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Farmacologia

As trilhas do pó

Composto inibe efeito da cocaína e ajuda a elucidar sua ação no cérebro

MIGUEL BOYAYANExperimentos recentes feitos no Brasil e na Alemanha apontam uma possível aplicação para o composto sintético conhecido pela sigla SR142801. Desenvolvido pelo laboratório francês Sanofi-Aventis, a terceira maior indústria de medicamentos do mundo, o composto permaneceu quase dez anos sem uso médico definido. Agora testes com ratos e macacos sugerem que o SR142801 – que age sobre o sistema nervoso central e interrompe uma forma específica de comunicação entre células nervosas – pode ser eficaz no combate à agitação extrema e ao alerta exagerado causados pelo consumo da cocaína.

Na Universidade de Dusseldorf, Alemanha, a equipe de Joseph Huston tratou ratos com SR142801 antes de lhes dar uma injeção de cocaína. Os roedores que receberam o composto não caminhavam de um lado a outro sem objetivo específico nem realizavam movimentos repetitivos para inspecionar o ambiente como se houvesse alguma ameaça por perto, comportamento apresentado pelos animais que haviam recebido apenas cocaína, droga que 1 milhão de brasileiros com mais de 12 anos já provou, segundo estimativa do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Em testes semelhantes realizados com macacos, Carlos Tomaz, da Universidade de Brasília (UnB), obteve resultados parecidos. “No mundo todo buscam-se compostos que impeçam a chegada da cocaína ao sistema nervoso central ou bloqueiem sua ação no cérebro”, diz Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da Universidade de São Paulo.

Apesar de bloquear a agitação e o alerta provocados pelo uso da cocaína, o SR142801 provavelmente não é o tão esperado medicamento para combater a dependência, capaz de transformar bem-estar e euforia na busca compulsiva por mais e mais droga, capaz de desestruturar a vida do usuário e a de sua família. “Não creio que o SR142801 tenha potencial para tratar a dependência da cocaína, uma vez que essa molécula bloqueia apenas a movimentação excessiva, mas não interfere no mecanismo de recompensa associado ao consumo da droga”, afirma Huston, um dos coordenadores da pesquisa.

E é justamente esse mecanismo de recompensa que causa a dependência e torna o abandono da droga um desafio quase insuperável para boa parte dos usuários. Segundos depois de penetrar nas narinas, a cocaína dissolvida no sangue alcança o sistema nervoso central e aumenta os níveis de dopamina, mensageiro químico que ativa as células nervosas em regiões do cérebro associadas à sensação de prazer e bem-estar. É quando a pessoa passa a falar sem parar e fica com um ânimo que parece interminável. Mas, quase tão rápido quanto surgem, esses efeitos desaparecem minutos depois e dão lugar à ansiedade e à depressão, que levam a pessoa a procurar mais droga em busca de mais prazer.

Até pouco tempo atrás acreditava-se que os efeitos desse alcalóide extraído das folhas ovaladas da coca (Erythroxylum coca), arbusto comum na Bolívia, no Peru e no Equador, se devessem apenas a sua interferência no mecanismo de ação da dopamina, uma das moléculas naturalmente produzidas pelo organismo responsáveis pela comunicação entre células nervosas (neurônios). Aquele contentamento que surge com um aumento de salário há muito esperado é, em grande parte, efeito da descarga de dopamina no cérebro. A conquista dispara uma tempestade química no sistema nervoso central em que a percepção afetiva da informação está associada à liberação de dopamina, que carrega informação de uma célula nervosa a outra. Tanto a liberação da dopamina quanto sua recaptura ocorrem por meio de transportadores localizados na membrana dos neurônios que a produziram.

Mas ao chegar ao cérebro a cocaína causa um curto-circuito. Como uma comporta que barra um rio e faz as águas transbordarem, a cocaína impede a recuperação da dopamina liberada e provoca uma espécie de inundação cerebral. Enquanto dura o efeito da cocaína, é como se o cérebro sofresse uma sobrecarga de dopamina por receber uma boa notícia, seguida de outra e mais outra, até que o efeito da droga passe.

Labirinto
Na última década descobriu-se que a cocaína também afeta a ação de outros neurotransmissores, como a serotonina e a noradrenalina – mensageiros químicos da família das monoaminas, substâncias derivadas da amônia com um único átomo de nitrogênio em sua composição. Mais recentemente, no Instituto de Psicologia Fisiológica da Universidade de Dusseldorf, a equipe de Huston e da farmacologista brasileira Maria Angélica de Souza Silva demonstrou que a cocaína interfere também na ação de um quarto grupo de neurotransmissores: as neurocininas, de ação ainda pouco conhecida. Huston e Maria Angélica suspeitaram dessa interação quando encontraram determinado tipo de receptor de neurocininas em regiões envolvidas no processamento da cocaína no cérebro de ratos. “Até pouco tempo não se investigava a ação das neurocininas porque nem se imaginava que havia receptores para essas moléculas no cérebro humano”, diz Maria Angélica.

Ao saber que o Sanofi desenvolvera uma molécula que se liga a esses receptores de neurocinina, impedindo a ação do neurotransmissor, a equipe de Dusseldorf decidiu testá-la em seus roedores. Em uma série de experimentos Maria Angélica e Huston deram três doses diferentes de SR142801 a ratos, meia hora antes de os roedores receberem uma injeção de cocaína. Publicados na edição de setembro deste ano do European Journal of Neuroscience, os resultados mostram que o SR142801 eliminou a agitação excessiva associada ao consumo da coca, mas não alterou o bem-estar experimentado. Estava claro que, ao menos em roedores, a cocaína alterava também a ação das neurocininas. Faltava descobrir se o mesmo acontecia com macacos, animais evolutivamente mais próximos dos seres humanos.

Foi então que os neurocientistas Carlos Tomaz e Marilia Barros e o biólogo Eldon Mello Júnior, da UnB, repetiram esses experimentos com oito micos-estrela (Callithrix penicillata), um sagüi de 20 centímetros e tufos negros nas orelhas, natural do Cerrado. Novamente o SR142801 inibiu a agitação e o alerta causados pelo consumo da cocaína. Mas os pesquisadores da UnB verificaram algo inesperado. Quando deram aos micos-estrela outro composto conhecido como senktide, que deveria amplificar os efeitos da cocaína e deixar os sagüis ainda mais agitados, observaram que nada se alterou com os macacos, como descrevem na Peptides de setembro. Esse resultado inesperado indica, segundo Marilia, que a interação da cocaína com as neurocininas deve ser mais complexa do que se imaginava. Diante de efeitos tão variados, será difícil chegar a um medicamento capaz de combater com eficiência a dependência à cocaína.

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