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Carta da editora | 145

Revoluções: genômica, de idéias e comportamentos

MOGrandes exposições de divulgação científica podem ser altamente ilustrativas da extraordinária capacidade humana de fazer o pensado. Tome-se por exemplo a Revolução genômica que está desde o dia 29 de fevereiro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e lá permanecerá até 13 de julho: um neófito em montagens desse tipo de mostra sairia convencido de que seria impossível ela ficar pronta a tempo, ao visitar, apenas 2 ou 3 dias antes da data marcada para a inauguração, o belo prédio projetado por Niemeyer que a abriga, e cuja arquitetura original foi recuperada no tempo recorde de 60 dias. Entre sons irritantes produzidos por serras, serrotes, furadeiras e martelos, um mar impressionante de caixas de madeira de todos os tamanhos esvaziadas dos materiais que vieram dos Estados Unidos para com­por a exposição, operários por todo lado a trabalhar em pisos, paredes, instalações elétricas e montagens de equipamentos e peças, talvez nosso hipotético visitante balançasse cético a cabeça com um desanimado “não vai dar!”, em contraste absoluto com a certeza dos comandantes de toda essa azáfama, expressa num taxativo “é claro que vai dar”.

Deu tempo, sim. A exposição vinda do Museu de História Natural de Nova York, mas com bons acréscimos brasileiros, promovida pelo Instituto Sangari, com múltiplos apoios empresariais e institucionais, o da FAPESP inclusive, foi inaugurada na noite de 28 e aberta ao público em 29 de fevereiro (página 42). Pronta – ainda que os próprios organizadores explicassem que restavam algumas coisas por finalizar e outras para aperfeiçoar. O que não chega a ser um problema, já que exposições podem funcionar como um processo, de certa maneira – um processo de fazer pensar e produzir novas interrogações, mudar as perguntas, conforme observação do diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz. Aliás, é nesse propósito de produzir novas perguntas – e discussões – que Pesquisa Fapesp se junta aos promotores da exposição e começa a cuidar da programação de palestras e debates que integra Revolução genômica. Personagens importantes na construção contemporânea do conhecimento científico, brasileiros e estrangeiros, vão contribuir de março a julho para dar vitalidade ao debate de questões essenciais ao desenho presente e futuro das sociedades humanas, e que se desdobram em grande parte no âmbito da produção de ciência e tecnologia. Mas vamos enfim a algumas mais que merecidas palavras sobre esta edição. Primeiro, a reportagem de capa é para ler com muita atenção: um amplo levantamento sobre os vários ecossistemas brasileiros, da Floresta Amazônica à Caatinga e aos Pampas, que inexplicavelmente se manteve na sombra por quase 1 ano, deixa claro que até aqui o país consumiu 30% de sua vegetação natural, e a maior parte disso ocorreu nos últimos 50 anos, como mostra o editor de ciência, Ricardo Zorzetto. É muito? É pouco? O leitor terá dados suficientes para tirar suas próprias conclusões. Faz parte também do tema da capa a reportagem da editora de política, Claudia Izique, detalhando com precisão os sistemas que permitem monitorar o desmatamento da Amazônia, objeto de intensas polêmicas e celeumas políticas há coisa de 2 meses. Tudo isso a partir da página 20.

Outra reportagem de fôlego na revista foi produzida pelo editor de tecnologia, Marcos de Oliveira, e pelo editor especial Fabrício Marques sobre a expansão e o significado das incubadoras de empresas para a economia brasileira e para seu potencial inovativo. Alguns exemplos concretos de empresas que em diferentes partes do país saíram das incubadoras para se afirmar no mundo dos negócios dão um sabor especial ao relato dos dois jornalistas.

Imperdíveis são também a entrevista com Alexandre Kalache, defendendo uma consistente política para o bem-envelhecer, feita pelo editor chefe, Neldson Marcolin, e, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a reportagem do editor de humanidades, Carlos Haag, sobre um estudo que mostra que mulheres que vivem sozinhas por opção, muito longe do velho mito da solteirona, podem ser felizes e bem-amadas. Por fim, vale conferir na seção de cartas a impressionante polêmica provocada pela capa do mês passado.

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