' displayText='share'></span></p>
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		<item>
		<title>Uma intelectual inquieta e ativa</title>
		<link>http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/01/18/uma-intelectual-inquieta-e-ativa/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=uma-intelectual-inquieta-e-ativa</link>
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		<pubDate>Wed, 18 Jan 2012 21:31:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helena Sampaio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Ruth Cardoso: obra reunida - Teresa Pires do Rio Caldeira (Org.)]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-588" title="090-091_RuthCardoso_Resenha_191-1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/01/090-091_RuthCardoso_Resenha_191-1.jpg" alt="" width="300" height="406" /><em>Ruth Cardoso: obra reunida</em>, livro organizado por Teresa Pires do Rio Caldeira, vem suprir uma lacuna nos muitos tributos já prestados à professora Ruth desde o seu falecimento em 2008.</p>
<p>Todos nós – colegas, alunos, orientandos e parceiros em muitas pesquisas – sentíamos a ausência, até então, de um livro que reunisse os trabalhos acadêmicos de Ruth Cardoso escritos ao longo de sua carreira de professora e pesquisadora na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em universidades estrangeiras, dos Estados Unidos e do Chile, onde também lecionou, em centros de pesquisa, com destaque para o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), em São Paulo. Nesse livro encontramos textos, alguns inéditos, outros em publicações esgotadas, escritos por Ruth, artigos em parceria com Eunice Ribeiro Durham e outros com a coautoria das orientandas Céline Sachs-Jeantet, Esther Império Hamburguer, Helena Sampaio e Teresa Caldeira.</p>
<p>Ruth Cardoso escreveu e publicou relativamente pouco; os mais próximos atribuem o fato ao seu excessivo rigor em relação à própria produção. Gostava de ensinar, orientar, pesquisar, discutir ideias e, especialmente, partilhar com colegas, alunos e orientandos suas sempre inovadoras (e algumas vezes inusitadas) descobertas intelectuais, acrescentando ao debate autores e obras, nacionais e estrangeiras, que quase invariavelmente se situavam na contramão dos modismos e do pensamento hegemônico da academia.</p>
<p>Os 41 textos reunidos nesse livro procuram dar conta dessa inquietação intelectual de Ruth Cardoso diante dos modelos de interpretação e da realidade social. Em alguns textos reconhecemos as suas reflexões críticas sobre o marxismo, o funcionalismo, o estruturalismo como explicações por vezes esquemáticas (ou ainda simplistas) dos processos sociais; em outros trabalhos, identificamos Ruth Cardoso antropóloga preocupada com a pesquisa de campo e com as análises das narrativas, sensível ao que já identificava como uma disseminação equivocada – porque aligeirada – do método qualitativo e da análise de discurso.</p>
<p>Precedem os textos selecionados nessa coletânea uma delicada e cuidadosa apresentação de Teresa Caldeira e um emocionante depoimento de Eunice Ribeiro Durham, colega e amiga de toda a vida de Ruth. O texto de Teresa Caldeira nos serve de guia para a leitura dos artigos: mostra o percurso de Ruth Cardoso e as influências que recebeu como uma intelectual de seu tempo, o diálogo que estabeleceu com as diversas correntes de pensamento então em voga e suas indagações diante das mudanças sociais; reconhece também as contribuições de Ruth Cardoso para a pesquisa de campo na antropologia, em particular, e para o pensamento social, de modo amplo, sempre reiterando a atitude moderna da professora por criar, nas mais diferentes situações, “espaço de reflexão e interrogação do presente, um espaço para forçar limites, procurar alternativas”.</p>
<p>O livro traz os textos em ordem cronológica e temática a partir das questões que Ruth Cardoso priorizou ao longo de sua trajetória acadêmica e de cidadã de seu tempo; essas questões, no livro, recebem, com muita propriedade, os seguintes subtítulos: Migrantes japoneses: integração e mudança; A aventura antropológica I – buscas; Favelas: através dos fragmentos; A aventura antropológica II – críticas; Movimentos sociais, Estado e democracia; Mulheres, direito e democracia; Mídia e juventude; Pobreza, políticas sociais e terceiro setor.</p>
<p>Por fim, o volume traz o currículo acadêmico e a lista de orientandos da professora Ruth Cardoso. Para os que tiveram o privilégio de conviver e aprender com ela, o livro é, com certeza, um presente de prolongamento dos saudosos encontros para discussão de pesquisas de campo (e seus achados e interpretações e reinterpretações) e dos diálogos necessariamente intermináveis, porque para Ruth Cardoso nunca deviam ser interpretações definitivas, sobre as mudanças e os rumos da sociedade brasileira, preocupação que a acompanhou durante toda a vida.</p>
<p><strong>Helena Sampaio</strong> <em>é pesquisadora do NUPPs (Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas) da USP (Universidade de São Paulo).</em>
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/01/090-091_191.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Uma intelectual inquieta e ativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/01/18/uma-intelectual-inquieta-e-ativa/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Uma intelectual inquieta e ativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/01/18/uma-intelectual-inquieta-e-ativa/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Uma intelectual inquieta e ativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/01/18/uma-intelectual-inquieta-e-ativa/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Uma intelectual inquieta e ativa' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/01/18/uma-intelectual-inquieta-e-ativa/' displayText='share'></span></p>
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		<item>
		<title>A força social da umbanda</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 22:58:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Em crise, a “religião brasileira” mantém poder cultural de inclusão]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1771" class="wp-caption alignright" style="width: 280px"><img class="wp-image-1771" title="art4540img1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/02/art4540img1.jpg" alt="" width="270" height="382" /><p class="wp-caption-text">Filhos de santo recebem entidades durante culto no terreiro de Pai Benedito, em Codó, Maranhão</p></div>
<p>Segundo o <em>Mapa das religiões</em>, divulgado recentemente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o número de pessoas que se declararam umbandistas se resume a 0,23% da população brasileira. Em 1980 já era minguado 0,6%, passando para 0,5% em 1991 e 0,3% em 2000, segundo o IBGE. Quais as consequências desse abalo demográfico na umbanda, dita a primeira religião efetivamente brasileira? “Que o catolicismo caísse cada vez mais era esperado. Mas a umbanda, a ‘religião brasileira’ por antonomásia, mestiça de índio, negro e europeu, prosopopeia consumada de nossa miscigenação constitutiva que os cientistas sociais consideraram como forma religiosa plenamente ajustada, posto que sincrética à realidade brasileira, mesmo a mais urbana e modernizada, é um fenômeno que dá o que pensar. Fico encabulado com o declínio censitário da umbanda, o ‘Brasil brasileiro’ indo para o ralo”, analisa Flávio Pierucci, sociólogo da Universidade de São Paulo (USP) e autor de <em>A religião como solvente </em>(2006). Nas páginas finais de <em>As religiões africanas no Brasil </em>(1958), Roger Bastide já alertava para “as ameaças que pairam sobre a umbanda”, sem a qual não há mais defesa segura contra as tensões e conflitos peculiares à sociedade de classes. As comunidades umbandistas não mais seriam “nichos”. Nelas, os valores de um sagrado corrompido apenas refletiriam os dilaceramentos da sociedade inclusiva. Nem tudo o que é mágico se dissolve no ar: o que estamos perdendo com a fragilização da umbanda?</p>
<p>“A história cultural brasileira pode ser aprendida e apreendida não apenas em livros de história, mas também em terreiros de umbanda. A umbanda reinterpreta os valores, as visões históricas e os acontecimentos nacionais, dialogando com a realidade. As classes de pertença de seus espíritos refletem também grupos que geralmente sofrem ou sofreram exclusão social, uma marca de resistência e preservação de um modo de dialogar com a realidade social de forma a articular, pelos rituais, a inclusão social”, afirma o psicólogo José Francisco Miguel Henriques Bairrão, docente de psicologia social na USP, onde coordena o Laboratório de Etnopsicologia, que estuda fenômenos ligados à umbanda, como o transe umbandista, ato enunciativo em que se condensam reminiscências pessoais e sociais. “Portadoras de vozes ancestrais inconscientes, essas memórias, uma vez resgatadas, podem distribuir benefícios psíquicos e simbólicos aos seus herdeiros”, lembra o pesquisador. Segundo Bairrão, o panteão umbandista é constituído por personagens que assinalam a necessidade no passado (memória coletiva), bem como, em muitos casos, ainda no presente, de atenção e de inclusão, visão bastante distante da “teologia da prosperidade” da Igreja Universal, que vê nela uma rival a ser dizimada como a religião do diabo e do mal.</p>
<p>A particularidade religiosa da umbanda, diz o autor, nem africana nem cristã, pode ser a expressão de um patrimônio cultural pujante e digno da realidade social brasileira. Ela comporta processos de inclusão social e pode ser um meio de elaboração de experiências sociais traumáticas para significativos grupos sociais brasileiros. Para Bairrão, o estudo do imaginário popular religioso da umbanda, além de permitir a obtenção de subsídios para o conhecimento da realidade social e psíquica brasileira, pode ajudar o desenvolvimento de estratégias éticas para o trabalho com comunidades e a consolidação de um método empírico de estudo da alteridade, como analisa em sua pesquisa <em>Imagens e signos no corpo da umbanda</em>, financiada pela FAPESP. Para o pesquisador, a umbanda é ainda uma oportunidade excelente para refletir formas sociais e alternativas de resistência étnica e cultural.</p>
<p>“Ela oferece uma ocasião ímpar para aprender com os setores populares a relativizar o psicologismo e o individualismo, consagra o humano, pondo no seu panteão a totalidade de suas sutilezas, agradáveis ou não, um testemunho de uma ética singular, de vocação universal que propõe um sentido de inclusão psicológica e social, politicamente indócil a tentativas históricas e teóricas de manipulação”, avalia. Por todas essas características, a umbanda seria um lugar de excelência para abrigar as minorias despossuídas, em especial os negros, ainda que, como observa Pierucci, “afirmativamente afro e marcantemente popular, ela não se fechava etnicamente em sua negritude, mas se oferecia brasileiramente a todos os brasileiros”. Os números provam o oposto: os negros convertidos ao pentecostalismo se mostram em proporção muito maior (14,2%) do que os que se dizem adeptos das religiões dos orixás (3%). Já o Censo 2000 revelava que havia no Brasil cerca de 2 milhões de negros evangélicos diante de menos de 100 mil negros declarando-se adeptos dos cultos afro-brasileiros (66.398 na umbanda e 29.123 no candomblé). Estudar a umbanda e entender esses mecanismos torna-se, então, uma necessidade. “O crescimento aparentemente irrefreável das conversões às igrejas pentecostais e neopentecostais de raiz protestante está aí para mostrar que hoje no Brasil vivenciar uma religião implica romper com o próprio passado religioso. Nessas rupturas com mundos religiosos que antes pareciam bastar, mas de repente não mais, os adeuses são muitos. Entre eles, o adeus ao sincretismo umbandista que se supunha aderido com homóloga perfeição à identidade cultural brasileira”, avalia Pierucci. “Essa demonização dos orixás funciona, porque as pessoas têm medo. Com pastores sistematicamente na televisão ou no rádio dizendo que aquilo é o demônio, realmente as pessoas começam a achar que existem religiões demoníacas no Brasil.”</p>
<div id="attachment_1772" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="wp-image-1772" title="art4540img2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/02/art4540img2.jpg" alt="" width="290" /><p class="wp-caption-text">Meditação durante as cerimônias de imantação em terreiro carioca</p></div>
<p>Do apogeu à queda, passaram-se poucos anos para a umbanda. Para os seguidores da religião, a primeira manifestação da umbanda sem vínculos com o kardecismo ou com o candomblé ocorreu em São Gonçalo, no Rio, em 15 de novembro de 1908. Nesse dia, na Tenda Nossa Senhora da Piedade, o médium Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, recebeu o Caboclo Sete Encruzilhadas. Estava fundada a religião e o primeiro terreiro de umbanda, oficialmente reconhecidos dali em diante. Religião recente desenvolveu-se nos anos 1920, quando kardecistas de classe média, atraídos pelos espíritos de caboclos e pretos-velhos que se incorporavam nos terreiros de macumba cariocas, assumiram a liderança. Imediatamente extirparam dos cultos os rituais mais “primitivos” capazes de mexer com os pruridos das classes médias, moralizaram os “guias”, educando-os nos princípios da caridade cristã em leitura kardecista, racionalizaram as crenças e organizaram as primeiras federações que associaram terreiros até então fragmentados.</p>
<p>Já nas décadas de 1930 e 1940 começava a se disseminar pelo tecido urbano mais moderno do país, o das cidades grandes da região mais desenvolvida, o Sudeste. A perspectiva da construção de uma identidade nacional esteve sempre à mão entre os intelectuais, pelo menos desde a República, o que desde logo favoreceu toda uma boa vontade com a umbanda. Em 1941 chegaram a realizar o Primeiro Congresso Nacional de Umbanda, para afastar de vez o estigma da “macumba”. Nos anos 1960, os esforços foram recompensados e a religião foi reconhecida oficialmente no censo nacional. Festivais de umbanda começaram a ser incluídos nos calendários oficiais e nos anos 1970 era a fé de maior crescimento com uma população estimada em 20 milhões de fiéis. O refluxo iniciou-se na década de 1980 e não parou mais, em sintonia com o crescimento das seitas pentecostais. Essas se desenvolveram na esteira da crise metropolitana das últimas décadas, ocupando o espaço dos terreiros nas periferias. “Com o aumento da pobreza, as pessoas ou se apegam a religiões de práticas mais intensas, como as pentecostais, ou perdem a esperança e viram sem religião”, explica o antropólogo Ronaldo de Almeida, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).</p>
<p>A “teologia da prosperidade” da Igreja Universal fez do pobre um ator econômico e o tornou responsável por sua salvação. A umbanda, por sua vez, trabalha em registros mais “engajados” socialmente. “A justiça, vista pela ótica dos subalternos, dos despossuídos, marginalizados ou precariamente dispostos nos lugares sociais, aparece como um fundamento moral da prática mágica umbandista”, observa o sociólogo Lísias Nogueira Negrão, autor de <em>Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada</em> (1998).</p>
<p>Segundo o pesquisador, esta moralidade particular, que legitima a punição dos maus por suas vítimas, está distante da moralidade vigente burguesa. “Antes, é uma moral baseada no sentimento de justiça daqueles que vivem num meio competitivo, sem meios materiais necessários para enfrentar a luta cotidiana e superar os problemas. É uma ética pragmática, que não opõe valores abstratos às relações concretas restritivas, mas que as reconhecem e aceitam como são: cobranças e demandas.” Uma forma de ver o mundo que dá armas para seus “rivais”, colocando a religião em risco pela sua “demonização”.</p>
<p>Sem dúvida, nota Bairrão, em compromissos com estratégias de disfarce perante o dominante, os Exus e Pombagiras associam-se às trevas, não apenas de forma metafísica, mas, acima de tudo, nas facetas sociais e políticas. Os Exus comportam a função de dar cidadania ao recalcado, de simbolizá-lo miticamente, do ponto de vista psicológico e social. Assim, se o reino da “esquerda” da umbanda (dos espíritos “sem luz”) guarda o escondido, é igualmente indócil às tentativas de dominação. Para o pesquisador, a umbanda, ao fazer seus adeptos lidarem com lados mais obscuros, reforça sua força libertária de ensinar o funcionamento dos aspectos sociais e coletivos menos exibíveis e, por isso, mais verdadeiros. “A ‘esquerda’ umbandista não é o mal metafísico, mas o pessoal e socialmente ‘mal dito’: a sensualidade, a revolta, a crítica mordaz, as falas inconvenientes, a falta de hipocrisia e o prazer sem mordaças. É a guardiã de um bem precioso: a liberdade, encarnando um sentido social de resistência e vitalidade”, explica. Nesse contexto, os Exus não são maus, embora possam ser (mal) vistos, a resposta ao mal como expropriação de si em prol de um bem do outro.</p>
<p>Esse incentivo à “ação” está presente no cotidiano dos adeptos, mesmo em suas relações amorosas, como revela a pesquisa da antropóloga Kelly Hayes, da Universidade de Indiana, que acaba de lançar nos EUA <em>Holy harlots: femininity, sexuality, and black magic in Brazil </em>(University of California Press), um estudo sobre Pombagiras. “Elas são a corporificação da feminilidade transgressora, que é ao mesmo tempo desejável e mortal, o ‘lado negro’ do feminino. Talvez em nenhum outro lugar além do Brasil essa figura foi imbuída com o poder de vingar e cuidar”, diz Kelly. Segundo ela, a entidade é venerada pela população das classes trabalhadoras dos centros urbanos, em particular por mulheres e homossexuais. “Aqueles que recebem a Pombagira na possessão de um transe, sejam homens ou mulheres, são transformados por um tempo em rainhas ultrafemininas, sedutoras e prostitutas desbocadas. Sob o ‘disfarce’ da Pombagira, os possuídos ganham o poder das demandas sobre amantes e marido, alterando eventos sobre os quais, sem a entidade, teriam pouco ou nenhum controle”, conta.</p>
<div id="attachment_1773" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="wp-image-1773" title="art4540img3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/02/art4540img3.jpg" alt="" width="290" /><p class="wp-caption-text">Escultura com terço no cerimonial do Caboclo Sete Flechas</p></div>
<p>“Acredita-se que a Pombagira tenha uma experiência de vida muito rica e seus conselhos são valorizados pela compreensão de desejos e fantasias”, analisa o sociólogo Reginaldo Prandi, autor de <em>Pombagira e as faces inconfessas do Brasil </em>(1996). “Ela abre acesso aos instintos e desejos inconfessos e seu culto revela o lado ‘menos nobre’ da concepção popular de mundo, uma negação do estereótipo do brasileiro cordial. Com a Pombagira é guerra.” Não se trata, porém, de “coisa do diabo”. “A umbanda reconhece o mal como parte da natureza humana e o descaracteriza como maldade, pois é uma religião de liberação, e não do acobertamento das paixões humanas como os pentecostais”, analisa. Por isso, a pesquisadora acredita que o Exu feminino se adaptou muito bem ao país. “As brasileiras sofrem a pressão de ser, ao mesmo tempo, sexualmente atrativas e castas. Muitas mulheres internalizam esse conflito e sofrem por não saber como dar conta dele”, diz Kelly. Segundo a americana, esse dilema leva tanto à obsessão nacional pela cirurgia plástica, como à devoção da Pombagi-ra pelos populares. “Para quem não pode pagar um analista, a Pombagira permite que se possa conviver com impulsos e desejos não socialmente aceitáveis em seu meio.”</p>
<p>Assim, o transe daria “licença” para donas de casa fazerem coisas impensáveis em seu cotidiano, além de dar forças para desafiar maridos infiéis e violentos. Seria a Pombagira que exerceria a vingança. “A umbanda legitima para a mulher um mundo que rompe com as normas dominantes e dá uma linguagem moral e um repertório ritual que facilita para ela articular esses significados alternativos”, diz Kelly. Forma-se um “triângulo” entre mulher, Pombagira e marido, que se submete em face da nova força da esposa, redefinindo relacionamentos. “Isso permite às mulheres negociarem convenções patriarcais de gênero e sexualidade que as relegam a um lugar subordinado ao homem, limitando o poder feminino à esfera doméstica e estigmatizando a sexualidade da mulher, enquanto ao homem tudo se permite.” A figura da Pombagira mexeu com a cabeça dos homens, mesmo os intelectuais. “Foi a etnóloga Ruth Landes, em 1940, que assinalou pela primeira vez a presença de relações de gênero transgressoras nos cultos de possessão, com a formação de ‘matriarcados’ e uma maior exibição de homossexuais masculinos nos terreiros”, conta a antropóloga da Unicamp Patricia Birman, autora de <em>Transas e transes: sexo e gênero nos cultos afro-brasileiros </em>(2005). Até então, as casas de santo eram cuidadosamente preservadas por pesquisadores como Bastide e Arthur Ramos, vistas como uma harmonia social e moral que precisava ser defendida, uma visão politicamente correta que pretendia rebater o estigma dessas comunidades, que deveriam ser elevadas a um padrão que não assustasse os “brancos” e suas famílias.</p>
<table class="tabela_interna" style="width: 163px; height: 179px;" border="0" align="left">
<tbody>
<tr>
<td><strong>O projeto</strong></td>
</tr>
<tr>
<td><em><a href="http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-regulares/23566/imagens-signos-corpo-umbanda/" target="_blank">Imagens e signos no corpo da umbanda &#8211; nº 2007/04368-1</a></em></td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Modalidade</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Co­or­de­na­dor</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>José Francisco Bairrão – USP</td>
</tr>
<tr>
<td><strong>Investimento</strong></td>
</tr>
<tr>
<td>R$ 55.670,00 (fapesp)</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>“O horizonte moral orientava os estudiosos a valorizar a face reprodutiva das identidades femininas e a excluir os aspectos desviantes. O ideal da maternidade e a adequação às relações de gênero faziam das mulheres desses terreiros um tanto assexuadas, subordinadas à vida em família e à hierarquia patriarcal”, nota Patricia. Mulheres poderosas e homossexuais masculinos e femininos construíam famílias de santo, que seus defensores, intelectuais da elite brasileira, olhavam repetidamente com candura e romantismo, apagando diligentemente as marcas (em grande medida corporais), bem evidentes, em que sexo, gênero e poder tão facilmente se reuniam.” O quadro analítico só se modificou a partir de 1968. Mas nesse meio-tempo as Pombagiras continuavam a remexer o imaginário feminino. “Elas mudaram as relações de poder nas relações afetivas e sexuais. Afinal, o aliado invisível dá proteção e poder ao ‘cavalo’, cujo homem não tem as mesmas mediações espirituais. Ele se submete e se vê obrigado a um pacto com o ser invisível”, analisa a antropóloga Stefania Capone, autora de <em>A busca da África no candomblé: tradição e poder no Brasil </em>(Pallas). Reitera-se a marca “ativa” da umbanda e, ao mesmo tempo, sua faceta mais frágil diante dos ataques.</p>
<p>“No Brasil atual, um dos aspectos mais salientes da ‘força social’ que ainda tem um tipo determinado de religião está justamente na sua capacidade estatisticamente comprovada de dissolver antigas pertenças e dilapidar linhagens religiosas estabelecidas. Um <em>bye, bye,</em> Brasil!”, analisa Pierucci. Uma religião que, afirma, é destrutiva, predatória e que, de salvação individual, só cresce ao extrair membros das outras coletividades, que, uma vez individualizados, são engajados na criação de uma comunidade que só oferece laços religiosos. “Quer um solvente cultural universal? Pegue uma religião de tipo congregacional, receita Weber. ‘Pegue e pague’, hão de acrescentar nossos neopentecostais.”
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2011/10/084-089-188.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A força social da umbanda' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/10/01/a-forca-social-da-umbanda/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A força social da umbanda' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/10/01/a-forca-social-da-umbanda/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A força social da umbanda' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/10/01/a-forca-social-da-umbanda/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A força social da umbanda' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/10/01/a-forca-social-da-umbanda/' displayText='share'></span></p>
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		<item>
		<title>O Brasil político das entrelinhas</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Aug 2011 19:46:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria da Conceição Quinteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[A política do Brasil lúmpen e místico - José de Souza Martins]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-4424" title="livro71669" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/livro71669.jpg" alt="" width="193" height="270" />A melhor forma de entender o país é por suas anomalias</strong></p>
<p>José de Souza Martins propõe, neste livro, a compreensão do Brasil político pela perspectiva das anomalias constituintes da sociedade brasileira, consubstanciadas nos arcaísmos em coexistência com formas modernas, nas concepções, ideias e práticas sociais e políticas. São anomalias que nos distanciam dos modelos consagrados de análise política, como a da insidiosa presença da dominação patrimonial instituída um dia no interesse do latifúndio, a persistência da corrupção e a reiteração do trabalho escravizado por dívida no campo e na cidade. Sobretudo, conciliação e convivência políticas de práticas e concepções entre si opostas, como as da Igreja Católica, da grande tradição do pensamento conservador, que apoia e mediatiza reivindicações populares de caráter socialmente modernizador, enquanto grupos liberais, de centro-esquerda e de esquerda, comportam-se como conservadores. Nessa inversão, a dinâmica da sociedade brasileira se torna anômica na gestão política dos débitos sociais do passado, os particularismos sobrepondo-se à universalidade possível.</p>
<p>Nessa dinâmica de opostos, compreende-se que o PT, em parte gestado na tradição conservadora de setores da Igreja, e o PSDB, originário da tradição racional e moderna que nos vem de nossas revoluções republicanas, tenham trocado os papéis políticos e os respectivos projetos de Brasil. O país se debate entre a social-democracia populista de um e a social-democracia formal de outro. A matéria-prima do embate está nos novos sujeitos sociais e políticos que, na repressão aos partidos políticos, emergiram nos movimentos sociais durante o regime autoritário, à margem dos rótulos convencionais da tradição e da teoria. As populações historicamente marginalizadas e silenciadas no passado puseram na agenda política do país suas demandas reprimidas. O PSDB, no governo de Fernando Henrique Cardoso, optou por reconhecer nelas interlocutores legítimos e autônomos, como no caso da reforma agrária. O PT preferiu o aparelhamento de um eleitorado cativo, incorporando-os corporativamente. Eles se tornariam decisivos no nascimento do lulismo e na reeleição improvável de Lula em 2006, em face de um PT abatido pelas denúncias de corrupção relativas ao “mensalão”.</p>
<p>Essa cooptação fragilizou a sociedade civil, cuja impotência se constata, sobretudo nos episódios de corrupção. Os novos sujeitos cobram uma dívida histórica do Estado, demandam políticas compensatórias estranhas à concorrência e à competição do ideário republicano, pois vivem o atraso histórico dos valores e ideias pré-modernas e concebem a política como algo religioso. Seu advento é marcado por certo misticismo antipolítico. O populismo do governo Lula desencadeou amplo atendimento a essas demandas específicas. Ampliou um assistencialismo que bloqueia a transformação social.</p>
<p>Para chegar à compreensão sociológica desses dilemas, o autor adota a perspectiva de interpretação que define como a de “sociologia da história lenta”, leitura dos fatos que desvela a presença viva e ativa de estruturas fundamentais do passado: instituições, valores e concepções. No Brasil a mediação desse passado persistente e atrasado freia a mudança, ou a torna lenta, como nos é mostrado ao longo do livro.</p>
<p>Ressalte-se na obra de Martins o rigor sociológico e conceitual que imprime ao seu trabalho, o cuidado e a acuidade na observação dos fatos sociais e políticos, no que se vê e no que não se vê, no dito e no não dito. O seu rigor científico e sociológico pauta-se pela busca incessante do esmiuçar da origem, das determinações sócio-históricas e políticas dos processos em curso. Prima pelo uso pertinente dos conceitos, pois na análise sociológica a fundamentação conceitual é ponto fulcral que corrobora a veracidade ou induz ao erro na interpretação dos fenômenos sociais. Não se contenta com o aparente, com novas designações para velhas questões. Vai ao fundo, às raízes. Radicaliza na precisão conceitual.</p>
<p><strong>Maria da Conceição Quinteiro</strong> <em>é socióloga e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri/USP).</em>
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2011/08/094-186.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='O Brasil político das entrelinhas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/08/02/o-brasil-pol%c3%adtico-das-entrelinhas/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='O Brasil político das entrelinhas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/08/02/o-brasil-pol%c3%adtico-das-entrelinhas/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='O Brasil político das entrelinhas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/08/02/o-brasil-pol%c3%adtico-das-entrelinhas/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='O Brasil político das entrelinhas' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/08/02/o-brasil-pol%c3%adtico-das-entrelinhas/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Bastide e a alma do Brasil</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 19:41:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Impressões do Brasil - Roger Bastide]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Livro reúne artigos que formaram o pensamento do sociólogo francês</strong></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-6878" title="livro71576" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/livro71576.jpg" alt="" width="193" height="270" />Na formação da primeira geração de sociólogos brasileiros da Universidade de São Paulo, Roger Bastide (1898-1974) foi o mais influente dos professores estrangeiros que a instituíram, onde lecionou de 1938 a 1954. É marcante sua influência na sociologia brasileira até hoje.</p>
<p>A riqueza do pensamento de Bastide está exemplarmente contida neste belo livro de rememoração e homenagem, <em>Impressões do Brasil</em>, organizado e prefaciado por Fraya Frehse e Samuel Titan Jr., que reúne textos a duras penas garimpados em revistas e jornais. É um livro que expressa a densa e madura motivação que trouxe ao nosso país o pesquisador francês. Bastide, como ele mesmo disse, vinha de uma Europa saturada de razão e dela cansada. Interessava-se, por isso, pelo lugar social do que à razão escapava, nas estruturas sociais profundas, nos modos de ser e de pensar do homem comum, mas também na emoção da arte e nas elaborações do espírito. O Brasil era para ele o laboratório da descoberta de um lado da condição humana que a razão escondera e reprimira.</p>
<p>Foi autoridade em sociologia da religião e também na relação entre a sociologia e a psicanálise, tema de um de seus primeiros cursos na USP. Seus estudos sobre o sonho, com dados colhidos em São Paulo, numa pesquisa sobre o negro, levou-o a descobertas fundamentais nesse campo da sociologia, sobre o lado essencial e oculto da negritude. Com ele pode-se dizer que o verdadeiro e raro negro que subsiste entre nós não é o negro de pele, mas o negro que não foi separado de seus ancestrais pelo catolicismo da socialização maniqueísta para o cativeiro, o do abismo entre vivos e mortos. Nos sonhos dos negros por ele estudados a presença dos ancestrais é explicativa. Na mística do negro, não há cisão entre vigília e sonho, mas unidade, a do ser da identidade profunda. O primeiro estudo de <em>Impressões do Brasil</em> é justamente uma análise da relação entre arte e mística, a investigação e explicitação do social nas complexas obras do espírito.</p>
<p>Esse belo elenco de pequenas joias praticamente inaugurais da nossa sociologia é obra densa de um pesquisador erudito, aberto à indagação ampla sobre diferentes aspectos de nossa sociedade. Bastide veio para o Brasil a convite da USP cheio de curiosidade científica, com uma exemplar e incansável disposição para ver, indagar, aprender, decifrar, explicar. Sua cultura lhe permitia ver como cientista até mesmo o que parecia irrelevante traço da realidade social. Seu ensaio sobre “Igrejas barrocas e cavalinhos de pau” é a evidência de uma perspectiva sociológica atenta às conexões da diversidade de expressões do social, à mística da totalidade, à monumentalidade residual do banal, às heranças e permanências que escapam à fugidia concepção da sociedade como supressão da história, como presente atemporal. As significações, na sociologia bastidiana, são as significações da vida como permanente obra de arte.</p>
<p>O provocante ensaio sobre “Estética de São Paulo” é mais do que um convite a pensar a casa e o espaço na perspectiva sociológica. Bastide toma como referência a modernidade da Via Anchieta e destaca as revelações e os desafios interpretativos de uma simples viagem de carro de São Paulo a Santos, para uma digressão sobre o caráter relativo das formas, sobre o poder da persistência das estruturas sociais profundas, familistas, que estende às considerações sobre a verticalização da capital. Destaca aí as tensões da “cidade vertical contra a estrutura horizontal da família”. Nem lhe falta o interesse sociológico pelos significados da porta em nossa cultura, como lugar ritual da passagem, em suas “Variações sobre a porta barroca”.</p>
<p>Bastide ultrapassou a porta da sala de aula para falar ao grande público através dos jornais. Foi no jornal <em>O Estado de S. Paulo </em>que ele publicou, em cinco semanas, distribuído em capítulos, em 1948 e 1949, o revelador “Ensaio sobre uma estética afro-brasileira”, um dos capítulos mais impressionantes deste livro.</p>
<p><strong>José de Souza Martins</strong> <em>é professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, membro do Conselho Superior da Fapesp e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.</em>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Bastide e a alma do Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/bastide-e-a-alma-do-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Bastide e a alma do Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/bastide-e-a-alma-do-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Bastide e a alma do Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/bastide-e-a-alma-do-brasil/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Bastide e a alma do Brasil' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/bastide-e-a-alma-do-brasil/' displayText='share'></span></p>
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		<item>
		<title>As artes de Roger Bastide</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 19:23:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigos foram fundamentais para a formação do pensamento brasileiro]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright  wp-image-6870" title="art4449img1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/art4449img1.jpg" alt="" width="270" height="401" />Há 60 anos, o sociólogo “francês abrasileirado” (como o chamava Gilberto Freyre) Roger Bastide (1898-1974) realizou um sonho antigo, acalentado desde pouco depois de sua chegada ao país, em 1938, vindo como substituto do antropólogo Claude Lévi- -Strauss à frente da cadeira de sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Em dois dias plenos de cerimônia, entre 3 e 4 de agosto de 1951, Bastide foi iniciado no candomblé como filho de Xangô e passou a usar o colar de contas vermelho e branco com grande orgulho. Por um curioso paradoxo, a passagem religiosa foi o ápice de suas pesquisas científicas no Brasil e, ao mesmo tempo, expressão sincera do seu “encantamento” pelas descobertas. “A pesquisa científica exigia de mim a passagem preliminar pelo ritual de iniciação. Até a minha morte serei reconhecido a todas as Mães de Santo que me trataram como um filho branco e compreenderam, com seu dom superior de intuição, minha ânsia por novos alimentos culturais e pressentiram que meu pensamento cartesiano não suportaria as novas substâncias como verdadeiros alimentos”, escreveu em <em>Estudos afro-brasileiros</em>.</p>
<p>Chegou ao Brasil sem saber o que encontraria. “Partiremos em algumas horas e as gaivotas traçam sinos cabalísticos no céu”, escreveu a bordo do navio que o trazia aos trópicos, revelando o espírito aberto ao oculto, ao irracional. Aqui, deparou-se com uma questão complexa: gostaria de ser um intérprete do novo país, mas como fazer isso sendo um estrangeiro em busca da compreensão da “identidade brasileira”? Será seu encontro com os modernistas, em especial Mário de Andrade, que o ensinará a procura do “exótico do exótico” do “outro do outro”. Daí a importância de sua iniciação e, também, da sua inserção na discussão sobre as artes plásticas que os modernistas realizavam. “As artes plásticas, o folclore, o barroco ensinam a Bastide que a originalidade da cultura brasileira era seu hibridismo, a solução ímpar que aconteceu aqui com o cruzamento de civilizações distintas”, explica a antropóloga Fernanda Arêas Peixoto, professora da USP e autora de <em>Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide</em>. Do Bastide do candomblé muito se fala, mas o crítico de arte que arregaçou as mangas e saiu da universidade para os jornais é bem menos conhecido, apesar da importância de seus escritos para a compreensão de seu pensamento. Essa lacuna está sendo, aos poucos, preenchida, como revela o lançamento de <em>Impressões do Brasil (<a href="http://revistapesquisa.fapesp.br/?p=6877" target="_blank">ver resenha &#8220;Impressão do Brasil&#8221;</a>)</em>, livro recém-  -lançado pela Imprensa Oficial, que reúne 11 artigos que retratam o processo de ambientação intelectual do francês no país e seu envolvimento com a cultura nacional. “Essa paixão pelas artes e pelas letras não era um passatempo dominical de Bastide, mas uma disciplina estética que ele soube cultivar. Os textos revelam a inclusão crescente de temas brasileiros em seu repertório intelectual. E de como, com rapidez e profundidade, ele se enganou com a matéria brasileira, antiga e contemporânea”, avalia o professor de literatura da USP, Samuel Titan Jr., que, ao lado da socióloga Fraya Frehse, foi responsável pela organização dos artigos do livro, entre esses: “Machado de Assis, paisagista”; “Igrejas barrocas e cavalinhos de pau”; “Estética de São Paulo”; “Variações sobre a porta barroca”; “Arte e religião: o culto aos gêmeos”; entre outros.</p>
<p>Há ainda outras boas-novas. “Os estudiosos da obra de Bastide são, em geral, das ciências sociais. Apesar da eficiência desse fio de Ariadne para nos movimentarmos nos aspectos gerais da sua produção, a literatura abre ramificações próprias. Ele trouxe uma contribuição importante com o seu olhar estrangeiro e aberto, iluminando de uma forma diferente a nossa própria literatura”, acredita Glória Carneiro do Amaral, professora livre-docente aposentada da USP, atualmente pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, autora de <em>Navette literária França-Brasil: a crítica de Roger Bastide</em>, recém-editado pela Edusp em dois volumes que analisam as críticas literárias bastidianas e as reúnem pela primeira vez, muitas delas quase desconhecidas de pesquisadores de sua obra.</p>
<div id="attachment_6875" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-6875" title="088-091_Bastide_184" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2011/06/088-091_Bastide_184.jpg" alt="" width="290" height="307" /><p class="wp-caption-text">Noviça pintada pelo orixá</p></div>
<p>“Bastide pensou e escreveu sobre o Brasil à medida que o foi conhecendo. No exercício rotineiro da crítica jornalística, ele comenta as artes visuais e a literatura nacional, discutindo obras no calor da hora. A arte é lida por ele como forma de compreensão da cultura brasileira mais ampla, ligando-se à análise cultural. Foi a partir da matéria artística que ele pensou os processos de ‘aculturação literária’, a incorporação do negro à literatura e mestiçagem estética. O mesmo se deu em outros campos da arte. Ele praticou a interdisciplinaridade num momento em que isso não era praticado como hoje em dia”, analisa Fernanda Peixoto. “O Brasil que emerge das artes e da cultura popular é um Brasil mestiço do que Bastide se aproxima dos mais diversos ângulos. Ele deve ser visto como um elemento de ligação entre o meio universitário e o cenário intelectual mais amplo, representando, com esses textos, dentro da universidade, a articulação entre a academia e os jornais; entre a sociologia acadêmica, a crítica e o ensaísmo; entre as ciências sociais e o modernismo literário”, completa a pesquisadora. “Bastide se interessou a fundo pela nossa arte e pela nossa literatura, tornando-se crítico militante e um estudioso que pesou de maneira notável na interpretação de fatos, ideias e obras. Sua visão sociológica concorria para a ampliação das interpretações, sendo um dos raros estudiosos a usar com segurança e felicidade essa combinação difícil da sociologia e da crítica da arte”, escreveu o ex-aluno Antonio Candido em <em>Recortes</em>.</p>
<p>Mas não se trata aqui da “arte pela arte”. “Nas análises que fez sobre a produção artística brasileira, eruditas ou populares (folclore, artes plásticas e literatura), Bastide se concentrou na busca das marcas africanas que estariam impressas nessa produção ou, nas palavras dele, ‘buscamos a raça na trama da obra escrita’. O que essa produção revela é a presença de uma África em surdina, oprimida por modelos cultos europeus, exemplificando o drama do africanismo oprimido no país. Daí ele ter se voltado, ao mesmo tempo, para os escritos sobre arte e os estudos sobre as religiões afro-brasileiras que obrigam a redefinir suas análises anteriores”, observa Fernanda. “Se as manifestações artísticas o levam a ver o Brasil a partir de uma trama sincrética (a competição desigual entre a civilização europeia e a africana, que luta para impor seus valores e modelos), a religião trouxe a ele outro ângulo de observação”, continua. Segundo Bastide, nota a pesquisadora, os cultos afro-brasileiros seriam redutos privilegiados da reação, o polo de resistência africana e permitem que se possa “decantar” a África pela sua composição mestiça, uma forma nova de compreender a presença africana no Brasil. “Esse é o campo de observação de Bastide aqui: o triângulo África, Europa e Brasil, este último o lugar da barganha dos dois sistemas simbólicos, africano e europeu”, diz a professora. A religião teria o poder de inverter o sentido da equação sincrética, pois seria o lugar em que a contribuição negra é a base e, assim, oferece ao intérprete o caminho preferencial para entender a África no Brasil.</p>
<p>Mas por que a opção africana? O encontro entre Bastide e a África aconteceu em território brasileiro na sua primeira viagem ao Nordeste, em 1944. “Diante da fonte europeia e africana, que alimenta o misticismo brasileiro, ele vira sua atenção para a matriz africana. Isso não significa uma escolha, mas, pensa, a única opção segura para quem quer entender o caráter particular do misticismo nacional. Pode-se dizer que não é o intérprete que elege o mundo africano como objeto de reflexão, mas é a África que se impõe ao observador”, nota Fernanda. Afinal ela “penetra pelos ouvidos, pelo nariz e pela boca, bate no estômago, impõe seu ritmo ao corpo e ao espírito, obrigando-o a passar do estudo da mística das pedras e da madeira talhada para a religião dos pretos”, como escreveu Bastide em <em>Imagens do Nordeste em preto e branco</em>, “reportagem literária” feita pelo francês em 1944 a pedido da revista <em>O Cruzeiro</em>. “A civilização africana, nos termos de Bastide, é recriada no Brasil a partir (e apesar) do encontro entre as três civilizações. Assim, a África brasileira, longe de cópia de um modelo original, é reelaboração, um produto também híbrido. É uma África sincrética, composta de brancos e negros, como mostram seus estudos sobre arte e literatura. Para ele, o negro está ao mesmo tempo unido e separado na sociedade brasileira.”</p>
<div id="attachment_6872" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-6872" title="088-091_Bastide_184_06" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/088-091_Bastide_184_06.jpg" alt="" width="290" height="274" /><p class="wp-caption-text">Oxum</p></div>
<p>Assim, se Gilberto Freyre, referência fundamental para Bastide, ao lado dos modernistas e Florestan Fernandes (seu aluno e colega de pesquisas), estudou o sincretismo do ponto de vista da civilização brasileira, Bastide virou-se para as civilizações africanas, com isso, como escreveu, pretendendo “retomar o problema pelo outro lado da luneta”. O sincretismo bastidiano é, acima de tudo, sinônimo de resistência africana. Isso gerou críticas ao sociólogo, visto como passadista, um romântico em busca de purezas perdidas no tempo. “Se ele se esforça em isolar os universos africanos do amálgama mestiço, ao mesmo tempo está preocupado em entender como esses ‘nichos africanos’ se articulam na sociedade. A procura de ilhas africanas é inseparável da análise de relações, de aproximações e afastamentos”, nota Fernanda.</p>
<p>“O Brasil é um caso exemplar de interpenetração de civilizações a ser observado e produtor de teorias que Bastide irá usar, não apenas para entender as especificidades do Brasil, mas também para criar seu instrumental analítico e conceitual”, avisa Fernanda. “Bastide não era um sociólogo de gabinete, mas um intelectual que realizou detalhadas pesquisas etnográficas e históricas e seus textos têm o valor de reabilitar a cultura negra, agora vista como elaborada e plena de valores, recusando a perspectiva preconceituosa de autores brasileiros que o precederam”, observa o sociólogo Lísias Nogueira Negrão, professor titular da USP e autor de <em>Roger Bastide: do candomblé à umbanda. </em></p>
<p>“Para Bastide, olhar a África no Brasil implica obrigatoriamente o mo-vimento inverso: olhar o Brasil sincrético a partir da África, já que sem o termo africano é impossível pensar o país”, nota Fernanda Peixoto. Entre 1950 e 1951, esse raciocínio avançará em novas direções por causa do convite feito a Bastide pela Unesco para investigar as relações raciais no Brasil, já que então o país parecia, ao menos de longe, sofrer menos do que os outros os efeitos do preconceito racial e seria desejável entender as raízes dessa suposta harmonia. Bastide une-se ao ex-aluno Florestan Fernandes na tarefa e o diálogo entre os dois será fecundo ao pensamento bastidiano em sua fase final, em especial na avaliação dos nexos entre “novo” e “velho” na sociedade brasileira.</p>
<p>“O tom otimista das previsões de Florestan não encontra eco em Bastide, mesmo que ele considere notável a maior aceitação dos negros pelas novas gerações”, observa Fernanda. “Mas, para Bastide, a matriz da análise é dada pela persistência dos elementos da sociedade tradicional no mundo moderno, e não pela mudança. As dificuldades dos negros para se organizarem politicamente se dão nesse contexto em que não há ideologia da revolta. Fruto de uma ambivalência ideológica entre o orgulho de ser negro e a sensação de inferioridade, a adoção do ponto de vista branco.” Nisso, apesar das críticas que sofreu, Bastide não vê uma aversão ao moderno. Pelo contrário, como revela numa palestra feita em 1973 quando remete seu pensamento ao mito de Prometeu, torturado pelos deuses com um abutre ao dar o “fogo divino” do saber aos homens. “A civilização ocidental traz em seu mito de origem o progresso e a decadência, gerados pela mesma fonte. Não é possível, diz Bastide, refletir sobre a civilização e sobre a modernidade (Prometeu) sem incorporar a análise da antimodernidade (o abutre), faces de uma mesma moeda.”</p>
<p>Assim, segundo o francês, a exportação de valores para países do Terceiro Mundo (a generalização da modernidade) que levaria a uma homogenização do modelo ocidental não aconteceu. Bastide, então, questiona se haveria mesmo só um único modelo para alcançar a modernidade e se coloca em defesa das “modernidades diferenciadas”, fruto do que viu e observou no Brasil com a cultura africana. Foi um entusiasta dos movimentos jovens dos anos 1960, exemplos da contramodernidade produtiva: a contestação jovem à sociedade ocidental era feita tendo como modelo as formas arcaicas de sociabilidade reeditadas por <em>hippies </em>e outros. O que provaria a vitalidade dos modelos arcaicos, que logram sobreviver às revoluções mais violentas, refugiando-se em nichos. “Na produção de Bastide, mesmo depois de seu retorno à França, persiste o interesse pelas ‘Áfricas’ do mundo todo”, analisa Fernanda. Um pensamento forjado em terras baianas, como recorda Jorge Amado ao lembrar-se do amigo francês, que falava um português enviesado, em visita a um terreiro. “Como se entenderam o sociólogo francês e a mãe-  -pequena baiana, não sei até hoje; é para mim um mistério tão grande quanto o da Santíssima Trindade.”
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/088-091-184.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='As artes de Roger Bastide' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/as-artes-de-roger-bastide/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='As artes de Roger Bastide' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/as-artes-de-roger-bastide/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='As artes de Roger Bastide' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/as-artes-de-roger-bastide/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='As artes de Roger Bastide' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/23/as-artes-de-roger-bastide/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Entre família e vocação</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2011 18:09:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estratégias]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Obrigações familiares podem atrapalhar mais do que preconceito]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div>Combater a discriminação no ambiente acadêmico não é suficiente para ampliar a participação das mulheres em carreiras científicas –  pelo menos nos Estados Unidos. Dois pesquisadores da Universidade Cornell, Stephen Ceci e Wendy Williams, analisaram  20 anos de dados sobre a discriminação de gênero e  a situação das mulheres na ciência no país. Concluíram que a escassez de mulheres no topo de carreiras ligadas a ciências e engenharias é explicada mais por escolhas pessoais que elas foram obrigadas a fazer – como  ter filhos e cuidar da família – do que pela hostilidade  do ambiente.  Embora  a discriminação ocorra,  Ceci e Williams mostram que os incidentes são  raros. Segundo o estudo,  publicado na revista <em>Proceedings of National Academy of Sciences</em> (<em>PNAS</em>), homens e mulheres de  perfis semelhantes publicam trabalhos científicos  em quantidade e  qualidade parecidos e são contemplados com salários  e financiamento similares.  O que impede o avanço delas é o adiamento  da carreira para cuidar da família. Segundo os autores, a saída é criar políticas  capazes de atacar as  razões culturais que levam  as  mulheres a optar  pela vida pessoal em detrimento da vocação.</div>
<p>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Entre família e vocação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/03/14/entre-fam%c3%adlia-e-voca%c3%a7%c3%a3o/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Entre família e vocação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/03/14/entre-fam%c3%adlia-e-voca%c3%a7%c3%a3o/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Entre família e vocação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/03/14/entre-fam%c3%adlia-e-voca%c3%a7%c3%a3o/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Entre família e vocação' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/03/14/entre-fam%c3%adlia-e-voca%c3%a7%c3%a3o/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Fé na modernidade e pé na tábua</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Jan 2011 21:39:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Haag</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[A polêmica relação que o Brasil criou com o automóvel]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright  wp-image-9606" title="art4331img1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/art4331img1.jpg" alt="" width="290" />O automóvel tinha &#8220;acabado&#8221; de chegar ao Brasil, em 1892, com os irmãos Alberto e Henrique Santos-Dumont, quando, poucos anos depois, em 1903, se registrou um dos primeiros acidentes automobilísticos do país, envolvendo o abolicionista José do Patrocínio e seu amigo Olavo Bilac, para quem ele emprestara seu carro recém-chegado da França. Após tentar aprender a dirigir por alguns quilômetros e deixar muitos transeuntes em pânico, o poeta parnasiano &#8220;enfiou&#8221; o carro numa árvore. &#8220;Isso só aconteceu porque eu não fui batizado. Sem religião e com essas ruas vagabundas o progresso não é possível&#8221;, teria exclamado Patrocínio. A história é representativa do como se deu a introdução do automóvel no Brasil, transformado em força motriz do progresso nacional e fonte de poder e hierarquização para poucos durante décadas. &#8220;Para as elites, o carro era a ferramenta perfeita para conseguir o progresso com ordem. O automobilismo, nesse contexto, criaria um Brasil moderno e sem conflitos. Era um ícone do crescimento de um Estado democrático, desenvolvido e moderno&#8221;, explica o historiador e brasilianista Joel Wolfe, da Universidade de Massachusetts, Armherst, autor do livro recém-lançado <em>Autos and progress: the brazilian search for modernity</em> (Oxford University Press).</p>
<p>&#8220;Para alcançar isso, esse grupo não se preo­cupava com as realidades sociais, mas com a maximização do potencial do carro como veículo do progresso e da civilização. Havia todo um discurso simbólico que colocava o carro como uma representação moderna de um espírito empreendedor do passado, das bandeiras e dos bandeirantes, que promoveria uma espécie de comunhão com as nações modernas, em especial os Estados Unidos&#8221;, afirma o historiador Marco Sávio, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e autor de <em>A cidade e as máquinas</em> (Annablume/Fapemig). Assim, mesmo que fosse um bem de consumo ao qual apenas uma parcela ínfima da população tinha acesso, o carro mobilizou a atenção dos poderes públicos e de largas fatias do orçamento em prol do asfalto nas cidades e das estradas de rodagem. &#8220;Era um reflexo dos interesses de um pequeno grupo de pessoas que queria desfrutar do prazer de dirigir, uma ideia de sociedade automotiva onde os deslocamentos eram livres de qualquer impedimento&#8221;, analisa Sávio. Era a chamada &#8220;utopia possível&#8221;, nos dizeres do prefeito paulistano Firmiano Pinto, que já nos anos 1920 defendia o asfaltamento de São Paulo para abrigar os carros, ainda que fossem poucos, em detrimento das necessidades mais prementes da sociedade.</p>
<p>&#8220;Era o ideal de uma sociedade sem conflitos, em que a livre circulação é o símbolo maior de <em>status</em> e liberdade. Os motoristas dessa elite se davam ao direito de transitar acima do bem e do mal, uma amoralidade abjeta que causava mortes. Era o privilégio da máquina acima dos direitos a outras formas de uso do espaço público&#8221;, diz o pesquisador da UFU. Aqui, novamente as &#8220;lições&#8221; do acidente de Bilac, totalmente alheio às pessoas ao seu redor, confortável em sua posição &#8220;superior&#8221; de motorista, e da ira de Patrocínio pela &#8220;culpa&#8221; das autoridades que não deram a ele as tão &#8220;fundamentais&#8221; condições de rodar sem ser detido por nada. &#8220;Criou-se, desde então, um padrão baseado numa ideia de domínio e de direito natural e incontestável de usar os espaços da cidade para o trânsito, com o poder de usar a força sempre que algo interromper o direito sagrado ao tráfego livre e desimpedido&#8221;, nota Sávio.</p>
<p>&#8220;É notável que o automóvel tenha sido reinventado com um instrumento de nivelamento nos Estados Unidos, mas que, no Brasil, tenha ficado muito mais marcado como um elemento de distinção, indicando uma intrincada escala de inferioridade ou superioridade social&#8221;, observa o antropólogo Roberto Da Matta, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e autor da pesquisa Igualdade no Trânsito, agora transformada no livro <em>Fé em Deus e pé na tábua: como e por que o trânsito enlouquece no Brasil</em> (Rocco). &#8220;Os comportamentos bárbaros no trânsito resultam menos de questões de obras e melhorias materiais que do fato de que todos se sentem especiais, superiores e com direitos a regalias e prioridades que justificam o desleixo e a impaciência para com a norma geral materializada num sinal e numa faixa de pedestres&#8221;, observa. &#8220;O automóvel é uma opção que está em harmonia com o estilo aristocrático de evitar o contato com a plebe ignara, o povo pobre, chulo e comum, desde os tempos das liteiras e dos palanquins. A nossa preferência por formas individualizadas de transporte representa um retrocesso. Por outro lado, a onda desenvolvimentista de meados do século XX permitiu-nos os delírios de sermos donos de um carro como coroamento do sucesso indivi­dual. Fomos para a individualização dos meios de transporte pensando apenas na sua dimensão individual e deixamos de lado as normas e os requerimentos coletivos.&#8221; Para o antropólogo, há a ausência histórica, que data da forma como o automóvel foi introduzido no país, de uma plena consciência igualitária, fruto de vícios coloniais, justamente num espaço que a modernidade, supostamente adquirida com o carro, exige que seja marcado e construído pela igualdade. &#8220;É esse choque de expectativas hierárquicas: quem se vê como &#8216;mais rico&#8217; tem um carro &#8216;mais caro&#8217;, é &#8216;branco&#8217;etc. e, assim, espera o reconhecimento de sua superioridade, em choque com a imposição da igualdade, que vale para todos e demarca o universo da &#8216;rua&#8217;. Isso é o que produz a sensação geral de caos e estresse no nosso trânsito&#8221;, diz.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-9608" title="art4331img3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/art4331img3-300x183.jpg" alt="" width="300" height="183" />Segundo Da Matta, o paradoxo que aumenta o nosso &#8220;estresse&#8221; é que nenhum &#8220;jeitinho&#8221; pode ser dado e nada podemos fazer para ultrapassar a igualdade que constrói o ambiente público no qual circulamos quando deixamos nossas casas. &#8220;Culpamos o governo e, assim, jogamos fora todo um processo de aprendizado de paciência que melhoraria nosso comportamento nessa área&#8221;, analisa. Surgem Bilac e Patrocínio novamente, mesmo quando se misturam religião e gasolina. &#8220;Daí o &#8216;fé em Deus e pé na tábua&#8217;. Este último evidencia o lado mais típico de nossa conduta pública, o sinalizador do desejo individual que representa a pressa e a impaciência ao ter o caminho obstruído por uma multidão de desconhecidos. Esses outros que não aceitamos como iguais e que são &#8216;obstáculos&#8217; em nosso trajeto. Essa é uma visão de nós mesmos como seres especiais, dotados de posição singular e, até prova em contrário, elevada e protegida no sistema, por termos um elo íntimo com o Ser Supremo&#8221;, diz o antropólogo. &#8220;O automobilismo ganhou, no Brasil, qualidades de uma ideologia, uma promessa de curar todos os males nacionais. Pela primeira vez na história brasileira a tecnologia foi abraçada como um instrumento de transformação econômica, política e social da sociedade. Essa tecnologia serviria para quebrar as barreiras da integração nacional de forma pacífica e ordeira. O carro iria destruir os obstáculos ao desenvolvimento capitalista e fornecer as bases para a criação de uma verdadeira cultura brasileira e identidade&#8221;, diz o brasilianista Joel Wolfe.</p>
<p>&#8220;O automóvel chegou ao Brasil e se consolidou por aqui como uma grande conquista da civilização, a vitória da ciência humana sobre a natureza. Isso funcionou especialmente bem para a elite paulista, para quem o carro deveria cumprir um papel-chave na conclusão da história da conquista bandeirante, uma segunda etapa de construção da nação brasileira, agora não mais pelo território, mas civilizando, por meio da presença do automóvel e da estrada de rodagem&#8221;, afirma Sávio. Era o &#8220;neobandeirismo&#8221;, onde se destaca a figura de Washington Luís, prefeito e governador de São Paulo e autor da famosa frase &#8220;Governar é abrir estradas&#8221;. Ele investiu na modernização da infraestrutura de transportes, construindo 1.326 quilômetros de novas estradas, levando esse amor pelas &#8220;boas estradas&#8221; quando assumiu a Presidência da República em 1926. &#8220;Com ele e a elite paulista, o automóvel virou algo mais do que um meio alternativo de transporte, se transformando num paradigma de &#8216;ser paulista&#8217;. A mentalidade geral desses homens defendia a superação do &#8216;atraso&#8217; nacional e estadual com a construção de estradas que possibilitassem uma ligação rápida do interior com a capital, de forma que todo o poder e a riqueza da civilização paulista pudessem influenciar a transformação do interior do Brasil&#8221;, continua Sávio. &#8220;Curiosamente, a elite do café, que se beneficiava muito com a ligação da infraestrutura nacional à economia de exportação, popularizava perigosamente as máquinas, que, em pouco tempo, desafiaram o modelo econômico liberal. Afinal, o carro abria a possibilidade de, pela primeira vez, se unificar a nação e, com isso, abalar a predominância do estado paulista frente ao Estado&#8221;, diz Wolfe. Reveladora dessa nova tendência, aberta pelo culto ao automóvel, foi a Lei de Estradas Federais, criada em 1927.</p>
<p>&#8220;Essa lei encorajava os estados a solicitar verbas do governo federal para a construção de estradas, com a condição de que essas fizessem parte de um sistema nacional de rodagem. Era mais uma novidade que ia de encontro à longa tradição republicana de <em>laissez-faire</em> econômico. O carro, aos poucos, abria caminho para um Estado centralizado&#8221;, continua o brasilianista. Para tanto contribuíram as empresas norte-americanas automobilísticas que vieram se estabelecer no país, como a Ford e a General Motors. &#8220;Elas eram vistas como instrumentos necessários de progresso, capazes de transformar imigrantes desordeiros do exterior e do campo numa classe trabalhadora disciplinada que transformaria o país.&#8221; Ou como escreveu o próprio Henry Ford em <em>Hoje e amanhã</em>: &#8220;O automóvel fará uma grande nação do Brasil. Os nativos, embora alheios ao maquinário e a qualquer forma de disciplina, irão logo assimilar o mundo da linha de montagem&#8221;. &#8220;Ao encorajar o transporte por carro pelo interior do Brasil, as companhias norte-americanas ajudaram a mudar a geografia mental do país. E estimularam a construção de estradas tendo como meta aumentar a demanda por veículos, que deveria ser expandida para toda a nação&#8221;, explica Wolfe.</p>
<p>&#8220;A estratégia da Ford do Brasil sempre foi difundir a ideia de que possuía um carro funcional e que era a resposta ideal para as condições do país, sempre ligando sua marca com a questão premente da estrada de rodagem. Esses conceitos soavam como música para a elite de um Estado com pouquíssimas estradas em condições ideais para a prática do automobilismo&#8221;, completa Sávio. Ao mesmo tempo, a propaganda dessas companhias reforçava a modernização conservadora do automóvel, movida pela hierarquização da sociedade, em que mesmo os proprietários de carro menos valiosos, como o modelo T, da Ford, começavam a ser considerados como uma classe inferior de cidadãos, acima apenas da imensa massa de pedestres que sofria com a ameaça do trânsito caótico. &#8220;Quase me atiro sob as rodas de um auto. Era um Ford. Não quis. Morte muito ordinária&#8221;, explicou o personagem suicida de <em>Automóvel de luxo</em> (1926), livro do modernista Mário Graciotti.</p>
<p><img class="alignright  wp-image-9607" title="art4331img2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/art4331img2.jpg" alt="" width="290" />Segundo Sávio, esses eram frutos de um movimento iniciado a partir de 1909, em São Paulo, quando os projetos de transporte passaram a refletir mais os anseios de um pequeno grupo para que o automóvel passasse a assumir o lugar que um dia foi do bonde como centro de preocupações do transporte. &#8220;A aparição de organismos como o Automóvel Club de São Paulo, em 1908, que congregava os cidadãos mais importantes do estado, ajudou a relegar o transporte coletivo a um segundo plano. O bonde, por exemplo, era visto como um meio &#8216;inadequado&#8217;, já que colocava, lado a lado, membros de classes separadas que sempre se segregaram.&#8221; As pressões desse grupo cresciam não apenas contra os bondes, mas também contra as ferrovias, até então aclamadas como força de progresso para a economia cafeeira. &#8220;A situação era ainda pior para os pedestres, contra os quais era legítimo usar da força e da violência para que saíssem das ruas, tornando-as livres para o tráfego.&#8221; O bem comum, assim, nunca esteve nas preocupações dessas elites, que, conta o pesquisador, viam o espaço público como extensão do espaço privado e respondiam apenas a anseios de grupos que promoveram a construção de uma complexa infraestrutura dedicada ao carro, sem criarem contrapartidas para os grupos que tiveram suas vidas afetadas pelo novo meio de transporte. Ao final dos anos 1920, os veículos passaram a ser os senhores absolutos das ruas e os pedestres eram &#8220;empecilhos da utopia possível&#8221;, invasores. O passado, histórico, reforça os problemas presentes. &#8220;Com a chegada do automóvel, esse virou dominante, algo que é coerente com o modelo dos segmentos aristocráticos brasileiros, que, tendo o carro, abandonam o bonde e o trem, reiterando um desdém pelo transporte público e reiterando o nosso viés hierárquico&#8221;, analisa Da Matta. &#8220;No Brasil retomamos o uso da liteira quando adotamos o uso do transporte individual. Foi como ficamos modernos e parecidos com os americanos e permanecemos fiéis ao nosso gosto por um espaço construído hierarquicamente. Fizemos a ginástica de adotar os carros, mas não ensinamos os motoristas a internalizar normas.&#8221;</p>
<p>Por isso, continua o pesquisador, a parada obrigatória, a espera por outro veículo ou pedestre é um sinal de &#8220;perda de tempo&#8221;, já que a igualdade é sempre vivida como inferioridade no Brasil. &#8220;Entre nós o verbo &#8216;respeitar&#8217; conota escolha ou opção (sendo mais indicado para quem se pensa como superior); e o verbo &#8216;obedecer&#8217; é compulsório (sendo aplicado a quem se pensa ou é imaginado como inferior). Afinal, como se diz por aí: &#8216;Manda quem pode, obedece quem tem juízo!&#8217;. Esse verbo &#8216;respeitar&#8217;, aplicado a sinais, pessoas, pedestres e outros veículos no trânsito, revela o lado opcional de uma sociedade que até hoje tem se recusado a encarar a igualdade como um princípio da democracia&#8221;, diz Da Matta. O resultado desse choque entre igualdade e desigualdade, continua o antropólogo, explica o uso frequente do &#8220;salve-se-quem-puder&#8221;. &#8220;Em vez de esperar pela nossa vez, apelamos para o &#8216;Você sabe com quem está falando?&#8217; e tentamos sair da situação de &#8216;qualquer jeito&#8217;. Seja subindo na calçada sem pensar nos outros carros, sinais, faixas e pedestres; seja criando uma via extra; seja resmungando alto e discutindo inutilmente com os condutores dos veículos situados à nossa frente que, por sua vez, estão também gritando e reclamando&#8221;, analisa. &#8220;Ou seja: hierarquizamos por conta própria e violentamente, &#8216;na marra&#8217;, o espaço público por meio de uma ação pessoal, agressiva, sem pensarmos nas suas consequências, seja porque estamos estressados com a situação que nos faz perder tempo ou impedidos de chegar ao nosso destino.&#8221; Nesse embate hierárquico, de raízes antigas, a força da lei é relativa. &#8220;A presença do guarda faz nascer as atitudes igualitárias; sua ausência traz de volta a ideia do mais ou menos, da gradação e das velhas precedências hierarquizadas. É a percepção da infração como norma e que está ligada à impunidade e também à certeza de que certas pessoas são punidas e outras não&#8221;, diz.</p>
<p>A ausência de paciência relativamente ao outro é inegável, nota o pesquisador. Ela nasce desse sentimento de superioridade, de acordo com o qual todos devem nos compreen­der e respeitar, mas a recíproca não é absolutamente verdadeira. &#8220;Se o nosso carro enguiça e promove um congestionamento; se encontramos um velho amigo dirigindo ao nosso lado e batemos um papo; se paramos na porta da escola para nossos filhos, não tem problema, pois os outros são invisíveis, não estamos atrapalhando ninguém, mas realizando algo normal (e legítimo). Daí nossa indignação quando alguém buzina e chama nossa atenção para o abuso; daí a nossa repulsa com a &#8216;falta de educação&#8217; de quem reclama e deveria compreender e esperar não por sua vez, mas por nós.&#8221; Mas quando nos transformamos no &#8220;outro&#8221; tudo muda de figura. &#8220;A ausência de paciência, a pressa tão amiga da imprudência e irmã do acidente, faz parte do estilo brasileiro de dirigir. Ela trai a consciên­cia e a incapacidade para negociar cordialmente e põe a nu a incapacidade que revela a ausência de uma educação, de uma preparação para a igualdade&#8221;, avalia o antropólogo. Outro elemento expressivo desse esquema, segundo Da Matta, é a forte identificação mental ou psicológica entre o condutor e o veículo. Isso, aliás, revela o que está na raiz da falta de espaço no trânsito para a circulação de carros que ocupam uma área significativa quando transportam apenas uma pessoa, um supercidadão que fica encastelado em seu mundo. Assim, o carro vira um instrumento de projeção da personalidade do seu dono e um índice de ascensão social e capacidade de consumo: uma ofensa ao automóvel equivale a uma ofensa ao seu motorista. &#8220;Assim, um leve esbarrão involuntário ou uma colisão sempre é ponto de partida para &#8216;cenas&#8217; e jamais como aquilo que é um evento promovido pelo acaso: um acidente. Daí a atitude inicial do drama de qualquer colisão é estabelecer uma &#8216;culpa&#8217; com coação social ou física agressiva e o famoso &#8216;Você sabe com quem está falando?&#8217;.&#8221; Provavelmente o que Bilac e Patrocínio diriam se, em 1903, uma autoridade questionasse o que o carro fazia na árvore.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/080-085-179.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Fé na modernidade e pé na tábua' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/31/f%c3%a9-na-modernidade-e-p%c3%a9-na-t%c3%a1bua/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Fé na modernidade e pé na tábua' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/31/f%c3%a9-na-modernidade-e-p%c3%a9-na-t%c3%a1bua/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Fé na modernidade e pé na tábua' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/31/f%c3%a9-na-modernidade-e-p%c3%a9-na-t%c3%a1bua/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Fé na modernidade e pé na tábua' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/31/f%c3%a9-na-modernidade-e-p%c3%a9-na-t%c3%a1bua/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A pobreza que olha para os lados</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Jan 2011 16:47:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel de Santis Feltran</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Redes sociais, segregação e pobreza - Eduardo Marques]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>As relações entre redes sociais de indivíduos e condições de pobreza</strong></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-9496" title="livro6990" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/livro6990.jpg" alt="" width="196" height="278" />Os padrões de sociabilidade e as condições de vida das camadas mais pobres da população, no Brasil, têm sido marcados por transformações muito intensas nas últimas quatro décadas. Nesse período, os mercados de trabalho populares se reconfiguraram inteiramente, na esteira da chamada &#8220;reestruturação produtiva&#8221;. Simultaneamente, declinou a migração ao Sudeste, fundadora dos territórios de moradia popular nas metrópoles, e se consolidou a inscrição das mulheres no mercado de trabalho, o que desloca decisivamente as relações de gênero domésticas. Imersa nessas transformações, a família popular tendeu à nucleação, em arranjos muito heterogêneos. No plano religioso, e especialmente entre os mais pobres, o trânsito do catolicismo ao pentecostalismo foi também muito notável. Além disso, o acesso à infraestrutura urbana, aos serviços fundamentais e bens de consumo cresceu muito desde os anos 1970 e, embora ainda deficiente, possibilitou outros modos de inserção das novas gerações na cidade. Da mesma forma, as dinâmicas da criminalidade urbana se alteraram radicalmente nesse período e, com elas, os modos da disposição e gestão da violência nos territórios. Em suma, as categorias centrais das análises sociológicas sobre os pobres urbanos – o trabalho, a migração, a família, as políticas sociais e urbanas, a religião e a violência – estão hoje muito longe de ser o que foram.</p>
<p>À luz desse cenário de deslocamentos nada triviais, a literatura acadêmica sobre os temas em questão tem sido saudavelmente renovada. O livro <em>Redes sociais, segregação e pobreza</em>, de Eduar­do Marques, vem a público já como referência fundamental nesse processo de renovação analítica. O autor – professor do Departamento de Ciência Política da USP e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole, do qual já foi diretor – apresenta ao leitor os resultados de uma pesquisa empírica inovadora, e de muito fôlego, sobre as relações entre <em>redes sociais de indivíduos e condições de pobreza urbana</em>. Com ênfase no caso paulistano, o estudo dedica-se a mapear as redes sociais de centenas de indivíduos em diferentes situações de pobreza e segregação espacial na cidade. Se este mapeamento já contribui decisivamente para demonstrar a enorme heterogeneidade intrínseca às pobrezas contemporâneas e a necessária ruptura analítica com as teses economicistas ou macroestruturais, essa é só a contribuição inicial do volume. Um estudo qualitativo complementar, realizado a partir do mapeamento das redes pessoais, contribui ainda para desvelar alguns dos <em>mecanismos causais</em> implicados tanto na <em>variabilidade das redes</em> quanto nos seus diferentes padrões ao longo dos ciclos de vida.</p>
<p>A análise criteriosa dos resultados obtidos em campo permite a Eduardo Marques dialogar tanto com as formas tradicionais de interpretar a pobreza (renda, ocupação, condições de moradia etc.) quanto com novos e promissores parâmetros para pensá-la no país (acesso a bens e serviços obtidos em mercados, fora de mercados, padrões de trocas e ajudas entre indivíduos e grupos etc.). Nesse diálogo reforça-se invariavelmente a importância da<em>sociabilidade</em> para a compreensão da pobreza contemporânea. Ao final da leitura do livro, resta ao leitor especialista um olhar admirado ante a originalidade da proposta teórica e metodológica, que no entanto não dispensa a tradição do pensamento da questão urbana e das desigualdades sociais no Brasil; a qualquer leitor interessado, seguramente, restará o enriquecimento provocado pelo contato com resultados empíricos muitas vezes contraintuitivos, que desmistificam uma série de teses apressadas sobre as causas e as características da pobreza contemporânea. O livro de Eduardo Marques é, assim, uma contribuição fundamental tanto para o debate acadêmico sobre pobreza e segregação quanto para a formulação de políticas que visem a sua mitigação.</p>
<p><strong>Gabriel de Santis Feltran</strong> <em>é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).</em>
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/05/094-179.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A pobreza que olha para os lados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/30/a-pobreza-que-olha-para-os-lados/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A pobreza que olha para os lados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/30/a-pobreza-que-olha-para-os-lados/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A pobreza que olha para os lados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/30/a-pobreza-que-olha-para-os-lados/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A pobreza que olha para os lados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/30/a-pobreza-que-olha-para-os-lados/' displayText='share'></span></p>
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		<title>A Bahia tão dessemelhante</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Dec 2010 19:16:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joselia Aguiar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Pesquisa feita nos EUA revela riqueza cultural soteropolitana]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9981" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-9981" title="art4314img2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/art4314img2.jpg" alt="" width="290" height="404" /><p class="wp-caption-text">Elevador Lacerda, 1928-1930</p></div>
<p>Na década de 1950, o então luxuoso Hotel da Bahia é inaugurado no centro de Salvador para acolher principalmente os turistas estrangeiros. Em sua parede, um grande mural do pintor Genaro de Carvalho (1926-1971), chamado de <em>Festas regionais</em>, apresenta uma cena que podia ser observada nas ruas daquela terra &#8220;histórica e pitoresca&#8221;, como a descreveu o artista na época à imprensa local. Na tela há as famosas baianas de acarajé, mulheres vestidas com roupa branca suntuosa, panos e turbante, como no século XIX, que lavam a escadaria da igreja do Bonfim sob a proteção de Iemanjá, orixá do candomblé. Esse episódio – o hotel, o mural, a declaração do pintor – sintetiza, para a historiadora americana Anadelia A. Romo, da Universidade do Texas, uma das principais tensões observadas na sociedade baiana, não só naquele tempo mas também hoje, em 2010: as tradições, vistas como apaziguadas e estáticas, estão vivas num dia a dia que é, porém, urbano, dinâmico e desigual.</p>
<p>Sem dúvida, essa Bahia tradicional, tal como é pintada pelo mestre Genaro, é a que se vê nos principais pontos turísticos e a divulgada pelas agências e guias de viagem. A história de como se configura essa imagem, entre 1888 e 1964, é contada por Anadelia em <em>Brazil&#8217;s living museum – Race, reform, and tradition in Bahia</em> (em tradução livre, &#8220;O museu vivo do Brasil – Raça, reforma e tradição na Bahia&#8221;), obra publicada pela editora da Universidade da Carolina do Norte. A pesquisa começou quando ela ainda era estudante de graduação na Universidade Princeton e foi aluna do historiador baiano João José Reis, então professor visitante. Por mais de uma década o interesse persistiu, e o seu estudo incluiu diversas visitas aqui para pesquisar em arquivos brasileiros. Anadelia concluiu seu Ph.D. em história pela Universidade Harvard e hoje é professora na área de América Latina da Universidade do Texas.</p>
<p>E a quem interessa essa imagem de &#8220;museu vivo&#8221;? Como explica a pesquisadora, vários setores se apropriaram e se beneficiaram dele. Reforçar os laços africanos contribuiu, por exemplo, para fortalecer a identidade de grande parte da população afrodescendente. &#8220;Não foi um processo fácil, dada a discriminação racial e cultural que existe e é secular&#8221;, diz. A tensão, no entanto, permanece. &#8220;Afinal, isso não se traduziu em maior igualdade e é um dos problemas centrais que abordo no livro.&#8221; Se, por um lado, a cultura afro-baiana é incorporada pelo discurso oficial, por outro seus habitantes têm sofrido no decorrer do século por causa da negligência do Estado em lhes oferecer bem-estar, mobilidade social e acesso a saúde e educação, como descreve a pesquisadora.</p>
<p>A Bahia que vive dias de esplendor até o século XIX inicia o século XX em profundo imobilismo – um período de desgraça econômica que, nos anos 1930, foi descrito por intelectuais locais como &#8220;o enigma baiano&#8221;. O mistério de tal ostracismo é mais tarde analisado em profundidade pela historiadora Kátia de Queirós Mattoso, em seu livro <em>Bahia século XIX – Uma província no Império</em> (Nova Fronteira), resultado de sua tese de doutorado na Sorbonne: após a defesa, seria a primeira titular da cadeira de história do Brasil daquela universidade francesa.</p>
<p>Essa Bahia negra e mulata, pobre e quieta, ainda sem as marcas do progresso, é então remodelada a partir de novas formulações de raça e cultura, como descreve Anadelia A. Romo. A presença cultural africana – estima-se em 4 milhões o número de escravos trazidos principalmente para Salvador e outras cidades do Recôncavo Baiano – logo se torna um dos atrativos para turistas de outros pontos do país e do exterior. E vai inspirar artistas, compositores e escritores baianos e de outras partes. Jorge Amado foi o criador que mais exaltou a cidade em sua obra, mas a imagem da Bahia como, em resumo, um lugar místico e incomum também se propagou com a contribuição de compositores como Dorival Caymmi, igualmente baiano, e Ary Barroso, mineiro; pintores como Carybé, argentino; e o etnofotógrafo Pierre Verger, francês.</p>
<p>A ideia de que existia uma &#8220;democracia racial&#8221; na Bahia – na comparação com o modelo americano da época, extremamente estratificado – começa a atrair pesquisadores estrangeiros já na década de 1930. Sob a coordenação da Unesco, uma grande pesquisa é iniciada no começo dos anos  1950 – é quando entra em cena intelectuais como o paulista Florestan Fernandes, para quem o racismo se esconde sob a aparência da mistura. &#8220;O que é interessante observar é que a &#8216;democracia racial&#8217; passa a ser rejeitada por acadêmicos do sul do país, como São Paulo, mas muitos deles na Bahia continuam a defendê-la, como se a Bahia fosse uma exceção&#8221;, diz a pesquisadora americana, que está dedicada agora ao estudo do intercâmbio entre os antropólogos brasileiros e americanos.</p>
<p>A partir da década de 1970, a visão de que há um &#8220;paraíso racial&#8221; foi trocada por outra, a de que há um &#8220;inferno racial&#8221;, como diz o antropólogo Jocélio Teles dos Santos, diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais e professor da Universidade Federal da Bahia, autor de, entre outros, do livro <em>O poder da cultura e a cultura no poder: a disputa simbólica da herança cultural negra no Brasil</em> (Edufba). Segundo ele, via-se aqui uma América portuguesa católica e tolerante em oposição à América protestante e déspota, que eram os Estados Unidos. &#8220;Nas últimas décadas ocorre a politização cada vez mais crescente e surge a cultura da reivindicação&#8221;, diz. O curioso é que o paradoxo se mantém, acrescenta o pesquisador. Os governos que se sucedem – à direita ou à esquerda – reforçam a ideia de uma Bahia tradicional, ligada à africanidade, e ao mesmo tempo existem ainda necessidades não atendidas de políticas públicas ante as desigualdades raciais.</p>
<p>O interesse de historiadores norte-americanos pela Bahia é muito grande e crescente, sobretudo para aqueles que pesquisam escravidão e história cultural do negro, como afirma o historiador João José Reis, professor da Universidade Federal da Bahia e autor de livros pioneiros, como <em>Rebelião escrava no Brasil, A morte é uma festa e A invenção da liberdade</em>, editados pela Companhia das Letras. &#8220;Essa história de &#8216;democracia racial&#8217; é um pouco velha. O negro brasileiro – o baiano incluído –, e não só o negro, mas também os antirracistas em geral, desejam que se torne realidade, mas não é. Basta ver a última campanha de ódio contra os nordestinos recentemente na internet. É o mesmo caldo cultural do racismo&#8221;, lembra o historiador.</p>
<p>João José Reis conta que os baianos já se acostumaram com a ideia de uma Bahia fortemente &#8220;africana&#8221;: comem acarajé, dançam ao som do Olodum e da Timbalada, vestem-se de branco na sexta-feira. Ali não existem grupos organizados de supostos brancos que preguem a supremacia racial, como ocorre em outras partes do país. As cotas foram adotadas nas nossas universidades públicas baianas sem o conflito racial previsto por antropólogos e parte da mídia. &#8220;A Bahia é, porém, racista como o resto do Brasil, só que de maneira menos organizada. Toda hora aparece denúncia de racismo na imprensa, a matança de jovens negros da periferia é como se fosse um dado natural, são os negros que estão nas ruas como pedintes, loucos. São raros os negros entre a elite local&#8221;, diz.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/088-091-178.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='A Bahia tão dessemelhante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/06/a-bahia-t%c3%a3o-dessemelhante/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='A Bahia tão dessemelhante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/06/a-bahia-t%c3%a3o-dessemelhante/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='A Bahia tão dessemelhante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/06/a-bahia-t%c3%a3o-dessemelhante/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='A Bahia tão dessemelhante' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/06/a-bahia-t%c3%a3o-dessemelhante/' displayText='share'></span></p>
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		<title>O morar paulistano</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Dec 2010 17:32:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estratégias]]></category>
		<category><![CDATA[Arquitetura]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Museu do Ipiranga fará exposição sobre evolução das moradias de São Paulo]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O Museu Paulista da USP, conhecido como Museu do Ipiranga, obteve patrocínio da Caixa Econômica Federal para organizar uma exposição sobre a evolução das moradias de São Paulo, abordando do ponto de vista histórico noções como gosto, conforto, <em>design</em>, higiene e tecnologia. A mostra O <em>morar paulistano</em> ocupará a ala superior oeste do museu. Deverá ser aberta ao público em maio de 2012 e durar 18 meses. Em uma área de 600 m<sup>2</sup> serão exibidos móveis, objetos de decoração, de trabalho, de higiene, de recepção social, pinturas, fotografias, roupas, acessórios pessoais, material publicitário, entre outros tipos de acervo associados ao espaço doméstico na cidade de São Paulo. Os curadores serão os professores da USP Vânia Carneiro de Carvalho, Solange Ferraz de Lima e Paulo César Garcez Marins.
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='O morar paulistano' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/04/o-morar-paulistano/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='O morar paulistano' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/04/o-morar-paulistano/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='O morar paulistano' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/04/o-morar-paulistano/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='O morar paulistano' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/12/04/o-morar-paulistano/' displayText='share'></span></p>
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		<title>O pensamento de Josué de Castro</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Oct 2010 20:03:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[SciELO]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Ação política e pensamento social em Josué de Castro]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-medium wp-image-12453" title="notcont6786" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/notcont6786-254x300.jpg" alt="" width="254" height="300" />O estudo “Ação política e pensamento social em Josué de Castro”, de Maria Letícia Galluzzi Bizzo, analisa elementos centrais do pensamento social e da ação política do médico Josué de Castro (1908-1973), entre os anos 1930 e 1950. E tem por objetivo problematizar, na construção de sua ideia de “fome”, categorias cognitivo-sociais presentes, bem como convergências com outros ideários. Foram analisadas fontes primárias – quatro escritos de Castro – e fontes publicadas por autores contemporâneos, complementadas com levantamento historiográfico e exame de aspectos-chave de sua atuação como deputado e fundador de entidades contra a fome. A trajetória científico-político-intelectual de Castro centrou-se na concepção de “fome” como fenômeno biológico-social identitário do brasileiro, origem dos males do país e entrave à nacionalidade, demandante de reformas econômico-sociais modernizantes. Na sua obra há categorias também presentes no conjunto do pensamento social brasileiro, como as de monocultura latifundiária colonialista semifeudal, de Estado irracional e de defesa do público sobre o privado. Entre ideias convergentes com as da nutrição internacional está a preocupação com a alimentação coletiva sob o aspecto biológico-social. A produção científico-intelectual de Castro tornou-se possível especialmente em razão do cenário de construção do Estado e é marcada por relações do cientista com instituições, poder público e organismos internacionais. Para a autora, seu engajamento político e social manifestou-se por meio de suas convicções científicas, dando visibilidade à fome como objeto científico-político.</p>
<p><em>Boletim do Museu Paranaense Emílio Goeldi. Ciências Humanas – vol. 4 – nº 3 – Belém – set./dez. 2009</em></p>
<p><a title="Scielo" href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1981-81222009000300004&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt" target="_blank">Link para o artigo</a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='O pensamento de Josué de Castro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/10/28/o-pensamento-de-josu%c3%a9-de-castro/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='O pensamento de Josué de Castro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/10/28/o-pensamento-de-josu%c3%a9-de-castro/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='O pensamento de Josué de Castro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/10/28/o-pensamento-de-josu%c3%a9-de-castro/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='O pensamento de Josué de Castro' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/10/28/o-pensamento-de-josu%c3%a9-de-castro/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Amores silenciados</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Aug 2010 21:19:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joselia Aguiar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Como a política da elite do século XIX modelou a nossa sexualidade]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-13399" title="art4212img1" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/art4212img1.jpg" alt="" width="580" height="230" />Seduzidos por Capitu, leitores e críticos que há um século debatem sobre <em>Dom Casmurro</em> nem sempre se detêm em outro vértice do triângulo: a relação entre Bentinho e Escobar. Por esse ângulo, o sociólogo Richard Miskolci observa a obra de Machado de Assis, assim como a de outros escritores do final do século XIX, em sua pesquisa <em>O desejo da nação</em>, que tem apoio da FAPESP. Ao usar como fontes não só os discursos literários, como também políticos e científicos, ele pretende combinar reconstituição histórica e análise sociológica para compreender como interesses político-sociais levaram ao controle da sexualidade, notadamente da homossexua­lidade entre homens brancos da elite.</p>
<p>Estudos sobre a construção da nação brasileira nesse período quase sempre se concentram nas discussões políticas ou nas relações étnico-raciais. &#8220;No Brasil, a experiência da colonização e do escravismo gerou particularidades no que se refere à sexualidade, ao desejo e ao erotismo&#8221;, avalia Miskolci, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde coordena o grupo de pesquisa Corpo, Identidades e Subjetivações (<a href="http://www.ufscar.br/cis" target="_blank">www.ufscar.br/cis</a>).</p>
<p>Ao contrário das representações dominantes hoje sobre o Brasil, de permissividade ou liberdade sexual, o pesquisador argumenta que nos caracterizam convenções culturais próprias ainda pouco analisadas. &#8220;Identificá-las é um desafio&#8221;, explica. &#8220;Quero compreender como estamos inseridos em formas específicas de controle e &#8216;agenciamento&#8217; do desejo e até mesmo qual é nossa gramática erótica própria.&#8221;</p>
<p><img class="size-full wp-image-13406 alignright" title="art4212img3" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/art4212img3.jpg" alt="" width="162" height="325" />O trio de personagens de <em>Dom Casmurro</em>, obra de 1900, ilustra o que Miskolci denomina de &#8220;heteronormatividade à brasileira&#8221;. Bento só consegue assumir seu papel de marido e pai de família &#8220;escorado&#8221; em sua amizade-amor por Escobar. &#8220;Não se trata da exclusão do homoerotismo. Antes, é sua contenção e disciplinamento dentro de um triângulo amoroso que direciona os homens para relações heterossexuais reprodutivas&#8221;, explica. As relações heterossexuais brasileiras, vistas a partir de <em>Dom Casmurro</em>, se fundam, assim, tanto em um vínculo disciplinado, mas profundo, entre dois homens, quanto na relação com a mulher, avalia o pesquisador.</p>
<p><strong>Sutilezas</strong><br />
Com a leitura de outros romances da época, é possível entrever, segundo Miskolci, outras sutilezas no controle do desejo. No dia a dia do internato revelado em <em>O Ateneu</em> o fantasma a assombrar os homens de elite parece ser – muito mais do que o desejo pelo mesmo sexo – a possibilidade de ser tratado, ou maltratado, como uma mulher. O romance de Raul Pompeia, datado de 1888, mostra, assim, como ocorre o disciplinamento da masculinidade: há práticas &#8220;pedagógicas&#8221; violentas, combatendo e desqualificando qualquer traço de personalidade que pudesse ser associado ao feminino. Ou seja, mais que a homossexualidade, o que se pretende conter, pelas lentes de <em>O Ateneu</em>, é a existência de &#8220;efeminados&#8221;. &#8220;A relação entre masculinidade, honra e violência, concreta ou simbólica, parece ser uma herança desse período que estudo, pois rege tanto as masculinidades heterossexuais quanto as homossexuais na sociedade brasileira contemporânea&#8221;, afirma o professor.</p>
<p>Na sociedade brasileira do final do século XIX também são temidas as relações homossexuais interraciais, como Miskolci observa em <em>Bom crioulo</em>, romance de Adolfo Caminha que provocou escândalo ao ser publicado, em 1895. Em Amaro, um escravo foragido que protagoniza a trama, tem-se a imagem então corrente do homem negro como um predador sexual, perigoso e sem controle. &#8220;Há muitos temores e estereótipos sexuais que se mantêm ou se reatualizam em nossos dias&#8221;, explica o sociólogo.</p>
<p>Não se trata de traçar uma história dos homossexuais ou da homossexualidade na sociedade brasileira. O pesquisador diz que seu objetivo é contar a história da formação do nosso ideal de nação em uma perspectiva subalterna, ou seja, uma história &#8220;dos outros&#8221;: excluídos, abjetos, marginalizados por sua sexualidade não normativa. Seu levantamento busca encontrar, nas sombras, os desejos proscritos e impossíveis, os amores silenciados.</p>
<p>Na sociedade atual, o sociólogo observa que <em>gays</em> e lésbicas já são identidades normalizadas, inseridas no mercado e dentro de uma concepção política liberal. O caráter abjeto na sociedade brasileira de agora não seria atribuído a pessoas brancas de classe média ou alta, formando casais monogâmicos querendo se casar – mesmo que sejam casais homossexuais. Como estigmatizados, encontram-se hoje travestis, transe­xuais, &#8220;efeminados&#8221;, pobres, negros, portadores de HIV. &#8220;Os que permanecem na base da pirâmide da respeitabilidade sexual e social são os que herdaram a abjeção que estudo no final do século retrasado&#8221;, diz Miskolci.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-13400" title="art4212img2" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/art4212img2.jpg" alt="" width="580" height="256" />Em <em>Bom crioulo</em>, o pesquisador observa algo que permanece atual: a tendência cultural a desvalorizar o negro como parceiro amoroso para homens. Estudos sobre gays brasileiros como os feitos ou orientados por Júlio Assis Simões, professor do Departamento de Antropologia da USP e pesquisador colaborador do Pagu – Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), têm mostrado como o ideal de parceiro é branco, e o negro tende a ser visto apenas como parceiro sexual ocasional, exótico. Algo diverso se passa entre casais héteros. Como mostra o livro <em>Razão, &#8220;cor&#8221; e desejo</em>, escrito pela também professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) Laura Moutinho, o racismo brasileiro teve o efeito inesperado de &#8220;erotizar&#8221; os homens negros, fazendo com que a maioria de nossos casais interraciais héteros seja formada por um homem negro e uma mulher branca.</p>
<p><strong>Burguesa</strong><br />
Na virada do século XIX para o XX, almejava-se que a nação se tornasse mais branca e burguesa do que era. A sexualidade, segundo Richard Miskolci, se não tinha centralidade até o século XVIII, deve ser vista a partir desse período como peça-chave na reconfiguração de tal imaginário nacional na nascente República. A tríade monarquia, indigenismo simbólico e catolicismo seria substituída por uma nova compreensão, &#8220;científica&#8221; e &#8220;racializada&#8221;, do que era a nação brasileira. O desejo e o sexo se tornam questões centrais por causa dos temores sobre relações interraciais e as incertezas sobre as consequências da miscigenação.</p>
<p>A construção da nação exigia o &#8220;agenciamento&#8221; do desejo para formas ideais, particularmente para a heterossexualidade reprodutiva do casal monogâmico estável. Esse casal era idealizado como branco ou branquea­dor. Um casal &#8220;miscigenador&#8221; deveria ser formado por um homem branco – brancura, poder e masculinidade se equivaliam – e uma mulher mulata – pois se rejeitava a mulher negra. &#8220;Este ideal unia expectativas com relação à sexualidade e ao desejo, impunha a reprodução como norma e estabelecia que esta deveria resultar em &#8216;branqueamento&#8217; da população. Devia-se evitar qualquer desvio do desejo que ameaçasse a formação do modelo de casal reprodutivo, ao qual se atribuía a expectativa de gerar a nação almejada, progressivamente cada vez mais branca e sexualmente normalizada&#8221;, argumenta o sociólogo.</p>
<p><img class="size-full wp-image-13407 alignleft" title="art4212img4" src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/08/art4212img4.jpg" alt="" width="221" height="270" />A escolha em focar sua pesquisa nos homens, explica Miskolci, deriva da necessidade de explorar melhor como se reconfiguraram as relações entre eles e as expectativas sociais com relação a seu papel coletivo. De forma sintética, ele diz que aparentemente houve uma progressiva redução da importância da amizade entre homens, que se tornou periférica na comparação com a relação com a esposa e a família, dentro da qual se atendia às expectativas coletivas de reprodução da nação. Os temores com relação aos &#8220;desvios&#8221; dessa missão masculina de &#8220;embranquecimento&#8221; encontravam amparo na pedagogização do sexo, que se associava também à psiquiatrização das &#8220;perversões&#8221;. O controle da sexualidade feminina se baseará em uma hierarquização entre mulheres brancas, mulatas e negras.</p>
<p>Na sua interpretação dos desejos da nação, o sociólogo se baseia na obra de Michel Foucault e no campo acadêmico conhecido como Saberes Subalternos – a vertente culturalizada do marxismo que incorporou o pós-estru­turalismo francês e se desdobra, hoje, na corrente feminista conhecida como Teoria Queer e nos Estudos Pós-coloniais. Às obras li­terárias somam-se análises de discursos políticos e científicos da época. Entre os homens de ciência no Brasil, a maioria um misto de literatos-cientistas com ambições políticas, discutia-se qual seria a viabilidade da nação mestiça. &#8220;É um tema explorado exaustivamente pelo pensamento social brasileiro no que toca à questão racial, da miscigenação, mas que, fato curioso, deixa de fora as relações não reprodutivas, em especial entre pessoas do mesmo sexo.&#8221;</p>
<p>Para o sociólogo, as obras literárias não apenas ilustram a história do perío­do; permitem acessá-la por meio de experiências subjetivas, diferenciadas, algumas vezes até mesmo em desacordo com o que se passava. &#8220;Não se trata da genialidade dos escritores, mas da característica da própria criação literária, que frequentemente foge ao controle e às intenções do autor&#8221;, afirma Miskolci. Enquanto o discurso político e o científico, mais institucionais e articulados, tendiam a coincidir mais do que a divergir, as expressões literárias da época permitem entrever ambiguidades, dissidências e, sobretudo, tanto o processo de constituição da nação quanto formas diversas de resistência a ele.
<p><a style="float:left" href="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/082-085-174.pdf"><img  src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/themes/revistafapesp/images/icon_pdf.png" /></a><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Amores silenciados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/11/amores-silenciados/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Amores silenciados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/11/amores-silenciados/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Amores silenciados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/11/amores-silenciados/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Amores silenciados' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/11/amores-silenciados/' displayText='share'></span></p>
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		<title>Homicídios na capital paulista</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Aug 2010 00:38:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[SciELO]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Os repertórios da justiça e a questão do homicídio nas periferias de SP]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O artigo “Crime e castigo na cidade: os repertórios da justiça e a questão do homicídio nas periferias de São Paulo”, de Gabriel de Santis Feltran, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), descreve e analisa a operação de “tribunais do crime”, implementados por facções criminosas nas periferias da cidade de São Paulo. O autor argumenta que a disseminação desse dispositivo, hoje “institucionalizado” nos territórios estudados, somente se tornou possível depois de o “mundo do crime” ter ascendido à posição de instância normativa legítima entre parcela minoritária, mas relevante, dos moradores das periferias urbanas. De acordo com o pesquisador, esse fenômeno remete, no mínimo, a três décadas de transformações ocorridas nas esferas do trabalho, da família, da religião e da ação coletiva, pilares da vida social das periferias urbanas. Mapeando essas transformações amparado por uma etnografia realizada entre 2005 e 2009, Feltran afirma que os dispositivos de regulação interna ao “mundo do crime” seriam os fatores explicativos centrais da queda das taxas de homicídio em São Paulo, notável nos anos 2000, e reivindicada publicamente por governos e polícias.</p>
<p><em>Caderno CRH – vol. 23 – nº 58 – Salvador – abr. 2010</em></p>
<p><a title="Scielo" href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-49792010000100005&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt" target="_blank">Link para o artigo</a>
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		<title>Artes da cultura popular</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Aug 2010 00:22:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antonio</dc:creator>
				<category><![CDATA[SciELO]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Artes de musicar e de improvisar na cultura popular]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O artigo “Artes de musicar e de improvisar na cultura popular”, de José Machado Pais, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, explora bases de sustentabilidade do valor patrimonial das chamadas culturas marginais, tomando como referência as artes de musicar e de improvisar. Aos preconceitos que associam a cultura popular à frivolidade se contrapõem evidências da sua criatividade. Para isso, o autor compara tendências e influências musicais de Portugal e do Brasil, na base de uma matriz partilhada de repentes e improvisações. Os exemplos do fado e do samba são usados para ilustrar as variações simbólicas, no decurso do tempo, das produções culturais: dos antros de marginalidade podem emergir ícones de nacionalidade.</p>
<p><em>Cadernos de Pesquisa – vol. 39 – nº 138 – São Paulo – set./dez. 2009</em></p>
<p><a title="Scielo" href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-15742009000300004&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt" target="_blank">Link para o artigo</a>
<p><a style="float:left" href="http://www.printfriendly.com/print/v2?url=http://revistapesquisa.fapesp.br/tag/sociologia/feed/" rel="nofollow"><img src="http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/04/ico_print_pt.png" alt="Print Friendly"></a><span class='st_facebook_large' st_title='Artes da cultura popular' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/10/artes-da-cultura-popular/' displayText='share'></span><span class='st_twitter_large' st_title='Artes da cultura popular' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/10/artes-da-cultura-popular/' displayText='share'></span><span class='st_email_large' st_title='Artes da cultura popular' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/10/artes-da-cultura-popular/' displayText='share'></span><span class='st_sharethis_large' st_title='Artes da cultura popular' st_url='http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/10/artes-da-cultura-popular/' displayText='share'></span></p>
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