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Carta da editora | 122

De produção, potência e beleza

Há alguma coisa no microcosmo da produção de álcool no Brasil que evoca de maneira um tanto incômoda o próprio país, como se ali ele estivesse retratado em miniatura e de forma privilegiada em suas flagrantes contradições, desigualdades extremas e visíveis complexidades. Veja-se: há nesse setor pesquisa de ponta com os genes da cana-de-açúcar, por exemplo, que poderá criar vias para aumentar a concentração de açúcar em cada planta e torná-la muito mais resistente às pragas – efeitos que resultariam sem dúvida em um aumento notável de produtividade da cultura. Ao mesmo tempo, arcaísmos inaceitáveis e ofensivos à dignidade humana, como o trabalho dos chamados bóias-frias, persistem num setor que movimenta 2% do PIB brasileiro, moderniza-se aceleradamente em termos técnicos e está se tornando multinacional. Entre 2004 e 2005, constata uma pesquisa feita na USP, 13 bóias-frias morreram por excesso de trabalho na área produtiva de São Paulo.

Nessa ambiência se instala hoje um desafio importante para o país: aumentar rapidamente sua oferta de álcool combustível, produto que além de ter seu consumo hoje francamente estimulado no mercado interno é cada vez mais desejado no mercado internacional. Abre-se assim aquilo que os homens de negócios chamam uma janela de oportunidade, no caso uma janela que a médio prazo pode apresentar resultados polpudos para o PIB nacional.

Mas como aumentar a oferta de álcool combustível no país? Guiada por essa pergunta, a bela reportagem de capa desta edição, elaborada pelo editor de tecnologia, Marcos de Oliveira, e pelo repórter Yuri Vasconcelos, traça um extenso panorama tecnológico, mas também econômico, social e com pitadas históricas sobre a questão do álcool combustível no país. É leitura imperdível para termos uma boa noção do terreno em que pisamos quando contemplamos nas ruas invenções como os carros biocombustíveis ou flex fuel.

Da potência dos motores a uma desconfortável forma de impotência que por vezes, mais do que se supõe, acomete os homens: a reportagem que abre a seção de ciência a partir da página 38 trata da chamada disfunção erétil e revela, entre outras coisas, como ela pode ser o primeiro sinal de doenças coronarianas. Baseado nas pesquisas mais recentes sobre o tema, o relato do editor de ciência, Carlos Fioravanti, informa que no Brasil um em cada dois homens com mais de 40 anos está sujeito em grau mais ou menos intenso à situação que acham tão embaraçosa da chamada impotência sexual. Na verdade, quase metade desses casos não deveria causar grilo algum nem merecer maiores considerações de quem se vê em meio ao constrangimento da disfunção erétil quando queria que tudo funcionasse muito bem. Isso passa. O problema está na outra metade, a dos casos moderados ou mesmo graves, com os sinais de que alguma coisa não vai bem em outros pontos do organismo. Vale a pena conferir.

Às vezes, a humana potência da criação no campo da arte e da cultura se mantém para muito além do vigor físico da juventude que de certa maneira todos os homens e mulheres gostariam de preservar até o fim. E há algo de extremamente belo nessa força de criação quando o rosto já está marcado por muitas rugas e o corpo ereto já nem tão ereto se apresenta. De certa maneira é isso que em síntese, com suas múltiplas histórias, diz a entrevista feita por Penha Rocha com Nelson Pereira dos Santos, o criador de uma obra-prima do cinema brasileiro, Vidas secas, e de tantos outros belos filmes, que chegou à Academia Brasileira de Letras. Lembremos: ele é o primeiro cineasta na Casa de Machado de Assis. E isso significa um reconhecimento devido ao cinema brasileiro, que em muitos momentos nos fala da potência do povo brasileiro – apesar de tudo.

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