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Opinião

A defasagem entre a ciência e a tecnologia nacionais

A avaliação da produção científica e tecnológica nacional e do seu impacto vem ganhando crescente importância, não só no âmbito das agências de fomento, que necessitam quantificar os efeitos de sua atuação no sistema nacional de ciência e tecnologia e redirecioná-la em determinadas circunstâncias, como também entre o público e a mídia, que almejam conhecer quão bem aplicados têm sido os recursos públicos. Neste ensaio apresentamos uma estimativa de indicadores dessa produção e do seu impacto.

Produção Científica Nacional
Estima-se(1) que aproximadamente 70% dos artigos científicos nacionais são “enterrados” em anais de congressos e revistas não indexadas em bases de dados eletrônicas. É razoável supor que uma parcela desses artigos atinge padrões de qualidade e originalidade similares aos publicados em revistas indexadas, mas ainda não dispomos de meios para avaliá-los sistematicamente. Tal avaliação poderá ser efetuada por meio de sua futura indexação na base de dadosScielo , recentemente criada pela FAPESP e pela Biblioteca de Referência em Medicina para a América Latina e Caribe (Bireme).

A produção científica indexada pelo Institute of Scientific Information (ISI), de qualquer pesquisador, instituição ou até de um país, pode ser avaliada através de um banco de dados recentemente adquirido pela FAPESP e disponibilizado às instituições paulistas de ensino e pesquisa. Essa base, denominadaWeb-of-Science , contém aproximadamente 5.000 periódicos de todas as áreas do conhecimento e permite a busca eletrônica por autor, instituição de origem, ano da publicação, citação, palavras-chave, estado, país, etc. Portanto, é possível levantar a produção científica nacional e internacional de todos os pesquisadores de ciências exatas. Dessa forma, construímos a Figura 1.

O crescimento da participação nacional nas ciências exatas é claramente demonstrado pela Figura 1. Em 1998, autores vinculados a instituições brasileiras contribuíram com 1,07% da produção científica mundial indexada pelo ISI. Em relação à produção científica norte-americana, esse percentual é de 2,9%. Nota-se que crescimento da produção científica brasileira tem sido supe-rior ao do PIB.

Produção Tecnológica Brasileira
Dados da UNESCO indicam que entre 65 e 75% dos investimentos de pesquisa na Europa, EUA e Japão são efetuados por empresas, enquanto no Brasil assume-se que apenas 30% desses investimentos têm origem empresarial; entretanto, estimativas mais realistas indicam que esse percentual é significativamente menor que 30%!Supondo que cada patente depositada seja uma aposta do pesquisador ou empresa no potencial deinovação(geração de produto comercializável) do seu invento, uma forma indireta de se avaliar a geração de tecnologia num país é contabilizar os pedidos de patentes depositados e concedidos.

A título de informação, estima-se que apenas 10% das patentes depositadas nos EUA são concedidas e que 10% delas geram inovação. Portanto, construímos a Figura 2 para representar a evolução da participação brasileira no total de patentes concedidas nos EUA entre 1980 e 1998. Neste caso, a fonte de informação foi a “home-page” da USPTO- United States Patent e Trademark Office.

A Figura 2 mostra que o número de patentes concedidas nos EUA a autores brasileiros atualmente atinge cerca de 0,055% do total de patentes concedidas naquele país a autores de qualquer nacionalidade, e não tem crescido nesta década. Deve-se enfatizar que esse percentual é similar ao de inventores irlandeses e mexicanos, mas é significativamente inferior ao de autores de países em estágio de desenvolvimento científico comparável ao do Brasil, tais como África do Sul, Israel e Coréia.

Adicionalmente, em detalhado relatório, Brito Cruz [2] calcula a relação entre a participação de artigos de pesquisadores de um país no total de artigos publicados em revistas indexadas pelo ISI e a participação de patentes concedidas a autores desse país no total das patentes registradas nos EUA. No caso dos países desenvolvidos, a relação entre os percentuais de participação varia entre 0,5 e 3,0. Já ano caso do Brasil, a relação é aproximadamente 20.A Tabela I mostra o percentual da participação brasileira no total de artigos em revistas indexadas pelo ISI e no total de patentes registradas nos EUA entre 1980 e1993, evidenciando que, naquele período, o primeiro foi 15 vezes superior ao segundo.

Brito Cruz ainda observa que “o ator institucional por excelência em um sistema nacional de inovação é aempresa e seus centros de pesquisa” e demonstra a existência de uma correlação entre o número de patentes registradas nos EUA por autores de um determinado país e o investimento pela indústria desse país.Uma análise para a área específica devidrosdemonstrou situação tão crítica quanto a global. Seria interessante fazer levantamentos análogos para outras áreas de tecnologia. Entretanto, podem-se prever situações similares à descrita acima, que representa a média de todas as áreas.

Em outras palavras, há óbviadefasagem entre o grau de desenvolvimento científico e o grau de desenvolvimento tecnológico no Brasil! É inegável que a geração de tecnologia no Brasil é insatisfatória enão tem apresentado sinais de crescimento relativo nos últimos anos. Portanto, urge implantar aprática de pesquisa nas empresas nacionais.

Impacto da Ciência Nacional
Os fatores de impacto (FI) apresentados na Tabela II foram obtidos do excelente trabalho de DeMeis e Leta(3). Dentre inúmeros levantamentos, DeMeis e Leta computaram, para várias áreas do conhecimento, o número de citações dos trabalhos científicos assinados por autores vinculados a instituições brasileiras, acumuladas entre 1981 e 1993 (13 anos), e o dividiram pelo número de publicações de autores brasileiros no período 1981-1990 (10 anos). Alem disso, DeMeis e Leta contabilizaram o percentual dos artigos nacionais indexados nunca citados, nesses 13 anos (44%), e demonstraram que esse percentual é similar ao dos artigos mundiais jamais citados (49%).

Tal coincidência de índices poderia levar à conclusão de que a qualidade média das publicações nacionais é semelhante àqualidade média dos trabalhos internacionais. Evitando discorrer sobre a polêmica questão de saber se aqualidade de um determinado trabalho ou periódico científico pode realmente ser avaliada pelo número de citações ou fatores de impacto (acreditamos que estes sejam indicadores relativos aceitáveis, pelo menos para comparações no interior de uma mesma área do conhecimento), apresentaremos a seguir uma análise sobre oimpacto da produção científica nacional, usando dados de DeMeis e Leta, além de evidências adicionais.

Significativo é o fato de que as publicações de autores radicados no Brasil em co-autoria com pesquisadores estrangeiros (geralmente de países desenvolvidos) têm aproximadamente odobro do impacto dos artigos publicados somente pelos primeiros. Por exemplo, a Tabela II mostra que o fator de impacto médio (FI) das Engenharias nacionais salta de 3 para 7 e o da Física salta de 4 para 8, quando há participação de co-autores de instituições estrangeiras.Outra forma de se avaliar o impacto da produção científica nacional seria através do percentual de aceitação de artigos submetidos a periódicos de rigorosa política editorial, tal como aScience , cujos editores são instruídos para aceitar somente novidades, com alto potencial de impacto.

A Figura 3 mostra que o percentual de aceitação de artigos submetidos por cientistas de 12 países do terceiro mundo, incluindo o Brasil, é de apenas 2%, enquanto varia entre 10% e 20% para os países industrializados. Mesmo descontando-se eventual preconceito contra os países subdesenvolvidos, nossa situação é claramente inferior à dos países do primeiro mundo.A análise acima efetuada indica que oimpacto da pesquisa científica genuinamente nacional ainda é substancialmente menor que o impacto das publicações de autores dos países mais desenvolvidos.

Conclusões
A produçãocientífica nacional tem crescido acima da média internacional, tendo atingido aproximadamente 1,1% do total mundial em 1998. Em relação à produção científica norte-americana, a brasileira representa 3%. Seuimpacto ainda é menor que o impacto médio das ciências exatas de todas as nações e não foi possível avaliar sua tendência nos últimos anos. A geração detecnologia brasileira ainda apresenta nível insatisfatório (apenas 0,055% dos depósitos de patentes nos EUA são de autoria de brasileiros) e não cresceu nesta década.

Por outro lado, a experiência internacional revela que o desenvolvimento tecnológico é função dos investimentos empresariais em pesquisa. Urge, portanto, implantar e consolidar aprática de pesquisa nas empresas nacionais. Ciente dessa carência, a FAPESP tem incentivado a interação entre universidades e empresas, através dos Programas PITE, PIPE e CEPID.Agradecemos aos professores Luiz Nunes Oliveira, Luiz Henrique Lopes dos Santos, Rogério Meneghini e Jorge Hounie pelas valiosas críticas e sugestões.
Referências
1.W.W.Gibbs-Lost Science in the Third World ,Scientific American, August (1995)92-99.

2.C.H. de Brito Cruz-O Sistema de CeT como parte do Sistema Nacional de Inovação – Conselho de Ciência e Tecnologia, CCT- UNICAMP, Junho (1999).

3.L.DeMeis e J. Leta- “O Perfil da Ciência Brasileira “, Tab. 12,13 e 17, Ed. UFRJ (1996).

– Webofscience.fapesp.com
– WWW.uspto.gov.us/search patents

Professor titular do Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, coordenador adjunto da Diretoria Científica da FAPESP.

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