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Carta da editora | 116

Uma explosão estelar

No início de setembro, a pequena mas aguerrida comunidade de astrofísicos brasileiros comemorou um feito que atesta mais uma vez sua alta qualificação: no dia 4, menos de sete horas depois de um satélite da Nasa ter enviado um alerta para todos os astrofísicos de plantão sobre possíveis indícios de uma explosão de raios gama nos confins da constelação de Peixes, o jovem pesquisador paulista Eduardo Cypriano, ligado ao Soar, captou as primeiras imagens do que adiante se verificaria ser uma explosão estelar muito mais importante do que se supunha. Na verdade, tratava-se simplesmente – como se constatou a partir das medições do Soar, observatório do qual o Brasil é um dos sócios majoritários e que conta com um apoio importante da FAPESP – da mais antiga e distante explosão de uma estrela já captada na Terra. E toda essa história está muito bem contada pelo editor especial Marcos Pivetta, a partir da página 40.

Aliás, há mais nesta edição sobre esse tipo de participação importante de pesquisadores do país em grandes projetos científicos internacionais: o editor de tecnologia, Marcos Oliveira, conta como físicos brasileiros estão envolvidos num gigantesco estudo de partículas subatômicas, a partir da página 64.

O Partido dos Trabalhadores também é objeto de reportagem de Pesquisa FAPESP, e por uma razão muito simples, seja do ponto de vista jornalístico, seja do ponto de vista acadêmico: é que desde o seu nascimento em 1980, o partido que agora protagoniza uma crise que atrai os olhos da nação inteira para Brasília, foi uma das instituições políticas do país mais estudadas por sociólogos, cientistas políticos e filósofos, daqui e dalhures. A propósito, ainda lembro do pensador francês Felix Guattari, no auditório do Ceas, Centro de Estudos e Ação Social, em Salvador, numa noite no começo dos anos 1980, saudando a fundação do partido como um fato efetivamente novo na história da esquerda, mais ainda, na história da política, se é que podemos dizer assim, em nível mundial. E explicando, explicando incansavelmente, essa sua visão a um auditório lotado de rostos ansiosos em torno dos 30 anos que queriam, depois de tanto sofrimento imposto pela ditadura militar, recuperar a fé na capacidade transformadora da ação política. Mas volto ao trilho da exposição: se tem sido tão estudado, imaginamos, talvez a academia tenha alguma luz nova a jogar sobre a natureza, as razões imediatas e mais profundas dessa crise, e seus possíveis desdobramentos. De fato – tinha… E é exatamente isso que se poderá conferir na irrepreensível reportagem do editor de Humanidades, Carlos Haag, a partir da página 80.

Há muitas outras reportagens desta edição que mereceriam destaque neste espaço. No entanto, desta vez vou usá-lo para destacar uma parte essencial da identidade desta revista que quase sempre permanece na sombra: a arte. Sugiro um olhar mais atento que de hábito ao visual de Pesquisa FAPESP, que tem no comando um finíssimo artista, Hélio de Almeida, nosso diretor de arte, apoiado por uma equipe competente formada por Tânia Maria dos Santos, a chefe da arte, mais José Roberto Medda e Mayumi Okuyama, mais os fotógrafos Miguel Boyayan e Eduardo César. Reparem, por exemplo, nas fotos das entrevistas pingue-pongue, em preto-e-branco, nas páginas 15 e 87. Elas não criam uma atmosfera diferente nessas páginas? E o que dizer das ilustrações da reportagem sobre o desarmamento, nas páginas 91, 92 e 93? São verdadeiras esculturas criadas pelo próprio Hélio para esta edição e depois fotografadas. Bem perto, nas páginas 81, 82 e 85, um olhar demorado nas ilustrações de Laurabeatriz vai com certeza acrescentar fruição estética à leitura da revista. Enfim, Pesquisa FAPESP é pensada para oferecer leitura relevante sobre a ciência, a tecnologia e a pesquisa de humanidades em nosso país, num suporte de indiscutível plasticidade estética.

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