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Metodologias e tabelas para uma adubação eficaz

No mundo dos negócios, qualquer empreendimento agrícola, industrial, ou mesmo na área de serviços viabilizado por um investimento direto de R$320 mil e que, cinco anos depois, estivesse dando retomo anual de R$l60 milhões seria considerado um fenômeno. E, certamente, poucos poderiam imaginar que num universo muito mal permeado de incertezas, como o da Ciência&Tecnologia, uma performance desse tipo seria possível. Pois, surpreendentemente, são esses números que vêm à tona quando se examina, sob a ótica da relação custo/benefício econômico potencial, o projeto temático sobre “Micronutrientes e Microelementos Tóxicos na Agrirultura”, financiado pela FAPESP. O mérito desse projeto, desenvolvido por uma equipe de 15 pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas, IAC e da Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, entre setembro de 1991 e fevereiro de 1996, evidentemente, não se esgota em futuros resultado econômicos. Do ponto de vista estrito da produção de novos conhecimentos, palimetro básico de avaliação quando se fala em pesquisa na área científica e tecnológica, ele resultou, entre outras coisas, na primeira tabela rigorosamente definida para interpretação dos níveis dos micronutrientes boro, cobre, ferro, manganês e zinco, em solos para agricultura. Uma tabela desse tipo possibilita recomendações corretas e precisas para 1 adubação da terra com micronutrientes.

Os micronutrientes são sais que existem naturalmente nos solos, na proporção de miligramas por decímetro cúbico de solo, quase sempre solúvel em água e que se apresentam em pó ou em pequeníssimos cristais. Embora mais sutis que os macronutrientes típicos (nitrogênio, fósforo e potássio), eles são essenciais para o desenvolvimento e a produtividade das plantas. Assim, sua eficiência produz perdas de produtividade, enquanto seu excesso tem efeito tóxico para as plantas — e para os animais que as consomem, incluindo o homem. Caso se queira tomar, além de resultados econômicos e científico-tecnológicos, mais um indicador consistente da importância de determinado projeto de pesquisa para examinar esse temático, ou seja, os impactos sociais produzidos com os novos conhecimentos que ele gerou, a equipe de pesquisadores que o desenvolveu pode tranquilamente se orgulhar de pelo menos um feito: ter contribuído para a detecção dos níveis e da origem do chumbo, um microelemento tóxico, encontrado em algumas marcas de leite na região do Vale do Paraíba, no ano passado. E isso antes que a contaminação do leite pelo metal, que causa sérios danos ao sistema nervoso central, principalmente em crianças, ganhasse a dimensão de um grave problema de saúde púbica.

Tabelas de interpretação
É bastante, para um projeto cujo objetivo era exatamente desenvolver metodologias para análise dos micronutrientes e microlementos tóxicos e estabelecer as tabelas de interpretação dos resultados da análise, que possibilitam a calibração desses elementos, portanto, as recomendações para adubação. “Não existia nem uma defmição sistematizada de métodos, nem as tabelas, apenas trabalhos esparsos sobre o tema na literatura especializada”, explica o coordenador do projeto, o agrônomo Ondino Cleante Bataglia, ex-diretor do lAC e atual coordenador de Pesquisa Agropecuária da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. “O projeto temático nos permitiu reunir e consolidar nossas próprias pesquisas, testar outras indicações que estavam espalhadas pela literatura e, sobretudo, trazer para esse campo de estudo a competência em química analítica da UNICAMP”, resume o doutor Ondino Bataglia. Essa competência veio através do professor João Carlos de Andrade, titular do Departamento de Química Analítica daquela universidade e de alguns orientandos seus, de doutorado e mestrado.

As etapas de desenvolvimento do projeto incluíram muitos experimentos e ensaios em laboratório. Envolveram experimentos diretos no campo, com apoio de pesquisadores das áreas aplicadas (especialistas em soja, algodão etc), inclusive para verificação de diferenças de comportamento, entre plantas diversas, na absorção dos micronutrientes. E implicaram um trabalho intenso com definição de extrntores, que são substâncias capazes de simular o comportamento das raízes em relação ao aproveitamento dos micronutrientes -com a diferença de revelar em apenas algumas horas o que a planta faria em um ano. Era necessário estabelecer procedimentos pala análise de micronutrientes e microelementos tóxicos tanto em solos, quanto em plantas e em resíduos orgânicos. Metodologias e tabelas de micronutrientes foram enfim determinadas e hoje estão dispolÚveis em 21 laboratórios de análise de solo de todo o país, a maior parte dos quais em São Paulo.

“Para se ter idéia da importância disso, basta saber que um agricultor pode perder praticamente toda a sua colheita pela falta de um quilo de boro em suas terras. No algodão, por exemplo, já se registraram perdas de 80% da produção em casos localizados”, comenta José Antonio Quaggio, pesquisador da Seção de Fertilidade de Solos e Nutrição de Plantas do IAC. Heitor Cantarella, o agrônomo que chefia a secão, complementa, informando que entre 30% e 40% das amostras de solo analisadas em São Paulo apresentam deficiência de boro e zinco. No que diz respeito aos microelementos tóxicos, principalmente metais pesados como cádmio, chumbo, níquel e cromo, embora os pesquisadores tenham determinado as metodologias que permitem avaliar contaminação, eles ainda precisam avançar até estabelecer sua calibração.

As metodologias estabelecidas, resumidamente, envolvem a análise de soluções contendo amostras de solo, de plantas ou resíduos orgânicos, utilizando-se espectrômetros de plasma, melhores e mais precisos, ou espectrômetros de absorção atômica. As soluções injetadas no espectrômetro de plasma, num meio rico em argônio, atingem altas temperaturas. Os elementos químicos são então ionizados e emitem, cada um, sua radiação própria, que é lida por sensores. O aparelho revela quantidades mínimas dos elementos, na base de parte por bilhão.

O espectrômetro de plasma utilizado no projeto e que se encontra no IAC, foi importado da França, ao custo de US$l30 mil (todos os equipamentos permanentes necessários ao ternático responderam por um gasto de US$l80 mil, do total de R$320 mil concedidos pela FAPESP para o projeto). O aparelho, hoje, faz a análise diária de 200 amostras de solo, estabelecendo as medidas de oito diferentos elementos -com os equipamentesantes em uso no IAC, o mesmo trabalho levaria oito dias.

Impacto Econômico
O que tudo isso tem a ver com resultados econômicos, e particularmente com um retorno anual de R$160 milhões, provocado por um investimento de R$320 mil? O raciocínio é simples. Antes de tudo, é preciso considerar, segundo os pesquisadores responsáveis pelo temático dos micronutrientes, que uma adubação completa de macronutrientes (principalmente nitrogênio, fósforo e potássio) e de micronutrientes, que seguisse rigorosamente as recomendações disponíveis no IAC, poderia praticamente dobrar a produção agrícola em São Paulo. “Dobraríamos em café, milho e laranja, onde se sairia das 20 a 22 toneladas de fruto por hectare, para 40 toneladas e teriamos um aumento de cerca de 30% em soja e cana, por exemplo, explica Quaggio.

Mas isso seria uma situação ideal, difícil de ocorrer na prática. Um aumento de eficiência na adubação da ordem de 10%, no entanto, segundo o agrônomo Bernardo Van Raij, ex-chefe da Seção de Fertilidade de Solos, é perfeitamente factível. É preciso considerar também, diz ele, que em adubação como um todo, para cada real aplicado, o agricultor tem dois de retorno (no caso dos micronutrientes, essa relação é muito maior, de um para 50, na média, chegando, no caso do molibdênio, a atingir um para 350).

Ora, a agricultura paulista gasta cerca de US$800 milhões anuais com adubação (o adubo representa cerca de 30% dos custos agrícolas), “usando, às vezes, o que não é necessário” e a receita decorrente do uso de adubo está estimada em R$1,6 bilhão anuais, dentro de uma receita global da agricultura hoje da ordem de R$18 bilhões.

A conclusão, a partir daí, é fácil, segundo Bernardo Van Raij: ou seja, um aumento de eficiência de apenas 10% na adubação resulta em um aumento da receita que ela produz, da mesma ordem. Chega-se assim aoo R$160 milhões anuais.Não é difícil para o agrônomo ou o produtor agrícola seguir as recomendações do IAC, porque elas estão disponíveis em publicações. Aliás, a instituição lançará no dia 10 de outubro sua nova edição do “Boletim Técnico 100 — Recomendações de Adubação e Calagem para o Estado de São Paulo, incluindo um capítulo sobre micronutrientes. O boletim é um livro de 300 páginas, que pode ser complementado por um programa para computador.

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