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Medicina

Curativo de borracha

Material feito com látex da seringueira fecha úlceras e reconstitui esôfagos e tímpanos

O látex extraído da seringueira, matéria-prima que no século 19 colocou o Brasil como o maior exportador mundial de borracha, é a base de um biomaterial inovador com excelentes resultados na cicatrização de úlceras crônicas e na reconstituição de esôfagos e tímpanos perfurados. Desenvolvido na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), o biopolímero deverá ser produzido inicialmente pela Pele Nova Biotecnologia, em uma fábrica piloto instalada em Campo Grande (MS). A empresa foi constituída pela Academia Brasileira de Estudos Avançados, uma organização não-governamental (ONG) mantida pela empresa Avamax Biotecnologia, que tem entre seus membros o ex-presidente da Embraer e da Varig Ozires Silva.

“Fazemos a ponte entre os cientistas e os investidores, para mostrar produtos com potencial em disputar o mercado”, explica Ozires, que já promoveu várias reuniões entre o coordenador do projeto, o médico Joaquim Coutinho Netto, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da FMRP, e interessados em conhecer em detalhes o novo produto. O objetivo desses encontros, dos quais já participaram inclusive investidores da Alemanha e da Itália, é captar os recursos necessários para montar a unidade piloto e a industrial. A planta piloto, prevista para começar a funcionar no próximo mês de julho em uma antiga fábrica de industrialização de palmito pertencente à Avamax, foi projetada de acordo com os critérios exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A industrial será instalada no distrito industrial de Ribeirão Preto, idealizado pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci, na época em que era prefeito da cidade.

Concorrência multinacional
O biopolímero, que inicialmente será lançado para tratar úlceras crônicas de pés e pernas, vai concorrer com outros de grandes multinacionais, como Johnson e Novartis. Segundo Coutinho, as fórmulas são diferentes, mas os resultados, idênticos. “Sem contar que o tratamento com o nosso produto custará, pelo menos, dez vezes menos”, afirma. “Uma bisnaga de 15 gramas de um cicatrizante à base de gel com hormônio humano custa US$ 350 e dá para apenas poucos dias”, compara Coutinho.

A trajetória que levou a essa biomembrana teve início em 1994, quando a então estudante de mestrado da Área Cirúrgica da FMRP Fátima Mrué, uma goiana que passou dois anos em Tóquio, no Japão, acompanhando cirurgias de pacientes com câncer, resolveu trabalhar em sua tese com a prótese de Takimoto, que leva o nome do médico inventor, composta de silicone e colágeno e utilizada para reconstituir esôfagos. Fátima procurou Coutinho para saber como obter colágeno da pele de porco, técnica descrita em um artigo publicado na década de 60 e que seria utilizada na confecção da prótese.

Hoje, Coutinho diz que não imaginava que aquela simples pergunta sobre o colágeno o conduziria a reuniões semanais com interessados em investir no biopolímero. Afinal, para se ver livre da estudante na ocasião – hoje Fátima Mrué é cirurgiã do Centro de Oncologia do Hospital das Clínicas de Goiânia -, Coutinho disse a ela que, se encontrasse o artigo, poderia ajudá-la na empreitada de fazer uma prótese semelhante à de Takimoto. “Tarefa muito difícil e demorada para a época, já que não havia a Internet”, como ele mesmo relembra. Dois dias depois, a surpresa. Fátima voltou com o artigo nas mãos. Coutinho, resignado, resolveu ajudar a persistente aluna na preparação do colágeno da pele de porco.

Mas, ao ser misturado ao silicone, não houve jeito de fazer com que os dois materiais se unissem. “Não conseguimos reproduzir a prótese japonesa”, relembra Coutinho. “Takimoto não contou em sua patente como fazia para fixar o colágeno na prótese.” Fátima ainda entrou em contato com o médico japonês para pedir ajuda, mas ele não revelou o bem guardado segredo.

Inspiração no passado
“Foi quando tive a idéia de fazer a prótese com o látex de seringueira”, relata o médico, inspirado, provavelmente, na lembrança das grandes plantações de seringueira da pequena cidade do interior paulista em que nasceu, Guapiaçu. Ele achou que seria mais fácil misturar o colágeno ao leite da seringueira. Fátima não botou muita fé na solução proposta, mas resolveu acatá-la. Como eles precisavam de alguém que fabricasse a prótese experimental, encontraram na região de São José do Rio Preto o químico Antônio César Zabrowski, da empresa Globbor, que vende borracha para a Goodyear. Zabrowski se prontificou a fabricar as próteses e construiu-as com um molde de vidro sanfonado, composto de látex vegetal e 0,1% de colágeno ou polilisina.A prótese experimental, um tubo de 8 centímetros de comprimento por 2 centímetros de diâmetro, foi implantada no esôfago de oito cães.

Mas uma ocorrência incomum chamou a atenção dos pesquisadores. Dez dias após o implante, as próteses foram expelidas junto com as fezes do animal. Eles acharam estranho e resolveram fazer endoscopias para saber o que tinha acontecido, já que nenhum dos cães aparentava estar doente. Ao fim do exame, Fátima e Coutinho ficaram surpresos com a revelação de que, em tão curto período de tempo, um novo esôfago havia se formado no trecho seccionado. Na análise histológica (avaliação do tecido ao microscópio), ele se mostrava praticamente igual a um esôfago normal, com todas as camadas. “Não ficou praticamente nenhuma cicatriz e também não houve a formação de fibrose no local reparado, mostrando um processo de neoformação tecidual”, conta Coutinho.

“Os resultados foram surpreendentes e resolvemos investigar a fundo o fenômeno”, relata. Como o corte histológico do material mostrava a presença de grande quantidade de vasos sangüíneos no local onde foi colocada a prótese, isso poderia explicar o processo de reparo (cicatrização) acelerado. Mas essa propriedade do látex de estimular a angiogênese (formação de novos vasos sangüíneos) só foi descoberta porque o polímero não foi obtido pelo método tradicional, conhecido como vulcanização, com temperaturas de 110º C a 125º C. Zabrowski utilizou uma técnica de polimerização sob condições especiais, desenvolvida e patenteada por ele e, posteriormente, comprada pela Avamax.

A comprovação de que o método de obtenção do biopolímero era fundamental no processo de angiogênese foi feita quando os pesquisadores resolveram fazer testes usando luvas e preservativos, que têm como matéria-prima o látex, para ver comose comportavam no processo de cicatrização. “Mas esses materiais não mostram atividade angiogênica”, relata Coutinho. Os testes foram feitos ainda com ovos de galinha embrionados, para avaliar a formação dos vasos, e em orelhas de coelhos, para verificar a rapidez com que ocorre o processo de cicatrização. “A aplicação do biomaterial acelerava um processo neoformador tecidual, altamente organizado, sem cicatriz”, sintetiza o médico.

Cicatrização rápida
Depois de completar o ciclo de testes com animais, chegou o momento de começar a avaliação do biomaterial à base de látex vegetal em pacientes humanos. Em 1997, Coutinho e Fátima submeteram à Comissão de Ética Médica do Hospital das Clínicas da FMRP pedido para começar os experimentos em humanos. Essa autorização só saiu um ano depois, permitindo ao aluno Paulo César Grisotto, que fazia doutorado na época em Ribeirão Preto, estender e adiantar os estudos, tratando pacientes com úlceras crônicas de difícil cicatrização no hospital de Itajobi (SP), cidade da região de São José do Rio Preto”, relata Coutinho.

“Em média, 12 dias depois de os curativos com o biopolímero começarem a ser aplicados nos pacientes, as feridas crônicas, principalmente de portadores de diabetes, começavam a mostrar sinais de evidente granulação e epitelização, contra os seis meses necessários pelos métodos tradicionais, que incluem internação hospitalar”, conta o médico. Segundo levantamento epidemiológico realizado na cidade mineira de Juiz de Fora pelo médico Marco Andrey Cipriani Frade, cerca de 2,7% da população tem úlceras crônicas nos pés e pernas, percentagem que chega a 10% em diabéticos. Essas feridas representam a segunda causa de faltas ao trabalho no Brasil.

Tímpano reconstruído
Seis anos depois de Grisotto ter começado a fazer os experimentos em humanos, o número de pacientes estudados em hospitais de Ribeirão, Itajobi, Juiz de Fora e outros chega a 3 mil, dos quais 2.500 com úlceras e o restante com tímpano perfurado por infecção ou trauma. Todos os testes foram realizados após aprovação pelas comissões de Ética Médica das respectivas instituições. As cirurgias para refazer a membrana timpânica com a biomembrana de látex foram realizadas pelo Setor de Otorrinolaringologia do Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da FMRP. Essa cirurgia, chamada de miringoplastia, tem como finalidade reconstruir o mecanismo de transmissão sonora. Diversos materiais são usados com esse objetivo, destacando-se a fáscia (camada de tecido fibroso que cobre o corpo sob a pele) do músculo temporal, cartilagem, tecido placentário, entre outros, mas os resultados mostram até 30% de insucessos do ponto de vista anatômico e 19% de reperfuração, causados, principalmente,pela falta de vascularização do enxerto.

Já o uso da biomembrana de látex em miringoplastias mostrou intensa vascularização, como indica o trabalho dos otorrinos José Antonio Apparecido de Oliveira e Miguel Angelo Hyppolito, da USP de Ribeirão Preto, “Miringoplastia com a Utilização de um Novo Material Biossintético”, apresentado em 1998 durante o 34º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia em Porto Alegre. A dupla ganhou o primeiro prêmio ao descrever o sucesso dos enxertos com o biopolímero. “Verificamos intensa vascularização em 100% dos enxertos, o que não é habitual quando não se usa a membrana de látex natural”, diz um dos trechos do premiado trabalho.

O relato refere-se a apenas 19 tímpanos perfurados que receberam o biomaterial como implante transitório em miringoplastias. Hoje os casos de sucesso chegam a cinco centenas. Duas teses de doutorado, desenvolvidas no Departamento de Cirurgia e Anatomia da FMRP, sob a orientação dos professores Jesualdo Cherri e Carlos Eli Piccinato, defendidas pelos cirurgiões vasculares Mário Augusto da Silva Freitas e Paulo Cesar Grisotto, respectivamente em agosto de 2001 e fevereiro de 2003, apontaram, depois de testes feitos em animais, que é possível a recuperação de artérias cardiovasculares por meio da utilização de próteses de látex.

Mas ainda são necessários experimentos, antes dos testes em pacientes humanos, para avaliar a eficácia desse material, que poderia vir a substituir as atuais próteses sintéticas ou de materiais biológicos de origem animal, como o pericárdio bovino ou suíno. Essas pesquisas mostram que o biopolímero à base de látex vegetal ainda pode dar origem a muitos outros produtos, com aplicações diversas. Os curativos são apenas o primeiro passo para a Pele Nova Biotecnologia entrar na disputa por um mercado nacional estimado em cerca de 4,5 milhões de pessoas, que, provavelmente, não podem pagar os altos valores dos medicamentos importados.

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