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Petróleo

Formação dos casulos negros

Movimento de sedimentos no fundo do mar é objeto de estudo de equipe gaúcha

STÉFERSON FARIA / PETROBRASÁguas profundas: Petrobras quer continuar na liderança da prospecção de petróleoSTÉFERSON FARIA / PETROBRAS

Cada vez mais a Petrobras procura diminuir custos e riscos nas suas operações de prospecção de poços de petróleo em águas oceânicas profundas, área onde a empresa é líder mundial em tecnologia. Para isso investe em parcerias, como a iniciada há três anos com o Núcleo de Estudos de Correntes de Densidade (Necod), do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O objetivo é tentar conhecer melhor os deslocamentos dos sedimentos que dão origem ao petróleo e as áreas mais prováveis onde estão depositados. “Em 1999, fomos procurados por técnicos da Petrobras, que desejava criar um centro de excelência, dentro do Programa de Fronteiras Exploratórias da empresa, para prospecção em águas profundas”, conta o professor Rogério Maestri, coordenador do projeto. “Nosso desafio é saber como se formam, para onde se dirigem e onde estão localizadas as rochas que compõem os reservatórios.”

Os estudos concentram-se na bacia de Campos, no Rio de Janeiro, onde se extrai quase 80% da produção nacional de petróleo, de 1,5 milhão de barris/dia. Um tanque em alvenaria, com 1,80 metro de altura e área de 300 metros quadrados, reproduz em seu interior a topografia do cânion Almirante Câmara, na bacia fluminense. A escolha desse local é estratégica. Como já foi explorado pela Petrobras, é excelente fonte de dados para a pesquisa. Segundo Maestri, o modelo opera numa geometria tridimensional – reproduzindo as grandes irregularidades horizontais e verticais que constituem a topografia do cânion -, com dados de corrente de densidade.

Eras passadas
O fenômeno corrente de densidade pode ser visto na progressão de uma frente fria, no movimento de uma avalanche, nas correntes sedimentares formadas durante a explosão de um vulcão ou em outras situações que ocorrem na natureza. A definição científica desse fenômeno é que há o escoamento de um fluido de maior densidade embaixo de outro, de menor densidade. Segundo cálculos de especialistas no setor, 98% do petróleo brasileiro tem sido encontrado em depósitos de correntes de densidade que ocorreram em eras passadas. Depositado em ambientes marinhos profundos, o material orgânico compactado junto ao sedimento transforma-se, em condições ideais de pressão, temperatura e tempo, em petróleo.

O processo de acumulação desse material na costa marítima brasileira teve início há cerca de 130 milhões de anos, com a separação do continente africano do americano. Nesses primeiros movimentos, o material mais grosso, depositado na plataforma continental, e o material orgânico, encontrado naturalmente no fundo do mar, foram jogados, na forma de correntes de densidade, para dentro das bacias marítimas. Em determinado momento, essas bacias sofreram rupturas, formando pequenas ravinas, conhecidas na linguagem geológica como cânions, localizados na borda da plataforma marítima. São eles que conduzem a mistura de água com sedimentos, por centenas de quilômetros, no fundo abissal, formando canais, onde é depositado, em pontos estratégicos, o material que dá origem ao petróleo. “Esses pontos e a qualidade dos depósitos são o objeto maior das nossas pesquisas”, explica Maestri. Se o material for mais grosso, é considerado um depósito de maior qualidade. Se for mais fino, não contém tanto petróleo.

A maioria dos depósitos em que se encontra petróleo tem de 30 milhões a 40 milhões de anos, datas que coincidem com os ciclos de rebaixamento e subida do nível dos oceanos. Quando o nível do mar recua, a plataforma fica descoberta e o material que se depositou ao longo de milhares de anos é carreado para a parte mais funda do mar, formando sedimentos que dão origem ao petróleo, que é formado em rochas geradoras e migra para rochas reservatórias. São elas que seguram o óleo, o gás e a água que ficam em seu interior.

Nas pesquisas feitas pelo grupo gaúcho são simuladas correntes de alto grau de turbulência em fluidos newtonianos (fluidos com comportamento semelhante à água e ao ar). As partículas carregadas pela corrente desenvolvem um movimento composto no interior do fluxo, apresentando uma trajetória circular em torno do início da corrente.

A turbulência no fluxo imprime ao material depositado no fundo do mar uma estrutura característica. Um depósito padrão é o que apresenta o material mais grosso na base dessa estrutura, enquanto o mais fino vai para o topo. “A gênese dessa corrente sinaliza onde se encontram os depósitos de petróleo”, diz Maestri.

Segundo dados da Petrobras, a prospecção de uma área em águas profundas requer investimentos superiores a US$ 30 milhões. Quase 90% desse total é gasto na perfuração de um poço, que efetivamente comprova a existência ou não de petróleo e gás. A indústria petroleira considera um bom resultado quando 30% dos poços perfurados na fase de prospecção resultam na descoberta de novos campos. Para Maestri, qualquer progresso, mesmo que seja de apenas 1% em relação ao objetivo proposto, representa grande economia de tempo, de recursos e de controle ambiental na exploração de petróleo.

“Os ganhos da pesquisa ainda não são mensuráveis economicamente, mas do ponto de vista científico já houve acréscimo de conhecimento, com o desenvolvimento de duas dissertações de mestrado sobre o tema, uma tese de doutoramento e trabalhos apresentados em congressos e encontros acadêmicos e científicos”, relata. Os resultados obtidos nas pesquisas são repassados, periodicamente, à Petrobras e ao Fundo Setorial do Petróleo, do Ministério da Ciência e Tecnologia, que participa do financiamento do projeto. Desde que teve início, já foram liberados R$ 460 mil para o desenvolvimento dos modelos.

O geólogo Fernando Del Rey, um dos interlocutores da Petrobras com os pesquisadores do Necod, salienta que as pesquisas ainda se encontram na fase inicial, mas representam um grande avanço. “O núcleo já está sendo considerado por muitos pesquisadores internacionais como um dos laboratórios mais bem equipados para a realização desse tipo de pesquisa. É o único centro do Brasil onde são estudadas correntes de densidade com enfoque nos processos sedimentares marinhos.”

Os equipamentos de última geração, a especialização na área e os 49 anos de experiência do instituto certamente são credenciais suficientes para que os pesquisadores consigam responder ao desafio proposto pela Petrobras, de tornar a prospecção de petróleo em águas profundas uma atividade com menos riscos e custos.

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