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Temático

A face brasileira da cultura empresarial

Estudo investiga histórico e cotidiano das empresas

Em pleno processo de globalização da economia mundial, existem aspectos genuinamente “brasileiros” na cultura empresarial disseminada pelo país, capazes de influenciar tanto a gestão das empresas, quanto o desenvolvimento de seus processos produtivos? E se existem, que identidades e diferenças há entre empresas públicas, privadas e multinacionais que atuam no Brasil, quanto à presença e à força desses aspectos?

Essas são duas perguntas básicas que os pesquisadores responsáveis pelo projeto temático “Cultura Empresarial Brasileira: estudo comparativo de empresas públicas, privadas e multinacionais”, financiado pela FAPESP, pretendem responder até 1998, na expectativa de assim contribuir para um melhor entendimento “dos rumos e do papel da atividade empresarial no Brasil”.

Coordenado pelo professor Guillermo Raul Ruben, antropólogo, livre docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, o projeto, foi iniciado em março deste ano. E a partir de então, colocou 25 pesquisadores, entre doutores e mestres ligados à Universidade Estadual de Campinas e à Fundação Getúlio Vargas, dentro de um campo de investigação, na verdade, ainda bem pouco explorado cientificamente no país. Aliás, o campo é novo em termos mundiais. Só a partir do começo da década de 80 -coincidentemente, o mesmo momento em que entra em cena o tema da globalização da economia -, “as dimensões culturais da vida empresarial passaram a ser reconhecidas pela literatura científica”, segundo Guillermo Ruben.

Até então estava em pleno vigor a teoria da “administração dentífica”, formulada no início do século, e que percebia os processos produtivos como geridos por princípios “racionais” e “universais”, capazes de produzir resultados semelhantes em todas as sociedades. Hoje, entre os dois parâmetros opostos, – globalização e especificidades de culturas empresariais -, “o que de fato se observa é a existência de movimentos inversos que simultaneamente atuam em direção à homogeneização e à heterogeneidade”, explica o pesquisador. Mais detalhadamente: “Se por um lado verificou-se uma intemacionalização de processos econômicos, políticos, sociais e culturais, por outro, nacionalidades e identidades são frequentemente constituídas, recriadas e refomuladas, fazendo com que aspectos globais e locais mostrem-se constantemente reforçados e redefinidos”.

Quanto às contribuições brasileiras para a pesquisa nesse campo, que também começaram a aparecer na década de 80, são, em sua maioria, segundo Guillenno Ruben, obra de administradores, que realizaram estudos de casos de culturas organizacionais individualizadas. O projeto temático coordenado por ele pretende muito mais, na medida em que busca conclusões que possam ser generalizadas para todo o universo empresarial brasileiro. A equipe de trabalho empenhada nesse desafio é multidisciplinar e envolve, além de antropólogos, administradores, economistas e lingüistas.

Embora só dentro de dois anos o projeto deva estar concluído, Guillenno Ruben tem desde já expectativas muito otimistas em relação à ele, incluindo seus resultados práticos. “Acreditamos que o resultado geral da pesquisa poderá funcionar como um guia tanto para o empresário brasileiro, quanto para o investidor estrangeiro no Brasil. Esse guia poderá ajudar a evitar fracassos desnecessários”, diz.

Relatos míticos
De acordo com o projeto, que recebeu da FAPESP um financiamento de R$163,7 mil, a pesquisa deve se desenvolver em nove empresas, com as quais a equipe precisa firmar um convênio de parceria que lhe permita livre ingresso nas várias dependências da organização. Por enquanto, o trabalho de campo está ocorrendo em quatro empresas: Banco do Brasil, Banco América do Sul (nacional, criado nos anos 40 por emigrantes japoneses e com direção ainda composta majoritariamente por descendentes de japoneses), Telebrás e Zetax – empresa privada nacional, das raras do setor de telecomunicações que trabalha com tecnologia brasileira e que desenvolveu um avançado programa de administração participativa que lhe propiciou grande crescimento no volume de vendas e excelentes resultados econômicos.

Está em fase de negociações a entrada da Odebrecht, da IBM, da Gessy Lever e da General Electric no estudo. A intenção original dos pesquisadores era incluir na pesquisa não a GE , mas a Gevisa, empresa do setor de bens de capital, resultante de uma associação entre os grupos GE, Villares e Banco Safra, mas esse casamento está sendo desfeito, depois de dois anos. Falta definir ainda uma última empresa para complementar o universo da pesquisa inicialmente definido no projeto.

A metodologia do trabalho envolve um grande número de entrevistas – primeiro, entrevistas com informantes – chave de todos os níveis hierárquicos da organização, depois, um questionário fechado para todo o universo pesquisado, baseado nos resultados das entrevistas e, por último, novas entrevistas em profundidade que possam contribuir para a análise dos resultados dos questionários.

Mas, além disso, os pesquisadores também precisam acompanhar reuniões de diretoria, festas, rituais de integração e ainda analisar o material escrito produzido pela empresa, como folders, comunicados internos, declaração de princípios etc. “É em razão dessa necessidade de participar intimamente da vida da empresa, que a pesquisa só pode ser feita se a direção quiser e se achar, inclusive, que esse trabalho pode trazer informações importantes para a própria empresa.”, explica Guillermo Ruben.

Temas de acesso
Os temas escolhidos como meios de acesso ao que o projeto chama cultura empresarial brasileira e que constituem, portanto, as questões fundamentais das entrevistas em profundidade, foram quatro: memória social da empresa, modelo de relações políticas e sociais, mecanismos sócio-político-administrativos e tempo e espaço.

No primeiro incluem-se a história da empresa e suas várias versões, os mitos de origem, os eventos marcantes, a estrutura das crises, os personagens paradigmáticos e até as piadas, entre outros aspectos. No segundo tema interessam as múltiplas relações sociais dentro e fora da organização, incluindo hierarquias e relações de poder. No terceiro, o foco está voltado para processos de seleção, treinamento, integração, avaliação e exclusão de pessoal, estratégias de acusação e solidariedade entre os diferentes grupos, além de práticas e políticas administrativas efetivamente adotadas na gestão dos recursos humanos e materias. E por fim, tempo e espaço prende-se às diferentes concepções de tempo e de apropriação social do espaço dentro do universo empresarial.

Embora ainda haja muito chão para caminhar, Guillermo Ruben diz que as entrevistas até agora feitas permitem formular algumas hipóteses sobre o “fator Brasil” nas empresas. “Temos dado uma grande atenção à diferença ou concordância entre o que as pessoas dizem que fazem na empresa e o que realmente fazem”. A maior distãncia entre esses dois planos, segundo ele, parece atribuir uma particular flexibilidade às empresas e mais ambiente para a inovação de processos produtivos. “E estamos ‘intuindo’ uma grande divergência entre o que se faz e o que se diz que se faz em empresas no Brasil”.

A outra hipótese diz respeito ao relato mítico que é construído em toda empresa a seu próprio respeito. “Tudo indica que quanto menos pesado, menos repetido, menos monocórdico esse relato mítico, mais ele abre o espaço para a inovação de processos produtivos dentro da empresa”. E é possível que entre as empresas brasileiras seja marcante a tendência de se ir agregando fatos novos ao relato mítico, operando-se assim uma negociação permanente entre tradição e inovação.

Inovação tecnológica – Novas propostas
Na quinta rodada de apresentação de propostas para o Programa de Apoio à Capacitação Tecnológica de Universidades, Institutos de Pesquisa e Desenvolvimento e Empresas, encerrada neste mês de julho, foram encaminhados à FAPESP sete projetos. Três deles envolvem parcerias de empresas com a USP: dois da Escola Politécnica e um da Pró-Reitoria de Pesquisa.

Dois outros projetos têm parceria com a UNICAMP (Instituto de Engenharia de Alimentos). Há um projeto em parceria com a UNESP (Agronomia) e um em parceria com o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Universidade do Vale da Paraíba, UNIVAP. O valor global desses projetos é de pouco mais de R$3,5 milhões, dos quais cerca de R$1,5 milhão estão sendo solicitados à FAPESP, enquanto o restante refere-se à contra partida das empresas.

Desde março de 1995, quando deram entrada na Fundação as primeiras propostas no âmbito desse programa de inovação tecnológica, baseado na parceria entre empresas produtivas e instituições de pesquisas, já foram encaminhados para avaliação 36 projetos, no valor global de R$19,1 milhões, com o pedido de recursos à FAPESP atingindo quase R$9 milhões.

Até o momento, foram aprovados por mérito tecnológico e potencial para produzir algum impacto positivo em termos econômicos ou sociais – critérios que norteiam o julgamento das propostas – 10 projetos. A FAPESP concedeu a eles perto de R$1 milhão. Foram seis os pedidos denegados, enquanto 14 encontram-se em análise.

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