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Memória

Vida nova no Recôncavo

Primeira escola de agronomia da América Latina deve se transformar em universidade

Depois de 130 anos, a Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a primeira a ensinar ciências agrárias na América Latina, deve mudar de status . A velha escola de Cruz das Almas está a um passo de se transformar na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), uma antiga reivindicação do estado. O Recôncavo é a região do entorno da baía de Todos os Santos, que inclui Salvador e a ilha de Itaparica. O projeto é ambicioso. “Para os próximos dez anos, a meta é que a UFRB tenha 30 cursos de graduação, 1.200 funcionários e 10 mil alunos”, conta Aureo Oliveira, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Ciências Agrárias da Escola de Agronomia da UFBA e do projeto Memorial do Ensino Agrícola Superior da Bahia, este financiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Hoje a escola tem apenas o curso de engenharia agronômica, mas abrigará já neste ano os de engenharia de pesca, engenharia florestal e zootecnia, ainda dentro da estrutura da UFBA. A novidade ajudará a movimentar a região. “Estes novos cursos foram criados em função da identificação de demandas no Estado da Bahia”, afirma Oliveira.

Algo semelhante ocorreu quando foi fundada a então Imperial Escola Agrícola da Bahia, em 1875, em conseqüência de política iniciada em 1859 pelo imperador d. Pedro II, que ordenou a criação de institutos de agricultura pelo país. O Imperial Instituto Baiano de Agricultura foi o primeiro. Depois vieram os de Pernambuco, Sergipe, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A intenção era tentar resolver problemas como falta de mão-de-obra capacitada, de capital e atraso tecnológico da produção agrícola. Mas havia outras razões: as notícias sobre a evolução da ciência agronômica na Europa chegavam ao Brasil. Justus Liebig instituiu na Alemanha, na Universidade de Giessen, o ensino e a pesquisa em química agrícola.

Na mesma época surgiam os estudos sobre a ação fixadora de nitrogênio no solo pelas bactérias e o uso do calcário para correção da acidez da terra, entre outras pesquisas que viriam a ter grande importância para o setor. A primeira sede do Imperial Instituto foi em São Bento das Lages, no Recôncavo. Nos seus primeiros 50 anos, foram realizadas pesquisas e experimentos que contribuíram para a expansão e consolidação das lavouras de cana-de-açúcar. Foi o instituto que possibilitou o surgimento da Imperial Escola de Agricultura com o objetivo de formar agrônomos, silvicultores, veterinários e técnicos. A escola começou bem, mas com o tempo diminuíram o interesse e a verba do Império.

Em 1889, com a proclamação da República, houve um esvaziamento de recursos e alunos. Entre 1902 e 1919, por duas vezes crises sucessivas levaram ao fechamento e a reabertura da escola e do instituto. A Escola Agrícola da Bahia, com novo nome, só adquiriu estabilidade na década de 1930. Nesse ano foi transferida para Salvador e, em 1943, para Cruz das Almas. A partir de 1970 houve a vinculação à UFBA. À exceção do período em que ficou fechada, a escola produziu bom ensino (seus quadros serviram aos outros cursos de agronomia nascentes) e pesquisa de qualidade para o estado baiano. Agora, mais de um século depois, está prestes a ganhar reconhecimento nacional.

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