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Carta do editor | 43

Pesquisa e valorização da vida humana

O anúncio de um avanço científico que pode contribuir decisivamente para sanar um grave problema de saúde de milhões de pessoas em todo o mundo é, sem sombra de dúvida, razão de uma alegria especial para quem se dedica a divulgar caminhos, às vezes descaminhos, e sobretudo resultados de pesquisas científicas. Mesmo num mundo que se acostumou a receber quase que diariamente notícias de novas drogas, novos tratamentos e abordagens para doenças as mais diversas, que afetam o bem-estar e põem sob risco a vida do ser humano, essa alegria persiste. E é antes de tudo com esse sentimento que publicamos nesta edição do Notícias FAPESP a matéria sobre o desenvolvimento de uma nova vacina que promete prevenir e tratar a tuberculose. Uma vacina de DNA ou gênica, ressalte-se, considerada de terceira geração, construída a partir de conhecimento e tecnologia os mais avançados hoje disponíveis.

É verdade que os pesquisadores responsáveis pela vacina precisam ainda percorrer a parte final, e quase nunca fácil, do caminho até o êxito indiscutível de seu empreendimento. Antes de se poder afirmar que a vacina, de fato, funciona, precisa ainda ser comprovada por testes clínicos em humanos a eficácia já atestada em animais de laboratório. No entanto, o que se depreende da leitura de nossa reportagem de capa é que a pesquisa, iniciada há quase 10 anos – e agora objeto de artigo já aceito pela respeitada revista Nature -, está no rumo certo.

Para a FAPESP, por outro lado, noticiar a vacina é oferecer à opinião pública uma confirmação exemplar de que o investimento em ciência e tecnologia vale a pena, porque, cumulativamente, ele traz sempre profundas repercussões sociais. Assim, se esta Fundação investiu R$600 mil no projeto temático que permitiu a realização da parte mais substancial do trabalho de construção da nova vacina, neste momento podemos afirmar que é simplesmente incalculável o retorno que tal investimento poderá trazer. E aqui usamos a palavra retorno em muitos sentidos, a começar pelo mais fundamental deles, que é o da proteção à vida humana, até o do incremento à credibilidade científica do país, e o retorno econômico. Projetos como esse é que nos levam a concluir que, possivelmente em nenhum campo mais do que em ciência e tecnologia, os recursos dos contribuintes, quando aplicados criteriosamente e dirigidos para pesquisadores competentes e talentosos, rendam tanto.

Queremos destacar também uma outra reportagem desta edição, sobre um projeto ligado ao Programa de Ensino Público, em que os pesquisadores decidiram usar como alavanca para o crescimento intelectual e cultural de um grupo de estudantes adolescentes o resgate da memória de sua comunidade. E do Jardim da Saúde, um bairro típico de classe média nesta complexa megalópole que é São Paulo, esses adolescentes puderam arrancar uma bela história da formação do agrupamento urbano no qual se enraízam – que aliás, no começo, lá pelas décadas de 20 e 30, pouco tinha de urbano. Chácaras, áreas de pastagens e matas constituíam a paisagem dominante do Jardim da Saúde. Os frutos que os estudantes colheram do mergulho nessa experiência educativa, para além de uma nova maneira de estudar Português, História, Geografia, Ciências e outras disciplinas, foram, certamente, um sentido de agregação social, de solidariedade humana, de cidadania. Porque, como bem observou o coordenador do projeto, a memória e sua recriação pedagógica são pontos de partida para a valorização da própria vida humana. Em suma, os estudantes de algum modo ampliaram nesse trabalho suas bases para o crescimento individual. Embora nem sempre se atente a isso, o investimento na pesquisa científica também traz resultados dessa natureza.

Por fim, queremos dar um destaque particular ao encarte especial desta edição, com entrevistas exclusivas com três dos mais famosos especialistas norte-americanos em genômica – Leroy Hood, Craig Venter e Phil Green – e um dos poucos pesquisadores brasileiros com larga experiência em bioinformática, João Carlos Setúbal. As entrevistas foram feitas para uma série de documentários que a TV Cultura prepara sobre o projeto pioneiro da genômica no Brasil – o seqüenciamento completo da bactéria Xyllela fastidiosa -, que irá ao ar na segunda semana de agosto. Gentilmente, a TV Cultura liberou para a FAPESP o texto integral das entrevistas com os especialistas estrangeiros (que ainda renderão um segundo encarte em agosto), e é com prazer que publicamos esse material, inédito, reflexões muito ricas, nem sempre convergentes, dos especialistas que definem hoje porque a Biologia, e especialmente a Biologia Molecular, desponta como a ciência do século 21.

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