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John Vander Sande

John Vander Sande: Entre dois mundos

Diretor de empresa de base tecnológica e professor do MIT veio ao Brasil expor suas idéias sobre empreendedorismo

LEO RAMOSCom um pé num dos orgulhos da ciência norte-americana, o Massachusetts Institute of Technology (MIT), e outro numa empresa de ponta na área de supercondutores, a American Superconductor, da qual foi um dos fundadores em 1987 e ainda hoje é diretor, John Vander Sande é um apóstolo do empreendedorismo no meio acadêmico. Sobretudo do empreendedorismo à la MIT, é preciso dizer. No final da década passada, Sande participou diretamente do acordo firmado por sua instituição de ensino com universidades de Cingapura, cujo objetivo, de forma simplificada, era incutir nos acadêmicos orientais o espírito inovador do MIT e sua capacidade de ver negócios promissores onde a maioria dos cientistas enxerga apenas uma instigante linha de pesquisas.

Como o próprio Sande admite, ainda é cedo para avaliar se o acordo com o Tigre Asiático produziu ou vai produzir os efeitos esperados. Isso, no entanto, nem de longe desanimou o governo e a indústria da Inglaterra, que, preocupados com a falta de dinamismo empresarial no sistema de ensino britânico, resolveram celebrar uma aliança entre uma de suas mais renomadas universidades, a de Cambridge, e a instituição de Massachusetts. Em julho de 2000, nascia o Instituto Cambridge MIT, com um orçamento quinqüenal de US$ 135 milhões – com dinheiro inglês, of course – e dirigido por Sande.

Munido desse vitorioso currículo, tanto do ponto de vista acadêmico como empresarial, Sande esteve em julho no Rio de Janeiro, onde falou para uma platéia de 60 pessoas que participaram doWorkshop PUC-Rio/MIT, evento realizado pelo núcleo de Estudos e Pesquisa do Instituto Gênesis, a incubadora de empresas da Pontifícia Universidade Católica fluminense. Foi sua segunda viagem ao Brasil. Ele tratou de sua experiência no MIT e na American Superconductor – que acaba de dar lucro pela primeira vez depois de 15 anos de investimentos no desenvolvimento de fios e cabos supercondutores – e discutiu a questão de como se deve fomentar a transferência de tecnologia dos institutos e universidades brasileiras para o mercado.

“Ao montar uma empresa, o pesquisador tem de correr riscos e não pode ter medo do fracasso”, afirma Sande. “Também tem de saber que alguns de seus colegas de universidade nunca mais vão olhá-lo da mesma forma depois que ele tiver aberto uma empresa.” Em entrevista ao repórter Marcos Pivetta, esse professor há mais de três décadas do MIT fala de sua vida de acadêmico-empreendedor e sobre como o Brasil pode fomentar empresas de base tecnológica a partir de suas universidades.

Como surgiu a idéia de fundar uma empresa na segunda metade da década de 80 para produzir fios supercondutores, a American Superconductor?
Minha especialização é em ciência de materiais. Sou muito interessado em disposições atômicas e em seus efeitos em sólidos. Em 1986, percebi uma “revolução” na supercondutividade: a descoberta de compostos de óxido de cobre que se portavam como uma nova classe de supercondutores em temperaturas muito mais elevadas do que a dos antigos supercondutores (supercondutores são materiais que, abaixo de uma dada temperatura, conseguem transmitir corrente elétrica com zero de resistência, ou seja, sem perder parte da energia produzida na forma de calor). Foi um tempo excitante e de evolução muito rápida na área de supercondutividade. A necessidade por informação na área era tão grande que os pesquisadores não esperavam pela publicação normal dos trabalhos (em revistas científicas). Aconteciam conferências e, no dia seguinte, aparecia a notícia na imprensa sobre um composto que parecia ser melhor do que os demais. Não se podia esperar para inscrever a bolsa (com pedido de verbas para pesquisa) pelo processo tradicional. Dessa forma, levaria meses ou anos para conseguir algum dinheiro. Precisávamos ter dinheiro na mão para fazer pesquisa em 24 horas. Caso contrário, você ficava preocupado porque seus colegas iriam deixá-lo para trás nas pesquisas. Nessa época, eu e um colega do MIT (Gregory Yurek) redirecionamos parte de nossos fundos de pesquisa para essa nova classe de supercondutores e começamos a perseguir a idéia de fazer fios com esses novos materiais. Tivemos então um projeto aprovado pelo Departamento de Energia e, nas semanas ou meses seguintes, conseguimos uma pequena proposta do fundo de auxílio à pesquisa no MIT para ciência e engenharia de materiais, que veio da National Science Foundation (NSF).

Quanto foi investido inicialmente na fundação da American Superconductor?
Provavelmente uns US$ 30 mil do Departamento de Energia e da NSF. O ponto importante aqui, é claro, foi o momento do investimento.

Nessa época, o MIT tinha uma política clara para ajudar, ou pelo menos não atrapalhar, esse processo de um professor poder abandonar a universidade para criar uma empresa?
É uma pergunta muito boa. O MIT não tinha uma política pró-ativa, mas, ao mesmo tempo, é muito importante dizer que sua atmosfera não atrapalhava esse tipo de coisa. Nosso contrato com o Departamento de Energia não tinha que ir para outros escritórios no MIT. Bastava um telefonema para o encarregado dos contratos dizendo “isso é uma boa idéia, vocês não estão interessados nela?” Havia muito pouca burocracia. Nós ouvíamos uma resposta positiva em, provavelmente, uma semana. Essa é a coisa mais importante que posso dizer: embora não houvesse política organizada no curto prazo, a cultura empreendedora e o fato de o corpo docente e o departamento de pesquisa do MIT não se sentirem inibidos por normas foram muito importantes.

Que noções de empreendedorismo o MIT está tentando passar em Cingapura e na Universidade de Cambridge?
São dois exemplos bem diferentes. Cingapura é uma pequena nação insular, que passou, literalmente da noite para o dia, de uma renda per capita incrivelmente pequena, há 20 ou 25 anos, para uma das mais altas do mundo. Como eles fizeram isso? Trazendo um monte de empresas internacionais para sua ilha, essencialmente com o propósito de fabricar ali. O único recurso natural que Cingapura tinha era uma população educada. Não era, em termos de recursos naturais, como o Brasil. Numa visita que eu e uns colegas fizemos a Cingapura, ficou claro que eles precisavam fazer um trabalho muito mais agressivo em termos de programas de mestrado. Notei também que os programas de doutorado deles não estavam nem perto de uma qualidade de classe mundial, nem estavam atraindo o número certo de pessoas. Para satisfazer a necessidade de atrair novas empresas para seu país e manter as que já estão por lá, Cingapura percebeu que tinha de ter mais estudantes fazendo mestrado. Então, para tornar curta uma história que é longa, posso dizer que eles contrataram o MIT para avaliar seus programas educacionais. Isso foi fácil, porque eles só têm duas universidades, com um sistema educacional de orientação britânica, onde ensinam o inglês como a primeira língua estrangeira. E é aí que o MIT entrou para começar a mudar. Primeiro com um sistema integrado de pesquisa e educação. Queríamos que eles fizessem mais cursos de ensino, mas também mais pesquisa. E também estabelecer um programa de ensino que podia ser baseado no programa americano de doutorado.

Quantas empresas nas universidades de Cingapura surgiram dessa cooperação?
Acho que, tanto em Cingapura como em Cambridge, é cedo demais para dizer algo nesse sentido. Mas acho que os alicerces estão sendo colocados no lugar devido. A recompensa em ambos os programas ainda está alguns anos distante, simplesmente porque a aliança Cingapura-MIT formalmente começou em 1999, é muito recente. E o Instituto Cambridge-MIT só teve início em julho de 2000.

Como surgiu a parceria com a tradicional Universidade de Cambridge?
Parte das razões para o MIT entrar em grandes parcerias desse tipo é que percebeu que não estava mais crescendo internamente. Vimos que tínhamos de buscar uma resposta para a questão sobre se o MIT deveria pensar em se internacionalizar ou não. E o melhor modo de responder a isso foi fazer alguns experimentos. Então, sob vários ângulos, Cambridge e Cingapura são experimentos para nós. Pensamos: existe algo de valor que podemos exportar? E podemos fazer isso de modo que não prejudique o que executamos em Massachusetts? O que fizemos em Cingapura foi fincar um mastro no chão e dizer: “Se vocês querem uma educação ao modo MIT, venham para Cingapura”. Provavelmente não faremos um campus similar na Coréia do Sul, no Japão, em Taiwan, em quatro lugares da China. Não podemos fazer isso. Uma vez feito o acordo com Cingapura, esperava que as próximas parcerias ocorressem nas Américas Central e do Sul, em países como Brasil, México, Venezuela, Chile e Argentina. São países que devem estar pensando sobre como podem maximizar o retorno de seu investimento em pesquisas. Agora, respondendo à sua pergunta, fiquei chocado quando tivemos a oportunidade de nos envolver com uma nação européia.

Por quê?
Esperava que muitos lugares da Europa fossem dizer algo do gênero: “Nós somos extraordinariamente bons, fazemos isso há muito mais tempo do que vocês do MIT, por que precisamos de vocês?” Acontece que o ministro da Fazenda da Inglaterra estava muito preocupado com a competitividade, a produtividade e a cultura empresarial inglesas. Obviamente, é um povo muito esperto, com um tremendo histórico em termos de educação e achados de pesquisa de classe mundial. A Universidade de Cambridge é extremamente forte do ponto de vista científico. Acontece que injetar a cultura do MIT, injetar um espírito criativo, inovador e empresarial, mesmo em lugares como Cambridge, pode ter benefícios incríveis. A condição necessária é que você tenha boas idéias, mas só isso não leva necessariamente a empresas iniciantes e efeitos dinâmicos na economia. Acho que tanto Cingapura como Cambridge, em menor extensão, sofrem de aversão ao risco e uma relativa intolerância com o fracasso. Isso é fortíssimo na Ásia. Correr risco, com a possibilidade de fracassar, é muito frustrante para eles. Vai levar um longo tempo para esse componente cultural ser erradicado. E mesmo na Inglaterra, há um desconforto com o risco e uma preocupação real quanto a como se lida com o fracasso.

O empreeendedor tem de encarar o fracasso com naturalidade?
Não estou dizendo que nenhum de nós goste de fracassar. Todos nós somos algo avessos ao risco. Mas há mais desembaraço em correr riscos num lugar como o MIT do que em outros lugares onde tive alguma experiência. Você precisa ter uma habilidade, um desejo de correr algum nível de risco porque nem toda idéia vai funcionar. Ou, mesmo se funcionar, pode funcionar por um tempo, mas transformá-la em um negócio é completamente diferente. Muitas dessas boas idéias estão vindo de pesquisadores que são muito acadêmicos, voltados para suas pesquisas e ensino. Quem vai lhes dar uma mão? Há escritórios disponíveis dentro de sua comunidade acadêmica para assisti-los e tornar mais fácil a tarefa de levar suas idéias ao mercado? Essa é uma área em que, com certeza, Cambridge é muito mais fraca do que o MIT. Por meio do Instituto Cambridge-MIT, estamos corrigindo isso.

O senhor está familiarizado com a nossa chamada “lei de inovação”, que propõe a criação de um novo regime de trabalho para pesquisadores interessados em sair da universidade por um tempo para criar uma empresa?
Obviamente, não sou um especialista nela, mas acho que esse tipo de iniciativa pode ajudar muito. Promovendo essa flexibilidade dentro da universidade, os pesquisadores terão de se perguntar se é certo participar de uma empresa. Muitos dos que eu chamaria de acadêmicos clássicos, tão logo você pense em negócios e fazer dinheiro, vão achar que você foi “tentado” enquanto acadêmico.

O pesquisador, então, tem de estar preparado para encarar essa nova situação, se decidir criar uma empresa?
Sim. Não é saudável para quem está fazendo isso sentir que alguns de seus colegas o estão olhando com desprezo. E não é saudável para o colega que sente que essa pessoa não está fazendo a coisa certa não ter tido a chance de discutir essa questão abertamente. Na minha opinião é uma mudança para melhor, mas necessita de discussão aberta. Meu sentimento é que o Brasil é um país com uma influência européia em suas universidades. O currículo que um estudante de graduação ou de pós-graduação visa essencialmente é perscrutar cada vez mais fundo dentro de sua disciplina ou sua subdisciplina. As oportunidades para expandir, pensar em aspectos econômicos, políticos, legislativos, de tecnologia (como oposição à ciência profunda) do que se está fazendo são limitadas pelo fato de que o currículo em muitas disciplinas é extremamente estreito. Também me pergunto por que o Brasil não está fazendo mais como Cingapura. Por que vocês não estão trazendo mais empresas, mais pesquisa e desenvolvimento?

Algumas pessoas de fora do meio acadêmico acham que os pesquisadores, às vezes, não estão sintonizados com a vida real, que alguns não lêem jornais nem conhecem o mercado potencial dos produtos tecnológicos que inventam. O que o senhor acha dessa visão?
O que você acabou de descrever é, até certo ponto, o jeito que o MIT era 25 ou 30 anos atrás. Quero dizer que nós não começamos em 1861 (fundação do MIT) com essa atitude empreendedora que mencionei acima. Essa postura se desenvolveu principalmente nos últimos 30 anos. Ainda há no resto do mundo, e mesmo um pouco em algumas partes do MIT, a situação que você descreveu. É algo que chamo de “mentalidade da torre de marfim.” É uma mentalidade do tipo: “Quero fazer minha matemática, minha física, minha química. Não me incomodem com o mundo real.” Isso tem de mudar.

Como podemos atrair capital privado para a pesquisa tecnológica? Estou falando de capital brasileiro e, claro, estrangeiro e capital de risco.
Não apenas de risco. Uma das dificuldades que vejo neste país, em geral, é que vocês têm muitas oportunidades, mas não há disciplina suficiente.

Que tipo de oportunidades o senhor vê?
Particularmente com essa nova lei de inovação, muito dinheiro vai estar à mão para servir de combustível para se mover mais rápido dentro do século 21 e assegurar que o Brasil faça o papel que deveria no mundo. Mas vai ser difícil fazer isso se vocês não começarem a apostar num modo bem diferente do que é feito agora. Vocês podem ter de mudar para um sistema – não sei, é fácil falar, e provavelmente muito difícil de implementar – em que usem mérito e qualidade de modo mais decisivo e definitivo do que agora.

No Brasil, temos um grande número de negócios que estão sendo incubados. O senhor acha que esse tipo de abordagem funciona de verdade, em termos de criação de novas empresas de base tecnológica?
Sim, acho. Acho que é o modo como muitos negócios têm começado. Sei que existem incubadoras na PUC, na Universidade de Campinas e algumas outras. No Rio, com certeza, há algumas muito boas. Mas não sou grande conhecedor do sistema universitário do Brasil. Minha visão é, vamos dizer, “uma visão tonal”, vejo o Brasil por meio da PUC. Se eu olhar para a incubadora da PUC, vejo gente muito boa, com idéias muito boas, numa incubadora muito boa. Mas é diferente do MIT no seguinte: não é claro para mim por que esses grupos de pessoas foram para essa incubadora. Não é a história da American Superconductor. Essa empresa começou mesmo numa base científica, com patentes que realmente acompanhavam aspectos profundos de engenharia e de ciência, e se preocupou em usar isso para fazer um produto que eventualmente iria para o mercado. É só uma suspeita. Pode não ser bem fundamentada.

Qual o papel do financiamento público e privado no fomento de novas empresas de base tecnológica?
Acho que muito dessa função é privada. No entanto, o financiamento público também tem seu papel. Ao governo, cabe essencialmente receber pequenas propostas, do tipo em que você escreve para uma agência e diz: tenho tal idéia, mas preciso de um pouco mais de pesquisa antes de pensar em transformá-la num produto. Por favor, me dêem US$ 100 mil para ir atrás disso. Esse auxílio pode ser requerido por empresas privadas, desde que as pesquisas sejam para reforçar um pequeno negócio.

No Brasil, faltam vagas para pesquisadores nas universidades. O que se deve fazer para as empresas privadas contratarem mais cientistas e montar departamentos de pesquisa?
Se a atitude das empresas no país não mudar, vocês estarão produzindo muitos PhDs, desempregados. É um risco, mas é um bom risco! Algum grupo de pessoas precisa pôr isso em questão.

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