Imprimir PDF

Saúde

Sementes radioativas contra o câncer

Ipen domina a tecnologia de fabricação de cápsulas contendo iodo-125 para o tratamento de tumores na próstata

MIGUEL BOYAYANNo Ipen, câmara hermética revestida de chumbo para manipulação e controle de qualidade de material radioativoMIGUEL BOYAYAN

Pacientes que sofrem de câncer de próstata terão, em breve, acesso facilitado a uma terapia que proporciona um índice de cura de até 88%. Atualmente, esse tratamento depende da importação do fármaco e é, portanto, de uso limitado no país em razão do alto custo. O tratamento utiliza cápsulas ou sementes radioativas de iodo-125 implantadas por meio de agulhas especiais na próstata do paciente. O domínio da tecnologia de produção dessas sementes foi obtido por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

Agora, elas serão produzidas no instituto, localizado na cidade universitária, em São Paulo, e deverão começar a ser vendidas em meados de 2004. As sementes nacionais custarão 40% menos do que as estrangeiras, importadas a preços entre US$ 35,00 e US$ 40,00 cada uma. Assim, o Brasil passará a ser o terceiro país do mundo, depois da Inglaterra e dos Estados Unidos, a possuir tecnologia e fabricar esse tipo de semente radioativa.

“Com a redução dos preços das sementes, mais gente poderá usufruir do tratamento”, conclui Constância Pagano Gonçalves da Silva, gerente do Centro de Radiofarmácia do Ipen e coordenadora do projeto financiado pela FAPESP, no valor de R$ 750 mil, que proporciona a finalização do protótipo e a montagem do laboratório para a produção das cápsulas. Segundo a pesquisadora, o preço das sementes será mais baixo porque a mão-de-obra no Brasil é mais barata. Como o tratamento envolve o implante de 80 a 120 sementes, o custo, com o produto importado, pode chegar a US$ 4.800, fora eventuais honorários médicos e despesas hospitalares. Com as sementes do Ipen, esse custo pode cair para R$ 8 mil. Segundo a física Maria Elisa Chuery Martins Rostelato, chefe do Laboratório de Produção de Fontes Radioativas para Radioterapia do Ipen, a demanda mensal dessas sementes é de 2 mil a 3mil unidades, o que projeta um mercado anual de US$ 840 mil. Por enquanto, esse tratamento ainda não é coberto peloSistema Único de Saúde (SUS).

A importância dessas fontes radioativas está no fato de o câncer de próstata ser o segundo de maior incidência entre homens no Brasil, vindo atrás apenas do câncer de pele não melanoma. Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), deverão ocorrer este ano 25 mil novos casos da doença e cerca de 8 mil mortes. O tratamento convencional é a cirurgia para remoção da próstata ou a radioterapia externa com acelerador linear de partículas. A radioterapia com sementes de iodo faz parte de um tratamento chamado braquiterapia, caracterizado pela fonte de radiação muito próxima ou em contato com o órgão a ser tratado. Pacientes com câncer de próstata também são tratados com hormônios, que têm a função de reduzir o tamanho da próstata ou aguardar o melhor momento para um tratamento curativo como a braquiterapia.

O implante de sementes de iodo-125 é um tipo de tratamento relativamente recente, indicado para tumores em estágio inicial. A primeira experiência foi realizada na Dinamarca, em 1983, e, dois anos depois, nos Estados Unidos. O tratamento consiste em implantar as sementes dentro da próstata para destruir as células doentes. Como o material usado na fabricação das sementes é biocompatível, elas não precisam ser removidas e o implante é permanente.

As sementes de iodo-125 têm dimensões quase microscópicas e são menores do que um grão de arroz. Elas são compostas de uma cápsula cilíndrica de titânio de 0,8 milímetro de diâmetro externo e 4,5 mm de comprimento. O titânio foi escolhido porque possui baixo índice de rejeição e sua parede é fina o suficiente para permitir a passagem da radiação. Dentro da cápsula existe um fio de prata de 0,5 mm de diâmetro com iodo-125 depositado na superfície. A atividade (quantidade de radiação emitida pelo núcleo do isótopo) típica das sementes é de 0,5 mCi (mili-Curie) de iodo-125. Nessa dosagem, a ação da semente fica restrita à próstata e atinge, com menor intensidade do que a radioterapia externa, órgãos saudáveis, como bexiga, reto e uretra. “Poupar tecidos sadios é outra grande vantagem da braquiterapia”, afirma Elisa.

A ação da semente é muito concentrada porque a radiação emitida pelo iodo-125 percorre apenas cinco milímetros de tecido humano. “Ela age dentro do paciente por dez meses, mas a maior parte de sua atividade acontece nos primeiros dois meses”, afirma Elisa. Esse período é correspondente a meia-vida (58 dias) do iodo-125. Meia-vida é o tempo que um material radioativo leva para reduzir sua atividade pela metade. Ele só deixa de ser radioativo depois de dez meias-vidas. Assim, a radioatividade total do iodo-125 desaparece após 580 dias ou quase 20 meses.

Aplicação detalhada
O implante das sementes radioativas é um procedimento rápido e seguro. Com auxílio de agulhas especiais e orientado pela visão direta de um equipamento de ultra-som transretal, o médico introduz, através do períneo (a região entre a raiz do pênis e o ânus), as sementes dentro da próstata do paciente. A aplicação é feita numa única sessão. Antes disso, no entanto, é feito um minucioso planejamento. O especialista faz um estudo da próstata com imagens detalhadas de ultra-som, que identificam seu tamanho, forma e contorno e informam a precisa posição da uretra e dos ossos pélvicos. Essas imagens são enviadas para um computador que, com o auxílio de um software, calcula a quantidade de sementes necessárias para o tratamento e o local exato onde cada uma deve ser implantada.

A iniciativa do Ipen foi bem recebida pelos médicos especializados no tratamento de tumores de próstata. “É uma tecnologia de ponta com a vantagem de ter um custo bem inferior”, afirma o radioterapeuta Rodrigo Hanriot, responsável pelo Setor de Braquiterapia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Graças ao Ipen, o acesso ao tratamento vai ser ampliado.” O projeto de desenvolvimento da semente nacional surgiu, por sinal, a partir de pedidos da classe médica. “Os médicos reclamavam do alto custo das cápsulas importadas”, relembra Elisa, do Ipen. Naquela ocasião, meados de 1998, só duas empresas, a inglesa Amersham e a norte-americana North American Scientific, fabricavam o produto e não existia nenhuma literatura disponível sobre as sementes. “Tive que cortar uma cápsula ao meio para saber como era sua composição”, diz a pesquisadora. Menos de dois anos depois, em abril de 2000, o protótipo do Ipen já estava pronto. “Mas em razão da falta de verba, nossas pesquisas caminharam lentamentee hoje cerca de dez empresas já dominam a tecnologia”, conta Elisa.

O financiamento da FAPESP concedido no início deste ano está sendo vital para a conclusão da pesquisa. “Ainda precisamos fazer estudos de dosimetria, que é a avaliação da dose de radiação ao longo da semente”, afirma a pesquisadora. O dinheiro também será empregado na construção do Laboratório de Produção de Fontes para Radioterapia, que terá câmaras herméticas de aço inoxidável equipadas com luvas de chumbo para manuseio das sementes. As cápsulas desenvolvidas no Ipen têm algumas diferenças em relação às sementes fabricadas no exterior pela Amersham, as mais utilizadas no Brasil. “Usamos outras reações químicas para depositar o iodo radioativo no fio de prata”, diz Elisa. Além disso, o processo de soldagem da cápsula é feito com microplasma – um processo que utiliza arcos elétricos, eletrodos especiais e fluxos de gás inerte entre a solda e o objeto a soldar – ao contrário das sementes de nossos concorrentes, que são seladas a laser “, explica. “Graças a essas diferenças, temos um novo produto e não precisaremos pagar royalties para nenhuma empresa estrangeira e ainda teremos uma patente.”

Menos invasivo
A braquiterapia de próstata tem conquistado cada vez mais a confiança dos médicos por se tratar de uma técnica com alto índice de cura e bem menos invasiva do que uma cirurgia de retirada da próstata, embora necessite de anestesia local e sedação. Sem falar que a recuperação do paciente é mais rápida, já que ele só precisa ficar internado por um dia e meio e pode retornar às suas atividades normais em 48 horas. A prostatectomia radical (retirada total da próstata), por sua vez, exige cinco dias de hospitalização e de semanas a meses de recuperação, enquanto a radioterapia externa tradicional consome um tempo de tratamento ambulatorial próximo a sete semanas.

A grande vantagem da terapia com as sementes de iodo-125 é que seus efeitos colaterais são muito mais brandos quando comparados à prostatectomia radical. Enquanto, entre 60% e 90% (dependendo da extensão da cirurgia e fatores como diabetes e aterosclerose) dos pacientes submetidos à cirurgia apresentam problemas relacionados à impotência sexual, apenas cerca de 30% dos homens que fazem braquiterapia sofrem desse distúrbio. Outro uso das sementes radioativas de iodo-125 é no tratamento de câncer oftalmológico. São usadas, desde 1997, no Brasil, no tratamento de tumores oculares malignos e benignos com índice de cura de até 95%, sendo que em 70% dos casos a visão é preservada. No tratamento convencional, o glóbulo ocular é retirado.

Fios de irídio
O Ipen produz uma série de radioterápicos e radiofármacos e alguns deles, como as sementes de iodo-125, também foram desenvolvidos nos laboratórios do instituto. Os pesquisadores desenvolveram, por exemplo, fios de irídio-192 para tratamento de alguns tiposde câncer (pescoço, mama e tecidos moles). O instituto compra da empresa francesa Cis-Bio International fios de irídio inativos e faz a irradiação no seu próprio reator, produzindo o irídio-192. Graças a um dispositivo projetado pelos pesquisadores do laboratório do Centro de Tecnologias das Radiações, os fios são irradiados de forma uniforme em toda sua extensão. No final do processo, a radioatividade precisa ser a mesma em cada ponto do fio, com uma variação, para mais ou para menos, de até 5%.

Ao contrário das cápsulas de iodo-125, o implante de fios de irídio não é permanente. O paciente fica internado no hospital, em quarto especial, por três a quatro dias. Depois os fios são retirados e ele recebe alta hospitalar. Esse produto é comercializado desde 1997 pelo Ipen e entre seus clientes estão os hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, em São Paulo, e o Instituto Radium, de Campinas. O fio, com 50 cm de comprimento, custa cerca de R$ 1.100. “Vendemos em torno de 18 fios por ano. O número ainda é limitado porque poucos hospitais usam esta tecnologia”, explica Elisa, que também esteve à frente do desenvolvimento desse produto. Com o uso das sementes produzidas no Ipen, essa situação pode ser revertida e a distribuição desses materiais, ampliada.

O projeto
Desenvolvimento da Técnica de Produção de Sementes de Iodo-125 para uso em Braquiterapia (nº 01/04768-3); Modalidade Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa; Coordenadora Constância Pagano Gonçalves da Silva – Ipen; Investismento RS$ 474.083,14 e US$ 169.623,25

Republish