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Carta da editora | 132

Neurônios bem usados

A vegetação de restinga que margeia a estrada que leva de Natal a Macaíba lembra um pouco, pelo menos em meus olhos baianos, a da Linha Verde, rodovia que dá acesso a alguns dos mais paradisíacos trechos do litoral nordestino, entre a praia do Forte, na Bahia, e Mangue Seco, em Sergipe. Mas, ao fazer o percurso citado naquela rodovia, na verdade estamos seguindo para dentro do continente, nos afastando das belas praias de Natal e chegando perto do rio Potengi, afluente do Jundiaí. Nada, no entanto, que deva preocupar excessivamente os jovens doutores e pós-doutores de qualquer parte do país que decidirem mergulhar nas indagações cruciais da neurociência de ponta que o Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN) promete desenvolver em terras potiguares e, ao mesmo tempo, queiram curtir o mar em Natal. Afinal, o IINN está a coisa de 20 a 25 quilômetros das praias de Natal. Num pulinho chega-se lá. Mas, a julgar pelo ritmo de trabalho do neurocientista Miguel Nicolelis, a cabeça à frente do projeto do IINN, difícil mesmo para os jovens cientistas em questão será encontrar muito tempo livre para as ondas de Natal.

Professor titular na Universidade Duke, onde comanda um laboratório com 1.100 metros quadrados, que propõe novidades nada consensuais no campo da ciência básica do cérebro, enquanto realiza avançados experimentos com camundongos e macacos, de olhos postos na construção de neuropróteses (braços robóticos, por exemplo) capazes de obedecer tão-somente às ordens cerebrais, Nicolelis mostra-se incansável. Um dia está em Durham, no outro em São Paulo, depois em Natal, e já segue para o Japão… Parece extenuante, mas tudo indica que ele gosta muito do que faz. E mais ainda de sua convicção de que é possível articular num país como o Brasil ciência de ponta com transformação social em comunidades carentes. O trabalho da equipe de Nicolelis, com o apoio decisivo de Sidarta Ribeiro, e sem esquecer Cláudio Mello, ganhou a capa de Pesquisa FAPESP por sua importância. Que certamente será reavaliada entre 23 e 25 de fevereiro no II Simpósio do IINN.

Estudos de comportamento, ou melhor, de mudança de comportamentos sociais, com freqüência trazem uma bela carga de informação sobre o trânsito das sociedades de um padrão arcaico, ou no mínimo estabelecido, para um outro que ninguém acreditava que algum dia ia vigorar. E quando essas mudanças ocorrem em relação a instituições que pareciam sólidas como a pedra mais alta do Pão de Açúcar, em geral imagina-se que a elas se seguirá uma espécie de dilúvio social, com a instauração do caos e de uma insuportável permissividade. Pois bem, não é nada disso que atestam estudos recentes sobre as famílias de pais homossexuais. O par de iguais, sejam homens ou mulheres, revela muito poucas diferenças em relação ao casal heterossexual no que tange à criação de filhos. Vale a pena conferir na reportagem de Carlos Haag.

Alguma dúvida sobre a nossa capacidade de ser bons e produtivos em algumas áreas que não samba e futebol? Um estudo em cienciometria mostra que desfrutamos um razoável prestígio internacional, digamos assim, em determinadas áreas científicas em que o país tem investido mais seriamente ao longo dos anos. Ou de décadas, em alguns casos. O critério que mediu isso mirou os artigos científicos de brasileiros ou com participação de brasileiros citados por outros autores entre 1994 e 2003. E aí vieram alguns resultados óbvios e outros surpreendentes. Um exemplo do primeiro caso: somos bons em cirurgias cardiovasculares. Do segundo: somos bons em física de partículas. Tudo está explicado na matéria Em que somos bons? Ah, e aproveitando o mote desta edição: somos bons em neurociência também.

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